sábado, 18 de fevereiro de 2012

Uma crônica em três tempos


Tempo II - A Iraquara do seu Juquinha


Era ele, sempre, como num ritual sagrado e atemporal. Todo santo dia, lá estava “seu” Juquinha, recarregando as lâmpadas dos postes de luz de Iraquara. Foi um avanço quando o prefeito da cidade de Seabra-BA, Manoel Teixeira Leite, ainda na década de 50 do século XX, destinou à cidade algumas unidades das lâmpadas Petromax e Colemam, e em pontos estratégicos iluminou as ruas iraquarenses, outrora escuras e amedrontadoras. Acostumados com uma Iraquara feia e noturnamente intransitável àquela época, pois não havia energia elétrica nas ruas, tampouco nas casas, os antigos moradores, que acendiam fifós em suas casas, acabavam clareando um pouquinho as calçadas nuas e sujas. Ao verem seu Juquinha malinando naquele arcabouço metálico pendurado no mastro, de inox e ar no bojo, bombeando ar para o receptáculo onde ficava a camisa de amianto e a mistura de álcool e querosene, sentiam-se felizes porque o breu tinha hora para acabar, mesmo que por um curto espaço de tempo.

Iraquara bem poderia ter sido, durante seus primeiros anos de vida, cenário para filmes de faroeste norte-americano, com aqueles lugarejos vazios de almas e cheios de mistérios. Iraquara já foi uma cidade-fantasma, não é exagero dizer. As estradas, quase todas em precário estado de conservação, de cascalho e barro, não facilitavam o contato com as outras cidades. A falta de calçamento apropriado, a presença de buracos no meio das vias públicas, o lamaçal em que se transformava quando a chuva apertava, tudo isso fazia com que o recolhimento dos habitantes dentro de seus aposentos fosse marca de um passado nada distante. A falta de conforto, em todos os sentidos e segmentos, era visível. Sem higiene nem saúde, porcos, jumentos e outros animais disputavam com pessoas restos de alimentos após o fim da feira dos sábados, a fim de se lavarem as almas esfomeadas.

E o “seu” Juquinha, tio da Maria Neta¹ escritora, assim como outros personagens iraquarenses, iluminando tudo sem pedir muito ao destino, as dores e as alegrias deste povo que traz o pé encardido como sinal de bem-aventurança desde o momento da nascença. Clareando as quedas das mulheres casadas quando tentavam driblar as poças e os charcos - um escândalo para a época. Aquela luzinha temporária, esgotável, alumiando as infâncias maravilhosas, de brincadeiras de pular, de correr, de esconde-esconde, de galinha-gorda, de dar bolo, pega-pega, baleado, jeribita, boca-de-forno, elástico, casinha, panelinha e de boneca. Tudo para ver a meninada mais livre, sem esta falsa felicidade que os jovens de Iraquara estampam hoje em seus rostos, mancebia regada a combustíveis alienantes e mecânicos.

Incansável Juquinha, dando carga com a força dos braços para ver Iraquara crescer, para ver a menina Maria se deslumbrar com uma boneca que chorava e a outra que dormia, trazidas por seu pai dentro de uma malinha de lá de Belo Horizonte, em uma de suas inumeráveis viagens pelo Brasil. Eram brinquedos que ninguém possuía na cidade, sem falar na cama Patente para as bonecas que também ganhou. Para ver a Maria voltar do Instituto Ponte Nova nas férias, hoje cidade de Wagner-BA, e engolir piaba viva e amarrar cabaça no corpo para aprender a nadar no rio que a sede nunca possuiu, mas que foi distribuído em abundância pelos povoados de Caiçara, Ingazeira, São José, Pratinha, Riacho do Mel e tantos outros. Luz para ver a Maria sonhar em ser aeromoça, policial feminina, assim como ajudar a “costurar” perna de rapaz ferido e ver o doutor Américo Chagas cauterizar gente doente usando de talos de folha de côco raspados e enrolados em algodão. Tio bombeando luz para que a Maria pudesse ler nas noites as revistas O Cruzeiro e Manchete que o pai Abdias Dourado fizera assinatura, para no futuro ver nascer dentro dela o gosto pela escrita e pela educação.

Juquinha que quis ver o "vestido venturoso" no corpo da Maria, ganhado do deputado Souto Soares, depois de recitado o seguinte versejo numa festa de recepção ainda bem lá nos idos de brotação citadina:

"Neste dia venturoso
cheio de luz e esperança
aceitas, doutor Souto,
estas flores por lembrança?"

Homem Juquinha que viu a chegada do “motorzinho” movido a óleo diesel que acendia Iraquara todinha às 18 horas, dava sinal que ia apagar dez para as dez da noite e que parava de gerar energia pontualmente às 22 horas, dispensando no porvir próximo seu trabalho de acendedor de postes, num já calculado pequeno indício de "progresso" dos tempos aportando na Chapada, sem ter dó de ninguém.

Iraquara mudou, sim, e cresceu - o mínimo que poderia crescer, é de se saber - em débito impagável para com milhares de Juquinhas, que com amor e ação fizeram com que os dias iraquarenses fossem preenchidos com radiações luminosas, ancorados nos raios matinais que não cansam de nos surpreender quando ultrapassam a barreira das serras e dos morros diamantinos.


Notas.
1 – Anna Maria Félix dos Santos é escritora, autora do livro Iraquara Ontem, hoje e sempre.

3 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Onde mora o passado by ~EscorpiaoVioleta"
Deviantart

Hugo de Oliveira disse...

Que maravilha de texto.
Estava com saudades de passar por aqui.
Abraços

Dani Gama disse...

Tia Neta é maravilhosa como pessoa e como escritora!