sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

UNBOXING BLACK FRIDAY 2019 EDITORA PATUÁ


 

Com a licença de Pandora, abro minha primeira caixa de livros aqui no canal. Os livros foram comprados durante o período da Black Friday através do site da Editora Patuá, gerida por Eduardo Lacerda.
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Sobre ELES ERAM MUITOS CAVALOS, de Luiz Ruffato

*
Por Germano Xavier

Este texto pretende traçar um pequeno panorama acerca das relações existentes entre o cotexto e o contexto em excertos constituídos por marcas visíveis de oralidade presentes na obra literária ELES ERAM MUITOS CAVALOS, do escritor mineiro Luiz Ruffato – no original, o título do livro aparece grafado em letras minúsculas.


É bastante amplo o panorama atual sobre a percepção histórica do “senso de contexto” em voga a partir e, também, durante o florescimento de diversas esferas do saber humano. É isto o que o estudioso holandês da língua Teun A. van Djik (2012) vai propor aos seus leitores logo na introdução de seu livro intitulado de DISCURSO E CONTEXTO: UMA ABORDAGEM SOCIOCOGNITIVA.

A literatura, como campo de produção e sedimentação de discursos – e aqui, a saber, estamos a falar de contextualizações e cotextualizações -, invade, pois, tal discussão e se promove dentro da atmosfera por vezes caótica das ressignificações hodiernas em vista de tudo e de todos, em demandas diversas de ordens também essencialmente plurais. 

Parte inconteste dos textos que são produzidos em nossos mais recentes dias e que são rotulados como sendo textos de literatura ou, ainda, textos literários não podem nem deviam ser taxados a uma caracterização literária apenas e simplesmente, fator que pode prejudicar o olhar sobre o referido objeto, impossibilitando abordagens mais nítidas e eficazes. 

Textos repletos de intertextos, com apetrechos e inserções multimodais, cujas referências extrapolam o senso comum, são cada vez mais visíveis nas estantes das livrarias e, para muitos pesquisadores, representam um verdadeiro jardim de delícias pela potencialidade de imersão e pelas possibilidades de estudo, que são inesgotáveis. 

A obra ELES ERAM MUITOS CAVALOS é dotada de um constructo narrativo repartido, fragmentado em 70 petardo-retalhos textuais, em tributo à cidade de São Paulo, megalópole por vezes inapreensível que acolhe e também expulsa. Quem o lê, logo percebe que se trata de um livro com estrutura singular, diferenciada, organizada num espaço de e para a fomentação de desordens estilístico-semânticas. 

O livro em questão, por natureza dinâmico e múltiplo, faz do leitor mais um personagem da possível trama, como se a inscrevê-lo automaticamente num retalho extra: o de número 71. Para a sua composição, o autor se vale de registros literários e não-literários, por assim dizer, sendo possível entrar em contato com textos ao melhor estilo publicitário, cinematográfico, musical, descritivos, narrativos, poéticos entre outros moldes.

Incontáveis são os teóricos e pesquisadores que se aninham ou se aninharam pelo mundo afora na tentativa de desvendar os segredos do texto plurilinear, ou seja, do modelo textual detentor de múltiplos sentidos, dotado de ramificações, conexões extras e possuidor de competências e aberturas próprias e várias, tanto ao que meramente tange o suporte quanto aos processos de significação utilizados em sua produção.

Na profusão e difusão de novas modalidades e de modos de produção textuais, híbridos e transversais, cada vez mais vivos dentro das sociedades, a escrita de Luiz Ruffato em ELES ERAM MUITOS CAVALOS termina por fazer, também, com que o leitor enverede por uma nova experiência de leitura, pronunciada nas ideias dos multiletramentos e dos intertextos – assim como da polifonia e da polissemia-, visto aqui não apenas no âmbito do hipertexto, mas do texto impresso – será possível? – também.

Como bem aponta Dijk (2012), entender o discurso é antes realizar a compreensão texto/conversação-em-contexto. Com base nesta premissa, vejamos os excertos abaixo, retirados do livro de Ruffato:

“- Num falei?” (p. 17)

“- Dá dinheiro, né?” (p.17)

“E gente inda consegue dormir; meu Deus, a bocona jacaroa, até ronca!, até baba!, comé que?” (p.18)

“indignação ah ah ah” (p.26)

“Estraga o teclado... Esse farelinho aqui ó, trava tudo, uma bosta! E se cai Coca-Cola então, puta!, aí fodeu!” (p.43)

“Falei com a patroa, ela disse, Quê isso, Claudionor!, Claudionor sou eu. Quê isso, Claudionor!” (p.74)

“A gente vinha lá dos lados dos Perus, da casa de um mano nosso, aí a gente veio andando, porque já num tinha mais busão, a gente veio andando e papeando, tá ligado?, aí a gente viu aquela montoeira de caixote empilhado, desacreditamos, aí o Esqueleto falou, vamos derrubar?, aí o Ziquinha falou, vamos nada, vai dar merda (...)” (p.116)

Tomando como ponto de apoio os excertos supracitados do livro de Luiz Ruffato, logo corroboramos da ideia de Djik (2012), que defende que a natureza do contexto é múltipla. O pesquisador em destaque salienta que não há uma maneira eficaz para elucidar e identificar um conjunto cotexto-contextual de único nascedouro. 

As bases da criação de Ruffato são diversas, baseadas em vivência única e momentos particulares de observação. Portanto, um movimento essencialmente de interação social e, ao mesmo tempo, profundamente individual.

Em defesa de questões ligadas ao fator interação social dentro das ambientações de gênero e de escrita, BAZERMAN (2007, p.119) vai dizer:

Todo momento insere e revigora momentos prévios. Isso é verdade também sobre este momento em que eu escrevo e você lê, e a tênue conexão entre eles. Definir um momento é perceber uma estrutura para o antes e o agora e agir sobre essa percepção, compreendendo-a, assim, como um ato social que influencia o futuro. O ato momentâneo implica intencionalidade dentro das construções pessoais de uma situação histórica em evolução. O escritor ou falante apresenta um universo dinâmico para o leitor ou ouvinte reconstruir ativamente dentro do universo dinâmico do receptor.

Por ser um elemento que tanto pode atender às demandas subjetivas de cada indivíduo que se sujeite estar diante de um dado fenômeno de uso da língua quanto a qualquer formação de elaboração linguística de construção sociointeracional de base coletiva, a concepção de contexto aqui envolvida – leia-se, na obra de Ruffato - tende a arrecadar condições de atuação não simplórias. A natureza do contexto, nesse ínterim, pode ser facilmente considerada como mutacional.

Os excertos da obra de Ruffato, escolhidos e supracitados neste ensaio, reafirmam que os fenômenos de uso da língua que relacionam os cotextos aos contextos dentro da relação oralidade-escrita são, como na visão de Dijk (2012), realçados no que dizem respeito aos seguintes modelos de entendimento: Os contextos que podem/poderiam ser identificados para estudo mais detalhado são construtos subjetivos dos participantes - neste caso, produzidos pela participação ativa do autor frente ao mundo que o cerca. 

Os contextos, vistos assim, sob o prisma da relação autor-leitor, podem ser entendidos como sendo experiências únicas. Os contextos, pelo caráter experimental que abarcam, são também modelos mentais de desenvolvimento progressivo. 

Sobre o momento individualmente percebido que ajuda na construção de todos os principais elementos da relação cotexto-contexto, BAZERMAN (2007, p. 128) afirma:

Para cada indivíduo, a vida desdobra-se em uma série idiossincrática de momentos dos quais se participa da melhor forma possível e de onde se parte com percepções sobre o mundo, eventos e consequências das ações. A partir da sequência de momentos, desenvolvem-se hábitos, práticas e concepções que dão forma a comportamentos futuros e constrói-se a um senso do self, uma autobiografia e uma visão do lifeworld.

Lifeworld, para constar, é um conceito de Husserl que significa o mundo “como vivido” antes de alguma representação ou análise reflexiva. 

Os contextos em diálogos com seus enunciados escritos (cotextos) com marcas de oralidade na obra ELES ERAM MUITOS CAVALOS, de Luiz Ruffato, devem ser percebidos como um tipo específico de modelo da experiência do autor. São também, por conseguinte, esquemáticos, pelo fato de obedecerem a um regimento elaborativo, de nuances múltiplas, variadas e variantes, controlam as suas próprias produções, suas respectivas compreensões do discurso e ainda apresentam bases sociais de conflito. 

Os contextos possíveis para estudo a partir da obra acima citada são dinâmicos, amplamente planejados, o que contorna qualquer indício de obviedade na construção discursiva da narrativa, fator que a coloca em patamar avançado em termos de caracterização literária. O presente ensaio, dessa forma, lança um tanto de luz para futuros e prováveis estudos sobre as problemáticas aqui debatidas.



REFERÊNCIAS

BAZERMAN, C. Escrita, Gênero e Interação Social. São Paulo: Cortez, 2007.

CAVALCANTE, M.M. Os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2014.

DIJK, Teun A. van. Discurso e Contexto: uma abordagem sociocognitiva. São Paulo: Contexto, 2012

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

CONTOS AFRICANOS DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA


 

Impressões sobre o livro CONTOS AFRICANOS DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA, da Editora Ática (2009), com toques sobre Realismo Mágico, Estética da Recepção e outras dicas.
Organização: Rita Chaves Ilustrações: Apo Fousek BLOG: http://oequadordascoisas.blogspot.com/ FACE: https://www.facebook.com/germanovianaxavier
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O imortal Nélson Barbalho e o país de Caruaru

Imagem: Google
Por Germano Xavier


"(...) Bom vaqueiro nordestino
Morre sem deixar tostão
O seu nome é esquecido
Nas quebradas do sertão
Nunca mais ouvirão
Seu cantar, meu irmão
Tengo, lengo, tengo, lengo,
tengo, lengo, tengo (...)"

Trecho de A MORTE DO VAQUEIRO,
de Nélson Barbalho e Luiz Gonzaga.

Tengo, lengo, tengo, lengo, tengo, lengo, tengo, assim badala o canto dos chocalhos pendurados nos pescoços dos gados sofridos de seca nos grotões de nossos sertões e agrestes nordestinos. Com fome e sede, os animais mugem perambulando pelas paisagens repletas de dor e desgosto, mas que com uma só chuvarada vê brotar um oásis de inigualável imensidão. Decerto que há também boniteza na dureza das vistas que configuram tais paragens, mas é tudo feito de uma beleza sofrida e castigada pelo tempo. Sertões e agrestes de homens imortais, afeitos a lutas monumentais pela sobrevivência, que se estreita a cada nova estação sem sinal de chuva no firmamento. Sertões e agrestes de homens fortes, como foi o caruaruense Nélson Barbalho, que veio ao mundo num 02 de junho lá pelos idos de 1918. 

"Cabra" sem estudo orientado por academicismos, viveu sempre de trabalhar, pesquisar e escrever. E escreveu, ele, senão a maior, uma das mais importantes visões acerca do povo nordestino, do povo pernambucano e, principalmente, do povo da cidade que é tida hoje como a Capital do Agreste do estado cuja capital é Recife. Por conta de seu ofício, foi conhecedor de grande parcela dos municípios pernambucanos, tirando das viagens que fazia importantes oportunidades para se contar ao mundo aquilo que seus olhos clínicos e críticos viam e sentiam. Transformou-se logo em jornalista e historiador, atuando também como lexicógrafo e compositor, neste tendo como parceiro de várias ocasiões nada mais nada menos que o Rei do Baião, Luiz Gonzaga.

Na casa da centena está o legado do homem que lançou Caruaru aos olhos do mundo, este é o número aproximado de obras deixadas, publicadas ou não, dentre as quais se destacam "Cronologia Pernambucana", "Meu povinho de Caruaru", "Major Sinval", "Caruaru do meu tempo", "Dicionário da Cachaça", "Dicionário do Açúcar", entre tantos outros registros que contam e recontam as principais facetas desta tão singular região brasileira. Todavia, nem toda esta dedicação e produção autoral latente foi capaz de fazer de seu nome uma referência devidamente reconhecida enquanto viveu, o que é já bem comum aos grandes de nossa cultura.

Falecido na cidade do Recife, no dia 22 de outubro de 1993, Nélson Barbalho construiu em vida uma constelação de amigos, a citar Onildo Almeida, parceiro no baião clássico intitulado de "Capital do Agreste", o maestro Joaquim Augusto, Luiz Gonzaga, Carlos Diniz... abriu picadas no matagal da história de Pernambuco e repousa hoje no panteão de autores mais significativos do estado. Cá entre nós, passei a admirá-lo ainda mais muito devido ao conhecimento do documentário de Wilson Freire, de título Nélson Barbalho, o imortal no país de Caruaru, exibido em sua terra natal como forma de homenagem aos 20 anos de sua morte.

Pensando cá com meus botões, a maior homenagem que Nélson Barbalho poderia ganhar nos dias de hoje seria a reedição de sua obra e, consequentemente, a distribuição de seus livros em todas as bibliotecas do município e das cidades do entorno, e para ficar perfeito, que os professores caruaruenses fossem capacitados através de uma ação formadora direcionada especificamente ao trabalho da obra do ilustre historiador em suas respectivas escolas e salas de aula, para que a memória de Nélson Barbalho fosse incansavelmente salvaguardada na mente das futuras gerações. Dessa forma, todos nós, caruaruenses ou não, e sem nenhuma exceção, sentir-se-iam imensamente homenageados.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

4 POEMAS DE GERMANO XAVIER, por Luísa Fresta


 

Luísa Fresta lê quatro poemas de Germano Xavier. Os poemas podem ser encontrados no Blog O EQUADOR DAS COISAS.

* Luísa Fresta, portuguesa e angolana, viveu a maior parte da sua juventude em Angola, país com o qual mantém laços familiares e culturais; reside em Portugal desde 1993.

Publicou em 2012/13 uma série de crónicas sobre as décadas de 70/80 da vida em Luanda, através do Jornal Cultura - Jornal Angolano de Artes e Letras com o qual colaborou regularmente até 2015 e publicou também pontualmente em diversas revistas on-line (a moçambicana Literatas e as brasileiras Samizdat e Subversa).

Escreve regularmente desde 2013 no portal O Gazzeta, coordenado por Germano Xavier e desde 2014 publica prosa e poesia no portal Entrementes - Revista Digital de Cultura. Desde 2016 escreve também no jornal digital Artes&Contextos.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Outra leitura para MARÇO ENTRE MERIDIANOS, de Luísa Fresta


 

Olímpio Neves lê uma resenha de minha autoria durante o lançamento de MARÇO ENTRE MERIDIANOS, de Luísa Fresta (Lisboa, 2019).
* Luísa Fresta, portuguesa e angolana, viveu a maior parte da sua juventude em Angola, país com o qual mantém laços familiares e culturais; reside em Portugal desde 1993.
Publicou em 2012/13 uma série de crónicas sobre as décadas de 70/80 da vida em Luanda, através do Jornal Cultura - Jornal Angolano de Artes e Letras com o qual colaborou regularmente até 2015 e publicou também pontualmente em diversas revistas on-line (a moçambicana Literatas e as brasileiras Samizdat e Subversa).
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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Minhas 20 melhores leituras em 2020


 

Por Germano Xavier


O ano de 2020 definitivamente não foi fácil. No Brasil, a situação de penúria foi ainda mais amplificada e visível. Desgovernado desde os saguões de Brasília, o Trem-Brazil, vendido às incertezas de um neoliberalismo irresponsável, descarrilou e assim continua ribanceira abaixo. O real povo brasileiro penou. E penará. Presenciamos tragédias novas a cada dia, muitas delas advindas de um bestial antipresidente eleito. A sirene tocou mundo afora. Uma pandemia! Muitos foram para dentro de seus aposentos. Muitos, por não terem aonde ir, forçados pela própria necessidade e outros por negacionismos infames de ordens diversas, preferiram as ruas. Ao cabo de todos esses meses, o cansaço, a estafa mental.

Todavia, algumas coisas foram fundamentais para me manter vivo. Falo por mim. Para além das aulas ministradas à distância, que se mostraram duras e ineficientes, foram os livros os maiores responsáveis pela manutenção do ar nos pulmões. Li razoavelmente bem durante todo o ano. Dei prioridade a livros que, de uma ou outra forma, falavam do processo pandêmico vigente, para me inteirar acerca de discussões sociais e políticas também atuais. Destaco aqui a coleção Pandemia Capital, da Editora Boitempo, que li quase toda.

No mais, agradecer preciso a todos os amigos e todas as amigas que fazem comigo o canal literário O EQUADOR DAS COISAS no YouTube, aos colaboradores do portal O GAZZETA, ao espaço concedido a mim no portal SÓSERGIPE e a manutenção da parceria já antiga com o portal ENTREMENTES. Dizer também que o blog O EQUADOR DAS COISAS e o jornal impresso O EQUADOR DAS COISAS continuam vivíssimos, em sonhos borbulhantes e em realidade. Para 2021, talvez algumas boas novidades surgirão. Sigamos, bucaneiros!

E ninguém solta a mão de ninguém.

 

Poesia

1.                  QUARENTA CLICS EM CURITIBA, de Paulo Leminski;

2.                  BUBUIA, de Jéssica Martins Costa;

3.                  ASA DE LAGARTA, de Vanessa Reis;

4.                  ALICE E OS DIAS, de Daniela Delias;

5.                  TRANS, de Age de Carvalho;

6.                  QUASE UMA ARTE, de Paula Glenadel;

7.                  À CIDADE, de Mailson Furtado;

8.                  GRAVANDO, de Aline Rocha;

9.                  ANTES QUE O MUNDO ACONTEÇA, de Daniel Baz;

10.              CAPRICHOS & RELAXOS, de Paulo Leminski.

 

Prosa

1.                  A FABULOSA GALINHA DE ANGOLA, de Luísa Fresta;

2.                  REDEMOINHO EM DIA QUENTE, de Jarid Arraes;

3.                  CARTAS DE UM DIABO A SEU APRENDIZ, de C.S. Lewis;

4.                  O AMANHÃ NÃO ESTÁ À VENDA, de Ailton Krenak;

5.                  A CRUEL PEDAGOGIA DO VÍRUS, de Boaventura Sousa Santos;

6.                  SEJAMOS TODOS FEMINISTAS, de Chimamanda Ngozi Adichie;

7.                  O MASSACRE DA GRANJA SÃO BENTO, de Luiz Felipe Campos;

8.                  O VELHO E O MAR, de Ernest Hemingway (releitura);

9.                  SOBRE A ESTUPIDEZ, de Robert Musil;

10.              ÚLTIMO REINO, de Pascal Quignard.

 

 

OBS. A ordem de numeração dos livros não quer dizer absolutamente nada.

* Imagem: Google

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Luísa Fresta lê o poema "Os Cadernos de Coisas", de Germano Xavier


 

Luísa Fresta lê o poema "Os Cadernos de Coisas", de Germano Xavier.

* Luísa Fresta, portuguesa e angolana, viveu a maior parte da sua juventude em Angola, país com o qual mantém laços familiares e culturais; reside em Portugal desde 1993.

Publicou em 2012/13 uma série de crônicas sobre as décadas de 70/80 da vida em Luanda, através do Jornal Cultura - Jornal Angolano de Artes e Letras com o qual colaborou regularmente até 2015 e publicou também pontualmente em diversas revistas on-line (a moçambicana Literatas e as brasileiras Samizdat e Subversa).

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Ler para ser

*
Por Germano Xavier

“A dialética é, enfim, a lei fundamental do ser.”
(Maurice Merleau-Ponty)

Em seu livro O ATO DE LER (FUNDAMENTOS PSICOLÓGICOS PARA UMA NOVA PEDAGOGIA DA LEITURA), Ezequiel Theodoro da Silva esboça uma severa crítica ao método usado na formação atual do aluno-leitor e reforça a ideia de que o ensino da leitura não está restrito apenas ao momento da alfabetização. Para o pesquisador, ler não pode ser apenas a decifração do código linguístico e os aspectos teóricos e práticos da leitura deveriam ser tratados, pois, em quaisquer cursos de preparação de professores, de forma indistinta. 

Ler é, também, um ágil modo para refletir e transformar. Partindo de tal premissa, Ezequiel critica a política do “deixa como está para ver como é que fica”, que povoa o ambiente educacional de vários territórios do mundo. Para ele, a leitura encontra-se demasiado prejudicada, também, pelo advento das tecnologias de massa. E tal cenário é ainda mais desanimador quando se possui uma tradição de leitura elitista, como é o caso do Brasil.

Para reverter o preocupante panorama, a boa educação deveria apontar para o significado e para a referência. A expressão escrita, para Ezequiel, apresenta-se como a maneira mais prática para a promoção e circulação do conhecimento. O leitor lê aquilo que quer, é livre. As vantagens da informação escrita, pois, são ilimitadas. Ler não é mera deglutição. Ler é realmente participar mais crítica e ativamente da comunicação humana. 

O livro sempre reflete o humano. Comunicação não é apenas falar e escrever (emissão), mas também ouvir e ler (recepção). Para o caso brasileiro, as “lições” da leitura são: 

1) Leitura é essencial à vida e a qualquer área do conhecimento; 

2) Leitura é igual a sucesso acadêmico e diferente de evasão escolar; 

3) Leitura é o principal instrumento para a prática; 

4) Aprender a ler é reduzir a alienação e a massificação; 

5) A leitura parece ser o único meio de desenvolver a originalidade e autenticidade dos seres que aprendem. 

Ler é, antes de tudo, compreender. Compreender é ser. Os três propósitos fundamentais da leitura são: Compreender a mensagem; Compreender-se na mensagem e Compreender-se mensagem. Ezequiel abre espaço em seu livro para criticar a escassez de projetos de pesquisa desenvolvidos no Brasil acerca dessa temática. A leitura é essencialmente humana. Para tal, uma abordagem fenomenológica seria o melhor caminho. O fenômeno é logos, uso da intuição. A linguagem manifesta o ser relacional do homem. A evolução da fala. O código escrito transforma a estrutura da existência – o homem passa de ouvinte a leitor. Ek-sistere: abertura ao outro. Compreender e simbolizar: existir. Ao ler, estamos descontextualizando e recontextualizando. 

Estamos existindo, ao máximo.


* Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Reading-59875697

sábado, 19 de dezembro de 2020

Uma leitura para MARÇO ENTRE MERIDIANOS, de Luísa Fresta


 

O amigo jornalista Victor Hugo Mendes lê uma resenha de minha autoria sobre o livro MARÇO ENTRE MERIDIANOS, de Luísa Fresta, lançado em Portugal e premiado em Angola. A ocasião fez parte do cronograma da Feira da Mulher Africana (Lisboa, 2019).

O vídeo foi feito por Victor Hugo Mendes.
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Literatura, este carnaval em mim



Por Germano Xavier


Literatura serve para alguma coisa? O quê? Mas, o que é útil e o que é inútil? Do que se precisa para viver? Eu, para me sentir plenamente vivo, preciso de tão poucas coisas! Uma delas, óbvio, é a literatura. O livro em si. O conhecimento. Quantas pessoas são também assim, como eu, nesse emaranhado de bilhões de seres humanos? E que figura é essa, a do escritor, que tão bem alarga as fronteiras dos mundos visíveis? E que figura é esta, a do leitor, que como ninguém sabe reconhecer símbolos e sinais que dão para as profundezas do desconhecido? Quando o autor está menos preocupado em fazer literatura e mais em causar uma impressão no leitor? São tantas as perguntas? São tantas as respostas!

Até hoje, no alto de meus poucos (ainda) 33 anos de idade, pergunto-me: Literatura, para quê? Eu, um ocidental latino-americano, ensinado pelo “torto” pensamento “quase” geral do mundo que pertenço ao “centro” de todas as coisas e formado ainda em uma época da história das gentes inteiras que difundia a ideia de que nosso “lado do globo” é o único local das riquezas menos efêmeras e das liberdades mais densas, questiono-me incessantemente acerca da real motivação para com essa paixão tão intensa que entrego a esse território tão misterioso chamado literatura, onde os acontecimentos parecem viver à mercê de uma falseada compreensão da realidade e, por consequência, da vida.

Tão carnavalesca é a literatura, espirituosa, cheia de palavras representadas, bivocais, onde se misturam dialetos, jargões, estilos, versos e motes, ditos e não-ditos, inteira toda poli. Ah, Bahktin!, você estava mesmo muito certo! Literatura é transposição e seus efeitos têm como características básicas o questionamento das verdades “absolutas”, o debate sobre problemáticas relacionadas à morte e aos sentidos da vida, sobre as configurações do fantástico, sobre a escolha e a predileção pelas infrações às normas vigentes de conduta, sobre o enfrentamento.

Literatura, que é também a linguagem em ação, que não respeita limites, que pode ser ora obscena ora excêntrica e que, principalmente, permite que o reprimido se apresente perante o mundo que cala sua voz e que enfraquece o seu corpo, tornando central aquilo que é marginal. A literatura tem a propriedade das impropriedades, por isso é dialógica, por isso se refere, enuncia, comunica, mesmo quando o seu objetivo maior esteja convertido em leis e valores de mercado.

Se alguém me pergunta, hoje, o que sou, respondo: sou um leitor. Leitores são essas pessoas que veem as mensagens dos meios com graus diferentes de concentração, interpretam-nas ativamente e dão-lhes sentido subjetivo, relacionando-as a outros aspectos de suas vidas, como diria Thompson. Destarte, do mesmo modo como ocorre ao personagem, o leitor vivencia uma viagem reflexiva, pelo interior de um livro que, ao crepitar das páginas transpostas, operará nele uma transformação interna de proporções incomensuráveis. Talvez seja esse o valor inegável da literatura: a tentativa de compreender o outro para efeito de nossa evolução pessoal e para, logo depois, atingir uma esfera coletiva.

Para Cortázar, um dos meus grandes mestres literários, um texto de qualidade não se esconde sobre o seu tema, mas naquilo que se encontra antes e depois dele. Antes do texto, do tema, está o escritor e toda a sua bagagem humana e sanha literária. De acordo com o búlgaro Tzvetan Todorov, nenhuma narrativa se limita a uma sucessão de fatos, já que não é toda hora que uma dada sequência cronológica produzirá verdade. Essa viagem que o leitor faz, de natureza espelhada, é fundamental dentro da literatura e é justamente ela que faz do livro essa força social tão indissolúvel.

A literatura me subsidiou com uma nova perspectiva do mundo, um mundo diferente do mundo real, ofereceu-me uma nova maneira de olhar para o conhecimento e para a cultura. A literatura, desintegrando-me, unificou-me. Transformando-me, preparou-me para os desafios da realidade. Hoje, da mesma forma que Todorov, que defendia que outros sistemas simbólicos, que não o texto literário, podem abarcar os traços narrativos típicos da literatura, consigo ver muitas coisas através das lentes das grandes narrativas e poemas.

Sou leitor, mas também sou escritor. Conduzo tudo aquilo que é visível e, também, tudo aquilo que é secreto. Velo e desvelo. Para isso a literatura me serve, para dar voz aos meus mais altos silêncios, para me refletir um pouco nos outros em uma relação interpessoal transcendente e libertária. Sou aquele que sugere mais do que diz, ou aquele que diz o indizível, o grande capitão da nau desgovernada de mim mesmo e, portanto, sem freio e sem medo. Sou, antes e depois, aquele que conduz uma tripulação, mesmo que ainda mínima, a adentrar um mundo de seres atropelados por uma sociedade que extermina tudo que é essência. Por isso, leio e escrevo. Por isso, levanto e discuto. A literatura me tornou subjetivo, ambíguo e imensurável. A literatura me fez lembrar que possuo boca, pernas e mãos. Meus passos, hoje, dão voltas e mais voltas sobre a Terra. E tamanho poder é por conta dela, a literatura.


Imagem: https://www.deviantart.com/art/Untitled-701003332

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Histórias Curtas, de Rubem Fonseca


 

Impressões sobre o livro HISTÓRIAS CURTAS, de Rubem Fonseca.
José Rubem Fonseca (Juiz de Fora, 11 de maio de 1925) é um contista, romancista, ensaísta e roteirista brasileiro. É formado em Direito, tendo exercido várias atividades antes de dedicar-se inteiramente à literatura. Em 2003, venceu o Prémio Camões, o mais prestigiado galardão literário para a língua portuguesa.
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Amina Shah e a Literatura Árabe

*

Por Germano Xavier


“Nunca fuja de um leão”. Esta foi a frase que o príncipe Ádil inscreveu no chão de seu gabinete após conseguir vencer o medo e se casar com sua amada, a princesa Peri-Zade. Quando mais novo, Ádil fora colocado à prova por seu próprio pai, o rei Azad. Como primeiro substituto ao trono, Ádil precisaria provar sua bravura vencendo um feroz leão que habitava uma sombria caverna em seu reino.

A história intitulada “Príncipe Ádil e os leões” é apenas uma dentre as incontáveis narrativas populares que vagueiam milenarmente pelo mundo árabe através de suas sucessivas gerações de habitantes. A riqueza desses contos, míticos por natureza e fundadores de toda uma aura contingencial, é inconteste e, até hoje, séculos e séculos depois de seus afloramentos, ainda cativa leitores civilizações afora.

Desde os tempos mais antigos, os árabes estiveram interessados na arte de contar histórias. Alguns de seus contos têm um tom moral, outros são puramente voltados para o entretenimento. Alguns deles tiveram sua origem nos acampamentos dos povos nômades, à volta de fogueiras no deserto, antes que os árabes passassem a viver em cidades (SHAH, 1997, p.11).

A tradição de contar histórias definitivamente não é uma prática recente para os povos da Arábia, designação que, à altura do surgimento de tais narrativas, denominava o território que compreendia a totalidade dos locais onde se usava o árabe como língua padrão. A maior parte dessas lendárias contações surgiu no interior dos seios familiares e através de seus membros foram se perpetuando ad infinitum. Assim, tais narrativas acabaram por se tornar parte da vida de todos, logo ganhando ares de sagrado.

Na sexta-feira, que equivale para o muçulmano àquilo que é o domingo para os ocidentais, as pessoas frequentemente tem poucos afazeres depois de terem rezado nas mesquitas ou visitado a área comercial, transbordando de cores, de seus próprios bairros. Ocorre também que elas estejam, possivelmente, muito longe de casa, viajando por regiões desérticas, onde têm de criar o seu próprio entretenimento (SHAH, 1997, p.12).

A mitologia árabe é, desde a mais tenra ancestralidade, construída com base na força da voz das pessoas mais simples e guardada como uma de suas maiores heranças. Legado do mundo, as narrativas repletas de causos envolvendo príncipes e princesas, jins, reis e rainhas, tesouros escondidos e muitas referências religiosas, consagram no imaginário coletivo uma cor própria de se pintar palavras e, ao mesmo tempo, convidam ao encantamento e à beleza.

A literatura clássica árabe possui das melhores histórias que os homens conhecem, mas os contos narrados à luz do fogo, ou à luz das estrelas, ou à luz das modernas lâmpadas elétricas nos cafés de hoje, do Cairo a Cartum, da Andaluzia a Najd, todos eles mostram a marca do pensamento construtivo de muitas gerações. Esse costume de narrar histórias é uma arte viva, transmitida initerruptamente dos avôs a seus netos, que chega diretamente até os nossos próprios dias; desde o tempo de Saladin e de Harun Al Raschid, de Bagdá, até o momento em que você está lendo estas palavras (SHAH, 1997, p.14-15).


Referência: 
SHAH, Amina. Contos da Arábia: O camponês, o Rei e o Sheik. São Paulo: Kadyc Editorial, 1997.

* Imagem: http://natalialehmann.blogspot.com.br/2013/05/literatura-arabe.html

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

CIRANDA DE PÍFANOS EM DESCONCERTO, de Thiago Medeiros


 

THIAGO MEDEIROS é pernambucano de Caruaru. Escritor e produtor cultural, idealizador do Encontro Literário Letras Em Barro. Participou da Oficina Literária de Raimundo Carrero. Menção Honrosa no II Prêmio Pernambuco de Literatura, com a obra “Púrpura, Encarnado em Escarlate”, ainda não publicada. Escreve para não esquecer de si mesmo.
* O vídeo foi feito durante a Oficina Literária "Memória, Poesia e Cidade", produzida e ministrada por Thiago Medeiros, que aconteceu no dia 23/12/2019. BLOG: http://oequadordascoisas.blogspot.com/ FACE: https://www.facebook.com/germanovianaxavier INSTA: https://www.instagram.com/germanovianaxavier
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Cultura Pop e Caio Fernando Abreu: aberturas para o intratável



Por Germano Xavier



Em entrevista concedida ao doutor em letras pela PUC-RJ, Marcelo Secron Bessa, em 1995, o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu declara: “Acho que sou uma figura um pouco atípica na literatura brasileira (…) Na minha obra aparecem coisas que não são consideradas material digno, literário (…) Mas deve ser insuportável para a universidade brasileira, para a crítica brasileira assumir e lidar com um escritor que confessa, por exemplo, que o trabalho do Cazuza e da Rita Lee influenciou muito mais do que Graciliano Ramos. Isso deve ser insuportável. Você compreende? Isso não é literário. E eu gosto de incorporar o chulo, o não-literário.” Retrato de uma nova ordenação ideológica no mundo das letras e da cultura, de um caminho de inovações e renovações mais visivelmente trilhado a partir da década de 80:

“Desde a década de 1980 a arte pop se tornou um topus recorrente no reexame da ideologia da modernidade, este balanço a que a antevisão precoce do desfecho do século XX compelia, em face do recrudescimento do contencioso político, econômico e social que se acumulara no processo de exaustão de mais uma era de modernização” (SALZSTEIN, 2006).

A fala do escritor gaúcho reforça a existência de um mecanismo classificatório muito antigo. Estabelecer parâmetros para que a abordagem de determinados assuntos aconteça obedecendo-se a uma linha mais uniforme dentro dos diversos segmentos do conhecimento, sempre foi um dos preceitos da sabedoria humana e, porque não dizer, também um recurso demasiado polêmico. Com a cultura e a literatura não foi diferente. A partir do momento em que, dentro de seus respectivos universos, foram surgindo bifurcações, rotas com características diferenciadas entre si, fez-se inevitável a efetuação de uma classificação/nomeação de ordem sistemática, tendo como ponto de apoio os elementos basais que as norteiam.

É justamente dentro desse esforço estratégico e intelectual do homem que as nomenclaturas denominadas Cultura Pop e Literatura Pop foram forjadas, agregando-se a elas um novo padrão conceitual, com marcas e alicerces próprios. No caso do termo Cultura Pop, também chamada por alguns de Cultura Popular ou Cultura de Massa, a estrutura fundante dialoga, indubitavelmente, com o conceito de povo imiscuído às suas particularidades de ordem socioculturais extremamente ligadas à atualidade.

“Cumpre, portanto, admitir que o interesse dos anos 1980 pela pop continha uma centelha de revelação em meio a um punhado de mistificações ideológicas (não duvidemos de que a atitude essencialmente includente do novo circuito artístico internacional se exercia nos quadros de uma re-hierarquização de poder em nível mundial, segundo a qual centros de decisão estrategicamente difusos continuavam a regrar a forma e a qualidade do aparecimento dos “contextos periféricos” nos eventos e instituições desse circuito)” (SALZSTEIN, 2006).

Se “periférica” ou não, se mais ou menos relevante, é impossível tratar do tema sem se preocupar com as determinações que os centros de difusão midiáticos, em sua maioria indústrias culturais, que disseminam, através de périódicos, livros, revistas, cinema, televisão, música e etc, exercem sobre os novos e diversificados panoramas envolvendo comportamento e ação humanos. A interação que perpassa entre esses meios e as pessoas, aqui tratadas como consumidoras de cultura, dão liga à intencionalidades históricas e ajudam significativamente na elaboração de um entendimento mais eficaz de todo o processo.

“De fato, as novas massas que no curso dos decênios subsequentes acorreram à sucessão atordoante de eventos artísticos e às novas bienais inauguradas mundo afora demonstravam que o público da arte se havia alargado para muito além das antigas classes médias urbanas tangidas pela cultura universitária, e que o mercado de produtos culturais se internacionalizava descanonizando fronteiras de bem estabelecidos pólos hegemônicos” (SALZSTEIN, 2006).

A estética literária Pop, assim como a cultura Pop, faz parte de uma socialidade. Assim vistos, produtos culturais de toda ordem seriam poderosos elementos de interligação entre indivíduos. Dilemas existenciais, referências do e ao mundo Pop, conexão com as constantes variações do cotidiano geridas pela sociedade de consumo, temas essencialmente urbanos, representativos da explosão dos blogs e da informática, são também aspectos que conseguiram elevar a literatura dita Pop ao status de arte, sem que para isso tivesse de se igualar, de algum modo, aos modelos artísticos classificados como eruditos.

“Bastardia, vulgaridade e boêmia — essa fórmula moderna segundo a qual arte e cultura se contaminavam sem perderem suas jurisdições respectivas — eram a um só tempo o subproduto da esfera pública burguesa e o que propriamente pressupunha o poder normativo desta; eram o que lhe testemunhava a universalidade, mas que ao mesmo tempo recomendava que esta deveria ser sempre repactuada, na exata medida em que a transgressão persistiria flanqueando-a à meia luz,de maneira apenas suficiente para obter um reconhecimento tácito” (SALZSTEIN, 2006).

Nesse ínterim, percebe-se a germinação de um modelo literário que, apropriando-se de signos e mitos compartilhados pela sociedade de consumo – e por sua vez pela cultura de massa, iria efetuar um maquinário de dessacralização da arte e da cultura. Era o nascimento da Literatura Pop, auxiliada, no Brasil, pela “euforia do consumo cultural da década de 80” (PRYSTHON, 1993). Apresentando-se numa atmosfera de crítica, mesmo que disfarçada, representando singularmente o corpo e o erotismo, fundindo linguagens utilizadas por outras correntes, quase sempre aproveitando o caráter subversivo das mesmas, buscando o ímpeto contestador, assumindo posições sobre sexualidade e amor, interligadas às mudanças ocorridas no mundo nas últimas décadas, a Literatura Pop ganhou status e legitimou-se como uma verdade dentro do universo maior das letras.


domingo, 13 de dezembro de 2020

RECIFE EM TOM MENOR, de Bartyra Soares


 

Impressões sobre o livro RECIFE EM TOM MENOR, de Bartyra Soares, com fotografias de Marcus Prado.
* Bartira Soares é pernambucana de Catende, filha caçula do contista Pelópidas Soares. Mudou-se para o Recife em 1984. Seu primeiro poema, composto aos seis anos de idade, foi publicado no suplemento infantil do Diario de Pernambuco e seu primeiro livro, Enigma, foi publicado em 1976. Publicou mais nove livros entre 1980 e 2008, sendo sete de poesias e dois de contos, um deles editado com outros três contistas. Teve seus textos incluídos em dezenas de antologias, dentre as quais, Poésie du Brésil, publicada em Paris, França. Seus poemas já foram publicados em diversas revistas e jornais do Recife, centro-oeste, sudeste e sul do país. É membro da Academia Pernambucana de Letras. Como contista e poetisa já conquistou 14 prêmios literários. Tem duas obras ainda inéditas: Recife em tom menor (poesia) e Inexatidão do tempo (contos). Poésie du Brésil, seleção de Lourdes Sarmento, edição Vericuetos, como nº 13 da revista literária francesa Chemins Scabreux, Paris, setembro de 1997. Traduções de Lucilo Varejão, Maria Nilda Miranda Pessoa e outros.
* Marcus Prado é fotógrafo. BLOG: http://oequadordascoisas.blogspot.com/ FACE: https://www.facebook.com/germanovianaxavier INSTA: https://www.instagram.com/germanovianaxavier ISSUU: https://issuu.com/art_brazil
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Revista Visões - Materializando Ideias


 

Vídeo sobre a Revista Visões - Materializando Ideias, publicação produzida por estudantes do curso de Comunicação Social - Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) | Departamento de Ciências Humanas III (DCH III) | Campus Juazeiro-BA.
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terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Raduan Nassar, que amava tanto a literatura

*

Por Germano Xavier


Sempre que leio um texto escrito por Raduan Nassar me vem uma pergunta à cabeça: “O que terá feito esse homem das letras se “afastar” tanto assim da literatura?” Como é já sabido por todos, Nassar, que é descendente de libaneses e natural de Pindorama, cidade que fica no interior do estado de São Paulo, após escrever os livros LAVOURA ARCAICA, em 1975, e UM COPO DE CÓLERA, em 1978, decidiu “abandonar” a literatura para viver no campo, perto de suas raízes, ali por volta do ano de 1984. Além destes dois livros, conta-se dele apenas mais uma coletânea de contos, intitulada de MENINA A CAMINHO, criada em meados dos anos 60 do século passado e somente publicada no Brasil em meados dos anos 90 do mesmo século.

Junto com a pergunta supracitada, vem sempre uma outra, que pego emprestada de um ensaio escrito por Ivan Ângelo, intitulado de NÓS, QUE AMÁVAMOS TANTO A LITERATURA, parte integrante do livro BRASIL: O TRÂNSITO DA MEMÓRIA, organizado por Jorge Schwartz e Saul Sosnowski: “Sobre quê um escritor deve escrever?” ou “Sobre quê circunstâncias um escritor deve escrever?” Se repararmos bem, Nassar publicou suas duas principais obras no interregno temporal em que se deu a Ditadura Militar no Brasil. Ponto. Mas ele não escreveu sobre o que quis e no momento em que quis que fossem escritos os seus livros? Não foi feliz por isso? Teria Nassar deixado de escrever e de publicar pelo simples fato de lhe faltar um por que para isso? Nassar só escrevia porque sentia que, assim, estaria desobedecendo ao regime autoritário em vigência naqueles idos? Mas por que se distanciar, se um escritor escreve sobre o que quiser e quando quiser? Questionamentos, apenas questionamentos...

De acordo com Ângelo (1994, p.69), “alguns regimes autoritários procuram dizer aos escritores sobre o que eles devem escrever; outros preferem dizer aos escritores sobre o que eles não devem escrever”. Para o autor de A FESTA, no Brasil os militares optaram por dizer aos escritores o que eles não deveriam escrever. Então, isso quer dizer que tanto LAVOURA ARCAICA quanto UM COPO DE CÓLERA são obras que saíram a contragosto de seu autor? Duvido muito. Recentemente, Raduan Nassar discursou contra o até então iminente processo de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff num evento do governo, em uma de suas raras aparições públicas. Sinal claro que Nassar não é desses que se calam diante de movimentos opressivos e/ou de fenômenos repressivos contra quaisquer formas de liberdade de expressão.

Teria Nassar preferido o exílio em 1984 justo porque o Brasil se livrara da Ditadura Militar de uma vez por todas? Aquele momento de plena esperança no futuro do país seria a melhor hora de um escritor descansar? Ao contrapor os postulados da teoria da literatura induzida, que prega que “alguns livros são escritos conjuntamente pelo escritor e pelo leitor, isto é, pelo público, pela sociedade (ÂNGELO, 1994, p.69)” e, principalmente, por uma dada necessidade social, Nassar teria apontado para o desprezo total para com o texto literário? Duvido muito. Raduan Nassar, que tanto amava a literatura, simplesmente escolheu se recolher. E se alguém precisava tomar uma atitude, Nassar talvez tenha entendido, e já muito antes, que esse alguém não era ele, que sua literatura não carecia ser ou existir para meramente suprir a fome de alguns ou para ser contra algo ou a favor de. A literatura, pois, muitas vezes, é também a palavra que não se escreve, o verbo que não se oraliza, o sentimento que não se compartilha.

Sabedor dos regimentos que a patrulha ideológica imposta pela Ditadura Militar imprimia aos escritores e artistas em geral, Nassar haveria de escolher, calando-se, não ajudar a determinar o que os escritores deveriam escrever, quando os próprios escritores passaram a selecionar, num exacerbado jogo de cautela, o que deveria vir a público ou não, para que não sucumbissem nos instantes do “ao vivo” diante do “Big Brother” tupiniquim daquela época. Nassar certamente sabe que escrever sob indução é sempre muito perigoso. Porém, é possível fazer literatura sem ter um por que ou um para quê?

Decerto que o tempo e as circunstâncias em que se vive são perfeitamente e inteiramente capazes de interferir na produção de uma obra literária, mas afirmar veementemente que só há literatura se há indução para tal é melar tudo. O próprio período ditatorial nacional envergou a produção do livro mais famoso de Ivan Ângelo, assim como tantos outros que tomaram rumos total ou parcialmente diferentes do que previamente foram pensados por seus respectivos autores a partir da inclusão da obra em um dado contexto social e político de caráter caótico-transformador, seja para o bem ou para o mal.

Sobre A FESTA, Ângelo (1994, p.71) conta que

Foi um livro induzido, cobrado, pautado, porque a sociedade não tinha como se expressar e os livros eram um dos poucos espaços onde alguma coisa podia ser dita. Tudo o mais era fortemente censurado. Mas eu achei que isso poderia ser feito com domínio rigoroso do material, com controle absoluto do discurso político, com apoio único da eficiência na literatura mesma.

Como visto acima, a partir de muito esforço alguns autores conseguiam driblar a patrulha imposta pela censura, usando para isso de artimanhas as mais diversas. Todavia, isso não significava que o engajamento fosse símbolo máximo ou que fosse o caminho certeiro para a boa qualidade de uma obra ou para o estabelecimento do valor de um autor. A tomar o exemplo de Raduan Nassar, bem poderia ser dito que ele não quis se dar ao trabalho de se adaptar ao meio e que, por isso, preferiu enclausurar-se. Falácias e especulações postas de lado, mais lógico seria se se pensássemos que cada autor tem o seu tempo, que cada autor sofre suas mutações e que, em decorrência disso, também a sua palavra se modifica. E como para tudo há novos encaminhamentos...

No cenário da Ditadura Militar, ainda por falar dos escritores que vivenciaram o período,

O que resultou de bom foi que perdemos a inocência, a ingenuidade. Deixamos de ser política e artisticamente naifs e desenvolvemos um design mais contemporâneo. Não naquela época do “corre que lá vem os home”, mas já em torno dos anos 60, em plena abertura. Alguns autores de ficção compreenderam que o momento da abertura não deveria ser usado para tirar a camisa e exibir as feridas. O que eles fizeram foi apurar sua arte para se desvencilhar do passado, dos estilos, linguagens e temas do tipo pecezão, ou do tipo formalista. Buscaram uma estética não oprimida, não terceiro-mundista, para falar da opressão (ÂNGELO, 1994, p.72).

Em sua obra, Raduan Nassar, mesmo distante dos olhos dos leitores, como o próprio Ângelo (1994, p.73) cita, escolheu eliminar “as contradições entre os papéis políticos que as pessoas representam e sua verdade mais profunda”. Está aí o aprendizado, está aí o ensinamento. Ser escritor é fazer as lições que precisam ser feitas, custem elas o que custarem. E se for para sumir do mapa por um baita tempo, que seja para reforçar a todos o amor que se tem pela literatura mais viva e pulsante. Raduan Nassar, como muitos escritores e artistas em geral cujas trajetórias de fuga são por demais semelhantes, será para sempre um escritor a caminho, esteja onde e quando estiver.


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* Imagens: Google.
Referência

ANGELO, Ivan. Nós, que amávamos tanto a literatura. In: SOSNOWSKI, Saúl; SCHWARTZ, Jorge. (Org.). Brasil: o trânsito da memória. São Paulo: EDUSP, 1994.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

PAULATIM, de Paulo Gervais


 

Impressões sobre o livro PAULATIM, de Paulo Gervais.

* Paulo Gervais Lima Veloso, bacharel em Direito, poeta, professor e Tabelião em Garanhuns-PE, cidade onde nasceu. Ensaísta, é um dos fundadores do jornal literário U-Carbureto. É considerado pela crítica como poeta de destaque na cena lítero-cultural de Garanhuns e de Pernambuco.

* Robert Lee Frost (San Francisco, Califórnia, 26 de março de 1874 - 29 de janeiro de 1963) foi um dos mais importantes poetas dos Estados Unidos do século XX. Frost recebeu quatro prêmios Pulitzer.

* Tradução do poema A ESTRADA NÃO PERCORRIDA, DE ROBERT FROST: Henry Alfred Bugalho.