sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A cabeça de Nastércio



Por Germano Xavier


E foi então que o Nastércio percebeu que tinha uma cabeça grudada ao pescoço. E foi depois de tal percepção que ele viu que cabeças servem para suportar a gelatina do cérebro, e que cérebro é lugar de mente. E foi assim que o Nastércio soube que mente não é lugar de mentira, mas de pensamento. "Mas, como fazer funcionar algo que não funciona?", pensava. A mente de Nastércio não funcionava porque ele passou a vida toda pensando que em cima do pescoço o homem tinha mesmo era uma agricultura de cabelos. E ele estava certo: cabelos não servem para nadica de nada. Aí o Nastércio resolveu pegar a enxada e capinar a monocultura de sua cabeça. Nastércio era monocultural, só sabia saber, mas não sabia que sabia saber. E saber saber não quer dizer que se sabe alguma coisa. Por isso, o arejamento do campo capilar foi a melhor coisa que ele podia ter feito. Tirou, com a mão mesmo, todas as ervas daninhas de sua mente: primeiro a boina-máscara, depois eliminou os piolhos-dos-olhos e ademais, cortou tudo com tesoura de cortar e tacou fertilizante de fertilizar. Adubo novo de traseiro de vaca. E foi dito e feito. Não demorou muito para que fosse possível ver brotar do roçado da cabeça de Nastércio uma verdade atrás da outra. Porque, você sabe, depois da merda endurecida, só mesmo jogando muita água naquilo que é muda.


* Imagem: Google.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Antes de tudo

*
Por Germano Xavier


Nessas estradas sertanejas, tão nossas, fotografo mentalmente cenas de poética configuração. Tirando, quiçá, um pouco de beleza de onde outro olhar tiraria muita. Pode alguma outra alma estar mais próxima da beleza do que a minha. Esta, mais próxima da sombra e do caos, tenta enxergar com os teus olhos o nosso sertão, selvagem e doce. Vi uma serra despontando à nossa frente e logo pensei em como ela era bela, selvagem e sensual. Aquelas curvas de um marrom esverdeado, sinuosas entre a terra e o céu, só poderiam ser uma provocação. Como alguém pode ver ali somente uma serra? Vejo o povo tão ferido pelo destino, quase sempre em consequência da falta de capacidade e, principalmente, de honestidade políticas. Povo que é todo de generosidade, esperança e resignação. Povo doído que sorri. Apesar. Eis aí uma bela forma de resistência. O Sertão, esse pedaço inteiro de um Brasil peculiar, sempre me encantou e me assustou. O sertão poderia ter sido o meu túmulo. Em vida. E além. Mas eu me rebelei contra essa (pseudo) fatalidade quando ainda nem sabia o que era rebeldia. Venci. O sertão não me reteve, mas eu retive o sertão dentro de mim de modo que só em suas entranhas me sinto em casa. O Sertão é tão incompreendido por quem não habitou o seu útero quanto contraditório em sua diversidade de faces. A melhor, talvez a única palavra que mais se aproxime do mistério sempre inalcançável desse país de sorriso na cara e mão estendida, seja a palavra violência. Uma violência contínua e extrema que gera uma resistência incansável. E como estava enganado o jornalista da capital. O sertanejo é, antes de tudo, gente.


Imagem: http://www.deviantart.com/art/Night-in-the-desert-567297204

domingo, 18 de outubro de 2009

Sobre as quatro estações do jornal O EQUADOR DAS COISAS


Pela caminhada até aqui, pelos moinhos vencidos, por nós todos, pela literatura, pela arte, por você, Carolina Piva! Um presente meu e da Molotov Produções, na pessoa maravilhosa de Lisa Alves. Obrigado por existir-junto, por fazer parte-e-além e um infindo-desejo de vida longa ao nosso Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS!

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXXII)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Quinta-feira, 30 de Julho de 2015.
Escabiosa


La fleur: Scabiosa atropurpurea

allumée dans mon cœur
ta magique existence,
ma douce préoccupation.



* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Rural-Summer-Night-566377635

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXXI)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Quinta-feira, 20 de Agosto de 2015
Cansaço de amor


Un amour nonchalant

je voudrais une fin indolore
(te tuer subitement, définitivement
comme je fais, d’habitude
avec tant de gens),
mais aucune fin n’est possible
quand tu es dedans.

quand tu es là
il y a juste une envie de vouloir,
insane et sans motif,
un désir sans espoir,
un amour nonchalant.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Autumn-Seeds-566362914

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXX)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Quinta-feira, 27 de Agosto de 2015
As coisas são mais que seus nomes



Les choses valent plus que leurs noms

à quoi ça sert de conventionner
l’opposé de ce qu’on dit,
un sursaut dans le silence,
un appui derrière les murs
ou dans l’eau mobile du temps.

car l’indice donne le sens qui bascule,
et le symbole annonce la maladie vaine de la douleur.
et si souvent dans la vie l’attente nous annule
l’imprécis devient plus clair arrosé comme une fleur.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Out-of-Happy-Places-538886868

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXIX)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Quinta-feira, 17 de Setembro de 2015.
Para não esquecer de resistir


Je résiste, malgré l’oubli

Toi seule, tu sais que quelque chose est en train de bloquer les fenêtres. Tu sais que cette histoire de héros sans héros et sans une fin heureuse ne se terminera pas comme ça. Quelqu’un a du enfermer l’écrivain dans le cachot. Aucune issue heureuse ne pourra survenir en face d’un tel abîme. Toi, tu n’a pas autant d’imagination, pas vrai ? Tout ce que tu sais c’est que le supplice approche sa fin, ainsi que le plaisir, l’attente, le retard, la revanche. Les fins n’aboutissent jamais. Tous les trajets que nous n’osons pas faire sont des fins en soi-même. Ce sont des oublis de vivre.



Car toi tu sais que tomber est une bonne chose
et l’abîme est un lieu où l’on peut être feu.

Car toi tu sais que le fait d’exister
c’est comme une double naissance.

Car toi tu sais : c’est aujourd’hui
quand il faut aimer et se le dire.

Et tu sais aussi que le ciel
n’est pas que des nuages.

Et tu auras appris que les mots
sont le sang universel.

Et toi tu sais bien que le temps
n’est que l’esquisse de l’éternité.

Car toi tu sais que nous deux
nous avons trouvé des trésors.

Et tu sais aussi qu’un beau jour
tout sera couvert d’un vert-mousse.

Et tu n’ignores pas que le savoir
est un empire invisible.

Et tu sais sans aucun doute que partir
est le destin de tous les êtres.

Et tu es la seule à savoir
qu’une seule rue nous sépare de nos vides.

Car toi tu sais que rien ne se compare
au silence des eaux qui sommes nous…

Et qu’un jour ce silence
se fait d’amour :
d’un cri à deux.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Abandon-566239041

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXVIII)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Sábado, 01 de Agosto de 2015.
A douta espera


"Je ne suis pas surpris de me réveiller au milieu des eaux."
(Adolfo Bioy Casares)

La docte attente

revolté, l’amour, ce même amour
qui m’attriste et qui sort de l’eau
froide comme l’échec, ou en guerre d’amour
il est vainqueur, en jetant sur mon cœur la douleur funeste,
comme une protestation contre l’absurde,
ce même amour de la paix solitaire de nos corps,
insignes pas de l’ombre qui marche.

revolté, le néant de l’instant présent. aux feux de la rampe, l’amour qui vit
loin des manques réels et centenaires de mon âme.
ce même amour qui est parti avec le courant
en se pliant dans les fantaisies fautives.

et ce détail en nous: l’amour qui enfante,
imprécis comme l’hyperbole parfaite,
juste comme le début des rêves.

l’amour.

comme si à minuit nous désirions postuler
les vains buts des négations
ou les fantasmes de marbre du temps,
nous nous déplacerions alors sur des parallèles diffuses
accoudés aux bords maritimes des prisons.

vers la fin, la vie nous apprends le goût de la peste :
nous courrons vers l’entrée, c’est la docte attente.
l’amour, comme la mer, désobéit aux couchers-de-soleil.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Echo-City-566193486

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXVII)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Insustentável


Insoutenable

pour moi tu n’est pas une lecture ancienne,
[des piqûres, des morsures, des vertiges ou arythmies.
je lis tout (comme celui qui marche sur les braises
car il doit absolument rentrer chez lui)],
tu es éternelle, depuis toujours.

suis-je à la hauteur ? il me semble que non, avec toi
et parfois tu me dis que peux tout.

j’avale toutes tes lettres avec l’eau de l’amour.
je mange même les miettes tombées par terre
(alors que les trie, je les trouve et je les cache),
je m’invente des histoires (depuis toujours)
qui ne sont pas tombées par hasard de ta table littéraire

des lettres tombées, fuyant peut-être de ta poétique cuisinière,
je m’amuse à écrire des histoires dans le tableau des temps
qui vit encore. nous sommes proches et ça m’effraye.
ton absence m’effraye aussi (je suis un cris distant, une voix rauque).
j’habite l’espace entre nous deux, une fuite contradictoire
(c’est une fugue de toi vers toi), je vis entre tes ombres
et je porte le fardeau de ne rien être : le tout qui me soutien.
la légèreté du non-être est insoutenable.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Ascent-Errupt-Alegretto-566102060