sábado, 10 de junho de 2023

Toda vez


 

Por Germano Xavier


toda vez

que invado 

a tua bunda


que é Templo

feito o mar


toda vez 

que nela entro

venço o Tempo


algo que sempre me pareceu

impossível


* Imagem: https://pixabay.com/pt/photos/er%C3%B3tico-gl%C3%BAteos-molhado-nua-3139549/

quinta-feira, 8 de junho de 2023

MARÇO - MÊS DAS MULHERES | Indicações de leitura, por Cristina Seixas


 

Neste vídeo, a professora e artista visual angolana Cristina Seixas fala sobre os livros MULHERES DE MINHA ALMA, da escritora chilena Isabel Allende, e MARÇO ENTRE MERIDIANOS, da escritora luso-angolana Luísa Fresta. Fique atento!

#mulheresdeminhaalma #isabelallende #marçoentremeridianos #luísafresta #romance #canalliterário #oequadordascoisas

sábado, 3 de junho de 2023

A voz de Anna Akmátova


 Por Germano Xavier

As emoções da razão.


Sim, os russos também sofrem. Os russos também confessam suas dores, seus amargores, seus dissabores. Os russos, apesar da sisudez e do aspecto aparentemente indiferente às coisas do coração e da alma, também comem do pão que o diabo amassa, diariamente, nos quatro cantos da Terra. Os russos, por fim, também sentem felicidade. E a literatura, mais uma vez funcionando como poço de guardações, opera um de seus papéis primordiais: revelar um tempo determinado, dotado de pormenores sígnicos, ou um mundo de símbolos, mesmo que a partir dos sentires de uma só pessoa, de um só poeta, de um só escritor.

Anna Andrêievna Gorienko, nascida em 23 de junho de 1889, adotou o nome Anna Akhmátova e com ele fez registrar uma das passagens mais belíssimas da poesia russa moderna. De opiniões fortes e de atitudes tidas como ameaçadoras para a época, Akhmátova desempenhou papel fundante para a consolidação da voz feminina na Rússia pós-revolução de 1917. Vivendo num tempo marcado pela opressão dos vários modos de expressão humana, a poeta de “soberana presença, nariz aquilino e lábios altivos” – como gostava de dizer - não se deixou corromper pela gratuidade das fraquezas e das rendições da rotina.

Mesmo sofrendo durante toda a sua vida males diversos, muitos de base emocional, a poeta abotoou seu casaco, saiu à rua e fez frente ao frio das horas. Anna não copiou modelos poéticos para criar sua lírica, não imitou suas precedentes russas para germinar seu discurso de luta pela classe feminina, não precisou se ancorar em cânones para aparecer diante de seus leitores. Ela simplesmente deu origem a um novo modo de fazer poesia, agora mais intimista, sem deixar de prezar pelo despojado de recepção rápida. Linguagem clara, versos desrimados, ausência de metáforas, temáticas do cotidiano, ritmo aberto e alígero são algumas das características gerais presente em toda a obra da artista.

Os poemas de “Noite” (Viétcher), seu primeiro livro, destacam-se por serem responsáveis pela elaboração de uma fase inicial muito mais baseada na consciência crítica da autora frente a sua própria vida e aos acontecimentos que, por um ou mais motivos, chegaram a interferir no curso normal de suas respectivas vivências. O apreço à reflexão sobre si mesma indica uma maturação da mulher enquanto ser de ação, que agora não só pensa o pensar, mas também pensa o agir do pensamento, ou seja, a sua atuação no meio em que se vive.

Apesar de se apresentar com uma carga muito grande de intimismos – o que pode ser confundido com uma espécie de fraqueza sentimental -, “Noite” encerra uma idéia generalizada sobre as transformações envolvendo mulher e sociedade, a partir do momento em que fica presente a participação desta voz feminil na tomada de decisões que o cotidiano lhe implica, seja ele familiar ou social. Uma mulher que sente as dores de um matrimônio mal resolvido e que tem no sarcasmo e na ironia prováveis armas para combater o mal que lhe assola são os caminhos mais utilizados pela artista, que também explora os espaços do vazio, do arrependimento e da frustração.

“Rosário” (Tchiôtcki), seu segundo livro, diferente do primeiro, já deixa mais evidente uma voz humana mais consciente de si mesma e do outro, mais centrada nos efeitos dos problemas vividos que perdida na visão do que deles poderiam vir a suceder ou suas causas. Em versejos simples e velozes, Anna vai se permitindo conhecer perante o seu leitor, como em: “... componho versos bem alegres sobre a vida caduca, caduca e belíssima”. Uma vida lhe atormenta, e esta vida faz-se necessária estar exposta, não para o usufruto da lírica da poeta, mas para o aprendizado da alma de um tempo pelos olhos alheios. Há uma espécie de desenvolvimento dos temas que foram matéria basal para seu livro inaugural, com apelos agora mais voltados à paciência e ao agir tolerante, sem o abandono de sua marca rebelde, contrastante da maioria, que reluta, indiferente às tiranias.

Anna Akhmátova escreveu mais de uma dezena de livros em vida, e muitas antologias de sua obra já foram organizadas e publicadas em diversos países. Entre os títulos, estão Revoada Branca, Tanchagem, Anno Domini MCMXXI, Junco, Réquiem: um ciclo de poemas, Sétimo Livro, Poemas Não-Coligidos e sua obra-prima Poema sem Herói. Deixou a certeza de que a palavra é um instrumento eficazmente feroz quando objetiva limpar as frestas de um tempo feito para se esquecer lembrando.

sexta-feira, 2 de junho de 2023

FLÁVIA E O BOLO DE CHOCOLATE, de Miriam Leitão


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro FLÁVIA E O BOLO DE CHOCOLATE, da escritora Míriam Leitão. Ilustrações de Bruna Assis Brasil. Fique atento!

#fláviaeobolodechocolate #míriamleitão #brunaassisbrasil #canalliterário #oequadordascoisas

sábado, 20 de maio de 2023

“SIGAMOS, BUCANEIROS!” – a história de uma parceria com Germano Xavier


 

14 dezenas de textos

partilhados n’O Gazzeta,

ao longo de 10 anos

 

Tomei contacto com o blog pessoal de Germano Xavier, O Equador das Coisas, em 2013. Não imaginava então a firme parceria que daí nasceria e se iria consolidar, semana após semana, através do blog coletivo O Gazzeta. Hoje, volvidos 10 anos, festejamos entusiasticamente com os leitores e todos os companheiros que publicam neste espaço.

Na altura dava eu os primeiros passos no mundo da escrita, sobretudo na imprensa. Começava a levar-me um pouco mais a sério, quero dizer, pois cultivo o hábito de escrever desde criança, mas de uma forma episódica e descomprometida. Nessa altura, em 2013, pensei em participar em projetos literários em vários países lusófonos, para além das minhas duas mátrias: Angola e Portugal.

Se, por um lado, existem afinidades naturais com outros países dos PALOP[1], por partilharmos língua, aspetos históricos e culturais, por outro lado há uma ligação forte ao Brasil, país ao qual nos unem igualmente laços seculares e que para mim sempre foi uma referência em termos de literatura.

Já o mencionei noutros contextos, mas relembro aqui que durante a minha infância e adolescência, mesmo não tendo muitas vezes água, eletricidade nem acesso a bens de primeira necessidade, por causa da guerra, em Angola, tínhamos livros de bolso, entre os quais se contavam obras de Jorge Amado, Érico Veríssimo ou José Mauro de Vasconcelos. Essas obras são parte da minha identidade como leitora.




Assim, foi em 2013 que Germano Xavier me abriu as portas da sua casa literária, O Gazzeta, uma vez que O Equador das Coisas era um blog pessoal que eu continuo, aliás, a seguir com o maior interesse, dada a sua qualidade e multiplicidade de temas.

Não nos conhecíamos, mas a reação foi muito calorosa, de tal maneira que não me senti escrutinada nem censurada e comecei a enviar-lhe regularmente alguns textinhos, mesmo com fragilidades, que ele aceitou de coração aberto. Sobre livros, cinema, pintura, música, algumas criações próprias também (ficção), em prosa. Assim nasceram, nomeadamente, as séries dedicadas ao cinema africano, ao cinema lusófono, contos-crónicas agrupados com a designação genérica de Memórias Inventadas e Ficha de Leitura (resenhas), a mais recente das séries, sendo que todas estão ainda em aberto, principalmente esta última.

Percebi depois que Germano é o tipo de pessoa que ensina sobretudo pelo exemplo. Professor, escritor e jornalista, de um dinamismo singular, tornou-se ao longo do tempo num parceiro literário inestimável. Mostrou-se um colega experiente e original, sem medo de arriscar, porém prudente e sensato, coerente e persistente. Com o tempo tornou-se um amigo ímpar, mais novo na idade e mais velho no saber, capitão de uma frota de navios: não sei, sinceramente, como consegue capitaneá-los com tanto equilíbrio, segurança e destreza.

Sinto-me orgulhosa por estar incluída em várias iniciativas com a sua assinatura. Neste caso, falando de O Gazzeta, o motivo da celebração é o facto de contar agora com cento e quarenta textos meus no blog, prova de grande generosidade do seu fundador, que abriu o espaço inicialmente dedicado à Chapada Diamantina a outras regiões e países, estimulando a diversidade de estilos, saberes, assuntos e pontos de vista.

O mais recente texto (meu) no blog, até ao momento, é uma resenha de “Vidas Seguintes”, de Abdulrazak Gurnah (Ficha de Leitura). O primeiro é “O mundo de Vinicius”, editado a 25 de novembro de 2013, que marcou o início desta longa e feliz colaboração.




Pelo meio temos desenvolvido outras experiências literárias singulares. Atrevi-me a traduzir algumas séries de poemas de Germano para francês (As árvores amorosas, O homem encurralado, As coisas minhas de Sophia e finalmente Trompetes para Ennio, entre outros textos poéticos sem etiqueta). São traduções não revistas que resultam apenas da forte vontade de tentar outra orquestração para poemas fundamentalmente belos e densos, joias únicas que me inspiram particularmente. Criámos também um projeto que se alimentou do quotidiano: Entre Mares e Marés, Conversas Epistolares: uma troca de missivas que durou cinco anos, entre dois personagens (Clara e Viana, nossos outros antropónimos) e que nos representam, a mim e Germano; cartas magnificamente ilustradas pela Cristina Seixas, desenhadora/ilustradora ligada à corrente Urban Sketchers e professora luso-angolana, que agora é também parceira no blog e no canal do Youtube O Equador das Coisas. A primeira carta data de 24 de abril de 2015 (Germano concedeu-me o pontapé de saída!). E começa assim:

“(…) Viana?

Sei que ficarás surpreendido com este primeiro recado. Nem ouso chamar-lhe carta. Sabes, a bem dizer, não escrevo uma desde os anos 80. Apenas notas, palavras dispersas, ideias caóticas amarradas à força umas às outras, letras ao vento. Mas não uma carta no sentido de relatar minudências, trivialidades, falar de coisas que só para mim têm algum relevo e que talvez te despertem também a atenção. Tu tens olhos de ver e não te ficas pela superfície. (…)”

Tenho ainda que referir que Germano apresentou um livro meu de poesia (Março entre Meridianos) aquando do lançamento da edição lisboeta, em julho de 2019, junto com os poetas Manuel Iris (mexicano e americano) e Cíntia Gonçalves (angolana).

E como foi isso possível, uma vez que nenhum dos três vive em Lisboa? Resolvemos o “problema” de forma prática: esses textos foram lidos no local pela Carol (minha filha), pela Maria Fernanda Silva (poeta portuguesa) e pelo amigo Olímpio Neves, com o seu bonito timbre de rádio.

Para mim foi importante ter todas essas pessoas que tanto estimo e respeito à minha volta, os autores dos textos e quem lhes deu voz. E também uma oportunidade para consolidar a aventura literária com Germano, que ao longo destes anos tem apresentado diversos textos críticos e vídeos com a sua leitura do meu trabalho.

Após sete anos de convivência e troca de experiências tivemos a oportunidade de nos conhecermos pessoalmente e de estreitar laços com os respetivos familiares. É um privilégio dado a poucos, um presente da vida.




Nos últimos anos tive ainda a alegria de traduzir para francês os seus livros de poesia O Homem Encurralado e Esplanada do Tempo, ambos com a selo da Penalux, a circular no Brasil na forma de edições bilingues (português-francês) em diversas plataformas. Foi um presente maravilhoso que me concedeu o poeta e que não me canso de agradecer. Estes dois livros, que integram a trilogia do Centauro, uniram-nos também aos poetas Regina Correia e Luís Oseth Carvalho, cujos textos abraçam as duas obras de um modo singular.

Para terminar, agradeço calorosamente, não apenas a Germano Xavier, pela abertura e ensinamentos, pela tolerância, mas também a todos os companheiros/as e amigos/as que fiz ao longo destes anos através de O Gazzeta, aos colegas redatores, oriundos das mais diversas áreas. Os vossos textos e vídeos são fonte de aprendizagem e também de bem-estar. Aprender pode e deve ser prazeroso e divertido.

E também, necessariamente, a quem nos lê, apoia, vê e escuta, com paciência, curiosidade e mente aberta, no blog e no canal.

Espero ter ocasião de contribuir durante mais dez anos, pelo menos, com a mesma alegria e energia, junto de companheiros de jornada e amigos tão brilhantes quanto surpreendentes, na sua humanidade e pluralidade cultural e geográfica.

 

Luísa Fresta

Queluz, 18 de maio de 2023

 

Nota: este texto é uma adaptação do artigo escrito a 9 de outubro de 2020, para assinalar cem textos meus no blog O Gazzeta.



[1] Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.

Imagens: Acervo pessoal de Luísa Fresta.

domingo, 7 de maio de 2023

SOL DE INFÂNCIA - MEMÓRIAS DAS MACIAS MANHÃS SOLARES, de Carlota de Barros


 

Neste vídeo, a escritora luso-angolana Luísa Fresta fala sobre o livro SOL DE INFÂNCIA - MEMÓRIAS DAS MACIAS MANHÃS SOLARES, da escritora Carlota de Barros. Fique atento!

#soldeinfância #carlotadebarros #romance #canalliterário #oequadordascoisas

terça-feira, 2 de maio de 2023

Os bichos somos todos nós

Imagem: Google
Por Germano Xavier

“(…) Doze vozes gritavam, cheias de ódio, e eram todos iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir, quem era homem, quem era porco.”
(Último parágrafo de A REVOLUÇÃO DOS BICHOS, de George Orwell)

Qual é mesmo a natureza dessa nossa vida se eu sou um ser humano?

Eu sou, sim, um ser humano. Eu sou um ser porco também. Eu sou um ser cachorro. Eu sou um ser cavalo, aliás. Eu sou um ser corvo, vez em quando. Eu sou todos os seres bichos possíveis e não sou diferente de você, que lê este texto agora. Somos aquilo de que participamos e aquilo de que não participamos, aquilo de que compartilhamos e aquilo de que não compartilhamos, aquilo de que protestamos e aquilo de que deixamos de protestar, aquilo que dissemos e mais ainda aquilo que não saiu de nossas bocas. Somos e ao mesmo tempo não somos, enfim, bichos.

Utilizando-se da imagética confabulatória de uma fazenda, repleta de animais diversos e de situações também as mais variadas possíveis, o escritor Eric Arthur Blair, ou simplesmente George Orwell, dirige-se ao leitor com uma sanha mordaz por reflexão acerca do comportamento humano de todos os tempos, e principalmente a tocar sobremaneira em algumas passagens históricas importantes ao mundo, tal como a Revolução Russa, fator que serviu de alvo para a obra.

A REVOLUÇÃO DOS BICHOS pode ser considerada uma fábula, não como as que o grego Esopo e o francês La Fontaine escreviam, sem dúvida, mas uma fábula mais longa, onde o desejo de um porco por criar uma granja gerida somente por animais, e que estivesse bem distante de qualquer espécie de exploração humana, termina por elaborar uma concepção vital moderna e tida como revolucionária, fato que provoca uma mudança total no modo como a categoria dos bichos lidavam com suas próprias existências.

A moral da história já nos é bem conhecida, ou nem tanto. De uma "revolução" para a gestão de um sistema de governo baseado na tirania é apenas um pulo, e justamente o que acontece no decorrer da trama de Orwell. O poder existe para ser apoderado. Alguém ou algo o exerce perante o outro. Com alguém à frente dos outros a liderar os passos e a caminhada de uma coletividade, a voz imperativa de quem ordena logo se transforma na voz que oprime uma massa de meros ouvintes, de agentes sem-ação, partícipes de uma miserável e indefinível desgraça que mais atinge os que estão por baixo.

Tendo como pano de fundo a Revolução Russa, a historieta deixa claro o ideário de que “todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros”. Posto que sim, sempre existem os com privilégios. E os devotos. Quem não se lembra dos cavalos no livro AS VIAGENS DE GULLIVER, de Jonathan Swift, que tal qual o personagem Sansão, possuía caracteres de abnegação e devoção demasiado destacados? O livro de Orwell satiriza a facilidade humana de nos desfigurarmos moralmente, esquecendo-nos de máximas éticas e racionais em prol de uma conduta totalmente arbitrária, ligada essencialmente ao momento.

A classe operária inglesa dos anos 1930 passava por dificuldades sociais e econômicas. Eis o leitmotiv. A alegoria de Orwell pincela o processo evolutivo da Granja do Solar, nome da granja onde ficavam os bichos antes da "tomada de poder", que vai de um sonho socialista a um pesadelo ditatorial em cerca de cem páginas.

Garganta, Mimosa, Moisés, Major, Napoleão, Sansão, Bola de Neve, Benjamim e Quitéria são os personagens de um livro que fala sobre a busca por liberdade. O homem, para todos eles, era visto como um agente inimigo e por isso deveria ser extirpado. Para isso, os porcos liderariam o movimento, pois eram tidos como os mais inteligentes. Criaram um sistema de pensamento, ao qual chamaram de Animalismo. 7 mandamentos regeriam a turma inteira.

Todavia, o senso de democracia é maculado aos poucos, sempre no desígnio de favorecer os mais "poderosos". Alguma semelhança com a realidade não é mera coincidência, aviso. O discurso é mudado, os rostos também se transformam. Não se sabe mais a quem os bichos serviam e por que lutar. O líderes, antes iguais aos demais, começam a se diferenciar e a ostentar suas regalias sem fazer nenhuma cerimônia até os estados de alma serem sufocados de uma vez por todas pela insegurança. A REVOLUÇÃO DOS BICHOS é um livro fundamental para entender o homem e as circunstâncias que o perfazem. Eu não passaria a vida inteira sem lê-lo se fosse você.

domingo, 30 de abril de 2023

A IMENSIDÃO ÍNTIMA DOS CARNEIROS, de Marcelo Maluf


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro A IMENSIDÃO ÍNTIMA DOS CARNEIROS, do escritor Marcelo Maluf. Fique atento!

#aimensidãoíntimadoscarneiros #marcelomaluf #romance #canalliterário #oequadordascoisas

domingo, 2 de abril de 2023

1968 – Um ano que eu queria ter vivido


Por Germano Xavier

Qual a diferença entre uma história escrita por alguém que realmente viveu a história que foi narrada em seu livro e uma história escrita por alguém que não viveu na pele a respectiva história que é narrada por suas mãos? Há quem diga que não há diferença alguma, que existem meios de o escritor desviar-se de possíveis entraves referentes a tal imbróglio, já outros argumentarão de mil formas diversas apoiando a ideia de que fazer parte literalmente do que é contado no enredo dá a obra um caráter mais denso e aumenta a sua credibilidade enquanto fonte de informação. Roberto Piva, poeta marginal paulista, tem uma frase que pode resumir o pensamento de muitos. Dizia ele que só acreditava “em poeta experimental que tenha vida experimental”. Apesar de não lhe cair bem a alcunha de poeta, o jornalista Zuenir Ventura, autor do clássico 1968 – O ano que não terminou, viu-se impregnado de nódoas oriundas de sua própria realidade quando decidiu escrever o supracitado livro.

1968 – O ano que não terminou é um livro-reportagem, gênero que consagrou os fundadores do New Journalism norte-americano em meados do século XX e que depois se espalharia pelo mundo revolucionando a maneira de se escrever para periódicos e afins. E por pertencer a este padrão, conseguiu dar conta de revelar, com uma sensação de veracidade muito amplificada, boa parte dos acontecimentos que marcariam de uma vez por todas o cenário político-social do Brasil pós-golpe militar até anos após o decreto do Ato Institucional Nº 5 (AI-5), que promoveu a censura no país, entre tantos outros desmandos de irracionalidade social-administrativa.

O autor, estudante e militante naquela época, narra com detalhes desde a festa de réveillon na casa de Heloísa Buarque de Hollanda, composta de muitos intelectuais brasileiros, até o fim do ano de 1968, marco de um sentimento de rebelião e desregramento não só nacional, mas mundial, haja vista o nunca esquecido Maio de 68 francês, esboçando também algumas consequências após algumas décadas vividas sob o regime ditatorial. Esta festa seria, como diz o título do capítulo, uma espécie de rito de passagem para o formigamento das expressões humanas e também para o surgimento de uma efervescente juventude disposta a lutar até as últimas consequências a favor de ideias que acreditavam ser relevantes para o progresso da nação.

Parece, ao ler o texto, que o mundo para o povo brasileiro havia sido descoberto justamente naquele ano. O consumo de drogas explodiria em diversos setores da sociedade. As pessoas mudariam quase que totalmente o jeito de se vestir, de concatenar com ideologias reformuladas acerca das relações interpessoais, o mundo, i.e., o povo brasileiro arregimentaria uma condição nunca vista no tocante ao tema liberdade. A música viria a se tornar uma arma contra os mandos e desmandos das autoridades e das máquinas abstratas do poder, com o começo do movimento Tropicalista.

Tudo era ou podia ser ferramenta para construção, instrução e formação humana. O Cinema Novo vingava, fortalecido pelo sucesso dos filmes de Glauber Rocha & Cia, os partidos políticos de esquerda e as organizações clandestinas pintavam os muros com cores de discussões intermináveis, as organizações estudantis eclodiam em congressos e mais congressos, lideranças políticas e artísticas entravam em ebulição e o debate massivo acerca do Brasil militar não arrefecia fácil. Tempos de paixão, pressa, afobamentos e verdades que, senão outra coisa, revelavam ao povo que, unido, ele tinha vez e voz.

Entre as passagens mais marcantes do livro, estão a organização sem organização do movimento que viria a ser conhecido como Passeata dos Cem Mil e a preparação para a votação do AI-5. Lições que Zuenir Ventura nos presenteia com maestria típica de quem fez da própria vida um caderno rabiscado de pautas jornalísticas.

Tomando o assunto para os nossos tempos, o livro ganha ainda mais relevância, apesar de há muito já não ser uma novidade nos meios livrescos, pois constantemente nos deparamos com situações de embate político-ideológico entre diferentes camadas das sociedades, a citar o exemplo do último choque entre estudantes da Universidade de São Paulo (USP) e o Estado, na figura da polícia.

Livros como este ajudam a entendermos melhor o porquê da mecânica humano-social do agora, pois serve de manual para sabermos o que houve de bom e de ruim num passado próximo, ou seja, o que pode ser imitado ou melhorado e aquilo que jamais pode voltar a acontecer. 1968 – O ano que não terminou é uma aula de jornalismo para eternos estudantes do jornalismo que, como eu, interessam-se em aprimorar todas as suas técnicas e, também, um registro de civilidade e respeito ao próximo (neste caso, o próximo somos nós, geração esta e outras do porvir), por nos abrir os olhos da história de um país que incrivelmente e quase que inexplicavelmente existiu um dia.

quarta-feira, 29 de março de 2023

PRETINHA, EU?, de Júlio Emílio Braz


 

Neste vídeo, o professor e escritor Stenio Erson fala sobre o livro PRETINHA, EU?, do escritor Júlio Emílio Braz. Fique atento! #pretinhaeu #julioemiliobraz #romance #canalliterário #oequadordascoisas

sábado, 18 de março de 2023

Lados opostos


 

Por Germano Xavier

@germanovianaxavier


comemoram a vida

seguem a direção do paraíso

e eu me firmo


sujam seus uniformes

maculam suas peles

e eu aprendo a viver


masturbam-se com ilusões ordinárias

e eu espero o Tempo


drogam-se

e eu escuto


desfilam trajes de falsidade

em sorrisos dados pelos cantos

e eu mostro meus dentes


cospem amizades fundamentais

e eu sou o mundo perdido


matam por dinheiro

e eu festejo o fracasso de todos vocês


meu lado é oposto

e assim me contento



* Baseado em poema homônimo escrito em 18/07/2002.

Imagem: Google

sábado, 4 de março de 2023

CIDADE FINADA, de Thiago Medeiros


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro CIDADE FINADA, do escritor pernambucano Thiago Medeiros. Fique atento! #cidadefinada #thiagomedeiros #poesia #canalliterário #oequadordascoisas

quinta-feira, 2 de março de 2023

A poesia do ascensorista

*
Por Germano Xavier

Literatura é um engajar-se, Sartre vociferava. Convenhamos: há algo de verdadeiro nisso. Mas até quando seria possível manter o punho da voz firme ao sentir que “o fracasso é que a língua perde/ritmo”, como escreve o Gabriel Resende Santos, nascido num Rio de Janeiro em maio de 1994. E se o ritmo está alquebrado, a vida inteira se desmonta. Destarte, acreditar em Rimbaud e Whitman pode ser mesmo uma solução. O menino que questiona “quantos minutos tem a pétala”, é o mesmo que não conta segredos para nenhuma fúria e que sabe que todo “entendimento é um jogo de morte”.

A poesia presente em ELEVADOR tem o corpo sem acomodação, a alma sem afetações e gasta seu tempo e seu espaço tentando gritar alguma coisa no meio deste mundo de inaudíveis - habitado por um gentio estranho, muito estranho. Por tentar tal feito, já deixa a simplicidade de ser mera anotação em papel barato e ganha o status daquelas decididas palavras que nos emocionam por ou em determinado momento de nossas vidas. A poesia do garoto sobe e desce, eleva-se e se revela, releva e desvela a pessoa entrada no cubículo dos sentidos.

O efeito poético que se vê na respectiva obra brota de um ritmo aparentemente sólido e por demais amarrado. O autor trabalha o poema, não parece ser um amontoado de versos sem passado. Há sim um dito com elementos simples e modificações de forma um tanto já corriqueiras neste universo, mas talhada como escultura por mãos de quem realmente emprestou sofrimento à palavra. Como pregavam os gregos, o texto poético é aquele que cria alguma coisa, indefinida, mas alguma coisa. Eis a mais simplória definição da poiesis, conceito ao qual Gabriel se enamora em ELEVADOR.

Como não existe uma definição perfeita para a boa ou para a má poesia, os aspectos essenciais de uma obra ficam mesmo nas garras dos olhos-tempo do leitor, ser quase sempre ensimesmado que irá confrontar as estrofes lidas enquanto complementa o vago possível dos eixos em verbo com a ideia mais precisa do instante. A poesia de ELEVADOR acredita na grande beleza plástica que a palavra pode exprimir, mas não se deixa morrer neste detalhe.

Fala-se muito em mistério quando o ser enunciado é a poesia. Dá-se margem a rios de águas que correm por este mundo. Emoção demais, dizem, pode nublar a vista real das notáveis importâncias. Todavia, escrever é um passo para se sair dos labirintos – ou para se adentrar ainda mais por eles. E escrever poesia num mundo tão surdo-mudo quanto este em que vivemos soa como uma necessidade digna de aplausos. Portanto, uma salva de palmas para o ascensorista.


* Imagem:  http://www.evento.br.com/eventos-arquivo/382263/lancamento-do-livro-elevador-poemas-de-gabriel-resende-santos

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

CULTURA POP E CAIO FERNANDO ABREU


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre a relação existente entre o escritor Caio Fernando Abreu e a Literatura Pop. Fique atento!

#literaturapop #caiofernandoabreu #culturapop #canalliterário #oequadordascoisas

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Sobre o Pinóquio de Guillermo del Toro e de Mark Gustafson


 

Em poucas palavras:

O Pínóquio de Guillermo del Toro e de Mark Gustafson, feito de madeira tal qual o menino de madeira originalmente imaginado por Carlo Collodi, tem mais coração que muitos corações humanos. Não tem erro. Um filme extremamente lindo.


Imagem: https://ims.com.br/filme/pinoquio/

sábado, 11 de fevereiro de 2023

O ALIENISTA em cordel, de Machado de Assis (Adaptação de Rouxinol do Rinaré)


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro O ALIENISTA (em cordel), de Machado de Assis (Adaptação de Rouxinol do Rinaré). Fique atento! #oalienista #machadodeassis #rouxinoldorinaré #canalliterário #oequadordascoisas

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Planos e altiplanos


 

Por Germano Xavier

@germanovianaxavier


não estou indo a lugar algum,

conheço bem o aqui e o agora.

não há moldura em meu destino

e tudo à minha volta é paisagem, presença

e passagem. dou passagem.

 

não posso me atirar ao impossível que sei

que não dou conta. baixo a cabeça e sou todo o chão,

o meu chão, aquele que me guia. sou do afastar-me.

de imediato.

quando não entendo, não habito.

mesmo que tarde demais.


Imagem: Pixabay

domingo, 29 de janeiro de 2023

PASSEIO PELAS RUAS DE MIM (E DE OUTROS), de Mailson Furtado


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro "Passeio pelas ruas de mim (e de outros)", do poeta Mailson Furtado. Fique atento!

#passeiopelasruasdemim #mailsonfurtado #poesia #canalliterário #oequadordascoisas

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Bolsonaro é fascista?


 Por Germano Xavier

@germanovianaxavier


Acho que muitos de vocês já ouviram falar no Henry Bugalho. Li recentemente um ensaio rápido dele, intitulado de BOLSONARO E O FASCISMO. Creio que faz parte de uma série de textos chamada de LEITURAS RÁPIDAS e que é disponibilizada de forma gratuita para leitura via aparelho Kindle. O texto é de caráter didático, filosófico, bem fácil de se ler e bastante esclarecedor, sem deixar de ser crítico. O autor inicia seu percurso narrativo tentando explicar as origens do termo “fascista”. Para isso, retoma preceitos estabelecidos em textos produzidos por George Orwell, entre outros nomes fortes do pensamento mundial.

Há também a preocupação em situar o brotamento e a expansão do uso do termo “fascista” no seio da sociedade brasileira. "Esse uso irrestrito serviu para esvaziar e empobrecer o debate, e mais confunde do que esclarece. Um dos dilemas decorrentes disso é justamente a ideia de que, ao se munir de maneira incorreta e exagerada de um termo forte e específico como “fascista”, atribuindo-o a todo e qualquer opositor político, será que, quando nos vermos confrontados com um fascista real, seremos capazes de reconhecê-lo? E, mais até do que isto, alguém prestará atenção às nossas advertências?", questiona Bugalho logo nas primeiras linhas.

É quando o Bugalho entra mais intimamente na figura do ex-presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro. Mais precisamente nele e em sua visível atividade fascista ao longo de sua história política desempenhada no país. Enfim, Bolsonaro é mesmo um fascista? Partindo desse questionamento – de resposta óbvia, considero -, Bugalho inicia o processo de cavoucamento e explicação para diante da resposta pungente, deixar que o leitor responda por si próprio.

Todavia, o que é mesmo o FASCISMO? O que fazer para se reconhecer um FASCISTA? "E essa, por si só, é outra questão problemática, posto que o fascismo, por ser um movimento nacionalista, possuía suas particularidades em cada nação na qual floresceu. Os fascistas italianos não defendiam as exatas mesmas noções ou propostas dos alemães nazistas, ou dos falangistas na Espanha ou do movimento integralista brasileiro, só para citarmos alguns casos." Bugalho, como se lê na citação supracitada, atenta em seu texto para as múltiplas facetas que o termo adquiriu ao longo do tempo e em diferentes regiões do mundo. Para tanto, considera que a maior parcela dos atuais estudiosos do tema utiliza como pressuposto inicial a definição proposta por Roger Griffin, em 1993, que diz: “Fascismo é um tipo de ideologia política cuja essência mítica em suas várias permutações é uma forma palingenética de ultranacionalismo populista.”

Assim posto, em seu ensaio, Bugalho segue afirmando que "Nessa definição de Griffin, estão presentes todos os elementos necessários para a compreensão do fenômeno político do fascismo: o nacionalismo, o populismo e o renascimento mítico desse espírito nacional". E continua, ao longo do material, colocando em debate as várias acepções e os inúmeros entendimentos acerca de tão nefasto conceito. Robert O. Paxton, Federico Finchelstein e Jason Stanley foram alguns dos autores utilizados por Bugalho para a construção do seu ensaio. Como disse, Bugalho deixa a conclusão em aberto. Evidentemente que a resposta é simples. Mas é sempre bom buscar o conhecimento das coisas de maneira cada vez mais ampla. Como texto de adentramento ao assunto, funciona bem. Enfim, fascista ou não, o certo é que Bolsonaro nunca mais.

 

* Imagem:  https://www.amazon.com.br/Bolsonaro-Fascismo-Henry-Bugalho-ebook/dp/B09ZTCFZYY

domingo, 8 de janeiro de 2023

RUA DA PADARIA, de Bruna Beber


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro Rua da Padaria, da escritora, poeta e tradutora Bruna Beber. Fique atento! #ruadapadaria #brunabeber #poesia #canalliterário #oequadordascoisas

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Sobre O RAIO QUE ME PARTIU, de Neuma Rozendo


 

Por Germano Xavier

@germanovianaxavier


Do mundo eu sou e sei que o mundo é um moinho. O mundo gira a roda da vida sem dó e na maior parte das vezes nos parece moer. O mundo é um imenso moedor. A vida, idem. A vida não amolece para ninguém - ou melhor, para quase ninguém. A vida é quase sempre injusta, ou justa demais. O mundo é feito de pessoas. A vida é feita de e com pessoas. Todavia, nem toda pessoa é humana. Nem toda gente é gente, entende? Tem gente que é monstro mesmo. Tem gente que é demônio mesmo. Tem gente que torce e retorce a alma de uma pessoa, que tritura, que atropela, que desordena, que faz sangrar. Tem gente que faz isso e pronto. Tem gente que não tem um pedaço sequer de compaixão por dentro, nem por fora. Tem gente que é só por fora e nunca por dentro.

Sendo o mundo assim, justo e injusto, é plausível pensar que, infelizmente, estaremos para sempre rodeados pela violência. A violência humana é a mais violenta das violências. E violar uma pessoa, uma pessoa que é humana, é profundamente estarrecedor. Só sabe, de verdade, quem sofre a violenta violência humana desumana. Só sabe, ao certo, quem foi moído ou moída, quem sucumbiu e quem foi ao abisso num rompante, quem não teve tempo nem de gritar por socorro ou quem não teve a chance de vociferar na hora da agonia dilacerante. Triste é o mundo, sim. Triste é o nosso mundo, constituído de tudo isso que nos envergonha e nos revolta e que nos abocanha.

O livro de estreia da escritora pernambucana Neuma Rozendo, intitulado de O RAIO QUE ME PARTIU (Multifoco, 2022), versa sobre violentos e diversos atravessamentos de corpo e de alma que modificaram para sempre a história e a trajetória de vida de diversas mulheres ou, simplesmente, da Mulher que existe em cada mulher - assim mesmo, com M maiúsculo. Um livro sobre mulheres partidas ao meio, esquartejadas em golpes definidores e indefinidores de destinos - o que é mesmo um destino? A obra traz em seu miolo curtos textos em forma de contos/crônicas que fazem com que o leitor seja parte da dor impressa nas 88 densas e pesadas páginas do livro.

É um livro sobre sobrevivências múltiplas e unas e únicas e dolorosas e sobre partidas e sobre quebras e sobre quedas e sobre redemoinhos e sobre tantas outras coisas. Conhecendo a autora como a conheço, posso admitir que o livro é composto por verdades mais que sinceras, sentidas, vividas, vivenciadas, choradas, verdades rudimentares e memoriais, verdades ancestrais. O RAIO QUE ME PARTIU me partiu ao meio, me deixou aberto com uma tremenda ferida exposta aos ventos. Não é um livro como outro qualquer. As camadas de ficção nele tingidas são meros detalhes do fazer literário da talentosa autora. O que está em jogo é própria vida, maltratada e incontrolável. A vida em perigo, em constante perigo.

O primeiro livro de Neuma Rozendo é, também, um retrato agudo do descaso com que o mundo e, em especial, o Brasil, trata o ser mulher na sociedade. Um recorte fixo e etéreo sobre a barra que é ser mulher dentro de todas as violências e violações possíveis e impossíveis, pensadas e impensáveis. O primeiro livro de Neuma Rozendo é um grave acerto de contas com o passado e com a vida que ainda temos de viver, nós todos, sim, homens e mulheres, imiscuídos ou não a monstros e demônios humanos desumanos. O primeiro livro de Neuma Rozendo é, por fim, arma contra a obsolescência de nossas formas mais rebeldes, contrárias a quaisquer desmandos e violências cometidas a outrem. Um recado duríssimo a nos dizer, em voz alta, que é preciso estarmos atentos e fortes, atentos e fortes, atentos e fortes...


Considere lê-lo. 


Imagem: https://editoramultifoco.com.br/loja/product/o-raio-que-me-partiu/

CONTATOS NA CHAPADA DIAMANTINA, de Adolfino Alves Pereira Neto


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro Contatos na Chapada Diamantina, do escritor Adolfino Alves Pereira Neto. Na introdução do vídeo, acompanhe a psicóloga Angélica Carem em mais uma importante participação aqui no canal. Fique atento!

#adolfinoalves #contatosnachapadadiamantina #eventossobrenaturais #canalliterário #oequadordascoisas

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

A casa dos poemas regidos à óleo e torque


Por Germano Xavier


CASA DAS MÁQUINAS, livro de estreia de Alexandre Guarnieri. Livro de poemas, um petardo diferenciado no rol do que já li. Um estudo poético sobre a maquinaria do mundo, com ou sem seus parafusos-fusos que apertam e afrouxam os nossos eixos de homem-humanidade, fator que pode ou não combustionar o rumo de todas as coisas. Poemas-válvula, poemas-rebite, poemas-cilindro, poemas-lâmpada, mecanophrenya generalizada. Repito: um petardo diferenciado no rol dos livros que já li, e olha que não foram poucos até aqui, no auge de meus 38 anos de idade e - bota aí... - uns 25 de amor à literatura, em especial à poesia.

Livro de capa preta. Livro de tarja assim também. Ele remedeia, ele escancara, ele previne um cancro maior, ou melhor, uma pane sem solução. Previne o caos com câncer da atualidade, já que o sistema já está instalado de tal maneira a nos sufocar os caminhares - um prevenção do olhar, sim. Aí está: o componente zero da poética de Guarnieri neste livro é talvez um olhar absurdado através da fumaça das chaminés das fábricas, um olhar alterado sobre o barulho das maquinarias e de seus pontos de ferrugem, um músculo retesado diante da ameaça de domínio intercontinental por meio desses lestrigões da modernidade.

Luminária acesa, o poeta opera todos os botões antes da decisão que fataliza uma produção de opinião: o homem sabe que sabe. Duas válvulas de neurose na mente aturdida do homem mecânico mundial. Discos rígidos da memória para um backup urgentíssimo acerca do que fomos antes da invenção de tantas quinquilharias eletro-hidráulicas e etc. Três engrenagens atormentadas pela ínfima certeza de um dia a falha geral descambar na realidade. Quatro motores ligados rompendo a ânsia pelo capital monopolizado de agora e de sempre e de até quando? Poemas com cinco cilindros justapostos batendo sob um virabrequim de máculas e enjoos. A humanidade está pulsando em prol de uma robotização satânica que disfarça bem o mal. Onze rebites cravados na alma do ser, na alma do não-ser, na alma do sim e do não.

O que ainda pode uma máquina de datilografia num mundo de computadores megavelozes?

Na alameda industrial, o poeta saca o módulo inaugural, a pedra filosofal que rompe a inércia da vida transmoderna. A casa das máquinas somos nós. Casa e máquina, nós. Seres de neon, brilhantes, efervescentes entidades fabricadas para o uso, minerados com as dragas drágeas da dor escorrida pelas esteiras de metal e borracha. Qual a bitola certa para a mesquinhez da vida que levamos? Por que não atritamos mais diante das desventuras que nos abalam? Perdemos força? Perdemos?

Catálise pesada é a angústia de nascer e morrer na repetição, encantados pela música do trabalho a entorpecer até o mais rude ouvido. Poemas para uma marcha, para um batalhão desgovernado e alinhado aos mesmos conflitos diários de monotonia. Roupa suja de graxa, almoço frio, líquidos que entram goela adentro para lubrificar os pistões nossos de cada dia, dai-nos hoje um instante qualquer de inatividade!

- Não, diz a Máquina-Mor!

Tipos impressos em prensa desalinhada somos nós, seres humanos maquináveis, manobrados por outros seres humanos maquináveis. Cosmogonia sonora das turbinas que defloram infâncias, adolescências e jovialidades ingênuas.

- Vamos dormir que o cabeçote não aguenta! Vamos dormir que o século XX já veio!

CASA DAS MÁQUINAS é um livro de poemas escritos com o peso da poluição e com o medo do acidente central, que pode fazer com que tudo estanque no meio do caminho. Guarnieri escreveu não um livro com poesia, mas antes um livro que despoetiza o falso brilho dos cromos, um livro que atiça mais a gofada nebulosa dos escapamentos de enxofre e que nos torna tóxicos e pecadores pelo simples fato de permitirmos a existência supervalorizada de tais máquinas animadas e sem coração.

CONTOS DA ARÁBIA: O CAMPONÊS, O REI E O SHEIK, de Amina Shah


 

Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro Contos da Arábia: O Camponês, o Rei e o Sheik, da escritora escocesa Amina Shah. Fique atento!

#aminashah #contosdaarábia #ocamponêsoreieosheik #canalliterário #oequadordascoisas

O claro mundo literário de Thiago Medeiros



Por Germano Xavier



“Sem medo do medíocre, do ridículo, do grotesco. Nada é medíocre,
nada é ridículo, nada é grotesco no instante inicial da criação. 
Na gênese. Sem policiamento, sem censuras”.

(Raimundo Carrero, in Os segredos da ficção - CEPE, 2017)



Antes de começar a escrever estas linhas, ponho pra tocar o CD 4 da coleção The World’s Greatest Symphonies (The Intense Media). I Adagio. Allegro non tropo. Peter I. Tchaikovsky (1840 – 1893). Não estranhe, caro leitor, foi necessário. Foi preciso para refazer os ânimos depois de ler e reler o livro CLARO É O MUNDO À MINHA VOLTA (Patuá, 2018), do pernambucano Thiago Medeiros. O livro de contos em questão não permite que o leitor tenha qualquer rompante barato de engraçamento ou que se cogite a possibilidade de imaginar-se capacitado a viver as coisas da vida simplesmente pela metade. O discurso das personagens não é partido. A força do texto é em bloco maciço, é um inteiro.

A linguagem, por ser universal, assim como a poesia, é inelutável. A linguagem no livro de Thiago Medeiros avisa: ATENÇÃO, NÃO VAI SER LEVE! A linguagem, quando assim ela se dá, não se pode apagar. A vida, também não. A vida, tal qual a linguagem, é inelutável. Senão, óbvio!, não seria vida, não seria experiência, não seria travessia. Seria morte. E morte é o oposto. Pense comigo: não é perfeitamente compreensível que vivamos pela metade. É um golpe duro na existência de cada um que, dessa maneira, assim resolva transitar pelo mundo. São tantas as possibilidades a usufruir, os caminhos a picar, os destinos a seguir. O fenômeno da linguagem, por refletir a multiplicidade do viver, e das nossas vidas, compartilhadas ou não, sempre se expande quando em contato com outros extratos fundamentais do arcabouço semântico-discursivo das artes ou das práticas sociais. CLARO É O MUNDO À MINHA VOLTA consegue tal feito. O livro é um conjunto de perspectivas que se desdobra aos olhos de quem lê, que se afirma vário, que planta outras sementes de interpretação ao menor senso. E aí já se deu a amplidão. A literatura.

E literatura é linguagem fornida, bem temperada. Roman Jakobson, no seu O QUE FAZEM OS POETAS COM AS PALAVRAS, texto deflagrado em uma conferência ocorrida na cidade de Lisboa no ano de 1972, já atentava para tais movimentos da linguagem. Mas, por que razão endereço esta resenha a falar de linguagem sob este ponto de vista? Respondo, de pronto: é porque em CLARO É O MUNDO À MINHA VOLTA, estreia do escritor caruaruense e idealizador do Letras em Barro, circuito de eventos literários que movimenta a região do agreste meridional pernambucano, estamos diante de um livro que revolve, burilando, as funções semióticas que maquinam o fenômeno linguístico de grave e potencial perturbação.

Os contos do livro, que parecem seguir um agudo fluxo único, até em termos de personagens e sucessão dos fatos, trabalham com temáticas bastante variadas, porém muito complexas, vastas e/ou insólitas. É possível perceber o trato para com a profanação do sagrado, as ressonâncias da velhice, os impedimentos e os impérios da doença, a consagração e a conflagração da infância, as descobertas de envolvimento e de cunho sexual, o riso e a ironia vistos como respostas ao mal, o mal do medo, o medo do medo, desembocando, enfim, e completamente, no desvelamento de uma linguagem feita de quase-acertos - a não completude, aqui, a falta de algo que encerre um outro algo, pode ou deve ser vista como um ponto positivo.

Sobre esta incompletude e sobre a busca incessante do autor por um assunto que lhe erga do solo e que lhe retire o conforto da mente, Raimundo Carrero vai dizer que “escrever é preencher furos, criando armadilhas e seduzindo o leitor, assim como quem borda um tapete. Na talagarça limpa, os furos vão sendo fechados pela agulha e pela linha que completam o desenho. Ou seja, o escritor precisa revelar – ou não – situações que ainda não estão objetivadas no texto”. Thiago Medeiros, filho de uma terra de bons costureiros, deu provas mais do que cabais, já neste seu primeiro rebento, de que é um talentoso alfaiate das palavras em prosa.


ENTREVISTA COM O AUTOR


Germano Xavier - O que há para ser desvelado em CLARO É O MUNDO À MINHA VOLTA, Thiago?

Thiago Medeiros - Essa é a pergunta que gostaria que meus leitores respondessem. Confesso que não sei ao certo, mas o que move meu trabalho são meus questionamentos ao longo da vida, principalmente a questão da memória e a forma que certas lembranças e vivências podem nos influenciar. Raimundo Carrero costuma dizer que toda obra literária é um pedido de socorro lançado numa garrafa ao mar, e eu concordo plenamente com essa opinião, embora não seja exatamente um pedido de socorro por parte do autor/narrador em si. A verdadeira matéria-prima de qualquer obra de arte é a miséria humana, sendo ela trabalhada através de qualquer meio - ironia, tragédia, humor, o belo, o feio - sempre será a miséria humana o fato gerador. Logo, partindo desta premissa, na garrafa não vai um pedido de socorro de um indivíduo, mas de toda a humanidade, e as dificuldades em relacionar todo um mundo próprio com diversos mundos alheios. Os personagens de "Claro é o mundo à minha volta" estão diante de grandes descobertas - a própria identidade, o luto, a sexualidade, a certeza de finitude -, e estas descobertas, por tantas vezes, encontram uma barreira difícil de vencer, que são os outros. E, sim, sou muito influenciado pela filosofia existencialista, que surgiu num momento bem peculiar da minha vida, e até hoje molda minha maneira de encarar o mundo. Então, o que se desvela neste livro é essa busca por certezas que talvez sejam inexistentes.

Germano Xavier – Você busca. Todo autor busca algo. Seus personagens buscam. Alguns poetas, por exemplo, buscam o poema perfeito ou simplesmente uma obra que ajude a completar o que Elias Canetti chamou de “Poesia Una da vida”. De acordo com Roman Jakobson, em O QUE FAZEM OS POETAS COM AS PALAVRAS, a poesia é o domínio mais criador da linguagem. Tendo a palavra “verso” a mesma raiz da palavra “prosa” (provorsa/proversa), eu lhe pergunto: você já sente a sua prosa criar uma linguagem própria a partir de CLARO É O MUNDO À MINHA VOLTA ou será preciso um pouco mais de tempo para que esta percepção lhe seja mais óbvia? E sobre o processo criativo do livro, fale-nos um pouco a respeito, por favor.

Thiago Medeiros - Espero não encontrar nunca uma linguagem própria, creio que me levaria ao conformismo. Quem tem estilo é personagem, não o autor. Este deve se preocupar com a pulsação narrativa compatível com cada texto escrito. Claro que há textos que você identifica logo o escritor, mas há nuances em cada trabalho que vão para além do próprio enredo, então não dá para afirmar que exista uma espécie de molde. Arte é o grande espaço da anarquia humana. Não há poderes constituídos que possam limitá-la, bem como cada nova tentativa de criação deve ser movida pelo caos, sem saber aonde vamos parar. Ainda que arte seja um ofício como outro qualquer, envolvendo disciplina para mantê-la, é o caos que nos move.

Boa parte deste livro foi escrita entre fevereiro e setembro deste ano, apenas dois contos são anteriores - "Sal. Tangos, boleros e outras despedidas" e "A Paz na bandeja de Ágata" -, que foi justamente o período depois do meu pedido de demissão do Banco do Brasil - trabalhei lá por catorze anos e aderi a um plano de demissão voluntária para me dedicar integralmente à literatura. A origem de todos os contos vem do meu dia-a-dia, das histórias que ouço nas ruas. Gosto de boemia, o ambiente dos bares, feiras livres, são lugares que tudo pode acontecer. Então, por exemplo, as histórias que se entrelaçam de "Amargo xilofone para suicidas" e "Os teus retalhos eu guardei" foram de casos que ouvi, realmente conheci um senhor que foi tirar fotos da exumação dos ossos do filho aguardando ver os insetos. Há uma espécie de possibilidade de imortalidade do indivíduo através da arte, é tanto que um dos meus livros preferidos é "Memórias de um Caçador", de Turgueniev. A narrativa é quase sempre a mesma, o autor sai para caçar, encontra alguém com quem começa uma conversa, e esses estranhos passam a narrar detalhes das suas vidas. É universal demais. Poderia acontecer num ponto de ônibus qualquer. E todos aqueles indivíduos tiveram um detalhe incrível de suas vidas imortalizado. É isso que compõe minha forma de trabalhar.

Germano Xavier – Rainer Maria Rilke, em seu clássico CARTAS A UM JOVEM POETA, escreveu: “Não há nada que toque menos uma obra de arte do que palavras de crítica: elas não passam de mal-entendidos mais ou menos afortunados”. Decerto, é sabível que a crítica literária passou por diversas “revoluções” nos últimos séculos. Para você, Thiago, qual o papel da crítica literária para a literatura contemporânea brasileira? O que você pensa sobre o fenômeno atrelado aos YouTubers?

Thiago Medeiros - Minha experiência com a crítica é muito pouca. Numa visão, até romanceada da coisa, imagino que o papel da crítica, ao menos deveria ser, apontar caminhos para a melhora da produção nacional, e não buscar erigir novos cânones, muito menos delinear tendências, o que corre o risco da padronização da escrita. Ninguém deve se preocupar tanto com o papel da crítica - embora seja difícil, é verdade. Sem acreditar no próprio trabalho ninguém vai a lugar nenhum, de bancários a pedreiros, garis e escritores.

O YouTube é uma ferramenta revolucionária, pode ser utilizada para muita coisa boa. Sim, é verdade que vai ter muita bobagem no meio, mas o problema de certos tipos de materiais serem oferecidos, e bem recebidos pela população, não é culpa de quem o faz, estaria num plano muito mais macro. Então cabe a quem realmente deseja produzir arte, cultura de qualidade, se apropriar também desses espaços de fala. Não podemos viver isolados, cultivando a nostalgia cult de coisas do passado - e isso afirmo na condição de colecionador de vinis e livros. As redes sociais estão aí, isso é um fato consumado, então temos que nos adaptar e produzir bom material. Tenho tentado fazer isso com o Letras em Barro, mas sou uma verdadeira negação com tecnologias, logo isso me deixa dependente demais em formar equipes, buscar pessoas que queiram participar das minhas megalomanias. Mas, planos eu tenho, e logo começarão a se concretizar.

Germano Xavier – Thiago, você participou por 3 anos de uma oficina literária ministrada por Raimundo Carrero na capital Recife. Qual a relevância deste momento para o seu amadurecimento enquanto escritor? Em Pernambuco, a Fundarpe e a Editora Cepe realizam anualmente algumas premiações de cunho regional e nacional em se tratando de arte literária. Você vê os prêmios literários com bons olhos para a legitimação do fazer literário? E qual a sua perspectiva para o futuro com relação à cena literária pernambucana, mais especificadamente a do interior do Estado?

Thiago Medeiros - Morria de medo de oficinas literárias. Pensava que ia entrar numa espécie de linha de produção fordista para escritores. Até que uma amiga me sugeriu o óbvio. Vá, se não gostar, não vá mais. Já conhecia o trabalho de Carrero, então também fui atraído pela chance de conhecer um ídolo. No final a oficina foi uma grande surpresa. É um espaço muito democrático, Carrero respeita demais o trabalho de cada um. É um lugar que você descobre que não está sozinho no mundo, há outros na mesma peleja que você. Sem contar que você vai mostrar seu trabalho a uma plateia de, geralmente, leitores experimentados, então já é uma boa prova de fogo. Logo, costumo dizer que uma boa oficina é uma boa pedida para quem puder - não chegaria a dizer essencial, mas ajuda bastante.

Prêmios literários são uma maravilha para a divulgação de novos nomes. Não chegaria a dizer que legitima o fazer, porque há uma limitação de premiados. Imagine um concurso tipo o SESC, que apenas um nome entre quinhentos ou mais é premiado. E os outros, não eram bons? Com certeza tinha muita gente com um bom trabalho ali. É um grande incentivo ganhar um prêmio, mas o prêmio também, por si só, já estimula a escrita. É um formato que deve ser cada vez mais incentivado.

Creio que há uma cena em efervescência forte no Agreste. A começar por Caruaru, com nomes que em breve despontarão nacionalmente - com a barba nesse tamanho me permito ao dom das profecias. Nay Harrison, por exemplo, tem apenas vinte e dois anos, escreve feito uma orixá entronada, digo sempre que o futuro da poesia pernambucana passa obrigatoriamente por ela. A força de Joana Figueredo, Aferrera Maria, Urbano Leafa, Iram Bradock, Germano Xavier, Birigui - poeta de Belo Jardim -, a iniciativa da Candeeiro Cartonera, o próprio Letras Em Barro, tudo isso mostra que há uma cena coesa em formação no interior de Pernambuco. Com um pouco mais de organização, isso será alavancado nacionalmente. Quem viver, verá. Um exemplo a ser seguido é Garanhuns. A partir de um grupo pequeno a cidade cresceu literariamente, começando com conversas entre Mário Rodrigues, Nivaldo Tenório, Helder Herik. Hoje a cidade recebe uma Bienal e tem um espaço exclusivo para literatura no Festival de Inverno, e tudo começou aos poucos.

Germano Xavier – Há pouco mais de 3 anos, perdíamos o ator, diretor de teatro e apresentador Antônio Abujamra, uma de nossas mentes mais provocativas de todos os tempos. Em sua homenagem, repasso a você a pergunta que ele sempre gostava de fazer aos seus entrevistados: Thiago Medeiros, o que é a vida? Não satisfeito, provoco-lhe um tantinho mais: Thiago Medeiros, e o que é a literatura?

Thiago Medeiros - A vida não pode ser definida, sob o risco de perder seu único sentido, que é justamente não fazer sentido algum. Embora não faça sentido, não quer dizer que não seja interessante e bela em sua fragilidade.

Já a literatura é apenas um monte de garranchos e uma tremedeira infinita nas mãos. E, assim como a vida, também não deixa de ser bela, frágil e imprescindível. Digo que frágil pois está sempre sob risco, que o diga a atual situação política do Brasil, esta onda conservadora, que na realidade sempre existiu, é uma ameaça à literatura, mas também seu maior combustível.




Claro é o mundo à minha volta (Patuá, 2018)

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* Imagens: Acervo do autor