segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

As babéis de Ses (Parte VIII)


Por Germano Xavier

"o amor não é um problema"


havia começado seu discurso absoluto:
"matei o amor, matei o amor, matei o amor!"

estava só.

sua voz era uma linha própria, liberta, independente.
o tom, azul, de adeus, invadia a turva curva nua
das mais ou das menos críticas teorias sentimentais.

deixaria encoberto o céu com uma dada acusação interna:
"matei o amor!"

estava só.

a jovem seguiu sua verdade, crendo nas objetivas
funções das palavras, tão inacessíveis!
em seu coração, ela havia matado o amor.
havia, como a requerer algum engenho da sorte.

no fundo, sabia ela que o amor é uma edificação
trabalhada no acaso, sem normas, sem enunciados,
realizada na história das humanidades e dos nascimentos.
e que transpor o arco das exceções da dor e da mágoa,
da amargura, da agrura e da rispidez,
seria apenas uma fórmula barata de mentir a si mesma.

estava só.
e naquela sua solidão sem código, a dinâmica
dos pensamentos lhe cortava o pulso.
distanciou-se da antiga fala, repensou:
"matarei o amor, matarei o amor, matarei o amor!"

estava só.
e continuava.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Turkey-166524025

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Mirada

*

Por Germano Xavier



De tu ojo soy la pupila


eu não sei, exatamente,
em que converto
estes olhares imaginativos
que por ti deponho.

incrível é toda a poesia que temos
para descrever um olhar que nunca se cruzou,
que apenas se sonha.

penso eu no olhar de Janus à baleia,
no olhar da baleia a Janus,
como num filme de Bela Tarr.

algo assim é só o que consigo
e, como sempre,
minha memória me apunhala.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Solo-luz-en-la-mirada-152462929

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Circulares

*

Por Germano Xavier


#1

Era um microconto, no máximo, a história de amor dos dois. Nunca passou de alguns encontros muito desencontrados em constantes reencontros para novos desafios de voar. De tentar ser. De viver o ser. De. Nos primeiros dias eram leves e afoitos, atrevidamente livres. Insurgentes. Mais pela própria insurgência do que pelo que quer que fosse que sentiam um pelo outro. E não sentiam a mesma coisa. Nem de longe. Para cada um a experiência tinha cor, sabor, valor e significado distintos. Tudo era vivido em dimensões tão distintas e distantes quanto o inverno e o verão. Ele vivia o momento, ela vivia ele.


#2

E sobre aquela tua eterna pergunta, "porque você insiste tanto em...", nós dois sabemos que você sabe a resposta tanto quanto eu. Tudo tem menos a ver com nós dois do que com toda a minha história, minhas experiências traumáticas e com tudo o mais aquilo que sabemos. Então, apenas ignore as farpas, as agressões verbais sem sentido, as provocações e afins. Atribua tudo a isso. Àquela teia tão extensa e confusa quanto a minha complexidade. Quanto filtrar tudo, você sabe o que ficará. Aquilo que sabemos bem. Ou sabemos nada. Por isso mesmo, nosso. Só mistério. Acima do bem e do mal. Poesia.


#3

E quanto aos arranhões, é a minha natureza, em suma. Sou cacto. Tu sabes. Não sou cacto de nascença, mas de transmutação, de assimilação de. E tu já viste cacto espalhar doçura por aí? Cacto é solidão, é agressivo, é áspero. Cacto é um insulto ambulante. Sem carisma e sem delicadeza. Não é enfeite para olhos entediados, nem é chamariz de afabilidades. Cacto é resistência em ação contínua. Ele só tem uma missão; sobreviver. Impor-se sobre tudo, sobre todos. E para isso, não importa o quanto tenha de se afastar das flores (ele geralmente nasce longe delas. Num lugar tão inóspito que nenhuma delas duraria um dia sequer). Ser cacto é destino e herança. Porque ele sabe (em sua natureza solitária, defensiva e beligerante) que não será escolhido para embelezar o jardim de ninguém. Ele sabe que será, a priori, rejeitado por sua falta de beleza e atrativos, ou por sua reputação de antissocial (o que é um equívoco, ele apenas defende-se). O cacto é um guerreiro solitário, em suma. Ele sabe que quando o procuram, quase sempre é por algum motivo egoísta. Quando o assediam é porque querem eliminá-lo ou usá-lo para alimentar o gado (alimentar o gado, entenda bem. O gado!). Então, não é à toa que ele desenvolve espinhos e os usa, quando preciso, para defender-se das mãos perversas que o perseguem. Cacto não é flor que se cheire. Cacto é flor (e o cheira apenas quem ele queira e deixe e só alguém capaz de sentir o seu cheiro. Raros seres entendedores de cactos).


#4

Os outros, os "normais", não entendem porque existem cactos e nem a função deles no mundo. Eles não compreendem, coitados, que o valor do cacto está nele mesmo, em sua alta capacidade de ser cacto, de ser forte, de ser. A sua função está no símbolo de resistência, de sobrevivência, apesar de tudo e de todos. Apesar de seu deserto particular, de sua aparência assustadora, de sua aspereza defensiva, de sua ausência de graça (a sua única graça é ser mesmo ele), tem o seu brilho. Ele é um ser único. O cacto é, antes de tudo, cacto. E não precisa ser nada além disso.


#5

PS. E o mais triste de tudo, meu bem, o mais triste das tristezas, é que num inferno particular não cabem dois.


#6

no primeiro dia do ano fez calor.
fiz silêncio para ouvir a voz de Deus,
só ouvi o silêncio me ouvir.
deduzi que há algo errado com meus ouvidos
ou com a voz de Deus.

saí para correr
(correr é cortar o tempo com o corpo
e ficar inteiro no final) e havia pipas no céu
e meninos no final delas.
li um livro assustador da mulher que extrapola a humanidade
(Clarice não clareia. dinamita a calma).
recebi um afago na alma com toque familiar.
ouvi que ela estava bem e senti algo que voa.
escrevi um poema e guardei para o passado.
li um estonteante "poema-de-vida-inteira" e gostei de estar vivo.
desejei que o ano passe depressa
e me leve para mais perto... de mim.
do caminho que me leva mesmo quando não caminho.
fechei os olhos. e vi o sempre.


#7

Saudade de você. Está tudo bem, responda quando puder, preciso de você. Tu ainda precisas de mim em tua vida?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Filastrocca-158456473

sábado, 7 de janeiro de 2017

As babéis de Ses (Parte VII)


Por Germano Xavier


"a matéria do acaso é a memória do futuro"


Caminhos para o Roncador


uma coisa lhe digo:
o futuro é uma época ancestral.
por isso, chamemos o acaso pelo nome!

no interior vulgar dos infernos,
na memória vaga dos absurdos,
no concerto máximo sem música,
quando atingida a palavra comum das sortes,
o amor restará feito abstração,
nas cantinelas e nos raciocínios.

só amor só,

à esquerda das tempestuosas febres dos ocasos...
a bombordo, a lâmina de madeira do velho marujo
esticará o horizonte de sua juventude tomada.

enxergará, então, o velho bucaneiro,
que o amor é a besta do mar, o monstro rotundo
que explode nas águas após rasos voos.

sentirá, pois, o marinheiro,
que as águas de lastro de sua embarcação
estão contaminadas pelo amor que se entrincheirou
pelas sendas de todas as retóricas oceânicas.

o azul, no agora,
terá o requinte da seleta minoria
que teimará em singrar a estrada espumosa
e branca.

chamemos pelo nome a direção dos portos!
chamemos pelo nome a atenção das paixões!
chamemos pelo nome a glória dos quereres!
chamemos pelo nome o medo das obras!
chamemos pelo nome o monumento aos náufragos,
o campo esquálido dos temores, a desordem dos desejos
e os ninhos dos desafetos.

chamemos pelo nome, ó insuspeito progresso,
toda a fama de nossas mortes acidentais!


* Imagem; http://tab.uol.com.br/roubo-arte/

domingo, 1 de janeiro de 2017

A terceira perna

*

Germano Xavier


"Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui."
(Clarice Lispector, em A Paixão segundo GH)


a perna
que perdi,
quando conquistei a dor,
fez-me depressa viver o engasgo
do mesmo, do nada, do susto.

sem coragem,
tive de me erguer e sequer pensei
na organização de todo o esforço.
a liberdade era aterradora.

arrumei o passo, fiz-me estável
e na marra me fui somente. ausente,
silente, voltei para onde me perdi.

cães ladravam na rua vazia - estrangeiros
seríamos. um viver da carne, do muco, da seiva.
o corpo enquanto ideia.

rumei remos.
fui. pastei. ovelhas inúteis me mentiram.
achei saídas. nunca antes me soube.

prisioneiro, o vão. a perna que perdi.
meu maior medo de medo maior.
a perna que me insistia ano após ano
na brutal desorganização.
a perna-sem-caminho.

foi uma criação a perna que ganhei
depois que a perdi, ainda sendo igual a dor,
o tempo e idêntico o mal do que veloz me fez acaso.

a perna
que ganhei
foi minha garantia de ilusão.


* Imagem: http://tajemniceziemi.blogspot.com.br/search/label/Niezwykli%20Ludzie