sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Amina Shah e a Literatura Árabe

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Por Germano Xavier


“Nunca fuja de um leão”. Esta foi a frase que o príncipe Ádil inscreveu no chão de seu gabinete após conseguir vencer o medo e se casar com sua amada, a princesa Peri-Zade. Quando mais novo, Ádil fora colocado à prova por seu próprio pai, o rei Azad. Como primeiro substituto ao trono, Ádil precisaria provar sua bravura vencendo um feroz leão que habitava uma sombria caverna em seu reino.

A história intitulada “Príncipe Ádil e os leões” é apenas uma dentre as incontáveis narrativas populares que vagueiam milenarmente pelo mundo árabe através de suas sucessivas gerações de habitantes. A riqueza desses contos, míticos por natureza e fundadores de toda uma aura contingencial, é inconteste e, até hoje, séculos e séculos depois de seus afloramentos, ainda cativa leitores civilizações afora.

Desde os tempos mais antigos, os árabes estiveram interessados na arte de contar histórias. Alguns de seus contos têm um tom moral, outros são puramente voltados para o entretenimento. Alguns deles tiveram sua origem nos acampamentos dos povos nômades, à volta de fogueiras no deserto, antes que os árabes passassem a viver em cidades (SHAH, 1997, p.11).

A tradição de contar histórias definitivamente não é uma prática recente para os povos da Arábia, designação que, à altura do surgimento de tais narrativas, denominava o território que compreendia a totalidade dos locais onde se usava o árabe como língua padrão. A maior parte dessas lendárias contações surgiu no interior dos seios familiares e através de seus membros foram se perpetuando ad infinitum. Assim, tais narrativas acabaram por se tornar parte da vida de todos, logo ganhando ares de sagrado.

Na sexta-feira, que equivale para o muçulmano àquilo que é o domingo para os ocidentais, as pessoas frequentemente tem poucos afazeres depois de terem rezado nas mesquitas ou visitado a área comercial, transbordando de cores, de seus próprios bairros. Ocorre também que elas estejam, possivelmente, muito longe de casa, viajando por regiões desérticas, onde têm de criar o seu próprio entretenimento (SHAH, 1997, p.12).

A mitologia árabe é, desde a mais tenra ancestralidade, construída com base na força da voz das pessoas mais simples e guardada como uma de suas maiores heranças. Legado do mundo, as narrativas repletas de causos envolvendo príncipes e princesas, jins, reis e rainhas, tesouros escondidos e muitas referências religiosas, consagram no imaginário coletivo uma cor própria de se pintar palavras e, ao mesmo tempo, convidam ao encantamento e à beleza.

A literatura clássica árabe possui das melhores histórias que os homens conhecem, mas os contos narrados à luz do fogo, ou à luz das estrelas, ou à luz das modernas lâmpadas elétricas nos cafés de hoje, do Cairo a Cartum, da Andaluzia a Najd, todos eles mostram a marca do pensamento construtivo de muitas gerações. Esse costume de narrar histórias é uma arte viva, transmitida initerruptamente dos avôs a seus netos, que chega diretamente até os nossos próprios dias; desde o tempo de Saladin e de Harun Al Raschid, de Bagdá, até o momento em que você está lendo estas palavras (SHAH, 1997, p.14-15).


Referência: 
SHAH, Amina. Contos da Arábia: O camponês, o Rei e o Sheik. São Paulo: Kadyc Editorial, 1997.

* Imagem: http://natalialehmann.blogspot.com.br/2013/05/literatura-arabe.html

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