terça-feira, 23 de agosto de 2016

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XIII)

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Olá, querido amigo!

Há quanto tempo não nos falamos por aqui. Só em intenções, em tentativas paralelas, em pequenos toques de palavras, com poesia, com recados breves.

Mas por aqui é diferente. A gente fala cara a cara e neste momento estou a ver a tua, espantada, mas serena, dizendo: “A Clara acordou para nós”, com um certo ar de reprovação mas ao mesmo tempo contemporizador. Não vou justificar-me. Tu farás isso, muito melhor do que eu, só tu percebes por que motivo as palavras se transformam em vazio algumas vezes na nossa vida; deixemo-las falar como bem entendem, calando-se, como parece ter sido o caso dos últimos meses.

Tenho estado em contemplação do mundo, numa expectativa permanente. Agora, no exato momento, ouvindo Tom Jobim cantar Insensatez com uma banda que não consegui identificar. E lembrei-me de Chopin (Op. 28 nº 4), https://www.youtube.com/watch?v=ef-4Bv5Ng0w, por ter lido algo a respeito da proximidade do tema do Tom com esta sinfonia, nem sei se é o termo. A verdade é que fui ouvi-la e confirmei a semelhança. Sublime descoberta que partilho contigo, meu amigo, é a primeira vez que me lembro de escrever uma carta com um link para o youtube, sinal dos tempos…

Começaram os Jogos Olímpicos no Rio, e a nossa atenção está agora voltada também para os nossos irmãos brasileiros e para o Rio de Janeiro, para o mundo, para esse encontro supremo de culturas e de atletas. A imprensa vai contando pequenas anedotas de bastidores, pormenores sobre alojamento, acolhimento; recordo uma citação engraçada e suscetível de gerar polémica também, que ouvi a respeito da imprensa há anos atrás: a imprensa é como o bikini, mostra muita coisa, mas não mostra o essencial. Partindo talvez do princípio que o que se oculta é sempre essencial, quem sabe se pelo simples facto de ser omitido.

Aqui em Portugal há um assunto recorrente que são os fogos de verão, causados por mão criminosa ou acidentais, ninguém sabe, poucas vezes se chega a uma conclusão. Neste momento há incêndios de grandes proporções em várias zonas de Portugal, inclusive no Funchal, que atingiram famílias de forma dramática. Fala-se em empresas privadas que combatem os fogos e que teriam interesse em que estes se propagassem. Parece uma coisa monstruosa, mas não impossível. Em todo o caso, à falta de provas, não passam de meras teorias, especulações, mais ou menos fundamentadas.

Tenho que ter cuidado para não repetir histórias, assuntos, comentários, talvez esteja a entrar naquela idade interessante em que se repetem relatos sem cessar e devolvemos aos amigos as histórias que aprendemos com eles. Se são amigos da mesma idade a coisa funciona, pois eles também já não se lembram de ter contado… mas se forem mais novos, mais atentos, mais alerta e bastante críticos, a coisa descamba… envelhecer ou amadurecer proporciona-nos experiências curiosas. Noutro dia uma amiga querida dizia-me que eu não tinha rugas. Mas eu reagi: eu tenho, sim, não aquelas rugas como sulcos do arado na terra, não aquelas crateras de terra seca, fendas de terramoto, mas as rugas que eu tenho, embora discretas, são visíveis a olho nu. Acontece que a vista também já não as alcança no espelho, por isso, mais rugas e menos golpe de vista, equivale a juventude eterna! Não é sábia a natureza? E aqui entre nós, mesmo que as veja, elas são a última das minhas preocupações, não por falta de coqueteria mas porque considero que tenho preocupações mais prementes. E se as rugas dos outros não me incomodam, porque as minhas haveriam de afastar alguém? Irrita-me um bocado esse culto exacerbado da juventude que faz com a pessoa se sinta quase culpada por não parecer ter 20 anos aos 50. Porque deveria parecê-lo? A pessoa deve viver bem com a idade que tem: cuidar da saúde física e mental não significa recusa em aceitar que o tempo deixa marcas. Pode parecer um lugar comum, mas creio que o envelhecimento é uma questão que preocupa a todos, de forma mais concreta a partir de certa idade, e por uma questão social e cultural, as mulheres. Creio que a natureza nos castiga mais e a sociedade exige mais de nós em termos físicos. A mulher tem um curto período da sua vida para procriar, esse período é muito mais prolongado no homem. A gravidez provoca alterações de peso bruscas e variações hormonais. Talvez esteja a ser injusta ou insensível com os homens, no geral, mas nunca ouvi nenhum queixar-se dos efeitos da andropausa, se calhar apenas não o fazem à minha frente… hoje o meu discurso raia o feminismo mais primário e “déplacé”, mas não é por mal, nem por quaisquer radicalismos, apenas me sinto à vontade contigo para não insistir no socialmente correto o tempo todo. É cansativo ser assim… eu não quero ser assim contigo, nem tu querias, certamente.

A situação política no Brasil que referes na tua última carta também é inquietante. Nós preocupamo-nos aqui, e eu prefiro comparar a tua versão das coisas com as várias versões oficiais, o cidadão sente na pele todas as indignações, desrespeitos e manipulações e é importante conhecer o impacto da instabilidade na vida das pessoas reais, como tu, que és meu amigo e cuja palavra me chega sempre fresca e cheia de emoção, de verdade, sem contenções, espontânea como tu és.

O mundo já não é um lugar seguro; será que já o foi alguma vez? A violência grassa em qualquer ponto do globo, as religiões apostam na ritualização em detrimento da essência, as doutrinas são substituídas por práticas coreografadas, …eu sou uma ignorante nestas coisas, chamo coreografia à liturgia e já fui repreendida por isso. Mas tu entendes, não é? Eu preciso de ver e sentir para além do óbvio, nesta matéria e no geral.

Agora o meu pensamento voou para um fait-divers, que te vai deliciar: no outro dia encontrei uma menina numa festa familiar, uma menina da Guiné Bissau com quem eu ensaiava uns passos de dança. Dançámos funaná e ficámos super transpiradas, ela, eu e outros meninos com quem brincámos um par de horas, uma vez que eu, ingenuamente, cheguei à festa à hora marcada, coisa quase inédita entre latinos e africanos, e tínhamos que entreter-nos com alguma coisa…a menina era um doce, tinha uns olhos negros enormes e bonitos. Teria os seus cinco anos, pelo que percebi. (Sabes que eu tenho um monte de aventuras com crianças, histórias anedóticas, deve ser o meu lado Peter Pan). Então nós dançámos e desenhámos, no telemóvel, eu fazendo retratos e ela e os amiguinhos posando. Depois, do nada, a menina atirou: “Tu és branca ou és preta?”. Eu ri-me e nem respondi diretamente. Acho que apenas devolvi a pergunta, perguntei se isso para ela era importante. Aquela criança viu claramente para além da cor da pele, ela viu cultura, atitudes, reações e forma de estar; ela abarcou, com o seu olhar ainda puro de criança, tudo o que compõe um ser humano. Depois, quando eu fazia o seu retrato, ela pediu baixinho: quero que me faças um cabelo como o teu… aquele pedido entristeceu-me, disse-lhe que ela tinha um cabelo lindíssimo e um penteado muito bem feito, trancinhas ornadas com missangas, coisa trabalhosa, feita pela mãe. Mas eu percebi que a identidade e a consciência de si é uma coisa que se forma cedo, esta menina precisa de ter padrões positivos dentro da sua comunidade de origem, de perceber a beleza como algo muito mais abrangente, muito mais vasto, uma coisa feita de muitas cores e em constante mutação. Eu sei que estás a sentir o mesmo que eu em relação a isto, mas para entenderes melhor mando-te o retrato da menina. Da Jessica.

Agora eu vou ter que te abandonar, só no papel, como sabes, já antecipando a tua carta que virá um dia, quando eu menos esperar, envolta em nuvens e em sabores sempre diferentes. Com laços e fitas e papel brilhante. Uma coisa de encher a alma. Eu acabo por saber sempre de ti, querido Viana, porque te adivinho e te farejo, pelo que expões e pelo que omites, e até pela tua discrição e pelo teu cansaço. Mas é muito bom quando as notícias chegam por tua iniciativa e eu sinto que também precisas destas conversas para te reciclares.

Aqui está um calor insuportável. Eu não aprecio calor em excesso, ando permanentemente com um leque na carteira, bebo água sem parar.

Mando um abraço feito beijo para esse reino distante de onde virás um dia para me visitar, e visitar esta terra onde te sentirás em casa. Tens já aqui muitos amigos: Cristina, Sant’Ana e o Dudo lá em Luanda também, que adora ler-te. E mesa posta, passeios preparados e conversas intermináveis a germinar. Fico à espera de ti e das tuas palavras que abrem portas.

Clara
Lisboa, 10 de Agosto de 2016.


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Clara,

Só em breves levantes, o encontro feroz. Assim, feito. Quisto. Bem. O encontro que marca a vontade de estar em paz, em pensamento, em corrida de se ir ao abraço amigo, força leve. A nossa. Mas que agora estamos, em novo confronto de ideias. Tardamos, mas estamos. Sempre. Assim que é. Não se faz preciso nenhuma justificativa mais aprofundada. O mergulho é o de outrora. Tua voz daí combinando marés com minhas sensações transatlânticas. Esse silêncio de dias, de meses até, bem necessário se faz, quando assim é o rumar, o remar. Da vida, das ondas de nossa amizade.

Pois bem, Clara, nos mesmos instantes em que você é levada via youtube a pensar e refletir sobre as coisas e o mundo, os Jogos Olímpicos do Rio – 2016 começam e, zás!, já terminam. No fundo, a mesma conjuntura de sempre. As grandes potências esportivas no topo. O Brasil, com todas as suas dificuldades, tentando ser menos pior que nos últimos Jogos. Não se pode ser exemplo em esporte sem dar incentivo a atletas e sem estruturação básica para treinos etc. O Brasil é uma piada nesse sentido. Não sei como é aí em Portugal... Bilhões de dólares jogados fora, pelo ralo, muito destes corrompidos e desviados, é certo, e no fim... no fim... no fim, nada. O desastre é colorido e tem as cores da exclusão. Pagaremos as contas, paulatinamente. Já estamos pagando. Ou melhor, há bastante tempo já pagamos.

Você citando assim essas notícias tristes sobre incêndios, Clara, e eu me recordo com tristeza das muitas vezes que a minha Chapada Diamantina ardeu em chamas e nada, absolutamente nada mesmo, era feito. Por lá também havia tais comentários, de que haveria uma “indústria ou máquina” interessada nesse fogo. De doer o coração da gente, não? Pensar que é bem possível que assim se dê...

Eu sinto raiva, por muita coisa. Coisas erradas. Coisas que precisamos enfrentar e até engolir. O mundo é cão. Estou sempre em estado de fúria. Minhas mãos estão sempre querendo esmagar alguém (não qualquer um!), esmagar o mundo, o tempo, a História, a vida toda. Colocar tudo num imenso liquidificador, bater e devolver à inexistência eterna. Mas não posso. Há leis - mas não justiça! Deveria ser legal, por exemplo, matar em legítima defesa (mesmo dez ou vinte anos depois) a quem destruiu a sua vida - defesa que, antes, no momento do crime, não seria possível, por falta de capacidade. Destruiu? Sim, ao menos a parte inocente, a que era capaz de acreditar. E voar. Mas a raiva não vai embora quando é por justa motivação. A raiva é a herança maldita dos injustiçados, dos esmagados e enterrados vivos - mas vivem? Talvez a raiva seja a única prova de que vivem. Vivemos. A raiva é boa e ruim. É espada de dois gumes que só corta de um lado. Do nosso. Quando se está cego de raiva é difícil ver à nossa frente apenas os culpados. A raiva é uma arma sem mira de precisão. É bala perdida. Veneno espalhado a esmo nos vãos incertos do mundo. E eu, radicalmente contra toda forma de violência e vingança... Mas há dias, há dias de enfrentar monstros antigos. E resistir.

Temos dias difíceis. Nossos olhos quase sempre não amenizam a dor da realidade. A não ser nestes casos aí, contados por ti. Engraçado, dias atrás falava eu sobre a idade com uma pessoa. A idade que, acreditando em Quintanares, só vem de duas formas: ou idade de vida ou idade de morte. Melhor encarar assim, não? Estamos vivos e isso deveria bastar. Entrar em parafuso por conta de uma ou duas rugas no rosto não seria nada interessante, penso eu.

Ufas e ufas, Clara! Política aqui, de mal a pior, cobras e corvos, animalesca luta pelo poder, vampiros e sanguessugas... cada qual com seus próprios interesses, que não os do povo mais necessitado. Preços aumentando, dinheiro faltando. Receita de um desastre? Não sei. Prefiro acreditar que tudo isso passará e que novos ventos pousem no Brasil. E sim, eu te entendo, eu te entendo... tudo agora é panaceia, tudo ou quase. Que fazer, que fazer?

E a Jessiquinha, heim?!, tão linda e de tão nos preocupar já. Que mal o mundo faz com a cabeça de um serzinho desses? Quem terá sido o mal, o que terá sido o mal? Necessário investigar. A negritude é expansão, roupagem de força. Humanidade inteira numa cor. Precisa ser entendida desde pequena, precisa ser vivida. Quem terá sido o mal, o que terá sido o mal? Ah, Jessiquinha, continue a bailar com teus cabelos livres de qualquer maldade de ideias! Você vai ver que és bem mais quando! Vai, Jessiquinha! Vá! Seja! Seja!

Dizer, por fim, que a vida está sempre a nos apresentar bonitezas, e que precisamos sempre estar com a alma aberta diante desses acontecimentos. Apesar de todas as dificuldades, a vida me tem sido muito bonita nos últimos dias. Tenho me sentido mais vivo. Desejo isso a você também, Clara, uma vida sempre mais vida. Abraços em todos aí e até bem breve!

Caruaru dos bonecos de barro de Vitalino, 23 de agosto de 2016.


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Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens: Luísa Fresta e Deviantart.com.

Um comentário:

Anônimo disse...

Para variar me delicio ao ler vcs. Essa intimidade transoceanica chega aqui, a quem está mais longe ainda. Nao parem. Sejam mais frequentes.
Camilla Tebet