quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A palo seco (ou O melhor baile que não dancei)

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Por Germano Xavier

Para Belchior, selvagem homem de corações.



A casa da minha melhor infância era grande, de vários cômodos, duas salas imensas, uma dedicada somente às esporádicas visitas. Esta, a maior, vivia sempre arrumada e com um ar solene misto de silêncio e inacessibilidade. Lembro muito bem. Meados dos anos 90, eu já entendedor das coisas, um gosto musical amadurecendo por dentro. No centro da sala, encostado à parede branca, ao lado da porta principal da casa, um imponente Gradiente 3 em 1. Entrei na sala descalço. Piso gelado de um dia bom na minha Chapada Diamantina. Toquei o botão Power. Pequenas luzes por toda a face do aparelho beliscaram com brilho o mofo do tempo. Naquele dia, minha professora de português, de nome Dalva, havia me emprestado um disco que tinha um homem bigodudo na capa. “Você vai gostar”, disse ela ao me passar o objeto.

Nessa época eu começava a esboçar, dentro e fora do ambiente escolar, um certo gosto pela leitura e pela escrita. Gosto é só um modo de falar, pois para mim era mesmo uma grande obsessão. Claro que fiquei surpreso. Do nada, a professora me emprestara um disco pessoal. Logo após o almoço, fui ter com todo aquele mistério. Mistura de curiosidade e apreensão. Levantei a tampa, posicionei o LP na pista plástica circular, ajustei a agulha, xiiii... Som! “Se você vier me perguntar por onde andei/No tempo em que você sonhava/De olhos abertos, lhe direi:/Amigo, eu me desesperava/Sei que assim falando pensas/Que esse desespero é moda em 76/Mas ando mesmo descontente/Desesperadamente eu grito em português/Mas ando mesmo descontente/Desesperadamente eu grito em português”...

A música entrando na alma e meus olhos vidrados na capa, fitando a letra da canção, os detalhes, as cores, os melindres, os alcances dos sentidos que me formavam e que borbulhavam como um grande astro em fervura, arrastando-me dali em questão de segundos. “Belchior”, eu li. “Belchior”. “A palo seco”. “Que será que significa?” A música tocando. “A palo seco”. “Tenho vinte e cinco anos/De sonho e de sangue/E de América do Sul/Por força deste destino/Um tango argentino/Me vai bem melhor que um blues/Sei que assim falando pensas/Que esse desespero é moda em 76/E eu quero é que esse canto torto/Feito faca, corte a carne de vocês/E eu quero é que esse canto torto/Feito faca, corte a carne de vocês”...

Aquele canto torto, feito faca, cortando na pele, a pele que é deveras a parte mais profunda da gente, aquela voz desesperada a me revelar uma tonalidade de mundo bem mais forte da que eu suspeitava até então... “Belchior”, eu lia. “Belchior”, eu repetia aquele nome desordenadamente. A sala, naquele instante, havia sido preenchida por uma espécie de espuma invisível, que tomava conta dos quatro cantos a formar uma câmara acústica de tal modo perfeita que todos os sons imprestáveis do mundo haviam dado lugar à mensagem que aquela voz me trazia. Mensagem de rebeldia, de pertencimento, de chão, de poesia, de humanidade, de sensibilidade, de veracidade, de engrandecimento, de simplicidade. Dessa forma, e durante todo o disco, como um encontro às avessas, marcado pelo espanto alegre, escutei Belchior pela primeira vez em minha vida. E aquilo me soou como uma voz ancestral, meio mágica, meio mítica.

Dali em diante, Belchior faria parte de minhas andanças pelo mundo tal qual um oráculo sempre presente e prestes a aconselhar-me sobre minhas próprias forças individuais, sobre minha identidade, sobre meus passos. Já homem, crescido em meus pra-lá de 20 anos, estudante em terras estrangeiras, fiquei sabendo por telefone que aquele músico fantástico e tão amado por mim iria se apresentar no tradicional festejo de São João da cidade baiana de Iraquara, minha terra natal. Impossibilitado de ir vê-lo se apresentar, por inúmeros fatores, acabei escutando-o à distância, num compasso que transcendeu uma vontade irrefreável. 

Tempos depois, vi algumas fotos do Belchior no pequeno palco montado no meio da praça Péricles Gama, empunhando seu violão selvagem e sua voz forte nordestina erguida numa jaqueta jeans de grosso pano. Vi, também, que ele até posou com moradores conhecidos do lugar que me viu nascer após o show. Certo é que jamais esqueci aquelas imagens. Era Belchior sob o céu estrelado da minha Iraquara. Era uma rota aberta no meio do meu espanto. Uma trilha salpicada de dores e amores a partir de um coração rebelde fincado na história de minha própria vida. Uma estrela que não vi passar, mas que senti, a palo seco, feito fúria engolida às vésperas de toda uma particular criação, como a iluminar o canto úmido de vida que há em minhas palavras.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Belchior-251954440

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Menina a caminho

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Por Germano Xavier

em diálogo com o conto Menina a caminho, de Raduan Nassar.



menina a caminho
sem caminho
menina sem carinho
menina sem arzinho
de menina a menina
a caminho do ventre seco
da vida, da madrugada alheia
a caminho da tarde sem seda
menina-descaminho
menina sem menina dentro
nem fora, menina com fome
de ser menina
a menina, ser, quer ser
caminho


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Aldeia-da-Roupa-Branca-156185887

Nada muito sobre filmes (Parte XXVIII)

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Por Germano Xavier



THINNER

Um advogado tem muita dificuldade para emagrecer. Certo dia, é vítima de uma maldição “fatal” após atropelar uma velha cigana. A maldição? Emagrecer até a morte! Aí começa uma corrida contra o tempo. É preciso reverter a maldição. Mas, como fazer isso? THINNER é um terror dirigido por Tom Holland em 1996. O filme é baseado num conto de Stephen King, que está presente em uma das cenas do longa. Não me surpreendeu.


A VOLTA DOS MORTOS VIVOS

De 1986, dirigido por Dan O'Bannon. Um vazamento de gás, de procedência muito esquisita e causado por dois funcionários de um armazém de produtos médicos, misteriosamente faz com que os mortos de um cemitério próximo retornem à vida. O filme é muito trash. À época, deve ter sido legal de ver. Hoje, dói de tão bizarro.


OS OITO ODIADOS

Em 2016, Quentin Tarantino lançou OITO ODIADOS. Para quem viu CÃES DE ALUGUEL, vai identificar traços típicos do diretor desde as primeiras cenas. Durante uma nevasca, um carrasco, uma prisioneira, um caçador de recompensas e um xerife se confinam em um velho armazém. No local, encontram mais quatro desconhecidos que também fogem das péssimas condições climáticas do momento. Com o passar do tempo, estas oito pessoas começam a travar uma guerra particular uns com os outros, a partir da descoberta dos segredos de cada um. O resultado é um confronto que parece não ter fim. O espectador, de camarote, assiste tudo sem saber quem está certo ou quem está errado. Mais um filmaço com a marca de Tarantino. Para quem não gosta de sangue e cenas de violência, melhor nem tentar. Recomendo a todos os mortais!


STRANGER THINGS

Série criada por Matt Duffer e Ross Duffer em 2016. Nostalgia pura, anos 80, fantasia, monstros, crianças, bicicletas, aventuras, trilha sonora belíssima, mundos paralelos, referências a The Goonies (meu filme preferido da infância), Winona Ryder... enfim, podem me chamar de infantil ou de qualquer outra coisa, mas eu gostei. Gostei muito. Recomendo a todos os mortais!


BRUNA SURFISTINHA

De Marcus Baldini (2011), o drama brasileiro sobre a mocinha de família que resolve largar tudo e virar uma garota de programa consegue ser melhor que o livro em que se baseia: O doce veneno do escorpião. Sim, eu li este livro! No fim, quando você junta tudo, não sobra nada de serventia. Se ela foi feliz com tudo isso, sorte a dela. Mas o livro e o filme são dois zeros à esquerda. Bláh!


NARCOS

A segunda temporada me causou um profundo desencanto. Da primeira temporada gostei. Aprecio as narrativas, muita das quais exageradas, que envolvem o traficante colombiano Pablo Escobar. Histórias que fazem parte do ser latino-americano diante do mundo. A história de Pablo Escobar tem muito a nos ensinar, em muitos sentidos. Agora é aguardar a próxima temporada...


A BUSCA

De 2013, filme de Luciano Moura. Um casal de médicos, que não está numa relação relativamente saudável, depara-se com o fato de o único filho ter fugido de casa quando de seu aniversário de 15 anos. O pai, prestes a se separar da mãe, resolve cair no mundo em busca do filho. Ao passo em que tenta descobrir pistas sobre o menino, vai aos poucos descobrindo mais acerca de si mesmo. Um filmezinho bom.


SEVEN - OS SETE PECADOS CAPITAIS

De David Fincher (1995). Dois detetives encarregam-se de investigar um serial killer que mata as pessoas de acordo com a ordem dos sete pecados capitais. Precisando lutar contra seus próprios egos, os dois travam um embate conjugal muito perigoso até as vias de fato. Confesso que esperava mais. Sigamos, bucaneiros!



* Imagem: http://mochilaonerd.com.br/category/cinema/

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXV)

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Por Germano Xavier

"tradução livre"



Sexta-feira, 20/05/2016
O velho lobo do mar


Le vieux loup de mer

"Que peut valoir la vie, si la première répétition de la vie est déjà la vie même ?"
(Milan Kundera, in l’INSOUTENABLE LEGERETÉ DE L’ÊTRE)


je me suis adossé à la mer plus d’une fois
et par crainte de l’inconnu, cette distance qui nous dévore
caché sous les fentes ondulantes des marées,
j’ai construit en moi le son des peurs réelles.

en partie conscient, j’ai su occulter
la bête indestructible des eaux dans les écumes.
en partie grâce à mes ruses, j’ai avorté des routes insensées
de vaillance vers les imprudences.

force est de constater que les histoires où je navigue
mes plus fortes campagnes en tant qu’homme
ont toujours été des traces jetées aux feux
et aux étoiles de l’âme.
tout se résume, donc,
jusqu’à présent (et ceci m’a sauvé la peau),
a une victorieuse carrière d’instants fugaces.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Marujo-418521549

domingo, 9 de outubro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXIV)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Domingo, 15/05/2016

Paraíso-quadro

À Adriano Ricardo, professeur d’étonnements

“Le paradis est, avant tout, un tableau”
(Bachelard)


Paradis-tableau

ce que j’ai vu, est vivant.

j’ai vu l’improbable
dans ce que j’ai abandonné de fait,
l’invisibilité des silhouettes, des motifs,
les mers devant la mer au delà de l’horizon.

j’ai vu mieux lorsque j’ai souffert
d’autres manières de voir, de vivre.
quand les mots banaux m’on teint
d’amour, d’angoisse, de rêve.

à l’aide de mes yeux comme unique instrument,
j’ai vu le mystique du visible. mais tout cela
n’aurait aucune valeur si la solitude s’accaparait de moi,
sœur en plongeons.

j’ai été l’heure littéraire, tel un poète
de mes rendez-vous échoués.

car j’ai vu la fantaisie, j’ai mieux vu
l’enchantement dans l’envie de l’être,
d’être là, lorsque ma musique m’a accusé
comme un soleil.

j’ai préféré le détour des routes là ou courent les enfants eternels,
ceux qui sauront encore jouer,
puissants, en priant de leurs voix immenses.

j’ai connu le sacré sur les lèvres isolées de la femme,
la but ultime de l’univers.

donc, j’ai vu
ce que j’ai simplement ignoré,
ce que je n’ai jamais imaginé,
le monde, le néant, le désir, l’organe ultime
de mes forces,

ma propre pourriture,
la mélodie inoubliable,
ce que la Grace a rendu sang et poignets

j’ai vu, enfin, ce qui a passé, ce qui est,
ce qui sera et, j’avoue, j’ai tout vu pour la première fois.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Streuobstwiese-599088527

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Livro de Germano Xavier figura entre os finalistas do IV Prêmio Pernambuco de Literatura 2016

*

Por Germano Xavier


Meu livro de contos SOMBRAS ADENTRO foi um dos finalistas do IV Prêmio Pernambuco de Literatura 2016, realizado pelo Governo de Pernambuco (Secult e Fundarpe), em parceria com a Cepe Editora. O livro figurou entre os 14 mais bem avaliados, de um total de 250 inscritos. Agradeço-imenso à Carol Piva (projeto gráfico, edição, prefácio e revisão dos originais) e Iara Fernandes (revisão dos originais) pelos incentivos e andar-amores de sempre. Também compartilho minha alegria com o meu conterrâneo iraquarense Marcel Gama (artista-imenso de minha terra natal que produziu belíssimas ilustrações que farão parte da versão impressa final - em breve!), com Melissa Resch (artista também-gigante que produziu a capa para a versão impressa do livro), com a querida Cláudia Lemos (posfácio) e Thaís Helena Syllos Cólus (texto da quarta capa). Aos amigos e leitores do blog/jornal O EQUADOR DAS COISAS, minha gratidão. Esta menção honrosa é nossa! Felicidade além da conta! Sigamos, bucaneiros!


* Imagem: http://patativadoassare.com/7166-2/

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XIII)

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Olá, querido amigo!

Há quanto tempo não nos falamos por aqui. Só em intenções, em tentativas paralelas, em pequenos toques de palavras, com poesia, com recados breves.

Mas por aqui é diferente. A gente fala cara a cara e neste momento estou a ver a tua, espantada, mas serena, dizendo: “A Clara acordou para nós”, com um certo ar de reprovação mas ao mesmo tempo contemporizador. Não vou justificar-me. Tu farás isso, muito melhor do que eu, só tu percebes por que motivo as palavras se transformam em vazio algumas vezes na nossa vida; deixemo-las falar como bem entendem, calando-se, como parece ter sido o caso dos últimos meses.

Tenho estado em contemplação do mundo, numa expectativa permanente. Agora, no exato momento, ouvindo Tom Jobim cantar Insensatez com uma banda que não consegui identificar. E lembrei-me de Chopin (Op. 28 nº 4), https://www.youtube.com/watch?v=ef-4Bv5Ng0w, por ter lido algo a respeito da proximidade do tema do Tom com esta sinfonia, nem sei se é o termo. A verdade é que fui ouvi-la e confirmei a semelhança. Sublime descoberta que partilho contigo, meu amigo, é a primeira vez que me lembro de escrever uma carta com um link para o youtube, sinal dos tempos…

Começaram os Jogos Olímpicos no Rio, e a nossa atenção está agora voltada também para os nossos irmãos brasileiros e para o Rio de Janeiro, para o mundo, para esse encontro supremo de culturas e de atletas. A imprensa vai contando pequenas anedotas de bastidores, pormenores sobre alojamento, acolhimento; recordo uma citação engraçada e suscetível de gerar polémica também, que ouvi a respeito da imprensa há anos atrás: a imprensa é como o bikini, mostra muita coisa, mas não mostra o essencial. Partindo talvez do princípio que o que se oculta é sempre essencial, quem sabe se pelo simples facto de ser omitido.

Aqui em Portugal há um assunto recorrente que são os fogos de verão, causados por mão criminosa ou acidentais, ninguém sabe, poucas vezes se chega a uma conclusão. Neste momento há incêndios de grandes proporções em várias zonas de Portugal, inclusive no Funchal, que atingiram famílias de forma dramática. Fala-se em empresas privadas que combatem os fogos e que teriam interesse em que estes se propagassem. Parece uma coisa monstruosa, mas não impossível. Em todo o caso, à falta de provas, não passam de meras teorias, especulações, mais ou menos fundamentadas.

Tenho que ter cuidado para não repetir histórias, assuntos, comentários, talvez esteja a entrar naquela idade interessante em que se repetem relatos sem cessar e devolvemos aos amigos as histórias que aprendemos com eles. Se são amigos da mesma idade a coisa funciona, pois eles também já não se lembram de ter contado… mas se forem mais novos, mais atentos, mais alerta e bastante críticos, a coisa descamba… envelhecer ou amadurecer proporciona-nos experiências curiosas. Noutro dia uma amiga querida dizia-me que eu não tinha rugas. Mas eu reagi: eu tenho, sim, não aquelas rugas como sulcos do arado na terra, não aquelas crateras de terra seca, fendas de terramoto, mas as rugas que eu tenho, embora discretas, são visíveis a olho nu. Acontece que a vista também já não as alcança no espelho, por isso, mais rugas e menos golpe de vista, equivale a juventude eterna! Não é sábia a natureza? E aqui entre nós, mesmo que as veja, elas são a última das minhas preocupações, não por falta de coqueteria mas porque considero que tenho preocupações mais prementes. E se as rugas dos outros não me incomodam, porque as minhas haveriam de afastar alguém? Irrita-me um bocado esse culto exacerbado da juventude que faz com a pessoa se sinta quase culpada por não parecer ter 20 anos aos 50. Porque deveria parecê-lo? A pessoa deve viver bem com a idade que tem: cuidar da saúde física e mental não significa recusa em aceitar que o tempo deixa marcas. Pode parecer um lugar comum, mas creio que o envelhecimento é uma questão que preocupa a todos, de forma mais concreta a partir de certa idade, e por uma questão social e cultural, as mulheres. Creio que a natureza nos castiga mais e a sociedade exige mais de nós em termos físicos. A mulher tem um curto período da sua vida para procriar, esse período é muito mais prolongado no homem. A gravidez provoca alterações de peso bruscas e variações hormonais. Talvez esteja a ser injusta ou insensível com os homens, no geral, mas nunca ouvi nenhum queixar-se dos efeitos da andropausa, se calhar apenas não o fazem à minha frente… hoje o meu discurso raia o feminismo mais primário e “déplacé”, mas não é por mal, nem por quaisquer radicalismos, apenas me sinto à vontade contigo para não insistir no socialmente correto o tempo todo. É cansativo ser assim… eu não quero ser assim contigo, nem tu querias, certamente.

A situação política no Brasil que referes na tua última carta também é inquietante. Nós preocupamo-nos aqui, e eu prefiro comparar a tua versão das coisas com as várias versões oficiais, o cidadão sente na pele todas as indignações, desrespeitos e manipulações e é importante conhecer o impacto da instabilidade na vida das pessoas reais, como tu, que és meu amigo e cuja palavra me chega sempre fresca e cheia de emoção, de verdade, sem contenções, espontânea como tu és.

O mundo já não é um lugar seguro; será que já o foi alguma vez? A violência grassa em qualquer ponto do globo, as religiões apostam na ritualização em detrimento da essência, as doutrinas são substituídas por práticas coreografadas, …eu sou uma ignorante nestas coisas, chamo coreografia à liturgia e já fui repreendida por isso. Mas tu entendes, não é? Eu preciso de ver e sentir para além do óbvio, nesta matéria e no geral.

Agora o meu pensamento voou para um fait-divers, que te vai deliciar: no outro dia encontrei uma menina numa festa familiar, uma menina da Guiné Bissau com quem eu ensaiava uns passos de dança. Dançámos funaná e ficámos super transpiradas, ela, eu e outros meninos com quem brincámos um par de horas, uma vez que eu, ingenuamente, cheguei à festa à hora marcada, coisa quase inédita entre latinos e africanos, e tínhamos que entreter-nos com alguma coisa…a menina era um doce, tinha uns olhos negros enormes e bonitos. Teria os seus cinco anos, pelo que percebi. (Sabes que eu tenho um monte de aventuras com crianças, histórias anedóticas, deve ser o meu lado Peter Pan). Então nós dançámos e desenhámos, no telemóvel, eu fazendo retratos e ela e os amiguinhos posando. Depois, do nada, a menina atirou: “Tu és branca ou és preta?”. Eu ri-me e nem respondi diretamente. Acho que apenas devolvi a pergunta, perguntei se isso para ela era importante. Aquela criança viu claramente para além da cor da pele, ela viu cultura, atitudes, reações e forma de estar; ela abarcou, com o seu olhar ainda puro de criança, tudo o que compõe um ser humano. Depois, quando eu fazia o seu retrato, ela pediu baixinho: quero que me faças um cabelo como o teu… aquele pedido entristeceu-me, disse-lhe que ela tinha um cabelo lindíssimo e um penteado muito bem feito, trancinhas ornadas com missangas, coisa trabalhosa, feita pela mãe. Mas eu percebi que a identidade e a consciência de si é uma coisa que se forma cedo, esta menina precisa de ter padrões positivos dentro da sua comunidade de origem, de perceber a beleza como algo muito mais abrangente, muito mais vasto, uma coisa feita de muitas cores e em constante mutação. Eu sei que estás a sentir o mesmo que eu em relação a isto, mas para entenderes melhor mando-te o retrato da menina. Da Jessica.

Agora eu vou ter que te abandonar, só no papel, como sabes, já antecipando a tua carta que virá um dia, quando eu menos esperar, envolta em nuvens e em sabores sempre diferentes. Com laços e fitas e papel brilhante. Uma coisa de encher a alma. Eu acabo por saber sempre de ti, querido Viana, porque te adivinho e te farejo, pelo que expões e pelo que omites, e até pela tua discrição e pelo teu cansaço. Mas é muito bom quando as notícias chegam por tua iniciativa e eu sinto que também precisas destas conversas para te reciclares.

Aqui está um calor insuportável. Eu não aprecio calor em excesso, ando permanentemente com um leque na carteira, bebo água sem parar.

Mando um abraço feito beijo para esse reino distante de onde virás um dia para me visitar, e visitar esta terra onde te sentirás em casa. Tens já aqui muitos amigos: Cristina, Sant’Ana e o Dudo lá em Luanda também, que adora ler-te. E mesa posta, passeios preparados e conversas intermináveis a germinar. Fico à espera de ti e das tuas palavras que abrem portas.

Clara
Lisboa, 10 de Agosto de 2016.


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*

Clara,

Só em breves levantes, o encontro feroz. Assim, feito. Quisto. Bem. O encontro que marca a vontade de estar em paz, em pensamento, em corrida de se ir ao abraço amigo, força leve. A nossa. Mas que agora estamos, em novo confronto de ideias. Tardamos, mas estamos. Sempre. Assim que é. Não se faz preciso nenhuma justificativa mais aprofundada. O mergulho é o de outrora. Tua voz daí combinando marés com minhas sensações transatlânticas. Esse silêncio de dias, de meses até, bem necessário se faz, quando assim é o rumar, o remar. Da vida, das ondas de nossa amizade.

Pois bem, Clara, nos mesmos instantes em que você é levada via youtube a pensar e refletir sobre as coisas e o mundo, os Jogos Olímpicos do Rio – 2016 começam e, zás!, já terminam. No fundo, a mesma conjuntura de sempre. As grandes potências esportivas no topo. O Brasil, com todas as suas dificuldades, tentando ser menos pior que nos últimos Jogos. Não se pode ser exemplo em esporte sem dar incentivo a atletas e sem estruturação básica para treinos etc. O Brasil é uma piada nesse sentido. Não sei como é aí em Portugal... Bilhões de dólares jogados fora, pelo ralo, muito destes corrompidos e desviados, é certo, e no fim... no fim... no fim, nada. O desastre é colorido e tem as cores da exclusão. Pagaremos as contas, paulatinamente. Já estamos pagando. Ou melhor, há bastante tempo já pagamos.

Você citando assim essas notícias tristes sobre incêndios, Clara, e eu me recordo com tristeza das muitas vezes que a minha Chapada Diamantina ardeu em chamas e nada, absolutamente nada mesmo, era feito. Por lá também havia tais comentários, de que haveria uma “indústria ou máquina” interessada nesse fogo. De doer o coração da gente, não? Pensar que é bem possível que assim se dê...

Temos dias difíceis. Nossos olhos quase sempre não amenizam a dor da realidade. A não ser nestes casos aí, contados por ti. Engraçado, dias atrás falava eu sobre a idade com uma pessoa. A idade que, acreditando em Quintanares, só vem de duas formas: ou idade de vida ou idade de morte. Melhor encarar assim, não? Estamos vivos e isso deveria bastar. Entrar em parafuso por conta de uma ou duas rugas no rosto não seria nada interessante, penso eu.

Ufas e ufas, Clara! Política aqui, de mal a pior, cobras e corvos, animalesca luta pelo poder, vampiros e sanguessugas... cada qual com seus próprios interesses, que não os do povo mais necessitado. Preços aumentando, dinheiro faltando. Receita de um desastre? Não sei. Prefiro acreditar que tudo isso passará e que novos ventos pousem no Brasil. E sim, eu te entendo, eu te entendo... tudo agora é panaceia, tudo ou quase. Que fazer, que fazer?

E a Jessiquinha, heim?!, tão linda e de tão nos preocupar já. Que mal o mundo faz com a cabeça de um serzinho desses? Quem terá sido o mal, o que terá sido o mal? Necessário investigar. A negritude é expansão, roupagem de força. Humanidade inteira numa cor. Precisa ser entendida desde pequena, precisa ser vivida. Quem terá sido o mal, o que terá sido o mal? Ah, Jessiquinha, continue a bailar com teus cabelos livres de qualquer maldade de ideias! Você vai ver que és bem mais quando! Vai, Jessiquinha! Vá! Seja! Seja!

Dizer, por fim, que a vida está sempre a nos apresentar bonitezas, e que precisamos sempre estar com a alma aberta diante desses acontecimentos. Apesar de todas as dificuldades, a vida me tem sido muito bonita nos últimos dias. Tenho me sentido mais vivo. Desejo isso a você também, Clara, uma vida sempre mais vida. Abraços em todos aí e até bem breve!

Caruaru dos bonecos de barro de Vitalino, 23 de agosto de 2016.


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Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens: Luísa Fresta e Deviantart.com.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LIX)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Sábado, 9 de abril de 2016
A estreita guarda das noções

à José Barbosa


L’étroite garde des notions

le temps de l’âme est insaisissable
aucune technique n’est développée,
et comme (im)précisé,
entre la vocation et l’intérêt,
entre la vocation et le plongeon
peut-on s’offrir le métier de rêveur?

nous voudrions, alors
les bras eternels des océans,
les lamelles aveugles des écumes,
pour pouvoir, en vain,
marcher en à-coups de départ
parmi la lecture affligée des dilemmes.

des fils de vie appliqués au mystère
domptent l’invisible vague des finissons,
qui mémorise, inlassablement
l’étroite garde des notions.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/2-611972814

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LVIII)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"



Nosso tempo


Notre temps

rompre.
laisser venir les printemps.
même si rien n’arrive, c’est une vie.
c’était la vie même.

intervenir. et connaître pour pouvoir rompre.
connaître pour intervenir.
et connaître pour agir.
contribuer.

// l’erreur est aussi un manifeste//
la poésie est dans les actes.
la poésie est dans les faits.

la poésie n’est pas là
pour être n’importe qui.

la dame sans principes
est quelque part dans le monde.
et nous sommes là
dans le monde
pour vivre.

c’est un temps des sens,
un temps des hommes sensibles.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Flowing-Through-The-Story-Of-Your-Whole-Life-602950222

domingo, 14 de agosto de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LVII)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Quinta-feira, 10 de Março de 2016
Um intenso toque seco


Un intense coup sec

l’écheveau, comme un trait.
l’identification, comme un sceau.
le foyer, comme une devise.
le mot, comme un appel.

des âmes vont naître, le diable au corps. Pourquoi ?
alors que rien ne sera fait pour les retenir

//la machinerie humaine est un art.

la protection intelligente sera donnée comme une augure.
nos itinéraires n’auront pas le chemin du milieu.
tout s’adaptera à l’absence.
nous vivrons sans parfum.

et le danger, cet extrait,
n’est pas celui-ci.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Sahara-620023092

sábado, 16 de julho de 2016

Manifesto do grito pela democracia!



Texto-montagem produzido pela turma 2014.2 do mestrado em Letras 
da Universidade de Pernambuco/Campus Garanhuns, 
apresentado em seminário da disciplina Literatura e Ensino, 
ministrada pelos professores Dr. Elcy Luiz da Cruz e Dr. Jairo Nogueira Luna.


Palavras não adiantam mais? Quantas defesas feitas para a nossa presidenta! E nada! Argumentos memoráveis, articulados, suntuosos... E nada! Como convencer quem não quer ser convencido? Será que palavras não adiantam mais? ADIANTAM SIM! Esse SIM não é o sim patético que ouvimos no Congresso Nacional há algum tempo, é o SIM de um grupo engajado na luta para fazer valer a palavra da defesa de um ideal democrático conquistado às duras penas pelo povo brasileiro.

Nós queremos liberdade. Queremos apenas expor nossas ideias, sem limites, sem prisões, sem exclusões. Queremos apenas o direito de ter nossos direitos garantidos. Não queremos mais do que isso. Queremos apenas LIBERDADE DE EXPRESSÃO, essa LIBERDADE de expressão que de uma forma golpista pode ser calada por facções que moveram uma guerra, apoiada por uma mídia avassaladoramente poderosa. Lamentável! Sigamos contra os oportunistas, contra os que querem sepultar a democracia. Não fiquemos inertes! O peso do chicote da censura poderá doer muito em nossas costas! O povo grita com medo da democracia escapar às mãos! Nossa democracia ainda engatinha, sendo um frágil rebento! “Os doutores da lei” querem nos tirar este rebento, querem nos roubar a última flor do nosso jardim, e querem que fiquemos calados. Nunca, jamais! Nosso grito ecoará na história!

Vamos insistir na manutenção do nosso direito ao jogo democrático, então é:

pelo direito à Democracia que lutamos, que brigamos, que insistimos...

pelo direito à Democracia que estudamos, que lemos, que insistimos...

pelo direito à democracia que falamos, que bradamos, que insistimos ...

pelo direito à Democracia que protestamos, que enchemos as ruas, que insistimos...

pelo direito à Democracia que, às vezes, silenciamos, que calamos nossa voz, mas insistimos...

pelo direito à Democracia que nossos pensamentos nunca se calam, antes bradam, esbravejam e, por isso, insistimos...

pelo direito à Democracia que jamais iremos nos prostrar diante de situações adversas que desonram o direito de todos. Assim, insistimos...

Sim, insistimos porque se faz necessário nestes tempos escuros, de homens partidos, como já dizia Drummond. Insistimos porque os direitos de todos estão sendo subtraídos por aqueles que falsamente nos representam e, dessa forma, nos desonram. Insistimos, pois é necessário agir.

Enfim, insistamos!

Nosso manifesto não cansa de falar em Democracia, palavra que vem do grego, que está sendo usurpada por um bando de patifes que deveriam estar sendo expelidos pela cloaca neste momento, aquela mesma cloaca que já ganhou contornos literários nos versos concretistas de Décio Pignatari. Nossa literatura neste momento é de luta, é de não aceitar o que está sendo imposto por um grupo de falsos moralistas, que querem o poder apenas para manipular os mais pobres, os quais conseguiram ascender um pouco com o governo que afastaram temporariamente com um golpe.

Não há dúvidas que nós, trabalhadores e trabalhadoras de camadas sociais menos favorecidas, estamos enfrentando um duro soco na democracia, pois são inúmeros os retrocessos já sinalizados por esse governo ilegítimo. Retrocessos que nem precisamos citar, porque o grito dos menos favorecidos socialmente já podem ser ouvidos nas ruas de todo o país.

“Se o penhor dessa igualdade conseguimos conquistar com braço forte, em teu seio, ó liberdade, desafia o nosso peito a própria morte!”

Como são fortes essas palavras do Hino Nacional brasileiro! Quantas conquistas alcançamos ao longo dos séculos, em diversos âmbitos, principalmente no politico. O direito de votar aos 16 anos, a liberdade de expressão que perpassa por qualquer assunto nos oportuniza a continuar lutando por melhores condições de vida. E agora, estamos prestes a perder! Jamais! Lutemos, bucaneiros!

Como ficamos esperançosos com um passado recente, vagas em Universidades Públicas ampliadas, direitos garantidos as empregadas domésticas e o acesso ao Profletras, esse por si só não deveria dar direito a ninguém que ingressou no programa e ser contra a nossa presidenta... e tantas outras conquistas! Vamos perder? Não! Lutemos, bucaneiros!

O impeachment é uma ferramenta jurídica e é regulado pelo Art. 85 da Constituição brasileira de 1988 e seu uso é restrito a casos que envolvem ofensas sérias (crimes de responsabilidade) feitas pelo presidente. Como as irregularidades contábeis na administração de fundos da dívida pública das que Dilma Roussef é acusada não se tratam de uma ofensa séria no senso prescrito pela Constituição, fica evidente que este processo de impedimento não é legítimo.

Então, não é exagero considerar esse processo de impeachment contra a presidenta um golpe branco que vai trazer consequências negativas e duradouras para a regra democrática brasileira. Nós consideramos necessário declarar nosso repúdio absoluto à destituição ilegítima da presidenta Dilma Vana Roussef em face de tudo que aconteceu, e, nosso apoio forte para a manutenção da democracia brasileira.

Trouxemos essa parte mais técnica no parágrafo anterior para aqueles que almejam algo mais jurídico, por isso nosso manifesto é completo, ele transita pelo técnico e pelo literário, e principalmente pela DEMOCRACIA!

Veio a nossa mente que o manifesto não é uma arma, e sim um instrumento que faz da palavra uma bandeira, um ideal, assim como o Futurismo iniciou sua caminhada com o “ Manifesto Futurista!, assim como o Comunismo conquistou seu espaço com o “Manifesto Comunista”, nós do Profletras 2014 não estamos iniciando nada, mas estamos fechando um ciclo levantando uma bandeira através de palavras a favor do democrático, mais uma vez sentimos no direito de evidenciar a literatura, nesse aspecto lembramos um poema que complementa nossa discussão: “Agosto 1964”, de Ferreira Gullar.

Agosto 1964

Entre lojas de flores e de sapatos, bares,
mercados, butiques,
viajo num ônibus Estrada de Ferro - Leblon.
Viajo do trabalho, a noite em meio,
fatigado de mentiras.
O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,
relógios de lilazes, concretismo,
neoconcretismo, ficções da juventude, adeus,
que a vida
eu a compro à vista aos donos do mundo.
Ao peso dos impostos, o verso sufoca,
a poesia agora responde a inquérito
policial-militar.
Digo adeus à ilusão
Mas não ao mundo. Mas não à vida,
meu reduto e meu reino.
Do salário injusto,
da punição injusta,
da humilhação, da tortura,
do terror,
retiramos algo e com ele construímos
um artefato, um poema,
uma bandeira.

Essa é a bandeira do nosso manifesto!

As coisas aqui no Brasil não estão em seus melhores dias. O cenário é de névoa. Tudo muito nublado. O futuro do país está em jogo. O futuro de um país que, ao que parece, será para sempre “o país do futuro”, e não o país do presente ou do amanhã próximo. Muito turvo é o horizonte. Um país de depoimentos ininterruptos. O drama é forte. Depoimentos quase sempre risíveis. Alguns não, a maior parte deles. Nem na literatura encontramos figuras tão caricatas, grotescas, teatrais, fanfarronas, cínicas. Assim são e/ou se portam muitos de nossos deputados federais, senadores e parte inteiriça da corja. Não dá para confiar na palavra deles. Acordos secretos escabrosos feitos. Panos quentes. Toalhas de enfrentamento ou desistência sendo vendidas, cargos, postos e depostos, compensações. Tudo muito escuro. O povo sem saber direito. Dúvidas. Incertezas. Medo. Ódios.

Somos contra o impedimento da Presidenta Dilma, por princípio. E por convicção. Não é bom para a imagem do país lá fora. Não é bom para a imagem do país aqui dentro. Não resolverá os reais problemas da nação. De nada adiantará. É evidente o propósito da oposição. Tomar o poder e não salvar o país. O que está para acontecer é um aborto. Impedimento, como o que está em trâmite e da forma como foi imposta, é uma violência na história política do país. Corruptos julgando outros mais ou menos corruptos. Um aborto, repito. Especialmente quando expõe e acentua a divisão política, ideológica, cultural, econômica e até regional de um país. Isso não favorece a igualdade no país, só reforça os preconceitos, os estereótipos. Um processo vergonhoso. No Rio de Janeiro e São Paulo, o carnaval pela democracia. Bem brasileiro. Bem a cara do Brasil? Mas o Brasil não é só o sudeste conservador! Pão e circo e o povo indo atrás.

Que país é esse? Uma calamidade. Na capital Brasília, um muro ergueram para separar os dois tipos de manifestantes, os dois tipos de “povo”. Aqui temos dois “povos”? Pode rir, se quiser. É cômico. Os que são contra e os que são a favor. É trágico. Um país de mais de 200 milhões de habitantes agindo como se dois times de futebol disputassem a final de um campeonato de futebol. O prêmio: a Taça do Poder. Um espetáculo. Uma imprensa manipuladora, interesseira e sem escrúpulos. Uma esculhambação geral. Desmoralizante. Uma tristeza. Torcemos nós para que nada disso se pinte de realidade e tudo fique como antes e que o antes progrida em face de melhorias necessárias a todos nós, brasileiros. Torcer. Torcer muito.

Sigamos, bucaneiros!

E, FOOOOOOORAAAAAAA TEMER!!!!!!!!!

(Todos assinam!)
**

* Imagem: http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2016/05/geral/501545-parada-gay-em-sao-paulo-vira-ato-de-fora-temer-e-volta-dilma.html
** Turma 2014.2 - UPE/Campus Garanhuns.

domingo, 10 de julho de 2016

O Equador das Coisas no I Encontro Baiano de Mídia Livre

*

Por Germano Xavier


E ao completar 9 anos de existência na internet, descubro que o meu blog, O EQUADOR DAS COISAS, que se transformaria também, em 2012, num jornal de literatura impresso (amor demais à Carol Piva, Karime Limon, Iara Fernandes e toda a turma que veio depois), foi selecionado pela Rede de Mídia Livre Bahia 1798, "que busca mapear e compartilhar conteúdos que fortalecem a liberdade de expressão, para participar do Primeiro Encontro Baiano de Mídia Livre, nos dias 10 a 13 de agosto. O evento, que acontecerá na Biblioteca Central dos Barris (Salvador-BA) e tem o apoio da Fundação Pedro Calmon, é uma iniciativa da rede de mídia livre Bahia 1798. O objetivo é promover um intercâmbio entre midialivristas, comunicadores populares ou comunitários, estudantes, fotógrafos, produtores audiovisuais, pesquisadores e produtores culturais do estado da Bahia, com agentes da mídia independente já consolidados em outros estados do país. A programação inclui ações de formação em quatro painéis e dez oficinas, com convidados de todas as regiões brasileiras. A inscrição é gratuita, disponível no site www.bahia1798.org". Represento o Território de Identidade da Chapada Diamantina, na categorização Produção Cultural: Literatura. Uma boniteza de dar gosto bom na alma e um presentaço de aniversário a este espaço que construo com todas as minhas forças, ao lado de meus leitores. Um salve, Pedro Caribé! Sigamos, bucaneiros!







* Imagens: www.bahia1798.org

domingo, 3 de julho de 2016

Um grito quando o carro passa

*

Por Germano Xavier


"Eu não tenho enredo de vida? sou inopinadamente fragmentária. 
Sou aos poucos. Minha história é viver. E não tenho medo do fracasso. 
Que o fracasso me aniquile, quero a glória de cair."
(Clarice Lispector, em Água Viva)


estou tentando encontrar o meu caminho. o caminho parece sempre ser feito de bifurcações. bifurcações nos levam, nos erram. acertar é difícil. o erro é latente. já vivi grandes crises assim antes. crises nos potenciam a ser mais ou a ser menos. com o passar do tempo elas se tornam mais poderosas, tanto no nível de sofrimento quanto no nível de transformação. transformar-se é um caminho. longo. real. imaginário. qualquer observação mais aprofundada não valeria a pena se não provocasse tormentas antes da calmaria. hoje sou o mar. o mar me leva. suas águas imensas. não estou na cidade. estou no porto das minhas ilusões. um grito quando o carro passa abrindo a manhã. tarde e noite. alvorada voraz. minhas mãos fechadas. meus olhos densos. penso que estou melhor do que há um tempo, tempo em que me encontrava de fato estagnado. agora talvez eu esteja on the road. eu devia estar feliz. não apenas porque tomei atitudes perante minha vida, em prol de minha felicidade, mas porque estou me pondo em movimento. penso cada vez mais na importância do movimento. o movimento é o caminho. nem sempre ele é de ascensão. porém, às vezes, é preciso descer ao fundo do poço para encontrar a mola propulsora que nos ajudará a subir. obrigado, esperança, por não me abandonar na minha dura tarefa de existir e ser quem sou. obrigado, dor, por não me facilitar o empreendimento dos meus passos, fazendo-me autor de esforços constantes. obrigado, vida, por me abrir suas portas da percepção, mesmo nas escuridões avulsas. obrigado, angústia, por me fazer revelações diárias. obrigado, amor, por ser. obrigado, poesia, pela palavra interna e inteira. estou tentando desencontrar o meu caminho. o caminho parece sempre ser composto de retas, intermináveis. paralelas nos içam, nos direcionam. errar é fácil. o acerto é distante. viver grandes crises é preciso. crises nos delimitam a ser mais ou a ser menos. com o passar do tempo elas nos tornam mais fracos e fortes. afundar-se é um caminho. curto. ficcional. sanguíneo. psíquico. qualquer observação menos sutil não valeria a pena se não provocasse paz antes da ebulição. hoje sou o céu. o azul me recorta. suas nuvens macias. não estou na zona portuária de mim. estou no monte das minhas verdades. um grito quando o carro passa fechando a madrugada. tarde e noite e dia e tarde e noite e dia. alvorada morta. minhas mãos abertas, meus punhos cerrados. meus olhos densos emergem um verde rural de minha ancestralidade provinciana. penso que estou pior do que há um tempo, tempo em que me encontrava de fato em movimento. para onde eu ia? agora talvez eu esteja fora da estrada. eu devia estar triste. eu devia não estar. eu devia parar de pensar em estar. penso cada vez mais na importância do nada, do sossego. a inércia é o caminho. nem sempre ele é o das perdas. podemos vencer a qualquer instante. a guerra é contínua. porém, às vezes, é preciso subir ao topo da pirâmide invisível para de lá deixar rolar vertigem abaixo a roda mortal que inventamos cotidianamente.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/The-rain-10524459

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Nós, professores de espantos

*

Por Germano Xavier


em especial, para os professores Dr. Elcy Luiz da Cruz e Dra. Graça Graúna

Somos professores porque tememos esta grande abertura para o nada que nos assola cotidianamente. Somos professores porque o conhecimento é uma arma letal contra todos os desmandos da humanidade. Somos professores porque há pobreza, há fome, há desamor, há desigualdade. Somos professores porque existe intolerância e porque existe preconceito. Somos professores porque a palavra é alimento. Somos professores porque quase ninguém fará nada por nós. Somos professores porque a poesia de um olhar ou de um sorriso explica tudo. Somos professores porque pretendemos transformar pessoas e aproximar sonhos. Somos professores porque não desistimos do amanhã. Somos professores porque a educação é a água viva. Somos professores porque esperamos ver chegar a primavera do saber para todos. Somos professores porque há um esquema venenoso e fraudulento que dificulta nossas ações. Somos professores porque somos menos se não formos. Somos professores porque é preciso causar espantos. Somos professores porque o mundo é um moinho e suas pás nos cortam. Somos professores porque as horas passam e o trem pode sempre descarrilar. Somos professores porque toda estrada é bifurcada. Somos professores porque somos a contramão da engrenagem do mal. Somos professores porque possuímos coragem. Somos professores porque panfletamos a justiça dentro e fora de nossas salas de aula. Somos professores porque manifestamos insatisfação pelo que nos oprime. Somos professores porque o livro é o livre-arbítrio. Somos professores porque a arte amolece corações petrificados. Somos professores porque a história não é a que sempre nos contam. Somos professores porque estamos abandonados às margens de nós mesmos. Somos professores porque um dia todas as máscaras cairão. Somos professores porque o ódio não vencerá. Somos professores porque há muita coisa por criar. Somos professores porque dentro de nós uma alma pulsa. Somos professores porque ser livre é um bem universal. Somos professores porque lutamos contra qualquer forma de repressão. Somos professores porque precisamos ser professores. Somos professores porque não gostamos de nos calar. Somos professores porque a vida é uma escola. Somos professores porque não desejamos a escuridão a ninguém. Somos professores porque preferimos o clarão!


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Velvet-Crime-519138024

domingo, 5 de junho de 2016

A impávida vespa dançante

*

Por Germano Xavier

para Muhammad Ali, in memoriam



no ringue,
Cassius Clay 
tornou a dança possível.


* Imagem: Google

Sobre modelos de análise do discurso (um fichamento)

*

Por Germano Xavier


SOBRE MODELOS DE ANÁLISE DO DISCURSO

SWALES, J. M. Sobre modelos de análise do discurso. In: BIASI-RODRIGUES, B.; ARAÚJO, J. C.; SOUSA, S. C. T. (orgs.). Gêneros textuais e comunidades discursivas: um diálogo com John Swales. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009, p. 33-47.


REFLEXÕES SOBRE MODELOS ESTRUTURAIS

“Apesar da potencial importância de modelos estruturais como demonstrações do que a análise do discurso pode produzir e elucidar em um nível acima da sentença e do enunciado, a reflexão meta-analítica séria sobre seus usos e papéis é rara na literatura de linguística aplicada ou de inglês como segunda língua (ISL) (p.35).”

“Os modelos também tendem a ficar desconfortáveis entre aqueles que adotam abordagens processuais à escrita, entre os que privilegiam a expressão individual e a criatividade e entre os que acreditam que modelos são inerentemente conservadores e restritivos, diminuindo, portanto, as oportunidades que alunos e professores têm de desconstruir os sistemas hierárquicos de que fazem parte (PENNYCOOK, 1997) (p.36).”

“É como se a simplicidade tornasse os modelos memoráveis, e isso por sua vez tornasse possível seu uso, sua citação e seu ensino (em algum sentido a ser discutido) (p.37).”

“Talvez da mesma forma que os compositores aparentemente só conseguem escrever um único concerto para violino, os analistas do discurso só possam produzir um modelo de sucesso (p.38).”


UM CASO-TESTE

“Agora parece que, afinal, a qualidade de ser bom como adequação aos dados globais pode não ser um critério de definição necessário nem suficiente para modelos estruturais úteis do ponto de vista pedagógico ou prático em nosso campo (p.41).”


REVISITANDO AS INTRODUÇÕES DE ARTIGOS DE PESQUISA

“O modelo CARS (create-a-research-space), de 1990, tem sido comparativamente bem-sucedido, em termos tanto descritivos quanto pedagógicos (ou pelo menos é aquilo em que ingenuamente acredito), por ser relativamente simples, funcional, apoiado em corpora, sui generis para o gênero a que se aplica e por, pelo menos no estágio inicial, oferecer um esquema que até o momento não estava amplamente disponível (p.41).”

“Suponho que poderíamos agora construir um modelo alternativo para dar conta desse novo tipo de dados, um modelo que poderia se chamar OARO, ou Open a Research Option [abrir uma opção de pesquisa] (p.42).”

“Esse modelo alternativo capta um mundo da pesquisa mais gentil e suave, em que há pouca competição por espaços de pesquisa, mas onde pode haver competição por leitores (...) (p.42).”

“Seriam elas (as disparidades entre os quatro modelos apontados no texto) determinadas por uma tradição cultural hereditária, pelo ethos sociopolítico, pela formação acadêmica, tamanho da comunidade discursiva ou maturidade do campo nacional, e em que proporção e combinação? (p.44).”


OBSERVAÇÕES CONCLUSIVAS

“Neste trabalho, apresentei alguns argumentos para que se vejam os modelos retóricos e estruturais como metáforas potencialmente reveladoras dos arranjos discursivos que operam como hipóteses testáveis e rejeitáveis para o planejamento comunicativo por parte de escritores, leitores, ouvintes e falantes (p.44).”

“Uma óbvia razão para se fazer isso é uma apreensão como os assim chamados “formulaicos” e uma preocupação com o modo pelo qual a análise descritiva pode se tornar um controle normativo, como quando meus alunos de pós-graduação em linguística me dizem que escrevem seus resumos “de acordo como o manual” (p.44-45).”

“Se, como parte do despertamento de sua consciência retórica e metalinguística, todos os participantes de nossas classes hoje são analistas do discurso, então, para esses estudantes de tempo parcial, é melhor criticar e modificar modelos mais simples do que aprender e aplicar modelos sofisticados (p. 46).”


Imagem: http://www.revistabula.com/1236-etica-livro-13-mandamentos/

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Nada muito sobre filmes (Parte XXVI)

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Por Germano Xavier


TUBARÃO

Ando vendo e/ou revendo os filmes dirigidos por Steven Spielberg, sujeito acostumado a críticas as mais díspares possíveis dentro do ramo cinematográfico. TUBARÃO (1975) foi o seu primeiro grande sucesso. Eu tinha parcas recordações sobre o filme até então, por isso a (re)visão. Decerto que a mecânica do tempo é impiedosa para com a fomentação e dissipação de espantos relacionados ao olhares que apresentamos diante de determinadas matérias, mas é bem fácil entender o motivo de tanto alvoroço à época de seu lançamento. Muita publicidade e, sem dúvida, uma produção muito bem definida. Gravado em alto-mar, o filme tem seu espaço. Há quem veja relações com Moby Dick e com o estilo de filmagem de Hitchcock. Vale aquela teimosa espiadela. Sigamos!


UM CORPO QUE CAI

Alfred HItchcock: sinônimo de filmaço. Puro, certeiro, na veia. Vertigo, vertigem. Doses cavalares de bom cinema. Eis UM CORPO QUE CAI (1958), misturança de suspense, drama, romance e surrealismo acompanhada por uma trilha sonora saborosíssima que não permite que o filme desça do salto em nenhum instante. Um clássico em Technicolor, perturbador e frio. Assim mesmo, um filme adjetivoso. Cinema para amadores de cinema. Filosófico, repugnante, assombrosamente lindo. Havia tempo que não tinha uma experiência cinematográfica tão contundente. Recomendo a todos os mortais!


PARIS, TEXAS

PARIS, TEXAS (1984), de Wim Wenders, acaba de entrar para a minha lista dos melhores de todos os tempos (esta coisa de lista é muito complicada, não é mesmo?). Cabem várias interpretações sobre a belíssima e quase que hipnótica produção. Enxerguei até Kaspar Hauser no protagonista Travis, personagem outsider que ao voltar de uma longa diáspora pessoal, tenta uma nova entrada e inserção na sociedade (lar/convívio com os mais próximos). Iconoclasta, de narrativas ao mesmo tempo abertas e fechadas, a película é um bloco integral de convencimentos. Valeria a pena só pela guitarra plangente do polêmico Ry Cooder em diversas cenas. Um filme para mais de um olhar, bucaneiros. Recomendo a todos os mortais!


SINDICATO DE LADRÕES

Em tempos de massivas delações "premiadas", traições dantescas e falcatruas homéricas que atordoam a todos, nada melhor que poder assistir a um filme que trata com assombrosa maestria da perfídia. SINDICATO DE LADRÕES (1954), dirigido por Elia Kazan, é uma película que não pode deixar de ser vista. Num jogo de empurra-empurra criminoso, o protagonista Terry Malloy resolve se vingar de um influente mafioso das docas de sua cidade utilizando-se da palavra-verdade em um julgamento. A coragem de Malloy faz eclodir uma voz-viva no interior dos silêncios e dos medos dos trabalhadores locais, acostumados aos mandos e desmandos de um esquema corrupto e injusto de trabalho liderado pelo supracitado gângster. Mais um com o Marlon Brando para a minha contabilidade. Simplesmente imperdível. Recomendo a todos os mortais!


TRANSPATAGÔNIA

O documentário TRANSPATAGÔNIA (2014) é o registro de uma fantástica aventura vivida pelo brasileiro Guilherme Cavallari, que pedalou por cerca de seis meses completamente imerso na região da Patagônia, ali entre o Chile e a Argentina. No auge de completar seus cinquenta anos de idade, Cavallari decidiu explorar mais a si mesmo e partiu para uma viagem incrível. Desses filmes que podem mudar algumas nossas velhas e enferrujadas concepções sobre a vida. Bastou uma bicicleta e alguns equipamentos... O relato imagético de Cavallari nos presenteia com lindas paisagens e reflexões pontuais sobre o essencial vital. O filme acaba renovando fôlegos. Quiçá, quiçá, uma guinada dessas. Um dia. Quiçá. O documentário também virou livro, intitulado de TRANSPATAGÔNIA - PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS. Recomendo a todos os mortais!


* Imagem: http://www.thasos.hu/blog/409-a-mozi

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Algumas ideias para ensinar novos gêneros a partir de velhos gêneros (um fichamento)

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Por Germano Xavier



DEVITT, Amy; BASTIAN, Heather. Algumas ideias para ensinar novos gêneros a partir de velhos gêneros. In: DIONISIO, Angela Paiva; CAVALCANTI, Larissa de Pinho (orgs.). Gêneros na linguística e na literatura. Recife – PE: Editora Universitária UFPE e Pipa Comunicação, 2015, p.97-123.


“Com o crescente número de pesquisas, se torna claro que professores podem melhorar o desenvolvimento do conhecimento de gêneros dos alunos se melhor entenderem como os estudantes usam seu conhecimento prévio sobre gêneros (p.98).”


TEORIA E PESQUISA SOBRE CONHECIMENTOS PRÉVIOS DE GÊNEROS

“Devitt (2004) argumenta em seu livro Writing Genres que a aula de escrita no primeiro período deveria ser vista como um lugar onde os estudantes adquirem consciência de gêneros – uma compreensão consciente de como tipos de escrita modelam as respostas do escritor a situações retóricas (p.100).”

“Devitt também argumenta que, no processo de ensinar a consciência de gêneros, também devemos ensinar gêneros específicos que sirvam como fundação para aprender novos gêneros (p.100)”.

“Esses gêneros, Devitt alega, se tornam os tipos de escrita que os alunos têm em seus repertórios posteriormente, gêneros antecedentes potenciais para futuras situações de escrita (p.101)”.

“Quando escrevem novos gêneros, os indivíduos o fazem em um contexto de rica intergenericidade, um contexto de gêneros que existe cultural, comunitária e individualmente (p.101)”.

“Uma forma de o conhecimento prévio afetar nosso aprendizado são os traços daqueles gêneros conhecidos aparecerem em novos textos, uma vez que os escritores partem de gêneros conhecidos para escrever os novos (p.102)”.

“Outros estudos também têm reportado que características de gêneros já conhecidos aparecem em textos que tentam novos gêneros, talvez revelando andaimes necessários, mas impactando potencialmente o aprendizado bem-sucedido (p.103)”.

“O conhecimento prévio sobre gêneros pode, claramente, interferir com o desenvolvimento de novas práticas de gênero pelos estudantes. Melanie Kill (2004, p.12) argumenta que estudantes “sabem que podem se fazer legíveis em certos gêneros, e então arriscam discordância ao incorporar aqueles gêneros, mesmo quando não são, de outro modo, necessários (p.104)”.

“De outro modo, o que os aprendizes trazem [sic] para um novo gênero – em termos de experiência, exposição, prática ou conhecimento prévio – é importante, embora não possamos predizer se essas experiências anteriores serão positivas ou negativas (p.105)”.

“Talvez alguns dos usos menos bem sucedidos de conhecimento prévio, descrito nos estudos acima, derivem das dificuldades de transferências entre domínios. As pesquisas sobre conhecimento prévio sugerem, todavia, que os estudantes irão tentar usar o conhecimento prévio em novas situações (p.106)”.


MÉTODOS

“Como parte desse estudo, procuramos descobrir o conhecimento prévio dos estudantes de três formas primárias: perguntando quais gêneros já conheciam, pedindo que descrevessem o que sabiam sobre os gêneros mais familiares e examinando seus textos para traços de conhecimento sobre gêneros (p.107)”.


QUAIS GÊNEROS OS ESTUDANTES RELATARAM SE LEMBRAR DO ENSINO MÉDIO

“Os estudantes relataram um total de quarenta e dois tipos de escrita aprendidos no Ensino Médio nas aulas de língua inglesa. A Figura 1 expõe as respostas mais comuns a essa pergunta. Outras respostas (aquelas mencionadas apenas uma vez) incluem trabalhos dissertativos, análise literária, escrita temporizada, contos, estórias, memórias especiais, artigos, cartas, vinhetas, ensaios detalhistas, ensaios, haiku, bilhetes, portfólio de desempenho acadêmico, resumos, textos argumentativos, redações, sumários, ensaios analíticos, trabalhos narrativos, trabalhos descritivos, currículos e instruções (p.110)”.

“Ter experiência com um gênero não significa saber tudo sobre ele, ou mesmo ser fluente no gênero. Aprender é sempre parcial, fragmentado, individualizado e mutável (p.113)”.


COMO OS ALUNOS DESCREVERAM OS GÊNEROS QUE CONHECIAM

“O que os estudantes relataram ter lembrado sobre os gêneros que escreveram no Ensino Médio, na primeira pesquisa é, de fato, parcial, concentrado no conteúdo e no formato em detrimento do propósito retórico e da audiência. A maioria dos estudantes, com poucas as exceções, não relatou a compreensão de seus gêneros acadêmicos em termos de situações retóricas (p.113)”.


O QUE FAZER COM ESSA INFORMAÇÃO EM SALA DE AULA

“Se quisermos fazer uso do conhecimento prévio dos alunos em nosso ensino, precisamos fazer uso do conhecimento que os alunos podem facilmente ter, não o conhecimento que eles fingem ter para nosso benefício (p.117)”.

“Podemos estar aptos a ensinar a percepção da influência do conhecimento prévio para que os alunos comecem a perceber quando estão recorrendo a estratégias ou gêneros já conhecidos. Podemos estar aptos a ensinar algumas estratégias de transferência, as quais poderão ser usadas independentemente do conhecimento prévio que tentem transferir: por exemplo, notar a situação retórica subjacente ao novo gênero e salientar o que é similar e o que é diferente do que já se encontrou antes (p.120)”.

“Na melhor das hipóteses, poderíamos adicionar ao nosso currículo de gêneros a compreensão consciente do conhecimento prévio para acrescentar à compreensão consciente de gêneros. Consciência não é tudo, mas pode ser tudo que temos (p.120)”.


* Imagem: http://www.editoraforum.com.br/ef/index.php/category/noticias/page/3/