sábado, 5 de julho de 2014

Miúdas flores de asfalto

*
Por Germano Xavier

sombreando vividos...

o som mete uma porrada dentro do ouvido. 
corro, mas não tento apagar. 
o som. 
é um som conhecido. 
som antigo. 
som de quartos úmidos 
por onde já passei noites de pouco sono.

segue o som. 
meus ouvidos ouvem. 
é lógico. 
a lógica do momento é se deixar. 
eu me deixo. 
eu me deito.

o quarto de agora é logo ali. 
o som me recorda de mim. 
o som me recorda que vivi. 
e logo certezas absurdas sobre amor e gozos perfeitos. 
a palavra poesia vivida com febre. 
a palavra covardia deixada do lado de fora. 

eu sempre fui. 
eu sempre vinguei. 
eu sempre me intrometi. 
até onde não devia. 
até onde devia.

fugia quando não dava mais. 
ou simplesmente caminhava de volta. 
partia. 
eu ia.

o som sempre ia. 
aquele especialmente. 
o som vai. 
ainda está.
comigo. 
não esqueço. 
é uma marca. 
é uma tatuagem. 
é um som esquisito. 
plasmado. 
corporificado.
bem no meio de mim.
como miúdas flores de asfalto.


* Imagem retirada do site Devianart.

2 comentários:

Daniela Delias disse...

Só o título já é uma lindeza. Bonito demais, viu G?

Um beijo grande!

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Os desejos nos possuem e nos obrigam a caminhar,mas o ser humano é feito assim...
Se caio logo me levanto mas depois me deito e me aconchego nos braços do amor que me realiza.