sábado, 7 de abril de 2018

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XV)



Viana, meu bom amigo,

Passaram-se dez longos meses desde a tua última missiva, à qual não consegui responder senão em pensamento. Esgotei há muito todas as desculpas airosas, convenientes ou aceitáveis mas sei que não preciso de nenhuma delas para continuar esta conversa interminável, um pouco ao estilo de Sherazade. Nesta idade (minha) as longas pausas tornam-se perigosas porque corro o risco de repetir-me até à exaustão, e tu ainda não atingiste aquela bonita idade em que também já te vais esquecendo e por isso não voltarás a rir das minhas velhas piadas nem a aturar as minhas lamúrias recorrentes. Se o fizeres será por pura elegância, por seres um cavalheiro, coisa que nunca te agradecerei o suficiente.

Depois de tanto tempo sem conversa consistente não posso pôr-te a par de tudo e sei que também não é o que te interessa. Mas lembrei-me de te falar de uma coisa que me tem perseguido: será lícito separar o autor da sua obra, quando fazemos uma apreciação crítica sobre alguém que foi um modelo de outras épocas, que ainda é? Hoje li, sobre um autor de referência, um texto muito bem escrito por um historiador que revelava algumas posições polémicas do escritor sobre a escravatura. Descontextualizadas, certo, mas ainda assim bastante explícitas. O próprio historiador autor do ensaio refere que aquele seria “o pensamento dominante da época”; é sempre um risco julgar alguém a posteriori, mas a verdade é que a História é feita assim e nós também seremos olhados por um prisma desconhecido, nós, sociedades atuais, pois conhecemos o passado mas não o futuro nem os modelos sociais que irão impor-se.

Voltando a este autor e comparando-o com outras figuras da época, quando muitos já se opunham à escravatura e pediam incessantemente o seu fim, pode parecer, e parece, que ele assumia plenamente e conscientemente a sua posição, provavelmente moldado também pelos países em que viveu. Esta faceta mais obscura, digamos, não se observa nos seus escritos literários, nota bem, mas apenas em artigos de opinião. Ainda assim levanta-se a questão que te coloquei há pouco: podemos ou não separar o autor da sua obra?

Lembrei-me de outros casos, senão semelhantes, comparáveis. Não falo de escravatura mas de outros temas igualmente polémicos que hoje, HOJE… reúnem consenso, pelo menos quando os autores falam em público. Muitos têm uma prática contrária ao que expressam. Penso em Vargas Llosa e em Jorge Luís Borges, dois autores magistrais, grandiosos, mas em relação aos quais não me revejo forçosamente no plano político, nas suas afiliações filosófico-partidárias ou em muitas posições assumidas ao longo da vida. Penso num romancista francês conotado com o nazismo, colaboracionista ativo, cujo nome não recordo, executado depois da segunda Grande Guerra. A sua obra, até onde a li, não revelava essas opções mas a sua prática sim, claramente. E penso inevitavelmente naquele belíssimo poema do Silvio Rodríguez (Playa Girón, um dos temas cubanos que marcaram a minha adolescência), em cuja letra ele se questiona, nos questiona sobre o assunto…

“(…)Compañeros de historia,
Tomando en cuenta lo implacable
Que debe ser la verdad, quisiera preguntar
Me urge tanto,
¿Qué debiera decir, qué fronteras debo respetar?
Si alguien roba comida
Y después da la vida, ¿qué hacer?
¿Hasta dónde debemos practicar las verdades?
¿Hasta donde sabemos?
Que escriban, pues, la historia, su historia
Los hombres del Playa Girón(…)”

Como Silvio continuo estupefacta procurando encontrar um sentido para os comportamentos dos homens, saber quem são os bons e os maus neste caos em que nos encontramos. Mas por outro lado o facto de encontrar “faltas graves” nos meus ídolos torna-os mais humanos, falíveis, mais perto de mim também. Há valores imutáveis mas outros sofrem rápidas transformações. Cresci acreditando que a honra e a palavra dada, por exemplo, eram coisas sagradas, hoje pouco valor têm em muitas sociedades. Não eram os únicos princípios a reter, claro, mas a responsabilidade e o dever eram glorificados. Hoje as liberdades individuais são sacralizadas, ainda bem, são valores que também subscrevo, mas vejo com espanto que muitos não conseguem conciliar esses conceitos com os outros que referi. Apenas em uma ou duas gerações as coisas mudam… então respondamos à questão do Silvio: “Se alguém rouba comida e depois dá a vida (por algo, por alguém), que fazer?” Eu continuo a não saber. Diz-me tu, meu amigo, se souberes.

Quanto aos escritores de hoje, conheço alguns que não são exemplo de ética, ignoro como serão olhados no futuro. Não estou a falar de opiniões mas das suas vivências. Pessoas que dissertam maravilhosamente sobre a condição humana mas que podem, como empresários ou representantes de algum tipo de elite, financeira, política, etc., ter relações muito questionáveis com os seus trabalhadores, confinando-os a uma posição de quase escravatura, ignorando os seus direitos mais elementares. Veremos como o futuro nos trata, os trata… veremos, sentados em algum cadeirão aveludado em frente de uma qualquer estrela e com um banquinho para os pés.

Mas não quero chatear-te com estas coisas existenciais, qualquer dia nem respondes às minhas cartas... agora para aligeirar um pouco, se eu te disser “O Gugu vai à escola” ainda pensas que ando a escrever uma história infantil. E porque não? Mas eu explico: volta e meia vou ao tradutor do Google fazer umas experiências e ver como anda a evolução daquilo. E tem evoluído. Bastante. Está longe de ser um instrumento exemplar mas nota-se que há um esforço grande para aperfeiçoá-lo, dá para ficar com uma ideia do texto talvez em 80% dos casos. Então hoje eu experimentei usar um texto de umas 150 palavras, que já tinha traduzido manualmente e tive a surpresa de ver que a tradução estava quase humanizada, com subtilezas até, embora ainda com muitos erros. De repente ocorre-me esta expressão: “O Google foi à escola!”, o que passou para “O Gugu vai à escola!”. Se um dia vires este título num conto infantil saberás quem é a autora e o que está na génese disto tudo. Mas aposto que com um nome destes, quase de certeza que já existe…

Agora sobre a minha última carta reparei que algumas coisas andaram no bom sentido, prova de que mesmo sem fazermos planos quando remamos para um lado acabamos por ir nessa direção ainda que sem grande velocidade. Mas é importante manter o rumo, não perder o fio à meada, para percebermos que a pessoa que somos hoje tem alguma relação com quem fomos há um ano. Eu falei-te na altura num caderninho vermelho, estofado, onde tinha muitas notas e desenhos. Pois bem, imagina que andou perdido uns meses e depois reapareceu dentro de uma camisola velha. Há escassas semanas…garanto-te que festejei!

Sobre os caminhos da fé crismei-me no ano passado, a 25 de Junho, sei que não é um fim em si mas um começo, atribulado e cheio de tropeços, mas é um começo. Na altura em que te escrevi estava a receber aulas para chegar a esse sacramento. Valeu a pena? Espero que venha a fazer sentido, um pouco mais cada dia. E também te tinha confidenciado que andava metida nuns projetos com a Armanda, escrevendo contos sobre os quadros dela, e com a Santana, poesia sobre fotografias. Hoje são dois filhotes já cá fora, o livro com a Armanda saiu em Maio último e o de poesia, que implica também indiretamente a minha amiga Ysabelle, pintora, está cá fora desde o princípio deste mês. Não tínhamos planos, não tínhamos um horizonte temporal, mas tínhamos um desejo de concretizar e fomos aproveitando as oportunidades. Temos esses pequenos sonhos realizados e a vontade de sonhar outros, de levá-los mais longe. E um livro é sempre um princípio de alguma coisa, pois só faz verdadeiramente sentido quando chega a quem o deseja ler. Foram duas parcerias que me animaram e me realizaram muito, sei que contigo também tenho um caminho e quero saborear cada curva da estrada e cada grão de poeira. Não sou de pressas, gosto apenas de fazer bem e mesmo isso nem sempre se consegue.

E tu que me falavas na tua última carta de inadaptação, da maneira como nós conseguimos sobreviver embora nada o fizesse prever, porque seriamos dessas espécies destinadas à extinção. Mas aqui estamos, Viana, haverá com certeza um propósito nisso, somos bichos atípicos mas alguma coisa nos faz esbracejar e mantermo-nos à tona. Talvez seja a palavra, escrever para viver e vice-versa. E também discutíamos a questão do Minimalismo, aquele conceito de consumir só o necessário, de reduzir, no fundo de evitar ao máximo o desperdício não é? Tu explicavas-me na altura que tem a ver com sustentabilidade. Eu confesso que me parece uma ideia ótima, subscrevo completamente. Creio que herdei esses princípios dos meus pais e avós, numa época em que não se falava nos termos em que se fala agora, apenas se exaltava a importância da poupança e de economizar, de uma certa frugalidade, as irmãs mais novas herdavam roupas das mais velhas, os livros passavam de mão em mão, a água de lavar legumes servia para regar as plantas e o frango assado era depois usado para desfiar. As cascas de fruta eram adubo, enfim, coisas simples e práticas. Fazes bem em pensar que podemos mudar alguma coisa no metro quadrado em que vivemos, se todos pensarmos assim chegaremos com certeza a algum lado melhor. Acho que os mais jovens estão a voltar a ter essa consciência, essa onda do Minimalismo, do reciclar, reutilizar e reduzir. A minha geração foi muito perdulária e habituou-se ao desperdício mas creio que estamos no bom caminho. Ingenuidade minha?

Meu querido amigo, fico, como sempre, ansiosa por ler-te. Sobre o Brasil, que também nos tem preocupado ultimamente, sobre ti e tudo o que vais observando. Sobre este mundo estranho em que muitos pensam que dar uma arma a cada cidadão nos protege. Nada como uma pessoa medrosa e armada para se transformar num assassino em potencial. Mas isso é outra história.

Um abraço fraterno, muitas saudades, e vontade de ter essa conversa pessoalmente. A promessa e o convite já vêm de longe.

Clara.

Lisboa, 24 de Março de 2018



********






Clara, antes de qualquer coisa, uma história da vida real que acho que vais gostar:

(...)

Daqui, sigo feliz por suas conquistas. Por todas elas. E me desculpe por te falar tudo isso. Hoje talvez levem Lula à prisão. A política nacional está em polvorosa. O Brasil clama. O coração do povo insiste, batendo, teimoso que é. Para mim, é um dia mais triste que alegre. Mas, sigamos...

Com estima e saudade, Viana.

Pernambuco, Brasil, 07 de abril de 2008.



********



Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.

* Imagens: Cristina Seixas

Nenhum comentário: