sábado, 5 de maio de 2018

As lápides musguentas de Helder Herik



Por Germano Xavier


Estava eu ali andando por Garanhuns, Pernambuco, quando desço a antiga Rua dos Cajueiros (creio que é assim que se fala) a pé, em busca de um sebo que me indicaram. Avistado o local, fui buquinando desde já. 10 reais a peça, em geral. Literatura estrangeira, contos, literatura brasileira, poesia... Bati os olhos num livrinho vermelho: sobre a lápide: o musgo, de Helder Herik, professor e poeta ligado à turma da confraria u-Carbureto, da qual descendem também os escritores Mário Rodrigues, Nivaldo Tenório e outros. Fininho, poucas páginas, maior parte de poemas esguios, feito poema-faca, de se enfiar mesmo. Terceiro livro do sujeito, lançado em 2010. Aí fui lendo. Pancadinhas. Livro ferino, sim. Dose certa. O Helder é um bom poeta. (O que é um bom poeta?) O cabra começa burilando a infância, dita-cuja-de-nós-quase-todos-artesãos-das-palavras. Burila. Infância grudenta, imunda, lesmenta, farpante, cortadeira, ossuda, curvada, úmida, embutida em multiplicações, chuviscada nas poeiras pueris do Homem. A gente meio que se recolhe, depois de tanto a gente se encontrar nos versos do poeta. Depois o Helder reforma as coisas da casa dele com o verniz do novo olhar. Destapeta tudo, tempera, conserva, arma, põe fogo, cobre mesa, assenta, mija e caga, ara e dorme. Aí na terceira parte do livro, o poeta vira parteiro e faz brotar um broto, um novelo de luz. Na quarta e última fagulha, Helder lapida um músculo novo batedor dentro do corpo, salga o mar, aquenta o sangue, desenterra, semeia, coça, fratura, parte, mina, até tudo virar alma, ou melhor, musgo. Porque o musgo permanece, mesmo depois dos finais. Feito o sol. Essa coisa tão.


* Imagem: http://www.helderherik.com.br/2011/01/lapide-e-musgo-ou-poesia-escatologica_21.html

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