domingo, 10 de julho de 2016

O Equador das Coisas no I Encontro Baiano de Mídia Livre

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Por Germano Xavier


E ao completar 9 anos de existência na internet, descubro que o meu blog, O EQUADOR DAS COISAS, que se transformaria também, em 2012, num jornal de literatura impresso (amor demais à Carol Piva, Karime Limon, Iara Fernandes e toda a turma que veio depois), foi selecionado pela Rede de Mídia Livre Bahia 1798, "que busca mapear e compartilhar conteúdos que fortalecem a liberdade de expressão, para participar do Primeiro Encontro Baiano de Mídia Livre, nos dias 10 a 13 de agosto. O evento, que acontecerá na Biblioteca Central dos Barris (Salvador-BA) e tem o apoio da Fundação Pedro Calmon, é uma iniciativa da rede de mídia livre Bahia 1798. O objetivo é promover um intercâmbio entre midialivristas, comunicadores populares ou comunitários, estudantes, fotógrafos, produtores audiovisuais, pesquisadores e produtores culturais do estado da Bahia, com agentes da mídia independente já consolidados em outros estados do país. A programação inclui ações de formação em quatro painéis e dez oficinas, com convidados de todas as regiões brasileiras. A inscrição é gratuita, disponível no site www.bahia1798.org". Represento o Território de Identidade da Chapada Diamantina, na categorização Produção Cultural: Literatura. Uma boniteza de dar gosto bom na alma e um presentaço de aniversário a este espaço que construo com todas as minhas forças, ao lado de meus leitores. Um salve, Pedro Caribé! Sigamos, bucaneiros!







* Imagens: www.bahia1798.org

domingo, 3 de julho de 2016

Um grito quando o carro passa

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Por Germano Xavier


"Eu não tenho enredo de vida? sou inopinadamente fragmentária. 
Sou aos poucos. Minha história é viver. E não tenho medo do fracasso. 
Que o fracasso me aniquile, quero a glória de cair."
(Clarice Lispector, em Água Viva)


estou tentando encontrar o meu caminho. o caminho parece sempre ser feito de bifurcações. bifurcações nos levam, nos erram. acertar é difícil. o erro é latente. já vivi grandes crises assim antes. crises nos potenciam a ser mais ou a ser menos. com o passar do tempo elas se tornam mais poderosas, tanto no nível de sofrimento quanto no nível de transformação. transformar-se é um caminho. longo. real. imaginário. qualquer observação mais aprofundada não valeria a pena se não provocasse tormentas antes da calmaria. hoje sou o mar. o mar me leva. suas águas imensas. não estou na cidade. estou no porto das minhas ilusões. um grito quando o carro passa abrindo a manhã. tarde e noite. alvorada voraz. minhas mãos fechadas. meus olhos densos. penso que estou melhor do que há um tempo, tempo em que me encontrava de fato estagnado. agora talvez eu esteja on the road. eu devia estar feliz. não apenas porque tomei atitudes perante minha vida, em prol de minha felicidade, mas porque estou me pondo em movimento. penso cada vez mais na importância do movimento. o movimento é o caminho. nem sempre ele é de ascensão. porém, às vezes, é preciso descer ao fundo do poço para encontrar a mola propulsora que nos ajudará a subir. obrigado, esperança, por não me abandonar na minha dura tarefa de existir e ser quem sou. obrigado, dor, por não me facilitar o empreendimento dos meus passos, fazendo-me autor de esforços constantes. obrigado, vida, por me abrir suas portas da percepção, mesmo nas escuridões avulsas. obrigado, angústia, por me fazer revelações diárias. obrigado, amor, por ser. obrigado, poesia, pela palavra interna e inteira. estou tentando desencontrar o meu caminho. o caminho parece sempre ser composto de retas, intermináveis. paralelas nos içam, nos direcionam. errar é fácil. o acerto é distante. viver grandes crises é preciso. crises nos delimitam a ser mais ou a ser menos. com o passar do tempo elas nos tornam mais fracos e fortes. afundar-se é um caminho. curto. ficcional. sanguíneo. psíquico. qualquer observação menos sutil não valeria a pena se não provocasse paz antes da ebulição. hoje sou o céu. o azul me recorta. suas nuvens macias. não estou na zona portuária de mim. estou no monte das minhas verdades. um grito quando o carro passa fechando a madrugada. tarde e noite e dia e tarde e noite e dia. alvorada morta. minhas mãos abertas, meus punhos cerrados. meus olhos densos emergem um verde rural de minha ancestralidade provinciana. penso que estou pior do que há um tempo, tempo em que me encontrava de fato em movimento. para onde eu ia? agora talvez eu esteja fora da estrada. eu devia estar triste. eu devia não estar. eu devia parar de pensar em estar. penso cada vez mais na importância do nada, do sossego. a inércia é o caminho. nem sempre ele é o das perdas. podemos vencer a qualquer instante. a guerra é contínua. porém, às vezes, é preciso subir ao topo da pirâmide invisível para de lá deixar rolar vertigem abaixo a roda mortal que inventamos cotidianamente.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/The-rain-10524459

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Nós, professores de espantos

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Por Germano Xavier


em especial, para os professores Dr. Elcy Luiz da Cruz e Dra. Graça Graúna

Somos professores porque tememos esta grande abertura para o nada que nos assola cotidianamente. Somos professores porque o conhecimento é uma arma letal contra todos os desmandos da humanidade. Somos professores porque há pobreza, há fome, há desamor, há desigualdade. Somos professores porque existe intolerância e porque existe preconceito. Somos professores porque a palavra é alimento. Somos professores porque quase ninguém fará nada por nós. Somos professores porque a poesia de um olhar ou de um sorriso explica tudo. Somos professores porque pretendemos transformar pessoas e aproximar sonhos. Somos professores porque não desistimos do amanhã. Somos professores porque a educação é a água viva. Somos professores porque esperamos ver chegar a primavera do saber para todos. Somos professores porque há um esquema venenoso e fraudulento que dificulta nossas ações. Somos professores porque somos menos se não formos. Somos professores porque é preciso causar espantos. Somos professores porque o mundo é um moinho e suas pás nos cortam. Somos professores porque as horas passam e o trem pode sempre descarrilar. Somos professores porque toda estrada é bifurcada. Somos professores porque somos a contramão da engrenagem do mal. Somos professores porque possuímos coragem. Somos professores porque panfletamos a justiça dentro e fora de nossas salas de aula. Somos professores porque manifestamos insatisfação pelo que nos oprime. Somos professores porque o livro é o livre-arbítrio. Somos professores porque a arte amolece corações petrificados. Somos professores porque a história não é a que sempre nos contam. Somos professores porque estamos abandonados às margens de nós mesmos. Somos professores porque um dia todas as máscaras cairão. Somos professores porque o ódio não vencerá. Somos professores porque há muita coisa por criar. Somos professores porque dentro de nós uma alma pulsa. Somos professores porque ser livre é um bem universal. Somos professores porque lutamos contra qualquer forma de repressão. Somos professores porque precisamos ser professores. Somos professores porque não gostamos de nos calar. Somos professores porque a vida é uma escola. Somos professores porque não desejamos a escuridão a ninguém. Somos professores porque preferimos o clarão!


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Velvet-Crime-519138024

domingo, 5 de junho de 2016

A impávida vespa dançante

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Por Germano Xavier

para Muhammad Ali, in memoriam



no ringue,
Cassius Clay 
tornou a dança possível.


* Imagem: Google

Sobre modelos de análise do discurso (um fichamento)

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Por Germano Xavier


SOBRE MODELOS DE ANÁLISE DO DISCURSO

SWALES, J. M. Sobre modelos de análise do discurso. In: BIASI-RODRIGUES, B.; ARAÚJO, J. C.; SOUSA, S. C. T. (orgs.). Gêneros textuais e comunidades discursivas: um diálogo com John Swales. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009, p. 33-47.


REFLEXÕES SOBRE MODELOS ESTRUTURAIS

“Apesar da potencial importância de modelos estruturais como demonstrações do que a análise do discurso pode produzir e elucidar em um nível acima da sentença e do enunciado, a reflexão meta-analítica séria sobre seus usos e papéis é rara na literatura de linguística aplicada ou de inglês como segunda língua (ISL) (p.35).”

“Os modelos também tendem a ficar desconfortáveis entre aqueles que adotam abordagens processuais à escrita, entre os que privilegiam a expressão individual e a criatividade e entre os que acreditam que modelos são inerentemente conservadores e restritivos, diminuindo, portanto, as oportunidades que alunos e professores têm de desconstruir os sistemas hierárquicos de que fazem parte (PENNYCOOK, 1997) (p.36).”

“É como se a simplicidade tornasse os modelos memoráveis, e isso por sua vez tornasse possível seu uso, sua citação e seu ensino (em algum sentido a ser discutido) (p.37).”

“Talvez da mesma forma que os compositores aparentemente só conseguem escrever um único concerto para violino, os analistas do discurso só possam produzir um modelo de sucesso (p.38).”


UM CASO-TESTE

“Agora parece que, afinal, a qualidade de ser bom como adequação aos dados globais pode não ser um critério de definição necessário nem suficiente para modelos estruturais úteis do ponto de vista pedagógico ou prático em nosso campo (p.41).”


REVISITANDO AS INTRODUÇÕES DE ARTIGOS DE PESQUISA

“O modelo CARS (create-a-research-space), de 1990, tem sido comparativamente bem-sucedido, em termos tanto descritivos quanto pedagógicos (ou pelo menos é aquilo em que ingenuamente acredito), por ser relativamente simples, funcional, apoiado em corpora, sui generis para o gênero a que se aplica e por, pelo menos no estágio inicial, oferecer um esquema que até o momento não estava amplamente disponível (p.41).”

“Suponho que poderíamos agora construir um modelo alternativo para dar conta desse novo tipo de dados, um modelo que poderia se chamar OARO, ou Open a Research Option [abrir uma opção de pesquisa] (p.42).”

“Esse modelo alternativo capta um mundo da pesquisa mais gentil e suave, em que há pouca competição por espaços de pesquisa, mas onde pode haver competição por leitores (...) (p.42).”

“Seriam elas (as disparidades entre os quatro modelos apontados no texto) determinadas por uma tradição cultural hereditária, pelo ethos sociopolítico, pela formação acadêmica, tamanho da comunidade discursiva ou maturidade do campo nacional, e em que proporção e combinação? (p.44).”


OBSERVAÇÕES CONCLUSIVAS

“Neste trabalho, apresentei alguns argumentos para que se vejam os modelos retóricos e estruturais como metáforas potencialmente reveladoras dos arranjos discursivos que operam como hipóteses testáveis e rejeitáveis para o planejamento comunicativo por parte de escritores, leitores, ouvintes e falantes (p.44).”

“Uma óbvia razão para se fazer isso é uma apreensão como os assim chamados “formulaicos” e uma preocupação com o modo pelo qual a análise descritiva pode se tornar um controle normativo, como quando meus alunos de pós-graduação em linguística me dizem que escrevem seus resumos “de acordo como o manual” (p.44-45).”

“Se, como parte do despertamento de sua consciência retórica e metalinguística, todos os participantes de nossas classes hoje são analistas do discurso, então, para esses estudantes de tempo parcial, é melhor criticar e modificar modelos mais simples do que aprender e aplicar modelos sofisticados (p. 46).”


Imagem: http://www.revistabula.com/1236-etica-livro-13-mandamentos/

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Nada muito sobre filmes (Parte XXVI)

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Por Germano Xavier


TUBARÃO

Ando vendo e/ou revendo os filmes dirigidos por Steven Spielberg, sujeito acostumado a críticas as mais díspares possíveis dentro do ramo cinematográfico. TUBARÃO (1975) foi o seu primeiro grande sucesso. Eu tinha parcas recordações sobre o filme até então, por isso a (re)visão. Decerto que a mecânica do tempo é impiedosa para com a fomentação e dissipação de espantos relacionados ao olhares que apresentamos diante de determinadas matérias, mas é bem fácil entender o motivo de tanto alvoroço à época de seu lançamento. Muita publicidade e, sem dúvida, uma produção muito bem definida. Gravado em alto-mar, o filme tem seu espaço. Há quem veja relações com Moby Dick e com o estilo de filmagem de Hitchcock. Vale aquela teimosa espiadela. Sigamos!


UM CORPO QUE CAI

Alfred HItchcock: sinônimo de filmaço. Puro, certeiro, na veia. Vertigo, vertigem. Doses cavalares de bom cinema. Eis UM CORPO QUE CAI (1958), misturança de suspense, drama, romance e surrealismo acompanhada por uma trilha sonora saborosíssima que não permite que o filme desça do salto em nenhum instante. Um clássico em Technicolor, perturbador e frio. Assim mesmo, um filme adjetivoso. Cinema para amadores de cinema. Filosófico, repugnante, assombrosamente lindo. Havia tempo que não tinha uma experiência cinematográfica tão contundente. Recomendo a todos os mortais!


PARIS, TEXAS

PARIS, TEXAS (1984), de Wim Wenders, acaba de entrar para a minha lista dos melhores de todos os tempos (esta coisa de lista é muito complicada, não é mesmo?). Cabem várias interpretações sobre a belíssima e quase que hipnótica produção. Enxerguei até Kaspar Hauser no protagonista Travis, personagem outsider que ao voltar de uma longa diáspora pessoal, tenta uma nova entrada e inserção na sociedade (lar/convívio com os mais próximos). Iconoclasta, de narrativas ao mesmo tempo abertas e fechadas, a película é um bloco integral de convencimentos. Valeria a pena só pela guitarra plangente do polêmico Ry Cooder em diversas cenas. Um filme para mais de um olhar, bucaneiros. Recomendo a todos os mortais!


SINDICATO DE LADRÕES

Em tempos de massivas delações "premiadas", traições dantescas e falcatruas homéricas que atordoam a todos, nada melhor que poder assistir a um filme que trata com assombrosa maestria da perfídia. SINDICATO DE LADRÕES (1954), dirigido por Elia Kazan, é uma película que não pode deixar de ser vista. Num jogo de empurra-empurra criminoso, o protagonista Terry Malloy resolve se vingar de um influente mafioso das docas de sua cidade utilizando-se da palavra-verdade em um julgamento. A coragem de Malloy faz eclodir uma voz-viva no interior dos silêncios e dos medos dos trabalhadores locais, acostumados aos mandos e desmandos de um esquema corrupto e injusto de trabalho liderado pelo supracitado gângster. Mais um com o Marlon Brando para a minha contabilidade. Simplesmente imperdível. Recomendo a todos os mortais!


TRANSPATAGÔNIA

O documentário TRANSPATAGÔNIA (2014) é o registro de uma fantástica aventura vivida pelo brasileiro Guilherme Cavallari, que pedalou por cerca de seis meses completamente imerso na região da Patagônia, ali entre o Chile e a Argentina. No auge de completar seus cinquenta anos de idade, Cavallari decidiu explorar mais a si mesmo e partiu para uma viagem incrível. Desses filmes que podem mudar algumas nossas velhas e enferrujadas concepções sobre a vida. Bastou uma bicicleta e alguns equipamentos... O relato imagético de Cavallari nos presenteia com lindas paisagens e reflexões pontuais sobre o essencial vital. O filme acaba renovando fôlegos. Quiçá, quiçá, uma guinada dessas. Um dia. Quiçá. O documentário também virou livro, intitulado de TRANSPATAGÔNIA - PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS. Recomendo a todos os mortais!


* Imagem: http://www.thasos.hu/blog/409-a-mozi

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Algumas ideias para ensinar novos gêneros a partir de velhos gêneros (um fichamento)

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Por Germano Xavier



DEVITT, Amy; BASTIAN, Heather. Algumas ideias para ensinar novos gêneros a partir de velhos gêneros. In: DIONISIO, Angela Paiva; CAVALCANTI, Larissa de Pinho (orgs.). Gêneros na linguística e na literatura. Recife – PE: Editora Universitária UFPE e Pipa Comunicação, 2015, p.97-123.


“Com o crescente número de pesquisas, se torna claro que professores podem melhorar o desenvolvimento do conhecimento de gêneros dos alunos se melhor entenderem como os estudantes usam seu conhecimento prévio sobre gêneros (p.98).”


TEORIA E PESQUISA SOBRE CONHECIMENTOS PRÉVIOS DE GÊNEROS

“Devitt (2004) argumenta em seu livro Writing Genres que a aula de escrita no primeiro período deveria ser vista como um lugar onde os estudantes adquirem consciência de gêneros – uma compreensão consciente de como tipos de escrita modelam as respostas do escritor a situações retóricas (p.100).”

“Devitt também argumenta que, no processo de ensinar a consciência de gêneros, também devemos ensinar gêneros específicos que sirvam como fundação para aprender novos gêneros (p.100)”.

“Esses gêneros, Devitt alega, se tornam os tipos de escrita que os alunos têm em seus repertórios posteriormente, gêneros antecedentes potenciais para futuras situações de escrita (p.101)”.

“Quando escrevem novos gêneros, os indivíduos o fazem em um contexto de rica intergenericidade, um contexto de gêneros que existe cultural, comunitária e individualmente (p.101)”.

“Uma forma de o conhecimento prévio afetar nosso aprendizado são os traços daqueles gêneros conhecidos aparecerem em novos textos, uma vez que os escritores partem de gêneros conhecidos para escrever os novos (p.102)”.

“Outros estudos também têm reportado que características de gêneros já conhecidos aparecem em textos que tentam novos gêneros, talvez revelando andaimes necessários, mas impactando potencialmente o aprendizado bem-sucedido (p.103)”.

“O conhecimento prévio sobre gêneros pode, claramente, interferir com o desenvolvimento de novas práticas de gênero pelos estudantes. Melanie Kill (2004, p.12) argumenta que estudantes “sabem que podem se fazer legíveis em certos gêneros, e então arriscam discordância ao incorporar aqueles gêneros, mesmo quando não são, de outro modo, necessários (p.104)”.

“De outro modo, o que os aprendizes trazem [sic] para um novo gênero – em termos de experiência, exposição, prática ou conhecimento prévio – é importante, embora não possamos predizer se essas experiências anteriores serão positivas ou negativas (p.105)”.

“Talvez alguns dos usos menos bem sucedidos de conhecimento prévio, descrito nos estudos acima, derivem das dificuldades de transferências entre domínios. As pesquisas sobre conhecimento prévio sugerem, todavia, que os estudantes irão tentar usar o conhecimento prévio em novas situações (p.106)”.


MÉTODOS

“Como parte desse estudo, procuramos descobrir o conhecimento prévio dos estudantes de três formas primárias: perguntando quais gêneros já conheciam, pedindo que descrevessem o que sabiam sobre os gêneros mais familiares e examinando seus textos para traços de conhecimento sobre gêneros (p.107)”.


QUAIS GÊNEROS OS ESTUDANTES RELATARAM SE LEMBRAR DO ENSINO MÉDIO

“Os estudantes relataram um total de quarenta e dois tipos de escrita aprendidos no Ensino Médio nas aulas de língua inglesa. A Figura 1 expõe as respostas mais comuns a essa pergunta. Outras respostas (aquelas mencionadas apenas uma vez) incluem trabalhos dissertativos, análise literária, escrita temporizada, contos, estórias, memórias especiais, artigos, cartas, vinhetas, ensaios detalhistas, ensaios, haiku, bilhetes, portfólio de desempenho acadêmico, resumos, textos argumentativos, redações, sumários, ensaios analíticos, trabalhos narrativos, trabalhos descritivos, currículos e instruções (p.110)”.

“Ter experiência com um gênero não significa saber tudo sobre ele, ou mesmo ser fluente no gênero. Aprender é sempre parcial, fragmentado, individualizado e mutável (p.113)”.


COMO OS ALUNOS DESCREVERAM OS GÊNEROS QUE CONHECIAM

“O que os estudantes relataram ter lembrado sobre os gêneros que escreveram no Ensino Médio, na primeira pesquisa é, de fato, parcial, concentrado no conteúdo e no formato em detrimento do propósito retórico e da audiência. A maioria dos estudantes, com poucas as exceções, não relatou a compreensão de seus gêneros acadêmicos em termos de situações retóricas (p.113)”.


O QUE FAZER COM ESSA INFORMAÇÃO EM SALA DE AULA

“Se quisermos fazer uso do conhecimento prévio dos alunos em nosso ensino, precisamos fazer uso do conhecimento que os alunos podem facilmente ter, não o conhecimento que eles fingem ter para nosso benefício (p.117)”.

“Podemos estar aptos a ensinar a percepção da influência do conhecimento prévio para que os alunos comecem a perceber quando estão recorrendo a estratégias ou gêneros já conhecidos. Podemos estar aptos a ensinar algumas estratégias de transferência, as quais poderão ser usadas independentemente do conhecimento prévio que tentem transferir: por exemplo, notar a situação retórica subjacente ao novo gênero e salientar o que é similar e o que é diferente do que já se encontrou antes (p.120)”.

“Na melhor das hipóteses, poderíamos adicionar ao nosso currículo de gêneros a compreensão consciente do conhecimento prévio para acrescentar à compreensão consciente de gêneros. Consciência não é tudo, mas pode ser tudo que temos (p.120)”.


* Imagem: http://www.editoraforum.com.br/ef/index.php/category/noticias/page/3/

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Gêneros e Tipos de Discurso: considerações psicológicas e ontogenéticas (um fichamento)

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Por Germano Xavier


SCHNEUWLY, Bernard. Gêneros e tipos de discurso: considerações psicológicas e ontogenéticas. In:____. DOLZ, Joaquim. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas – SP: Mercado de Letras, 2004, p.19-34.


“A moda das tipologias cedeu lugar à dos gêneros. Entretanto, permanece a necessidade fundamental de toda atividade de pesquisa sobre textos e discursos (e, sem dúvida, de toda prática científica): a de classificar.” (p.19)


O GÊNERO É UM INSTRUMENTO

“[...] “o gênero é um instrumento.” (p.23)

“Os instrumentos encontram-se entre o indivíduo que age e o objeto sobre o qual ou a situação na qual ele age: eles determinam seu comportamento, guiam-no, afinam e diferenciam sua percepção da situação n qual ele é levado a agir.” (p.23)

“Um instrumento media uma atividade, dá-lhe uma certa forma, mas esse mesmo instrumento representa também essa atividade, materializa-a.” (p.24)

“O instrumento, para se tornar mediador, para se tornar transformador da atividade, precisa ser apropriado pelo sujeito.” (p.24)

“[...] a tripolaridade da atividade tem como corolário necessário a bipolaridade do instrumento.” (p.25)

“A escolha do gênero se faz em função da definição dos parâmetros da situação que guiam a ação. Há, pois, aqui uma relação entre meio-fim, que é a estrutura de base da atividade mediada. Portanto, nossa tese inicial – o gênero é um instrumento enquadra-se bem na concepção bakhtiniana.” (p.27)

“A ação discursiva é, portanto, ao menos parcialmente, prefigurada pelos meios. O conhecimento e a concepção da realidade estão parcialmente contidos nos meios para agir sobre ela. Tínhamos dito que o instrumento é um meio de conhecimento: eis a concretização dessa tese.” (p.28)


GÊNEROS E DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM

“Os gêneros e, mais particularmente, os gêneros primários são o nível real com o qual a criança é confrontada nas múltiplas práticas de linguagem.” (p.30)

“Os gêneros se complexificam e tornam-se instrumentos de construções novas, mais complexas”. (p.30)

“[...] os gêneros secundários não são espontâneos. Seu desenvolvimento e sua apropriação implicam um outro tipo de intervenção nos processos de desenvolvimento, diferente do necessário para o desenvolvimento dos gêneros primários.” (p. 32)

“Essa ideia de construir a partir do que já existe e de transformá-lo radicalmente pode ser precisada da seguinte maneira: a construção de um gênero secundário implica dispor de instrumentos já complexos.” (p.34)

“Os gêneros primários são os instrumentos de criação dos gêneros secundários.” (p.35)

“Pode-se mesmo dizer que a introdução do novo sistema, a aparição dos gêneros secundários na criança, não é o ponto de chegada, mas o ponto de partida de um longo processo de reestruturação que, a seu fim, vai produzir uma revolução nas operações de linguagem.” (p.36)


TIPOS E GÊNEROS

“[...] psicologicamente, um tipo de texto é o resultado de uma ou de várias operações de linguagem efetuadas no curso do processo de produção.” (p.36)

“Os tipos de textos – ou, psicologicamente falando, as escolhas discursivas que se operam em níveis diversos do funcionamento psicológico de produção – seriam, portanto, construções ontogenéticas necessárias à autonomização dos diversos tipos de funcionamento.” (p.37)


* Imagem: https://prezi.com/zley3ka5jfpn/night-quotes/

TEMER não é preciso

*

Por Germano Xavier


em apoio à democracia,
um parafraseio pessoano contra o retrocesso no Brasil


lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é preciso lutar é preciso TEMER não é 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* Imagem: http://outraspalavras.net/alceucastilho/2016/03/20/golpe-do-pato-a-face-absurda-da-cena-politica-brasileira/

domingo, 1 de maio de 2016

BR 104

*

Por Germano Xavier


"Violência é ele ficar assustado porque a gente é
 negro ou porque a gente chega assim nervoso a
 ponto de bala cuspindo gritando que ele passe a
 carteira e passe o relógio enquanto as bocas buzinam
 desesperadas."

(Marcelino Freire, em Contos Negreiros)


é hollywood?
é bollywood?
é perseguição e sem dublê.
reta larga pela frente, o destino.
mas qual o destino da manhã?

qual o destino do medo?
esperança tem destino?

acelerador no topo, a mão rodada.
cabo enrolado. vulto no retrovisor. 
uma perna toca a minha 
perna. 

calor humano, frio metal.

cano curto. gelidez larga. no pescoço.
acostamento, freio, mente em transe.

desço. o motor apaga.
penso em tanta coisa.
não penso nada.

revista. olhos perdidos. 
cadê o fogo do motor?
cadê o fogo da vida?

a BR não desliga.

o frio é traidor. a porra que não liga.
a merda de estar sozinho.
a merda de estar ali.
a merda.

LIGA A MOTO, PORRA! LIGA A MOTO!
TEM ALARME? TEM SEGREDO?
LIGA A PORRA DA MOTO, CARÁI!
PASSA A MOCHILA! CELULAR, PORRA!
QUER MORRER, PORRA? QUER MORRER?
VAZA, VAZA! CORRE PRO MATO, CARÁI!

seixos saltados. capim no calçado.
a respiração é um tormento.
o blusão cor do chão.

eles vrummmmmm

eu caminho. acostado.
sem caminho. atordoado. 
eu penso 
em tanta coisa. 

eu caminho. 
eu, caminho.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Road-To-125276471

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Linguagem em (dis)curso

*

Por Germano Xavier


Hoje, no amplo campo do saber linguístico, percebe-se facilmente, em se tratando dos estudos apurados e de base analítica no tocante aos gêneros textuais, que a ideia que se tem de propósito comunicativo consegue, em si, admitir um sem número de olhares sobre as práticas de um determinado gênero dentro de uma respectiva comunidade de usuários interligados.

Por observar a maleabilidade com que tal instrumento, o propósito comunicativo, subverte inadvertidamente a “ordem natural das coisas”, é que Biasi-Rodrigues e Bezerra (2012) enumeram questionamentos efusivos no interior de tal imbróglio, a procura de estruturar uma arqueologia de saberes acerca do senso/status do gênero ao final das análises, sem com isso perder o interesse para com a conceituação do propósito comunicativo enquanto critério nato de/para análise de gêneros.

Partindo dos pressupostos de base teórica atrelada ao estudo de gêneros consagrada pela denominada Escola Britânica, também conhecida como Abordagem Sociorretórica, BIASI-RODRIGUES e BEZERRA (2012) tratam no artigo intitulado de Propósito Comunicativo em Análise de Gêneros do debate em torno do próprio conceito de propósito comunicativo, atualmente percebido como sendo um dos pontos nevrálgicos do estudo linguístico mais específico dos gêneros em todo o mundo.

Para tanto, os pesquisadores supracitados centraram esforços em abordagens e perspectivas acerca das conceituações atreladas ao propósito comunicativo que foram exaustivamente investigados e aprimorados por estudiosos do porte de Swales (1990, 2001, 2004), e também de Askehave (2001), este em comunhão com Swales.

Tais estudos, proposições e perspectivas, imiscuídas à ideia de que gêneros realizam propósitos e/ou funcionam como “repropósitos”, como observado na própria reavaliação do tema feita por Askehave e Swales (2001), entre tantos outros fatores, terminaram por permitir que fossem elaboradas diversas discussões acerca do uso do todo processual do propósito comunicativo dentro do espectro funcional de uma dada análise de gêneros fundamentada aprioristicamente no que é de ambição social, o que o configura de tal modo a ser matéria basal das engrenagens analíticas, indo de encontro, portanto, à ideia que o taxa meramente como um critério direto e imediato no que concerne à identificação dos gêneros.

Com base nestas nuances e prismas de elaborativos, os autores partem da conceituação do termo propósito comunicativo, passeiam pela relação dele com a estrutura esquemática do gênero e pela visão que se tem de critério para identificação, provando sua inquestionável complexidade objetivo-funcional.

Os articulistas defendem, por fim, a relevante participação do propósito comunicativo como elemento para se estudar os gêneros em si e suas particularidades, sem fechar aí a sua largueza como utensílio da língua, ao que cabe a nós, estudantes e interessados na referida questão, cuidar para não rotulá-los, os gêneros, apenas com base em definições e conceitos parcos, a citar o de propósito ou até mesmo o de intenção autoral, que não abarcam tudo quando o assunto é a relação entre propósito comunicativo e a análise de gêneros.


REFERÊNCIA

BIASI-RODRIGUES, BERNADETE; BEZERRA, Benedito Gomes. Propósito comunicativo em análise de gênero. Linguagem em (dis)curso, Tubarão, SC, V.12, n.1, p.231-249, jan/abr. 2012.

Imagem: Google

sábado, 16 de abril de 2016

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XII)

*


Viana, olá!

Tenho vontade de escrever-te só com símbolos, por medo de repetir-me e tornar-me demasiado previsível. Ou revelar o diálogo que nunca tivemos, como uma mera transcrição desse instante único de cumplicidade que podem ter duas pessoas numa conversa informal. Conversar é tão bom, Viana, e é cada vez mais difícil encontrar uma pessoa que goste de falar.

Tentemos essa partilha, queres? Somos nós dois num dancing lisboeta à beira-rio tomando um copo numa mesa perto do palco. Os músicos ainda estão a preparar os instrumentos, o dj põe no ar uma música bem ritmada, incendiária.

C- Viana…? Viste aquele casal na pista, o rapaz pequenino agarrado a uma mulher alta e vistosa?

V- Na verdade nem reparei, Clara. Mas porquê? Estava atento à música, tentando perceber a letra.

(Risos)

C- Letra? Que letra? Não vás por aí… deixa-te só contagiar pelo ritmo. A música com letra vem depois. Digo, o rapaz pequenino, a quarentona bonita… tenho uma teoria sobre o assunto, que pode dar uma história.

(Franzes o sobrolho e eu sinto-me constrangida).

V- Clara, não sejas mázinha... nem pareces tu. A gente não sabe nada da vida das pessoas. Neste momento alguém pode estar a olhar-nos com a mesma curiosidade… malsã.

C- Não é preconceito, é pós-conceito. Só acho que é um engate com fins, digamos, lucrativos. O rapazinho quer “se dar bem” e procura uma mulher que o possa “peitar”, como diz uma amiga minha muito atenta. Isto funciona nos dois sentidos; há aqui mulheres à procura do mesmo, junto de respeitáveis senhores… ingénuos, claro está.

V- Achas que é isso, Clara? Mas, e se for… que direito temos nós de julgar as escolhas de pessoas adultas, escolhas consensuais…? Não entro nesse jogo, por mais curiosidade que o assunto me suscite.

C- Pois, Viana, talvez tenhas razão. Se for o que penso trata-se de um negócio em que todos lucram: um consegue sustento temporário e o outro um sucedâneo de amor, uma coisa parecida com uma relação na qual a componente sexual é o motor da coisa. Mas a nossa indiferença é sempre conivente. Não pensar, não opinar, já é agir. Mas sei que são opções tacitamente aceites… embora sejam ambos pressionados pelas circunstâncias.

V- Sim, percebo o teu ângulo. Ninguém é totalmente inocente nem culpado. E se fosse, quem os julgaria? Um é vulnerável por ser pobre, ou malandro, outra tem um estatuto social superior e alguma liquidez, para além de uma falta de autoestima notória, falta de tempo ou de interesse para cultivar relacionamentos duradouros… um desfecho previsível no qual existe no entanto um momento, volátil que seja, em que o NÃO é uma opção real. Um não redondo e definitivo.

Neste momento da conversa os artistas entram em palco e nossa atenção deixa-se absorver pela voz possante da Lucibela.


Viana, desculpa-me este despiste, mas não resisti a ensaiar esta troca de impressões improvável entre nós dois diante de uma bebida de cores primaveris. Ou uma simples cerveja gelada, ou um café expresso.

É uma forma de te dizer que gosto que me interrompas quando falo, a isso chama-se conversar. A palavra, quando escrita, já é dona de si mesma, quando se forma na boca e ainda não nasceu, pode ser calada com um beijo.

Há um momento em que é possível mudar tudo e desenhar uma curva numa estrada reta. Fazer uma inversão de marcha. É preciso estar atento para não deixar escapar esse fragmento do tempo.

Na tua última carta noto um tom mais passional e intolerante sobre a superficialidade das coisas, as aparências, as futilidades. Também sou assim. Gosto de procurar a essência. De escavar. Escavacar é uma palavra feia, bruta, mas que exprime melhor o que quero dizer. Essas pessoas de que tu falas (excecionais, marginalizadas, divergentes) são pessoas reais e que resistem, como dizes. Por isso não me admira nem um pouco a tua reação na nossa conversa acima (risos).

Fiquei muito impressionada com o relato que fazes desse senhor que conheceste, que vive na rua e tem o coração no mundo. Certamente um ser único que nos faz ver que nós, os outros, andamos permanentemente em contramão. Mas o idealismo paga-se caro e existe um compromisso mínimo entre o ser humano e a sociedade em que se move, senão dá-se a rutura: social, afetiva, psicológica… é um caminho sem retorno. Para todos nós: os que partimos e os que ficamos.

Eu não quero falar de mim, não hoje, porque tu me intuis e me constróis por dentro. Falando dos outros, do que os meus olhos veem, tu vês para dentro dos meus olhos também.

Temos tido ultimamente a imprensa portuguesa dominada pelos escândalos da política brasileira e tentamos todos, brasileiros ou não, encontrar um tom justo para a indignação, para o protesto, para a reivindicação. Um equilíbrio precário em que é muito fácil cair na manipulação e tornarmo-nos meras marionetas da imprensa e do padrão cultural dominante. Mesmo para os mais esclarecidos.

E continuaremos, tu, eu, a Cris, a Sant’Ana e quantos se quiserem juntar a esta festa das palavras, dos sons e das imagens, a conversar sobre tudo o que nos toca.

Um grande beijo desta tua amiga embarcada numa viagem de desfecho imprevisível.

Clara

Lisboa, 3 de Abril de 2016


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Clara,

As coisas aqui no Brasil não estão em seus melhores dias. O cenário é de névoa. Tudo muito nublado. O futuro do país está em jogo. O futuro de um país que, ao que parece, será para sempre “o país do futuro”, e não o país do presente ou do amanhã próximo. Muito turvo é o horizonte. Passei boa parte do dia assistindo à sessão da Câmara dos Deputados na TV Câmara. 31 horas já. De depoimentos ininterruptos. Não pensei que isso iria longe assim. O drama é forte. 

Alguns depoimentos são risíveis. Alguns não, a maior parte deles. Nem na literatura encontrei figuras tão caricatas, grotescas, teatrais, fanfarronas, cínicas. Assim são e/ou se portam muitos de nossos deputados federais. Não dá para confiar na palavra deles. Acordos secretos escabrosos feitos. Panos quentes. Toalhas de enfrentamento ou desistência sendo vendidas, cargos, postos, compensações. Tudo muito escuro. O povo sem saber direito. Dúvidas. Incertezas. Medo. Ódios.

Sou contra o impedimento da Presidenta Dilma, por princípio. E por convicção. Não é bom para a imagem do país lá fora. Não é bom para a imagem do país aqui dentro. Não resolverá os reais problemas da nação. De nada adiantará. É evidente o propósito da oposição. Tomar o poder e não salvar o país. O que está para acontecer é um aborto. Impedimento, como o que está em trâmite e da forma como foi imposta, é uma violência na história política do país. Corruptos julgando outros mais ou menos corruptos. Um aborto, repito. Especialmente quando expõe e acentua a divisão política, ideológica, cultural, econômica e até regional de um país. Isso não favorece a igualdade no país, só reforça os preconceitos, os estereótipos. Um processo vergonhoso.

No Rio de Janeiro, o carnaval pela democracia. Com direito a pão e mortadela. Bem brasileiro. Bem a cara do Brasil. Pão e circo e o povo indo atrás. Que povo é esse? Que país é esse? Uma calamidade. Na capital Brasília, um muro ergueram para separar os dois tipos de manifestantes, os dois tipos de “povo”. Aqui temos dois “povos”. Pode rir, se quiser. É cômico. Os que são contra e os que são a favor. É trágico. Um país de mais de 200 milhões de habitantes agindo como se dois times de futebol disputassem a final de um campeonato de futebol. De um lado o time dos Coxinhas, do outro a equipe dos Petralhas. O prêmio: a Taça do Poder. Um espetáculo.

Uma imprensa manipuladora, interesseira e sem escrúpulos. E tudo pode começar a ter um desfecho no dia de amanhã, domingo, dia 17 de abril de 2016. O dia da votação no plenário da Câmara dos Deputados, uma de nossas “casas do povo” e onde o verdadeiro povo quase nunca tem vez e voz. O dia do “Fica Dilma!” ou do “Fora Dilma!”. 

Uma esculhambação geral. Desmoralizante. Uma tristeza. Torço eu para que nada disso se pinte de realidade e tudo fique como antes e que o antes progrida em face de melhorias necessárias a todos nós, brasileiros. O Brasil ainda precisar crescer muito, em muitos setores da sociedade, e não é com esta cambada de meliantes engravatados que lideram o processo de impeachment contra um partido, o PT, que isso irá acontecer. Torcer. Torcer muito.

Deixando um pouco a política de lado, dizer a ti que gostei por demais de tua criação. Uma conversa possível, eu diria. Você e sua altíssima qualidade criativa, Clara. Não é para menos, não é? Mas, de toda forma, foi uma surpresa boa para mim. Bom demais ler a fantástica introdução em sua produção textual. Uma conversa que versa sobre humanidades. Humanidades e “engenharias humanas” misteriosas. Dizer que quero sim, esta partilha! E que sempre quererei.

Aqui o sábado foi de frio. Caruaru com cara de São Petersburgo. Dia branco. Minh’alma também, branca. Há um vazio. Uma expectativa. Quando tudo se cala dentro, mesmo me sabendo forte o suficiente para seguir. Quando a poesia dentro da gente se cala. Cálice. Tortura. Algo que oprime. Algo que atordoa. Algo que atravanca. Por isso a escolha por pausar aqui. Pausar e esperar. O pulso. A lâmina. Eis a vida.

Até logo mais, Clara querida.

Caruaru-PE, 16 de abril de 2016.


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Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.

Nada muito sobre filmes (Parte XXIV)

*

Por Germano Xavier


AGOSTINHO NETO E A LIBERDADE ANGOLANA

A TV BRASIL exibiu ontem no quadro NOVA ÁFRICA - UM CONTINENTE, UM NOVO OLHAR o documentário AGOSTINHO NETO E A LIBERDADE ANGOLANA, sobre a trajetória do líder que esteve à frente do Movimento Popular de Libertação de Angola - MPLA. Médico por formação e poeta, Agostinho Neto tornou-se ícone do período conhecido como Guerra Colonial Portuguesa, conjunto de embates promovido por toda uma geração contrária aos regimes vigentes de colonização, sendo o primeiro presidente de Angola. Figura pública por vezes tida como controversa, Agostinho Neto é, sem dúvidas, um importante nome nas lutas por independência no continente africano. Recomendo a todos os mortais!


O ALUNO

O filme O ALUNO (2014), do diretor Justin Chadwick, que também pode ser encontrado com o título de UMA LIÇÃO DE VIDA, narra a história de Kimani Ng'ang'a Maruge, queniano de 84 anos que decide aprender a ler e a escrever já no fim da vida. Maruge possui uma carta misteriosa em mãos e deseja decifrá-la. Para isso, determina-se e resolve enfrentar todos os obstáculos que o impedem de ir à escola primária. Quando jovem, Maruge, um ex-combatente Mau-Mau, perde a família para as tropas britânicas em confronto pela liberdade de seu povo. A ação de educar, no filme, é colocada como tem de ser, sempre, tal qual um instrumento de luta e resistência perante forças opressoras. Baseado em fatos reais, o longa é simplesmente encantador. Um filme sobre o respeito aos mais velhos, ao passado, ao professor e sobretudo sobre a força transformadora da educação. Esta película deveria ser exibida e debatida em todas as salas de aula de todas as escolas do mundo. Recomendo a todos os mortais!


VIPS

O ator baiano Wagner Moura é Marcelo em VIPs (2011), do diretor Toniko Melo, mas é também outro, outros. Muitos outros! Com conflitos de identidade, Marcelo vive "trocando de pele", por assim dizer. Ser espelho do pai é o seu sonho, um exímio piloto de avião, e para tanto está disposto a viver fortíssimas emoções, incluindo se passar por Henrique Constantino, filho do majoritário da companhia aérea Gol, durante um Carnaval na capital pernambucana. Baseado na história real de Marcelo Nascimento da Rocha, o filme não é lá muito interessante. Todavia, e de novo, o talento de Moura encobre as deficiências do longa. Vale uma espiadela, bucaneiros. Sigamos!


TEMPO DE DESPERTAR

TEMPO DE DESPERTAR (1990), de Penny Marshall, retrata as agruras e alegrias vividas por um neurologista recém-contratado em um hospital psiquiátrico. Diante de inúmeros pacientes que estão há longos anos em estado catatônico, o neurologista resolve fazer testes com um novo medicamento e termina por despertá-los. No início, tudo parece dar certo, até os primeiros efeitos colaterais começarem a vir à tona. O mais interessante do filme é a observância do cuidado desprendido pelo médico no trato dos pacientes, a entrega, o entusiasmo pela melhora. Um bom filme. Um Robert De Niro inspirado. Recomendo a todos os mortais!


HUSH – A MORTE OUVE

HUSH - A MORTE OUVE (2016) é um suspense norte-americano que pode surpreender os amantes do gênero. O filme conta a história de Maddie Toung, uma escritora que vive em uma casa no meio do nada, longe da sociedade. Ela está tentando finalizar o seu mais recente livro. Detalhe: Maddie resolveu se isolar a partir do momento em que perdeu a audição. Certo dia, um estranho mascarado aparece em sua residência. Maddie, então, vê-se obrigada a lutar em um mundo feito de silêncio pleno em prol de sua vida. O filme foge um pouco do estereótipo e as cenas silenciosas, em contraste com a típica barulheira desses filmes, colocam o espectador bem dentro do drama vivido pela protagonista. Vale uma espiadela, bucaneiros!


UM DRINK NO INFERNO

UM DRINK NO INFERNO (1996), de Robert Rodriguez/Quentin Tarantino, é daqueles filmes, eu diria, diferenciados. Um clássico trash/cult, com um roteiro muito, muito louco. Muito louco mesmo. Bizarro, por vezes. Dois irmãos saem pelo Texas causando o terror. Durante uma fuga para o México, os dois sequestram uma família e terminam por parar em um prostíbulo onde só caminhoneiros e motoqueiros possuem acesso livre, o Titty Twister. Dentro do recinto, são surpreendidos por um bando de... vampiros! Vampiros monstrengos! É difícil engolir um filme assim, mas não posso deixar de acreditar em originalidade nesses casos. Ame-o ou odeie-o. É mais ou menos por aí. Vale uma espiadela, bucaneiros!


AS BRANQUELAS

Uma merda.


* Imagem: http://obaratodefloripa.com.br/cineclube-presenca-na-udesc-faz-sessoes-semanais-da-mostra-de-cinema-infantil-de-florianopolis/

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Estudos de gênero em ESP (um resumo)

*

Por Germano Xavier

No tocante ao quarto capítulo do livro GÊNERO, HISTÓRIA, TEORIA, PESQUISA E ENSINO, intitulado de Gênero nas tradições linguísticas: inglês para fins específicos, Bawarshi e Reiff (2013) engendram olhares esclarecedores sobre os estudos de gênero em English for Specific Purposes – ESP, sem antes pontuar a relação existente entre as tradições retórica e a linguística. Os autores definem os estudos de gênero em ESP como sendo aqueles voltados para o estudo e para o ensino de variedades especializadas do inglês e, em tabela, geralmente direcionadas aos falantes não nativos que porventura se encontram em ambiente acadêmico-profissional de modo mais avançado.

Segundo os autores do livro supracitado, foi a partir do pioneirismo de Swales (1990) que os estudos de gênero em ESP começaram a ganhar um corpo mais definido. A natureza aplicada a qual os estudos em ESP sempre estiveram atrelados foi, desde sempre um aspecto de definição marcante desta ramificação. Para Swales, os estudos em ESP tratariam de aproximações para com as propriedades linguísticas dos registros da língua com ênfase no quantitativo e, por isso, sofreriam consideráveis evoluções ao longo do tempo, tornando-se mais específicos e, por conseguinte, mais aprofundados, já que passaram a se comprometer com categorias de registro mais abrangentes e, igualmente, com a descrição não só dos traços linguísticos, mas também dos propósitos e dos efeitos de base comunicacional presentes nas variedades da língua.

Tomando como ponto nevrálgico esta citada evolução dos estudos em ESP, Swales segue por investigar a referida área, entregando a ideia de que tal aparelhagem de marcação do pensamento em vista dos gêneros está continuamente atrelada aos estudos linguísticos e, concomitantemente, aos estudos retóricos de gênero. Bawarshi e Reiff (2013) esboçam, pois, ainda no capítulo intitulado Gênero nas tradições linguísticas: inglês para fins específicos, um panorama ideário e comparativo acerca das implicações tanto da ESP quanto dos estudos de gênero em LSF, definindo suas linhas limítrofes para que assim fosse possível, sobremaneira, sedimentar os espaços de interesse das referidas áreas de estudo.

Muito do que postulam, pensam e refletem as duas abordagens se confundem ou se conflitam no decorres de suas interações evolutivas. Tanto os estudos em LSF quanto os estudos de gênero em ESP comungam de estratégias de análise, como também partilham compromissos pedagógicos, mas não entram em acordo quando o assunto é o público-alvo de aplicação e o enfoque de seus respectivos estudos, só para citar dois exemplos de divergência.

A partir do momento em que Swales emprega valores de relevância e de carácter distintivo à ESP, delineiam-se aí conceitos-chave de imprescindível funcionalidade para o entendimento de tal abordagem, que são, a citar: a comunidade discursiva (dotada de seis características definidoras), o propósito comunicativo (o gênero desenha-se tal qual uma classe de eventos que partilha de propósitos de base comunicacional) e o próprio conceito de gênero.

De acordo com os posicionamentos de Bawarshi e Reiff (2013), outro ponto a se destacar nesta área dos estudos linguísticos (a abordagem ESP de gênero) é, a saber, o tom múltiplo de abordagem de análise de gênero em ESP, que permitiria um enfoque inicial pela identificação do gênero dentro da comunidade discursiva, passando pelo estudo da organização do gênero (questões estruturais) e, por fim, desembocando no exame de aspectos textuais e linguísticos. Tal modelagem de estudo foi repensada por alguns autores, como por exemplo Bhatia (1993), que esboçou um contingente de passos em número de sete para a análise de gêneros. Bathia, por sua vez, parte do contexto para a análise textual, aplicando diferentes níveis de análise linguística aos estudos propostos em seu portfólio investigativo.

As problemáticas envolvendo os estudos de gênero em ESP, para Bawarshi e Reiff (2013), durante bastante tempo ficaram restritas aos setores ligados ao propósito comunicativo, ao contexto e à natureza dinâmico-intertextual dos gêneros. Todavia, as tendências mais recentes do estudo em ESP invocam novos olhares acerca de tal complexo ideário. Askehave, Bhatia, Hyon e Hyland terminam por reconhecer a complexidade do propósito comunicativo e findam, cada qual em sua perspectiva, por admitir a natureza dinâmico-interativa dos gêneros, priorizando em conjunto uma melhor apreensão da intertextualidade e da interdiscursividade no que concerne ao gênero.

Assim posto, ao se tomar a relação dos estudos em ESP e as abordagens críticas aos gêneros, Bawarshi e Reiff (2013) deixam submergir das páginas do capítulo quarto a existência de um longo processo de compreensão que retoma possíveis interconexões aos preceitos dos estudos retóricos, colocando em xeque pontos importantes que dizem respeito à conceituação de alguns termos e temas, bem como a aplicabilidade desses movimentos de entendimento imiscuídos ao gênero.


REFERÊNCIAS

BAWARSHI, A. S; REIFF, M. J. Gênero nas tradições linguísticas: inglês para fins específicos. In: Gênero, história, teoria, pesquisa e ensino. Tradução: Benedito Gomes Bezerra. São Paulo: Parábola, 2013, p. 60-78.


Imagem: http://pt.dreamstime.com/fotos-de-stock-royalty-free-texto-de-papel-da-not%C3%ADcia-image8583068

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Criação para pingos de chuva

*

Por Germano Xavier

com vassoura de piaçava
é feito varrer o vazio
fazer com que se dobre a mancha
aguda na existência do pó
e no criar água na queda

tanajura frita na farinha
o cordão que enlaça o voo
menino que brinca de fazer graça
com seus demônios

ele não quer precisar nem ela
o que se deseja é parar

de sonhar//

a chuva é de livrar choro
a gota é quase-prototípica
o mundo sem função




* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Cloud-154449559

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Observatório sobre gêneros

*

Por Germano Xavier


No âmbito do subtópico denominado de Gênero e Linguística sistêmico-funcional, Bawarshi e Reiff (2013) implementam o pensamento de que há uma ligação bastante fortificada entre a aplicabilidade dos gêneros dentro do círculo de operação da análise textual e, por conseguinte, do processo de ensino da língua. Tomando como ponto inicial de apoio a investigação de trabalhos envolvendo estudos em teoria literária, Bawarshi e Reiff (2013) esboçam, no capítulo intitulado Gênero nas tradições linguísticas: linguística sistêmico-funcional e linguística de corpus o panorama ideário de que muito do que se sabe hoje acerca de gênero deve-se ao progressivo acompanhamento das tradições linguísticas, a citar em especial as ramificações concernentes à Linguística sistêmico-funcional, à Linguística de corpus.

A partir do momento em que apregoam valores de relevância à funcionalidade social e ao contexto, a língua passa a ser percebida como um todo funcional, exigindo que a própria linguagem entre em processo de concepção dentro de um dado contexto específico de uso, cabendo à parcela sistêmica os meandros estruturais e de ordenação dos fenômenos linguísticos. A linguagem, por sinal, é vista aqui tal qual um motor-gerador para que ela própria realize ações de significação, descritas a partir da ideia de contextos de situação, inventário que percorre o tratado em Halliday (1978), base dos estudos de base LSF. A Escola de Sidney, a qual se servem os estudos de Halliday, gira em observância às perspectivas sistêmico-funcionais de gênero. É com base nos pressupostos dessa corrente que termos como registro (tipos de situação) e as metafunções da linguagem (ideacional, interpessoal e textual) irão ser contemplados para ampliação do contexto de situação, quando se referem às esferas de campo, relação e modo.

De acordo com os posicionamentos de Bawarshi e Reiff (2013), outro ponto de destaque nesta área dos estudos linguísticos (a abordagem LSF de gênero) é, a saber, a obra de Martin (1977), que preconizou entendimentos acerca da definição de gênero nunca antes identificados. O autor supracitado auxiliou na construção conjuntural de que os registros estão para o contexto de situação, assim como os gêneros estão para o contexto de cultura, sendo eles processos sociais geridos por dados objetivos. Há aqui, supostamente, uma introdução à interpretação de gênero enquanto ação social, tão difundida por pensadores contemporâneos como Charles Bazerman e Carolyn Miller.

O gênero, para os autores, pegando o ideário fomentado a partir de Martin (1977), e que porventura embasou o programa australiano LERN (Literacy and Education Research Network), seria, portanto, fundamental para o processo de letramento em ambiente escolar, já que elabora um arcabouço de criticidade ao se fundar em proposições de cunho facilmente identificáveis como sendo de ordem social. Já o pensamento de Diller (2001) é retomado para demonstrar a sua influência no tocante ao debate envolvendo as investigações sobre retórica e produção escrita.

Longacre (1996) e Biber (1988) também são citados, e suas posições decorrentes das definições de tipologias textuais e presença de variação linguística no conglomerado dos gêneros marcam presença e relevância incontestáveis. Bawarshi e Reiff (2013) fecham a discussão ampliando a visão de Paltridge (1997) acerca dos gerenciamentos que se dão na altura do que pode ser classificado como imagem mental. Daí surge um longo processo de estreitamento entre texto e gênero interconectado aos preceitos da memória e do contexto que, para os simpatizantes da teoria em questão, são capazes de movimentar todo um conjunto de interpretações bem peculiares acerca de gênero.


REFERÊNCIAS


BAWARSHI, A. S; REIFF, M. J. Gênero nas tradições linguísticas: linguística sistêmico-funcional e linguística de corpus. In.: Gênero, história, teoria, pesquisa e ensino. Tradução: Benedito Gomes Bezerra. São Paulo: Parábola, 2013, p. 46-59.



* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Text-Overlay-Texture-121941631