quarta-feira, 27 de abril de 2016

Bhatia, gêneros e sequências textuais

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Por Germano Xavier


No texto intitulado de ANÁLISE DE GÊNEROS HOJE, presente no livro Gêneros e Sequências Textuais, de 2009, Vijay K. Bhatia esclarece, logo na introdução de seu trabalho, a discussão acerca do que atualmente se discute sobre a ampliação do interesse e das investigações de cunho científico acerca da análise de gênero, evidenciando o relevante alavancar da área sobre diversos nichos do saber em questão durante os últimos anos, processo que fez com que o gênero começasse a deixar restrições ultrapassadas de abordagem e ganhasse novos olhares, mais amplos e bem mais avançados.

Para tal, ainda de acordo com o supracitado autor do excerto, contribuíram o momento oportuno, a própria natureza multidisciplinar dos gêneros e sua facilidade expansiva enquanto bloco de conhecimento da língua. E é no desejo de revelar como se dá o processo teórico da análise de gêneros, dotando-nos dos encontros comuns existentes em suas configurações várias, que Bhatia desenvolve questionamentos importantes dentro da literatura atual, visando a aplicações e a contornos cotidianos.

Bhatia primeiramente conceitua o procedimento de análise de gêneros, identificando as ramificações prismáticas já praticantes e existentes, a citar as em termos de tipologias de ações retóricas, as norteadas por regularidades de processos sociais de vários níveis e orientadas para uma meta e as de abordagem de consistência de propósitos comunicativos.

Para fins de elucidação, o respectivo autor volta seu olhar para o prisma do gênero enquanto artigo intimamente ligado aos contextos comunicativos convencionados, o que, para ele, aprimora tendências de especialização, de restrição e de estabilização dos gêneros, reforçando novamente a conjectura conceitual dos fatores de recorrência de situações retóricas, de propósitos comunicativos compartilhados e de regularizações de organização estrutural.

Bhatia destaca em seu texto as características de versatilidade inerentes aos gêneros, operada em vários níveis, assim como, também, seu caráter de integridade genérica e de tendência à inovação. Para tal identificação, Bhatia salienta o papel do profissional experiente neste campo do saber linguístico, a fim de que se possa melhor observar, e com maior nitidez, todos os mecanismos de construção e de atuação/funcionalidade dos gêneros em quantidade expressiva.

Em outro ponto de questionamento, Bhatia indica como ponto de destaque no contexto atual de análise desempenhada hoje a mistura e a imbricação de gêneros. Para ele, há um constante embate nas fronteiras da ordem dos discursos e das práticas discursivas que ajudam a aglutinar conglomerados de gêneros com caracterizações um tanto quanto semelhantes, cuja denominação dada como de gêneros híbridos vem bem a calhar.

Tal exploração dos valores genéricos, em algumas situações, denunciam dadas evoluções dos gêneros. O que corrobora a ideia de que criatividade nunca foi artigo distante ao conceito de gênero. Por possuírem mais de um valor genérico, a maior parte dos gêneros possui uma tendência a uma imbricação e a uma posterior e consequente mistura. Sob a suspeita de que, em se tratando de gênero, a ideia de autoridade esteja atrelada ao social e não ao individual, Bhatia meio que promulga uma institucionalização das práticas discursivas seguindo esta corrente de contingenciamento.

Assim posto, os gêneros são socialmente autorizados diante de convenções, inserindo-se nas práticas discursivas de culturas disciplinares específicas. Ocorre que, para que a integridade genérica seja mantida, intervenções editoriais e revisão em pares podem se dar em alguns casos, o que fortalece ainda mais a ideia de que a comunidade discursiva que está atrelada ao gênero em questão tem papel fundamental na proposição de sua manutenção funcional e de uso.

O conhecimento compartilhado do gênero em uma determinada comunidade discursiva, para Bhatia, proporciona averiguar também o papel de relevância que o leitor tem no processo de análise dos gêneros. É a partir deles que o poder de um gênero pode ser computado em sua essência. As comunidades discursivas, assim como agem como molas propulsoras para a proliferação de gêneros mais adaptáveis às demandas sociais, também podem influenciar no cerceamento destes agentes, funcionando como censores, controlando e manipulando atitudes hegemônicas, fazendo com que várias particularidades ligadas à questão fiquem nubladas diante de tamanhas dominâncias. E, por fim, Bhatia recorda a figura essencial do professor de língua, a quem a aplicação de todas estas implicâncias deve ser tema contínuo em sala de aula.


REFERÊNCIA

BHATIA, V.K. Análise de gêneros hoje. Trad. Benedito Bezerra. In: BEZERRA, B. G.; CAVALCANTI, M. M.; BIASI-RODRIGUES, B. (orgs.) Gêneros e Sequências textuais. Recife: Edupe, 2009, p. 159-195.

Imagem: Google

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