Por Germano Xavier
toda vez
que invado
a tua bunda
que é Templo
feito o mar
toda vez
que nela entro
venço o Tempo
algo que sempre me pareceu
impossível
* Imagem: https://pixabay.com/pt/photos/er%C3%B3tico-gl%C3%BAteos-molhado-nua-3139549/
| Desde 2007 | Por Germano V. Xavier | Em memória de Milton de Oliveira Cardoso Júnior | + de 2.200 textos publicados |
Por Germano Xavier
toda vez
que invado
a tua bunda
que é Templo
feito o mar
toda vez
que nela entro
venço o Tempo
algo que sempre me pareceu
impossível
* Imagem: https://pixabay.com/pt/photos/er%C3%B3tico-gl%C3%BAteos-molhado-nua-3139549/

14 dezenas de textos
partilhados n’O
Gazzeta,
ao longo de 10 anos
Tomei contacto com o
blog pessoal de Germano Xavier, O Equador
das Coisas, em 2013. Não imaginava então a firme parceria que daí nasceria
e se iria consolidar, semana após semana, através do blog coletivo O
Gazzeta. Hoje, volvidos 10 anos, festejamos entusiasticamente com os
leitores e todos os companheiros que publicam neste espaço.
Na altura dava eu os
primeiros passos no mundo da escrita, sobretudo na imprensa. Começava a
levar-me um pouco mais a sério, quero dizer, pois cultivo o hábito de escrever
desde criança, mas de uma forma episódica e descomprometida. Nessa altura, em
2013, pensei em participar em projetos literários em vários países lusófonos,
para além das minhas duas mátrias: Angola e Portugal.
Se, por um lado,
existem afinidades naturais com outros países dos PALOP[1], por partilharmos língua,
aspetos históricos e culturais, por outro lado há uma ligação forte ao Brasil,
país ao qual nos unem igualmente laços seculares e que para mim sempre foi uma
referência em termos de literatura.
Já o mencionei noutros
contextos, mas relembro aqui que durante a minha infância e adolescência, mesmo
não tendo muitas vezes água, eletricidade nem acesso a bens de primeira
necessidade, por causa da guerra, em Angola, tínhamos livros de bolso, entre os
quais se contavam obras de Jorge Amado, Érico Veríssimo ou José Mauro de
Vasconcelos. Essas obras são parte da minha identidade como leitora.
Assim, foi em 2013 que
Germano Xavier me abriu as portas da sua casa literária, O Gazzeta, uma vez que O Equador
das Coisas era um blog pessoal que eu continuo, aliás, a seguir com o maior
interesse, dada a sua qualidade e multiplicidade de temas.
Não nos conhecíamos,
mas a reação foi muito calorosa, de tal maneira que não me senti escrutinada
nem censurada e comecei a enviar-lhe regularmente alguns textinhos, mesmo com
fragilidades, que ele aceitou de coração aberto. Sobre livros, cinema, pintura,
música, algumas criações próprias também (ficção), em prosa. Assim nasceram,
nomeadamente, as séries dedicadas ao cinema africano, ao cinema lusófono, contos-crónicas
agrupados com a designação genérica de Memórias
Inventadas e Ficha de Leitura (resenhas), a mais recente das séries,
sendo que todas estão ainda em aberto, principalmente esta última.
Percebi depois que
Germano é o tipo de pessoa que ensina sobretudo pelo exemplo. Professor,
escritor e jornalista, de um dinamismo singular, tornou-se ao longo do tempo
num parceiro literário inestimável. Mostrou-se um colega experiente e original,
sem medo de arriscar, porém prudente e sensato, coerente e persistente. Com o
tempo tornou-se um amigo ímpar, mais novo na idade e mais velho no saber,
capitão de uma frota de navios: não sei, sinceramente, como consegue capitaneá-los
com tanto equilíbrio, segurança e destreza.
Sinto-me orgulhosa por
estar incluída em várias iniciativas com a sua assinatura. Neste caso, falando
de O Gazzeta, o motivo da celebração
é o facto de contar agora com cento e quarenta textos meus no blog, prova de
grande generosidade do seu fundador, que abriu o espaço inicialmente dedicado à
Chapada Diamantina a outras regiões e países, estimulando a diversidade de
estilos, saberes, assuntos e pontos de vista.
O mais recente texto (meu)
no blog, até ao momento, é uma resenha de “Vidas Seguintes”, de Abdulrazak
Gurnah (Ficha de Leitura). O primeiro é “O mundo de Vinicius”, editado a
25 de novembro de 2013, que marcou o início desta longa e feliz colaboração.
Pelo meio temos
desenvolvido outras experiências literárias singulares. Atrevi-me a traduzir
algumas séries de poemas de Germano para francês (As árvores amorosas, O homem encurralado, As coisas minhas de Sophia
e finalmente Trompetes para Ennio, entre
outros textos poéticos sem etiqueta). São traduções não revistas que resultam
apenas da forte vontade de tentar outra orquestração para poemas
fundamentalmente belos e densos, joias únicas que me inspiram particularmente. Criámos
também um projeto que se alimentou do quotidiano: Entre Mares e Marés,
Conversas Epistolares: uma troca de missivas que durou cinco anos, entre
dois personagens (Clara e Viana, nossos outros antropónimos) e que nos
representam, a mim e Germano; cartas magnificamente ilustradas pela Cristina
Seixas, desenhadora/ilustradora ligada à corrente Urban Sketchers e professora luso-angolana, que agora é também parceira
no blog e no canal do Youtube O
Equador das Coisas. A primeira carta data de 24 de abril de 2015
(Germano concedeu-me o pontapé de saída!). E começa assim:
“(…) Viana?
Sei
que ficarás surpreendido com este primeiro recado. Nem ouso chamar-lhe carta.
Sabes, a bem dizer, não escrevo uma desde os anos 80. Apenas notas, palavras
dispersas, ideias caóticas amarradas à força umas às outras, letras ao vento.
Mas não uma carta no sentido de relatar minudências, trivialidades, falar de
coisas que só para mim têm algum relevo e que talvez te despertem também a
atenção. Tu tens olhos de ver e não te ficas pela superfície. (…)”
Tenho ainda que
referir que Germano apresentou um livro meu de poesia (Março entre Meridianos) aquando do lançamento da edição lisboeta,
em julho de 2019, junto com os poetas Manuel Iris (mexicano e americano) e
Cíntia Gonçalves (angolana).
E como foi isso
possível, uma vez que nenhum dos três vive em Lisboa? Resolvemos o “problema”
de forma prática: esses textos foram lidos no local pela Carol (minha filha),
pela Maria Fernanda Silva (poeta portuguesa) e pelo amigo Olímpio Neves, com o
seu bonito timbre de rádio.
Para mim foi
importante ter todas essas pessoas que tanto estimo e respeito à minha volta,
os autores dos textos e quem lhes deu voz. E também uma oportunidade para
consolidar a aventura literária com Germano, que ao longo destes anos tem
apresentado diversos textos críticos e vídeos com a sua leitura do meu
trabalho.
Após sete anos de
convivência e troca de experiências tivemos a oportunidade de nos conhecermos
pessoalmente e de estreitar laços com os respetivos familiares. É um privilégio
dado a poucos, um presente da vida.
Nos últimos anos tive
ainda a alegria de traduzir para francês os seus livros de poesia O Homem
Encurralado e Esplanada do Tempo, ambos com a selo da Penalux, a
circular no Brasil na forma de edições bilingues (português-francês) em
diversas plataformas. Foi um presente maravilhoso que me concedeu o poeta e que
não me canso de agradecer. Estes dois livros, que integram a trilogia do
Centauro, uniram-nos também aos poetas Regina Correia e Luís Oseth
Carvalho, cujos textos abraçam as duas obras de um modo singular.
Para terminar, agradeço
calorosamente, não apenas a Germano Xavier, pela abertura e ensinamentos, pela
tolerância, mas também a todos os companheiros/as e amigos/as que fiz ao longo
destes anos através de O Gazzeta, aos
colegas redatores, oriundos das mais diversas áreas. Os vossos textos e vídeos
são fonte de aprendizagem e também de bem-estar. Aprender pode e deve ser
prazeroso e divertido.
E também,
necessariamente, a quem nos lê, apoia, vê e escuta, com paciência, curiosidade
e mente aberta, no blog e no canal.
Espero ter ocasião de
contribuir durante mais dez anos, pelo menos, com a mesma alegria e energia,
junto de companheiros de jornada e amigos tão brilhantes quanto surpreendentes,
na sua humanidade e pluralidade cultural e geográfica.
Luísa Fresta
Queluz, 18 de maio de
2023
Nota: este texto é uma adaptação do artigo
escrito a 9 de outubro de 2020, para assinalar cem textos meus no blog O
Gazzeta.

Neste vídeo, o professor e escritor Stenio Erson fala sobre o livro PRETINHA, EU?, do escritor Júlio Emílio Braz. Fique atento! #pretinhaeu #julioemiliobraz #romance #canalliterário #oequadordascoisas
Por Germano Xavier
@germanovianaxavier
comemoram a vida
seguem a direção do paraíso
e eu me firmo
sujam seus uniformes
maculam suas peles
e eu aprendo a viver
masturbam-se com ilusões ordinárias
e eu espero o Tempo
drogam-se
e eu escuto
desfilam trajes de falsidade
em sorrisos dados pelos cantos
e eu mostro meus dentes
cospem amizades fundamentais
e eu sou o mundo perdido
matam por dinheiro
e eu festejo o fracasso de todos vocês
meu lado é oposto
e assim me contento
* Baseado em poema homônimo escrito em 18/07/2002.
Imagem: Google
Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro CIDADE FINADA, do escritor pernambucano Thiago Medeiros. Fique atento! #cidadefinada #thiagomedeiros #poesia #canalliterário #oequadordascoisas
![]() | ||
| * |
Em poucas palavras:
O Pínóquio de Guillermo del Toro e de Mark Gustafson, feito de madeira tal qual o menino de madeira originalmente imaginado por Carlo Collodi, tem mais coração que muitos corações humanos. Não tem erro. Um filme extremamente lindo.
Imagem: https://ims.com.br/filme/pinoquio/
Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro O ALIENISTA (em cordel), de Machado de Assis (Adaptação de Rouxinol do Rinaré). Fique atento! #oalienista #machadodeassis #rouxinoldorinaré #canalliterário #oequadordascoisas
Por Germano Xavier
@germanovianaxavier
não estou indo a lugar algum,
conheço bem o aqui e o agora.
não há moldura em meu destino
e tudo à minha volta é paisagem, presença
e passagem. dou passagem.
não posso me atirar ao impossível que sei
que não dou conta. baixo a cabeça e sou todo o chão,
o meu chão, aquele que me guia. sou do afastar-me.
de imediato.
quando não entendo, não habito.
mesmo que tarde demais.
Imagem: Pixabay
@germanovianaxavier
Acho que muitos de vocês já ouviram falar no Henry Bugalho. Li recentemente um ensaio rápido dele, intitulado de BOLSONARO E O FASCISMO. Creio que faz parte de uma série de textos chamada de LEITURAS RÁPIDAS e que é disponibilizada de forma gratuita para leitura via aparelho Kindle. O texto é de caráter didático, filosófico, bem fácil de se ler e bastante esclarecedor, sem deixar de ser crítico. O autor inicia seu percurso narrativo tentando explicar as origens do termo “fascista”. Para isso, retoma preceitos estabelecidos em textos produzidos por George Orwell, entre outros nomes fortes do pensamento mundial.
Há também a preocupação em situar o brotamento e a expansão do uso do termo “fascista” no seio da sociedade brasileira. "Esse uso irrestrito serviu para esvaziar e empobrecer o debate, e mais confunde do que esclarece. Um dos dilemas decorrentes disso é justamente a ideia de que, ao se munir de maneira incorreta e exagerada de um termo forte e específico como “fascista”, atribuindo-o a todo e qualquer opositor político, será que, quando nos vermos confrontados com um fascista real, seremos capazes de reconhecê-lo? E, mais até do que isto, alguém prestará atenção às nossas advertências?", questiona Bugalho logo nas primeiras linhas.
É quando o Bugalho entra mais intimamente na figura do ex-presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro. Mais precisamente nele e em sua visível atividade fascista ao longo de sua história política desempenhada no país. Enfim, Bolsonaro é mesmo um fascista? Partindo desse questionamento – de resposta óbvia, considero -, Bugalho inicia o processo de cavoucamento e explicação para diante da resposta pungente, deixar que o leitor responda por si próprio.
Todavia, o que é mesmo o FASCISMO? O que fazer para se reconhecer um FASCISTA? "E essa, por si só, é outra questão problemática, posto que o fascismo, por ser um movimento nacionalista, possuía suas particularidades em cada nação na qual floresceu. Os fascistas italianos não defendiam as exatas mesmas noções ou propostas dos alemães nazistas, ou dos falangistas na Espanha ou do movimento integralista brasileiro, só para citarmos alguns casos." Bugalho, como se lê na citação supracitada, atenta em seu texto para as múltiplas facetas que o termo adquiriu ao longo do tempo e em diferentes regiões do mundo. Para tanto, considera que a maior parcela dos atuais estudiosos do tema utiliza como pressuposto inicial a definição proposta por Roger Griffin, em 1993, que diz: “Fascismo é um tipo de ideologia política cuja essência mítica em suas várias permutações é uma forma palingenética de ultranacionalismo populista.”
Assim posto, em seu ensaio, Bugalho segue afirmando que "Nessa definição de Griffin, estão presentes todos os elementos necessários para a compreensão do fenômeno político do fascismo: o nacionalismo, o populismo e o renascimento mítico desse espírito nacional". E continua, ao longo do material, colocando em debate as várias acepções e os inúmeros entendimentos acerca de tão nefasto conceito. Robert O. Paxton, Federico Finchelstein e Jason Stanley foram alguns dos autores utilizados por Bugalho para a construção do seu ensaio. Como disse, Bugalho deixa a conclusão em aberto. Evidentemente que a resposta é simples. Mas é sempre bom buscar o conhecimento das coisas de maneira cada vez mais ampla. Como texto de adentramento ao assunto, funciona bem. Enfim, fascista ou não, o certo é que Bolsonaro nunca mais.
* Imagem: https://www.amazon.com.br/Bolsonaro-Fascismo-Henry-Bugalho-ebook/dp/B09ZTCFZYY
Neste vídeo, o professor e jornalista Germano Xavier fala sobre o livro Rua da Padaria, da escritora, poeta e tradutora Bruna Beber. Fique atento! #ruadapadaria #brunabeber #poesia #canalliterário #oequadordascoisas
Por Germano Xavier
@germanovianaxavier
Do mundo eu sou e sei que o mundo é um moinho. O mundo gira a roda da vida sem dó e na maior parte das vezes nos parece moer. O mundo é um imenso moedor. A vida, idem. A vida não amolece para ninguém - ou melhor, para quase ninguém. A vida é quase sempre injusta, ou justa demais. O mundo é feito de pessoas. A vida é feita de e com pessoas. Todavia, nem toda pessoa é humana. Nem toda gente é gente, entende? Tem gente que é monstro mesmo. Tem gente que é demônio mesmo. Tem gente que torce e retorce a alma de uma pessoa, que tritura, que atropela, que desordena, que faz sangrar. Tem gente que faz isso e pronto. Tem gente que não tem um pedaço sequer de compaixão por dentro, nem por fora. Tem gente que é só por fora e nunca por dentro.
Sendo o mundo assim, justo e injusto, é plausível pensar que, infelizmente, estaremos para sempre rodeados pela violência. A violência humana é a mais violenta das violências. E violar uma pessoa, uma pessoa que é humana, é profundamente estarrecedor. Só sabe, de verdade, quem sofre a violenta violência humana desumana. Só sabe, ao certo, quem foi moído ou moída, quem sucumbiu e quem foi ao abisso num rompante, quem não teve tempo nem de gritar por socorro ou quem não teve a chance de vociferar na hora da agonia dilacerante. Triste é o mundo, sim. Triste é o nosso mundo, constituído de tudo isso que nos envergonha e nos revolta e que nos abocanha.
O livro de estreia da escritora pernambucana Neuma Rozendo, intitulado de O RAIO QUE ME PARTIU (Multifoco, 2022), versa sobre violentos e diversos atravessamentos de corpo e de alma que modificaram para sempre a história e a trajetória de vida de diversas mulheres ou, simplesmente, da Mulher que existe em cada mulher - assim mesmo, com M maiúsculo. Um livro sobre mulheres partidas ao meio, esquartejadas em golpes definidores e indefinidores de destinos - o que é mesmo um destino? A obra traz em seu miolo curtos textos em forma de contos/crônicas que fazem com que o leitor seja parte da dor impressa nas 88 densas e pesadas páginas do livro.
É um livro sobre sobrevivências múltiplas e unas e únicas e dolorosas e sobre partidas e sobre quebras e sobre quedas e sobre redemoinhos e sobre tantas outras coisas. Conhecendo a autora como a conheço, posso admitir que o livro é composto por verdades mais que sinceras, sentidas, vividas, vivenciadas, choradas, verdades rudimentares e memoriais, verdades ancestrais. O RAIO QUE ME PARTIU me partiu ao meio, me deixou aberto com uma tremenda ferida exposta aos ventos. Não é um livro como outro qualquer. As camadas de ficção nele tingidas são meros detalhes do fazer literário da talentosa autora. O que está em jogo é própria vida, maltratada e incontrolável. A vida em perigo, em constante perigo.
O primeiro livro de Neuma Rozendo é, também, um retrato agudo do descaso com que o mundo e, em especial, o Brasil, trata o ser mulher na sociedade. Um recorte fixo e etéreo sobre a barra que é ser mulher dentro de todas as violências e violações possíveis e impossíveis, pensadas e impensáveis. O primeiro livro de Neuma Rozendo é um grave acerto de contas com o passado e com a vida que ainda temos de viver, nós todos, sim, homens e mulheres, imiscuídos ou não a monstros e demônios humanos desumanos. O primeiro livro de Neuma Rozendo é, por fim, arma contra a obsolescência de nossas formas mais rebeldes, contrárias a quaisquer desmandos e violências cometidas a outrem. Um recado duríssimo a nos dizer, em voz alta, que é preciso estarmos atentos e fortes, atentos e fortes, atentos e fortes...
Considere lê-lo.
Imagem: https://editoramultifoco.com.br/loja/product/o-raio-que-me-partiu/