sexta-feira, 24 de junho de 2022

Esplanada do Tempo (Posfácio) - Por Regina Correia

 



“ESPLANADA DO TEMPO – da idealização esplendorosa da realidade à ânsia de resposta para a treva, como suporte para transcender a morte”

 

E por vezes as noites duram meses

E por vezes os meses oceanos (...)

E por vezes por vezes ah por vezes

num segundo se evolam tantos anos

(David Mourão-Ferreira, in “Matura Idade”)

 

NULLA. Partir de um ponto zero? Do nada para o tudo que nada voltará a ser, quando nosso olhar se apagar sobre o “onde”? Há como medir o tempo? Enclausurados nos momentos que não voltam, escravos de relógios, permaneceremos num só tempo conhecido? Talvez entrar nele, por inteiro, correr todos os riscos e, não fazendo contas aos segundos, minutos, horas, dias, partir para a viagem, sem nada mais esperar do que aquilo que for sendo alguma claridade dentro da cegueira. Sem se dar corpo a grandezas, sem as fantasiar, despojadamente conscientes de nossa ínfima grandeza no universo. Ser somente, estando. Sem máscaras, sem faz-de-conta nos cenários do real. Residirá mesmo em nossas mãos o livre-arbítrio? Conseguiremos fugir à atracção fatal dos bastidores que prometem o brilho da ribalta? Forja-se quadros de futuro brilhante. Sonha-se com a chegada ao reino do ouro, aos templos da luz redentora, atolados nos pântanos inevitáveis do quotidiano dentado, num contínuo e irremediável esbracejar de náufrago. A morte ali, soberanamente encostada ao tempo que nos resta desde a primeira divisão celular. Que força nos empurra pelos atalhos pestilentos, massacrantes, até ao “lago gelado”, “destruídos no absurdo do nada” (...) numa “consciência cega por coisa alguma (...) o grito destilado e a pele pelancuda” (LII)?

Amontoamos ninharias, como se refulgissem, e sufocam-nos. Submergimos no falso rosto das correntes de latão dourado e desviamo-nos da rota onde floresce, em seu esplendor despretensioso, o simples lírio do campo. Rio de angústias o tempo que flui, sem licença nem piedade, pelos ombros vergados do Homem à sua infinita pequenez no espaço que lhe cabe, em irreversibilidade absoluta de cada instante sujeito à intransigência do fim – “(...) nós não temos asas. // perdemos o bilhete do trem na primeira estação.” (LIV) Apesar de não sabermos desse “eterno retorno” platónico, ou de inconscientemente nele vivermos encarcerados, desintegramo-nos em correria vertiginosa “sempre contra o Tempo” (LV) escarninho. Sirva-nos embora o tempo de gaveta entreaberta da memória que narra o percurso do que fomos para a consciência de sermos o que somos no único momento que importará, o presente em contínua (e penosa) mudança. Atravessamos rios sem margens, encurralados em silêncio alheio ao grito que explode por dentro do infinito em nossa finitude, nesse espaço que nos fere e amordaça. Morre-se em vida pela vida que há de finar. Somos nada e tudo, porque estamos. Gota de chuva que logo desaparece nas areias movediças do tempo e do espaço circunscritos ao nosso olhar. Um desvio ao plano erróneo de Deus?

Criaturas de absurda voz, em queda a pique sobre a aura perdida da perfeição. Onde saber da identidade ao longo do tempo experimentado pelos sentidos? Por quanto tempo se nos turva a mente na ilusão de sermos livres? De gradeamento em gradeamento, anestesiados reféns de um passado que “já não é” e de um futuro que “ainda não é”. Vamos definhando enredados na idealização do tempo que virá, arrastados na voragem de um tempo que consideramos não parar. Marionetas nas mãos artesãs de anseios e receios, desfazemo-nos “imaginando” se fará sol ou chuva amanhã, se o vento varrerá todas as folhas do nosso Outono, se a expedição à Antártida, que sonhámos, será nosso último devaneio, escarnecidos pelo instante fugaz, quimérica ponte para essa eternidade de redenção prometida.

Cada passo é atravessado por luz imediata chocando com escuridão súbita onde nos vemos perdidos, porque o caminho é impreciso, a saída dúbia – “estando, sou o que não dá para ser. // abandono-me e não me encontro mais. // para onde vai uma planta sem raiz?” (LVIII) Convertemo-nos em avesso de nós, entrincheirados na hora ida, só memória esconsa de navegações duvidosas sem barcos, sem remos, à deriva, em mares de solidão e de intranquilidade perpétua – “mas quem se aproxima? // quem em mim abre mistérios de aproximação?” (LVIII) Quem dera o estremecimento alongado entre a dor e o riso! A face iluminada dos sentidos. Em imitação do movimento eterno. Feito do tempo nosso, no singular individual e do tempo de cada criatura, no colectivo, rodando, rodando, entre silêncios e vozearia. Trespassa-nos o poema que fecunda o tempo desse olhar a sombra dos braços, desse escutar o eco da fala, numa figuração do pensamento convocando a existência – “existimos na textura em que erigimos uma estátua, // parados na mudez de pedra esculpida de um silêncio.” (LX)

O tempo dobra-nos a espinha dorsal ou é o que fazemos dele? O nosso tempo é o espaço da solidão. Emparedados no que fica daquilo que passa. Em que cada começo ressoa num coro final. Naquela hora ditada por tudo o que o tempo faz e nos faz. Contra as luzes apagadas das gavetas de reforço da sobrelotação dos números das probabilidades. Das câmaras desligadas frente à urgência de vigilância onde seguimos buscando “a chave que dá para a imensidão.” (LXI) E afinal, sendo tudo ilusão sem medida, sem razão, sem espaço, dois advérbios são tatuados em nós, sem apelo nem agravo. Como extirpar de nossa pele “sempre” e “nunca”? Como escutar a voz do tempo que se perde em cada novo assalto à alma revelada no esquecimento? Tudo é presente em nós, na lembrança do que foi, na saudade do que será, no tempo por nós inventado.

Acorda-se em pesadelo no cárcere onde julgamos reinventar o tempo, nada mais ocupando, desde o princípio dos princípios, do que o não-lugar – “o engaiolado mundo dos seres observa // a passagem das horas baldias e inúteis.” (LXIII) Nesse instante invisível desliza um pingo de nada em nossa pele encerada pelo delírio da imortalidade. Continuaremos cantando, pregados no vaivém mortal entre o espalhafato do tic-tac analógico e a mudez fingidora digital? Quem sabe, nos reconheçamos na busca incessante de suspensão do tempo em espaço de deleite, porque “o tempo permite a voz. // o tempo embarga o mito. // o tempo em que se mergulha // aprisiona o aqui // e o agora.” (LXV) E porque “o tempo corre” (LXV) a verdade será conhecida no desconhecido das marés de todas as aventuras onde, órfãos das conquistas, presumiremos rosto dominante da viagem sem âncora no cais de chegada. É de luxo que se trata, se há quem tenha tempo, havendo quem não tenha. Havendo quem tenha poder sobre o tempo. Quem o consiga comprar. Enquanto as ratazanas perdem tempo nos esgotos a céu aberto. Todas as estradas vão dar à incerteza do “quando” labiríntico na certeza única de que a liberdade é só uma palavra bordada no olhar “da hora mais bonita dos plurais”. (LXVII)

Quanto mais nos embriaga o aroma dos frutos maduros, mais o nada se aninha na concha rugosa das mãos decepadas pelo reconhecimento do mundo. Ali tudo se vê, ouve, toca, na organização recriada do universo. O poeta trata Deus por tu. Deitados sobre o fingimento da alegria e da dor alteram a programação de vida nas rotas desencontradas do movimento de ida e de volta – “no fim, o olhar se renova. // na linha de chegada, a paixão // brutaliza-se.” (LXXI)

O homem encurralado cristaliza na emoção da pedra. Seu corpo cabe na exacta medida das ruínas no tempo anoitecido. Um pescoço hirto feito galáxia ao encontro da linguagem rudimentar que utilizamos na folga do Tempo – “a história confirma: // o amanhã não tem propósito algum, // a não ser o de iludir chamados // para novas ambições.” (LXXIV) Ante a “aurora de pés ardentes” abre-se a via do “começo de outro lugar” (LXXV) que outra e outra vez se repete, inscrevendo-se no tempo, em continuado recomeço do fim mais certo do que qualquer certeza, essa “paixão por navegar (o sentido), // primeiríssimo lugar para acessos.” (LXXVI) Não somos senão sobreviventes à catástrofe, enquanto nos é palpável o objecto de fiel contemplação. Findo o prazo de validade não haverá mais do que cinza esfarelando-se no imaginário alheio do ignoto número de combinações inúteis que o universo alberga. Quem existe na trama de tempos multiplicados em convergência ou divergência? O que poderia ter sido nada é. Tudo o que foi já não será. No presente desse passado senta-se o futuro feito fluxo de assentamentos e de expiação, melodia dissonante da devastação – “continuaremos morrendo, // aos poucos por nada por tudo, // por uma estação sacra inexistente, // por uma salvação diária escondida // no cotidiano visceral das imprestâncias.” (LXXVIII)

Por tal, a paralisia do medo no centro dos “ademais”. No ruído insuportável das ruas apinhadas nas metrópoles urbanas ou no silêncio alvo estendido sobre as planuras andinas. Mas nós teimando o arrepio do olhar no horizonte vário que uma linha rectilínia cose na pele dos personagens à deriva em nós. Reformulamo-nos nas intermitências do caos onde, embuçados, acompanhamos adiamentos do regresso à gare de partida. Espectadores de tudo no nada que nos cerca, sitiados na fragmentação da monotonia, comparecemos à grande farsa da construção de cronologias nas entranhas conscientes do espaço, tomando “o rumo incerto de todas as pressas, // um circuito de essências nos silêncios.” (LXXXI)

Tentamos desenvencilhar-nos do novelo infernal de cruzamentos temporais para decifrarmos a hora violenta da história nos ponteiros do relógio. Sorte a de Deus que criou a eternidade e descansa no além do Tempo. Talvez o Diabo, guardião deste templo, pegue em sua flauta mágica e perfume a hora do Homem com poesia estilhaçada, harmonizando a distância que vai do Génesis ao Apocalipse, abençoados os compassos de ruptura, pois “é tempo de sentido, // tempo de homens sentidos.” (LXXXIII) “Fios de vida” tecendo a fantasia quebrada do que vemos, ouvimos, amamos, “a melodia inolvidável”, em páginas alternadas da perplexidade – “vi, enfim, o que passou, o que é, // o que será e, juro, // vi tudo pela primeira vez.” (LXXXV) Vive-se lucidamente num sorvedouro de enganos, corpo em cruz abraçado a espelhos que multiplicam mentira e ilusão de realidades – “Contres heridas yo: // la de la vida, // la de la muerte, // la del amor.” (Miguel Hernandéz, in Cancionero y romancero de ausencias). Persignamo-nos com água benta no dia amanhecido contra a espuma das marés sepultadas em praias desertas, a reboque do amanhã que é nunca mais, e “tudo se resume, pois, // até aqui (e só assim me pus a salvo), // a uma vitoriosa carreira de impermanências.” (LXXXVI) Demandamos o curso irremissível dos rios, os misteriosos abismos oceânicos, atordoados por pálidas sobreposições, em exaltação de glórias arrasadas, “sem âncoras // nem velas” (LXXXVIII), como se não soubéssemos “de que passamos depressa e de que ficamos // a aplaudir angústias no fim da linha? (LXXXVII)

Invadir então o côncavo do “cone” e reconhecer nossa voz na “memória do mundo”. Além da angústia espelhada na repetição de perdas e ganhos em todos os descaminhos andados sem bússola, ao encontro do tudo do nada e “lograr a cada hora dominar a bela arte de viver sem rumo. (...) lograr a cada hora picotar o desejo de realidade.” (XCI) Ser fiel ao eterno retorno platónico ou considerar a sua não existência aristotélica? Descansar na perspectiva kantiana da alternância entre intuição sensível e noção objetiva de observação, anterior a qualquer experiência? Ou projectar-se no pensamento do puro devir hegeliano? Ou passearmo-nos pelas oito histórias de Cortázar e sobre aquisições concluirmos que “na oitava, tornamo-nos um conto. // e para todas elas, a mesma sensação. // de que imediato é o sonho.” (XCII) Nesse ponto, estampar o sonho no coração do Poema e continuar reclamando um rosto visível do impossível, na alegria perversa da mágoa entranhada nos versos que semeiam entusiasmo a prazo. O eu agiganta-se em bolas de sabão nas mãos sedentas de inocência. Mas não se recupera passos ousados da infância, bate-se de frente com “o homem nítido, desnudo, descalço. // um eco de pedra: memória sem olhar.” (XCV) E a verdade circulando arquivada em tempos e espaços múltiplos a que (já) não pertencemos, pois “o futuro é uma só palavra: mistério.” (XCVI) Do que fomos no Poema resta “estrada imaginária” no mapa da História. Na cogitação permanente adensada pela autoconsciência com seu inconsciente, cala fundo em nós a aspiração à plenitude “divina” e ao caminho para a conciliação harmoniosa entre os opostos que nos povoam, entre o Bem e o Mal, o espírito e a matéria. O que fazer do serpentear agreste do dilúvio entre o grito nosso e o não-lugar? Tudo é sempre mais do que parece, “entre a pessoa e a persona, // há a rudeza das mãos de um homem encurralado, // a letra invertida na voz do poeta” (CI).

Do coração das águas, primeiríssima morada, o homem encurralado em “três feridas abertas, a da vida, a da morte, a do amor”, comove-se com a imensidão, quando espraia o olhar à deriva pela mantilha do universo astral – “aquele enorme peixe me chama // para o destino que os altos astros se infinitam”. (primeiro poema, homenagem a Sophia) Cativos nos mistérios das profundezas da alma nadamos pela salvação. Soçobraremos nessa rede de malha apertada de pavor, de cobiça, de avidez, enquanto consideramos reflectir no mundo terreno o sentido das estrelas? Como realizar a união dos opostos? Surfamos o que “o olho enxerga” na onda colossal, mas os monstros das funduras agigantam-se no plano de voo tão só brev(e)idade. (segundo poema, homenagem a Sophia) Num átimo da miragem solar distingue-se a leveza da matéria esvoaçando no vaivém azul da mágoa “e por serem tão claros os tormentos, // outros azuis vão, seguidamente, // se modulando.” (terceiro poema, homenagem a Sophia) Embala-se o tempo no leito do sonho. Para que outro milagre beije as voltas da ondulação e o divino sopro agite os “sais do esquecimento”. Mas “há // um arco // sobre o infinito” (sexto poema, homenagem a Sophia), mensageiro de verdades dolorosas à superfície das águas estagnadas. Em que curva da imensidão, em que reino o cântaro de água transparente, onde seja servido o banquete sagrado? Mal podemos esperar pelo arco-íris sobre o breu dos dias, pois “nunca, meu Grande Peixe, // nas minhas distâncias marítimas, // nunca, eu repito, tive de olhar // milhas além para enxergar luz // tão penetrante nem sombra // com tamanha estranheza.” (nono poema, homenagem a Sophia) Como Jonas, estenderemos a mão à omnipotente misericórdia divina, do buraco negro dos abismos onde nunca quisemos ter descido e “um dia, Grande Peixe, // seremos uma onda só, imiscuídos // entre os azuis, indefinidos, // no balouçar das rotações.” (décimo poema, homenagem a Sophia)

Em jeito de “remate”, direi que ler a poesia de Germano Xavier é uma bênção. Mas ser-me concedido peregrinar junto a entusiamo e dores do(s) sujeito(s) poético(s) de suas obras é bênção maior. Ousei tomar assento na “esplanada do tempo” e perder-me nos meandros labirínticos de perda e suspensão, entre a razão e certas paixões inferiores do Centauro. De cogitação em cogitação, rastreando porta de saída para a dúvida não metódica mas vulto fantasmagórico de certeza angustiante embiocada debaixo do tapete. Neste segundo livro da Trilogia do Centauro, revisitando o (primeiro) Homem Encurralado nas masmorras do eu e do espaço físico, geográfico, político, social, cultural, psicológico, religioso, encontrei-me com semblante espelhado no arco dos limites face à reminiscência da eternidade. Com humildade confesso também meu este rosto inquiridor na voz do tempo que nos espreita, estuda e sentencia, com seus olhos esbugalhados de Grande Peixe marítimo à guarda de uma “habitação de pedra sob os silêncios // modorrentos do próprio silêncio.” (sétimo poema, homenagem a Sophia)

Devorando o tempo, recuperando-o inteiro a todos os estilhaços e desencontros consigo e com os outros, a todas as divisões, a voz estética de Germano Xavier é voz única, libertadora. Não é voz individual a sua voz. É antes polifonia de vozes que, em dissonância poética e filosófica, se abre à harmonia de voz colectiva no eu, em tempo de indigência. Eu que é nós, porque nos desdobramos na imagem singular do espelho. De fora para dentro, (re)encontramo-nos com o eu que é o outro. Eu ou nós fazendo do corpo rígido matéria fluida, líquido que se ajusta à rugosidade de qualquer chão, no tempo que lhe cabe. Viver então a própria vida, ora no vislumbre de fulgor que ilumina a realidade e a fantasia ora na ânsia de resposta para a noite cerrada, como suporte para transcender a morte, no “tempo em que os homens renunciam.” (Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Este é o Tempo”)

Nos dez textos finais do livro, tão admiravelmente elaborados, em termos linguísticos, semânticos e formais, quanto os cinquenta e dois anteriores, se contarmos com “Nulla”, Germano Xavier homenageia Sophia de Mello Breyner Andresen. Com “beleza, elasticidade e potencialidade das palavras”, como refere Luísa Fresta no texto introdutório à sua tradução de “Esplanada do Tempo” para Francês, o Poeta Germano Xavier faz uma aproximação vertical à temporalidade aliada ao mar, dividida entre o «lugar quando» e o «tempo onde», substância poética nos versos de Sophia, pois “é dentro do tempo que se escuta a sua «aspiração à unidade e à inteireza»” (José Rui Teixeira, Cátedra de Sophia de Mello Breyner, Universidade Católica de Lisboa, in 7 Margens, 06/11/2019).

Termino minhas despretensiosas notas de leitura de “Esplanada do Tempo” com registo da felicidade indescritível por partilhar palavra com Germano Xavier, um Poeta de estirpe superior e com Luísa Fresta, uma Poeta da mesma estirpe, que verteu magistralmente a obra para francês. Igualmente minha consideração máxima para a palavra sábia de Luís Osete Ribeiro Carvalho.

 

Regina Correia

Massamá, Dezembro de 2021

domingo, 19 de junho de 2022

CONSTRUINDO MOVIMENTOS: UMA CONVERSA EM TEMPOS DE PANDEMIA, de Angela Davis e Naomi Klein


 

Neste vídeo, falo um pouco sobre a conferência virtual (em formato de livro) intitulada CONSTRUINDO MOVIMENTOS: UMA CONVERSA EM TEMPOS DE PANDEMIA, encabeçada por Angela Davis e Naomi Klein. "No auge da pandemia do novo coronavírus, duas reconhecidas ativistas feministas de esquerda, Angela Davis e Naomi Klein, se reuniram virtualmente para uma conversa sobre conjuntura, capitalismo, autoritarismo e desigualdade. Organizado pela Rising Majority, o encontro contou com a participação de Thenjiwe McHarris (Blackbird), Cindy Wiesner (Grassroots Global Justice), Maurice Mitchell (Working Families Party) e Loan Tran (Southern Vision Alliance). Lançada como novo volume da coleção Pandemia Capital, a transcrição desse histórico encontro pode ser encontrada agora em português." (Editora Boitempo)

#angeladavis #naomiklein #construindomovimentos #oequadordascoisas

domingo, 22 de maio de 2022

ÚLTIMO REINO, de Pascal Quignard


 

Neste vídeo, falo um pouco sobre o livro Último Reino, do escritor francês Pascal Quignard. "O autor nasceu em 1948 em Verneuilsur-Avre (França) e vive em Paris. Sua inserção na literatura está ligada à poesia de Maurice Scève e à tradução de Licofronte, mas tornou-se mais conhecido a partir da publicação de romances como Todas as manhãs do mundo, Villa Amalia, ambos adaptados ao cinema, e Terrasse à Rome, Grand Prix du Roman da cademia Francesa. Escritor-músico, violoncelista e organista, consagrou várias obras, de diferentes gêneros, à música, especialmente a barroca, mas também a suas origens." (Editora Hedra)

#pascalquignard #últimoreino #literaturafrancesa #oequadordascoisas

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Sobre moinhos de se fazer o tempo

*

Por Germano Xavier


"Pensei, quando não tirana, é ciranda a vida. Ciranda."
(em Os mortos não comem açúcar, p.34)


OS MORTOS NÃO COMEM AÇÚCAR, de Alexandre Furtado, é um lançamento da Editora Confraria do Vento para o presente ano de 2016. Furtado, professor e amante da literatura, inova no livro. São 14 contos (os 14 não gerariam uma novela?) que, ao final, narram uma única história. Assim é, pois assim parece ser. Impressão. Iniciado pelo conto Tão logo a noite acabe, ao som de Para um amor no Recife, de Paulinho da Viola, o livro finda com um Aos céus um pedido, que flui é mesmo ao silêncio de todas as estações.

O primeiro conto, supracitado no parágrafo anterior, recobra-se em um pacote com roupas íntimas e a lembrança viva eterna de um amor aniquilado no antes por incompatibilidades no que tange ao pensamento político por parte de duas famílias, uma peça-colégio que reconta faíscas memoriais. Imagens que flutuam nas águas das sedes. Em Assim, quando menos se espera, um beijo sem querer, o inesperado, no bar, no fim da noite. E as ruas recifenses. Travessias. Em O melhor das meninas ou todas as horas de minha vida, o encontro na Casa Dez, bordel onde todas as máscaras pareciam cair. Cantos de Ossanha. Em É jogo, a década de 70, Copa do Mundo, as relações humanas mais triviais. Nossos festivais de carne. Nossos carnavais.

Em todo o restante, e desde a página primeira, lascívia, sexualidade, vinil do Cartola, visgos do amor, almas quentes, sambas, praia, o povo, uma moralidade distendida, a década de 70, a vida comum, o tempo que passa passageiro, a saudade impressa no corpo, a febre e o clima, o antigo Recife, as curvas atenuantes nas dobras das pontes da Veneza brasileira a bordo dos ônibus elétricos, o abuso sexual, Manuel, o audaz, as querências por melhores passos vitais, uma classe média, uma ditadura, uma dor de viver e de sentir como um punhal cortante, que mata por dentro, que esfacela, que esquarteja, e o amor demais, o amor-pecado das putas que segredam o enredo dos desamores ainda mais putos, olhares e versos de um Chico Buarque.

A putaria rolando solta em verbos moralistas dialogados, um compêndio de questões imagéticas abrangentes, vindas por baixo e por cima, a versar sobre infâncias rememoradas e/ou inventadas, sobre escorpiões que nos envolvem e nos atacam na porta de casa, no portal da vida nada exemplar de cada um, livro de conversas e cirandas, acordes de Talismã do Geraldinho, de afeto pela cidade de um tempo inteiro, pela capital insana dos sempres, gigante e provinciana, acerca da vida, que “é um exercício de solidão” e não é, segundo o poeta Ésio Rafael, uma obra que pontilha a vida comum e sem perspectivas maiores de pessoas também comuns dotadas de risos e lágrimas, vidas Caetanas, do Veloso.

Uma experimentação literária que descabidamente pode enganar o leitor desavisado, contos-partículas que formam uma só história imperiosa, umas só-tantas estórias por que não também severinas?, retratos de um mangue fértil que são os nossos corações, os nossos pulsos de todo instante, e a banca dos distintos..., as grandes belezas miúdas do cotidiano, que de tamanhas nos engolem e nos carregam impiedosamente para dentro das tramas, das páginas, nos transformam em letras, em lero-lero, em ruas, em rios, cenários, amores, um opúsculo com referências pontuais à literatura e à música brasileira de ótima qualidade, uma Olinda de prazeres, os ardores transviados, as revelações da vida em vida, as revelações dos caráteres de nós todos, o reflexo de um progresso dos anos 60 e de uma decadência da década de 80, um 70 no meio, perdido nas intempéries das auras de um grande SER coletivo, repleto de bem-quereres, de mal-quereres.

Destaco dois contos: TRISTAM SHANDY C’EST MOI ou O BEIJO DE LÍNGUA e UMA HISTÓRIA ASSIM É OUTRA. OS MORTOS NÃO COMEM AÇÚCAR é um livro cheio de sentidos, aguçador por natureza, construído por mãos que tatearam as realidades e as belezas possíveis, mesmo invisíveis aos olhos dos que meramente passam, certamente insuspeitando de suas devidas importâncias para a construção do mundo. Furtado não se furta, deixa-se. Empresta-se. Doa-se. O leitor se delicia com 14 pequenos voos extraordinários que, de tão incertos e inseguros, extravasam todo um correio confidencial de nossas emoções, eis o resultado.



* Imagens: http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/literatura/noticia/2016/05/21/alexandre-furtado-lanca-livro-de-contos-no-roda-cultural-236748.php e http://www.domingocompoesia.com.br/2015/10/entrevista-com-alexandre-furtado.html

sexta-feira, 15 de abril de 2022

PEQUENO MANUAL ANTIRRACISTA, de Djamila Ribeiro


 

Neste vídeo, falo um pouco sobre o livro Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro. Nele, a filósofa e ativista santista "trata de temas como atualidade do racismo, negritude, branquitude, violência racial, cultura, desejos e afetos". "(...) a autora apresenta caminhos de reflexão para aqueles que queiram aprofundar sua percepção sobre discriminações racistas estruturais e assumir a responsabilidade pela transformação do estado das coisas". Ainda neste vídeo, Angélica Carem nos oferece mais uma de suas preciosas dicas em sua coluna Fala & Escuta.

#pequenomanualantirracista #djamilaribeiro #nãoaoracismo #oequadordascoisas

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Como escreve Germano Xavier

Germano Xavier é escritor, poeta, jornalista e professor.

Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?

Nos primeiros três dias da semana é uma correria. Acordo por volta das 05:40h, pego o carro e viajo por cerca de 1 hora para uma das cidades em que trabalho. Ganho a vida como professor. Assim, reservo as noites para ler e escrever. A partir das quintas-feiras já tenho as manhãs livres. Depois do movimento inicial do despertar, sempre que posso vou ao cômodo onde ficam os meus livros e a minha escrivaninha. Ler é sempre prioridade. Reviso algumas coisas por fazer, escrevo e deixo o texto dormir. Tenho muitos textos que ainda dormem, anestesiados pelo tempo que matura. Vou soltando aos poucos alguns textos em meu blog (O Equador das Coisas), mas ultimamente a maioria vai para a “câmara do adormecimento”. O futuro serve para reativar a maioria deles. Nos finais de semana, quando não viajo, dedico-me mais ainda à escrita. Geralmente é quando escrevo textos mais longos em prosa. Poesia sempre representou um fazer literário mais espontâneo para mim, porém não menos trabalhoso.

Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?

Eu prefiro as manhãs. Já me acostumei a escrever dentro das manhãs. Estar inteiro dentro das manhãs é uma dádiva para mim. Preciso estar com a casa em profundo silêncio. Preciso escutar o som do teclado, o som da palavra saindo de dentro de mim. Uma vez ou outra coloco uma música para tocar enquanto teclo, em baixo volume. A probabilidade de encaminhar bem um texto é consideravelmente maior se se cumprida a totalidade ou boa parte desse ritual.

Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?

Já consegui escrever um pouco todos os dias. Ultimamente, por conta de diversas demandas, escrevo quando tenho tempo suficiente para escrever com calma. Tenho escrito mais em períodos mais concentrados, intercalados com tempos de leitura. Não tenho meta de escrita por dia. Não trabalho assim. Pelo menos, por ora. A pandemia atual bagunçou muita coisa nesse sentido, também.

Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?

Às vezes, o mais difícil é anotar, pontuar, detalhar caminhos para a escrita acontecer como quero. Por vezes, o texto simplesmente desliza por meus dedos e nasce. É mais difícil, mas acontece com boa frequência. Poemas não são mais difíceis de começar quanto contos, crônicas ou textos em gêneros de maior fôlego. Os poemas são os meus amigos mais próximos, mas já houve uma fase muito difícil para poemas. Eu andava lendo muito, muitos textos acadêmicos, leituras mais técnicas e os poemas simplesmente deram uma pausa de mim. Tiraram férias. Tenho muitos projetos de escrita em mente. Não sei como será num futuro próximo. Minhas rotinas podem simplesmente mudar de uma hora para outra. Eu gosto de pensar que nada é estanque, principalmente no ato de escrever, tão particular e ao mesmo tempo tão amplo.

Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?

Quando percebo que o texto não está caminhando, simplesmente paro. Deixo para continuar em outro momento, em outro dia, em outra semana. Não fico triste por conta disso. Faz parte do processo. É quando me ponho a ler outros materiais, outros livros, escrevo outros textos e, de repente, percebo-me de volta ao texto que estava parado, que fiz questão de deixar parado. Os textos nos chamam, precisamos saber respeitar o chamamento dos nossos próprios textos. Alguns são preguiçosos, morosos, gostam de ficar por muito tempo em descanso. Com relação ao medo ou à ansiedade, sempre lidei bem com tudo isso. Sou muito calmo, muito tranquilo. Sei que não há como passar à frente do tempo das coisas. Sempre chega a hora certa. A hora certa é quando acontece ou quando deixa de acontecer. Se a gente ficar forçando a barra, talvez soframos mais. E isso não é bom, sabemos.

Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?

Quando escrevo poemas, reviso uma ou duas vezes. Textos em prosa demandam um maior tempo revisando, relendo, reestruturando. Costumo enviar meus textos para outras pessoas somente quando decido publicá-los em esferas outras que não o meu blog ou outros canais de comunicação em que faço parte. A leitura do outro é altamente recomendável em diversos casos.

Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?

Escrevo em meu notebook, 95% das vezes, eu diria. Já foi diferente. Tenho quatro ou cinco cadernos com aproximadamente mil poemas escritos à mão. Era outro tempo, auge de minha adolescência até os vinte e poucos anos. Hoje quase não consigo mais escrever longe do computador. E não sei até que ponto isso é bom ou ruim, até que ponto melhora ou enfraquece o meu texto. Certo mesmo é que minhas duas máquinas de escrever hoje decoram ambientes mais que antes. De lápis, nunca gostei. Para os outros 5% restantes, utilizo canetas. Pretas, de preferência.

De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativo?

Uma pergunta de difícil resposta. Penso que as minhas ideias são ideias de uma vida inteira, costuradas pelas mãos invisíveis do Tempo. Não sei se há uma raiz, um local de onde elas partem de um dado princípio para assim atingir um respectivo fim. É quase um mistério. Creio que a leitura é o melhor a se fazer para se manter pensante, ativo, em processo contínuo de análise. Para um escritor, então, eu diria que é fundamental. Exercitar o olhar também é de grande relevância. Sem falar nos inúmeros benefícios da paciência, do respeito, da empatia, da revolta, do sincerizar-se… Bons hábitos nada mais são que processos de libertação.

O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesmo se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?

Mudou a maneira de enxergar o texto, de ver a palavra, de escutar o ritmo e de lamber o sentido daquilo que pretendo burilar. Hoje, percebo que tenho mais paciência para lidar com as angústias do texto, com as agruras do escrever. Quando mais jovem, a palavra era explosão. Escrevia muito e quase sempre muito desordenadamente. Não que a desordem também não tenha o seu lado positivo, mas eu consigo conquistar um modelo de equilíbrio na escrita que me parece mais saudável hoje em dia, apesar das mil tarefas diárias que tenho de cumprir. Não tenho tantos espaços para falhas como tinha antes. A espada de Dâmocles hoje vive sobre minha cabeça. Finjo que ela não existe, mas sei que ela está acima de mim. Sabedoria é saber rir de tais situações.

Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?

Um romance cuja personagem principal seja a minha cidade natal (Iraquara-BA/Chapada Diamantina) ou personagens marcantes dela. Tenho uma coleção de crônicas e outra de contos sobre o assunto que funcionaram como uma espécie de treinamento. Sei que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde. Tenho dois livros de poesia publicados e em 2022 lançarei mais um. Todavia, um dia minha mãe veio me perguntar quando eu iria escrever um livro de verdade… fiquei matutando sobre o dizer dela. É mais ou menos assim, não? Só vale se for em prosa, um romance, um livro grosso, de preferência que se sustente em pé nas estantes (risos). É óbvio que discordo disso… O livro que eu gostaria de ler e que ainda não existe está em minha cabeça. Tenho todo ele pronto. Preciso escrevê-lo.


Entrevista concedida originalmente ao projeto www.comoeuescrevo.com

sábado, 9 de abril de 2022

SPECTRUM LITERÁRIO EM ANGOLA: O CASO DE JOÃO TALA


 

Neste vídeo, o professor e escritor angolano João Fernando André analisa o fenômeno do "spectrum literário" na obra do escritor e poeta angolano João Tala, autor de Além da Noite e Missal de Sábado. Angélica Carem também nos oferta mais uma de suas preciosas dicas em sua coluna Fala & Escuta.

#joãotala #spectrumliterário #literaturaafricana #literaturaangolana

domingo, 3 de abril de 2022

Sobre as festas particulares do corpo

*
Por Germano Xavier


Quando li CASA DAS MÁQUINAS, livro de estreia de Alexandre Guarnieri, eu já havia dito/escrito que estava diante de um conjunto de petardo-poemas diferenciado no rol do que já havia lido até então. O livro era/é uma investigação poética sobre a maquinaria do mundo, “com ou sem seus parafusos-fusos que apertam e afrouxam os nossos eixos de homem-humanidade, fator que pode ou não combustionar o rumo de todas as coisas. Poemas-válvula, poemas-rebite, poemas-cilindro, poemas-lâmpada, mecanophrenya generalizada...”

O singular livro da capa preta agora cede espaço no território-criador de Guarnieri para outro rebento-solar: seu segundo livro, intitulado de CORPO DE FESTIM. Livro da capa verde, com Houdini acorrentado, esboço-simulação de uma criação para a larga estrada da humanidade asfaltada através dos invólucros perfeitos: os corpos das coisas e até mesmo o corpo do próprio corpo: a ideia da possibilidade do banquete particular sempre disponível. 

Aqui-agora neste, Guarnieri não remedeia nada de nossos males, não escancara aflições, não mais nos previne dos cancros maiores de nossas amarguras; melhor, explica a pane da vida desde o átomo primordial das ausências até a supernova celular das vistas opacas. E explica o passo-a-passo de nossos passos sombreando, com tortuosos verbos, como tem de ser o mistério em essência. 

O revisto caos com câncer da atualidade-homem é, pré-leitura-pós, constantemente relembrado em todos – ou quase todos - os seus filtros invisíveis, já que o plasma medular da vida está agora embutido em todas as veias de palavra-vãos utilizadas pelo poeta-imagético/sensorial carioca. Assim, suspeitaremos durante todo o livro de uma porção um tanto mais espessa acerca de nossa origem animal-animalesca, sem deixar de lado a nossa porção-pensamento/sentimento. 

De tal maneira forte a substância do livro que o caminho dos sentido-significados é sufocado pelo senso de arrependimento, ou ao menos de angústia por termos nascido e sermos nascentes, também. A vida se torna um desacerto dentro da grande-poesia de CORPO DE FESTIM e o erro, um elemento elegantemente elogiado e extremamente funcional.

Aí está, novamente: o componente-marco da poética de Guarnieri, tendo em vista seus dois livros primeiros, é talvez um olhar uníssono sobre o enredo de nossos dias. O poeta parece atravessar a rua, no meio do tráfego violento, para nos dizer das coisas que existem dos outros lados, nas outras margens de nós mesmos. Do outro lado, repito, uma sempre-possibilidade. O corpo: uma casa, uma máquina, uma fonte eterna de tudo, mesmo quando alquebrado, sem vida ou morno.

Guarnieri se prostra diante do mundo doente para fazer intervenções pontuais: opera a carne humana, faz corte na carne anímica, elabora sucção da carne terrena, mete-se a reter os líquidos que extravasaram durante os noturnos tempos sem aurora, faz a cirurgia que entreabre a malha do tecido-pele, espeta a bolha e faz de conta que é o fotógrafo da explosão ao mesmo tempo em que inaugura qualquer espécie de pulso. CORPO DE FESTIM é um livro de poemas escritos com o auxílio de um estetoscópio. Guarnieri, antes de fazer o papel de um médico do coração dos corpos do mundo, diagnostica os módulo-nódulos do ócio e de nossas bruscas des-frenagens cotidianas. 

Afinal, o que poderíamos ser se tivéssemos feito tudo de outra maneira? O que ainda dá para ser se escolhermos mudar a rota? Não há um resultado definido ao final: nem a morte fica anunciada sob a maca que carregamos sem saber. Há sim, um peso. Um peso por sermos o centro dos movimentos de Nada-Tudo, um peso por pensarmos que somos. Tudo, como em CASA DAS MÁQUINAS, permanece alterado no meio do caminho, com numa experiência. Guarnieri, não obstante suas denotativas evoluções, segue a escrever não livros com poesia, mas livros que despoetizam o que é elemento-impostor, inverdade. Para ele e seu CORPO DE FESTIM, o que importa é o avesso dos lados retos, o irresolvido dos absolutismos, a eletricidade nos nervos atingidos e suas prováveis reações sinestésico-inomináveis.


* Imagem:  http://saopauloreview.com.br/2015/01/05/resenha-corpo-de-festim/

sábado, 2 de abril de 2022

SOBRE A ESTUPIDEZ, de Robert Musil


 

Neste vídeo, falo um pouco sobre o ensaio SOBRE A ESTUPIDEZ, de Robert Musil. Sobre a estupidez, afirma o escritor austríaco do clássico O HOMEM SEM QUALIDADES,, neste ensaio, as pessoas geralmente preferem não falar, não discutir: "O domínio violento e vergonhoso que a estupidez exerce sobre nós é revelado por muitas pessoas ao demonstrarem-se surpresas de maneira amável e conspiratória quando alguém, a quem confiam, pretende evocar esse monstro pelo nome". Angélica Carem também nos oferta mais uma de suas preciosas dicas em sua coluna Fala & Escuta.

#robertmusil #sobreaestupidez

sexta-feira, 25 de março de 2022

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte XIV - em Francês)


 

Por Germano Xavier

Tradução: Luísa Fresta

 

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte XIV)

Des poèmes étranges et étrangers (Partie XIV)

 

À la recherche des sirènes du Rhin

 

je suis parti tôt pour une dernière journée de découvertes.

au dessus d’un énorme pont, à l’ouest allemand,

j’ai traversé la Moselle en respirant un air d’adieu.

l’Allemagne était déjà un dessein conquis.

 

à Boppard, j’ai débarqué en Rhénanie après avoir parcouru une forêt.

région bellissime qui possède une délicieuse bière de blé.

tout de suite après, la proximité de la Valée du Rhin

et toutes ses créatures légendaires.

 

j’ai pris la direction de Loreley avec une vaine attente passagère.

serait-ce vraiment possible d’être avalé par ses charmes et ses recoins?

je m’interrogeais à ce sujet et pendant tout le parcours fluvial,

entre deux châteaux médiévaux en marge de ces eux froides,

je me suis mis à l’écoute, pour vivre, qui-sait, un moment de défi attachant.

 

pourtant, je m’y attendais, Loreley tenait à se déguiser

au milieu de bruits quelque peu étranges.

 

ce qui est sûr c’est que ma dernière première vision

d’une Allemagne presque rurale et presque ancienne et presque

moins développée de ce qu’elle est réellement m’a fascinée

par le regard et par l’écoute.

 

«je suis chanceux de ne pas avoir été avalé par le Loreley» — ai-je pensé.

 

 

P.S. Après cela, je me suis arrêté à Frankfurt am Main.

La nuit tombait.

Il était l’heure de dormir puis de rentrer au Brésil…

 

(Cologne, Valée du Rhin et Frankfurt, le 17 juin 2017)


sábado, 5 de março de 2022

A VIDA NÃO É ÚTIL, de Ailton Krenak


 

"O pensador e líder indígena Ailton Krenak volta a apontar as tendências destrutivas da chamada "civilização": consumismo desenfreado, devastação ambiental e uma visão estreita e excludente do que é a humanidade". Neste vídeo, falo um pouco sobre o seu último livro: A VIDA NÃO É ÚTIL (Companhia das Letras/2020). Angélica Carem também nos oferta mais uma de suas preciosas dicas em sua coluna Fala & Escuta.

#avidanãoéútil #ailtonkrenak

sexta-feira, 4 de março de 2022

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte XIII - em Francês)


 

Por Germano Xavier

Tradução: Luísa Fresta

 

Des poèmes étranges et étrangers (Partie XIII)

 

Une sorte de Pequod

 

la Mer du Nord était toujours là dans mes pensées

depuis que j’avais quitté Volendam.

je ressentais une sorte d’appel, comme un cri.

 

mon après-midi venait de commencer à Marken.

il faisait froid, il y avait du vert partout dans les maisons en bois

des fenêtres ouvertes, des gens nus là-dedans.

ils se déplaçaient à gauche et à droite dans les pièces

insouciants, délivrés de toute sorte de pudeur,

comme s’ils habitaient un petit Éden.

 

au cœur d’un petit comté,

j’ai remarqué un Pequod ancré sur un rivage.

et j’ai fixé le bateau pendant un bon moment.

le froid me réchauffait le cœur.

des souvenirs de voyages par le biais des livres m’ont assailli.

c’était un moment simple et beau

et j’éprouvais le besoin de te le raconter.

 

 

 

(Marken, après-midi du 16 juin 2017)


quarta-feira, 2 de março de 2022

MENINA A CAMINHO, de Raduan Nassar


 

A escritora luso-angolana Luísa Fresta tece alguns comentários acerca do livro MENINA A CAMINHO, escrito no início dos anos 1960, mas que só começou a ser disponibilizado ao grande público em 1997. Seu autor, Raduan Nassar, exerceu diversas atividades antes de estrear na literatura em 1975, com Lavoura Arcaica, sua obra-prima e um dos grandes marcos da literatura brasileira contemporânea. Ainda neste vídeo, Angélica Carem nos oferta mais uma de suas preciosas dicas em sua coluna Fala & Escuta. #raduannassar #meninaacaminho

Sobre "êxodo,", de Carlos Gomes




Por Germano Xavier


(Cepe, 2016)



Sair para quem sabe, chegar para quem pode. Mas antes a PARTIDA, uma partida. De que é feita uma partida? Doze cavalos em trote, vida ainda adormecida nas vontades de cada um de nós-ali-narrativa. Correnteza de homens mundo afora e um sertão de gentes, de forças, de cantos, de juventudes, de rios. Deus-vento que monitora os passos. Eles-nós são andarilhos e a vida não tem fim. Não tem mesmo? Doze cavalos procurando pouso. Ginetes agalopados. Raça de peçonhas e de assombros. Cavalo morde? A vida morde? Para que serve o ir? E o sonho? Meu Deus, o sonho, para quê serve o sonho? 

Crer que seríamos os onze cavalos apenas, em menos-um andante. Música menor é o passo dado a esmo. Corredor mais vago. A vaga de cada ser no mundo. E a correnteza de gentes, a correria dos homens. Tudo acabará? Menos a música dos ventos? Enfim, perdemos sempre. Precisa-se aprender a perder, mesmo que sempre. Acostumar-se? O lugar algum deve existir. Pelo menos o lugar-comum existe. Triste estrada a de nós, capazes de tantas atrocidades, aptos a tantas desgraças e mortes e mais mortes. E mais.

Quando paramos com tudo isso? A ESTRADA engole os fracos. Seremos a mais real catástrofe. Já somos. Já somos? Mas os fortes também vão ficando pelo caminho, marginais, avessos, traídos. Dez cavalos e o som do vento incessante. Vento-deidade. Vento-morte. Vento-desventura. Para qual aposento levaremos a memória? Dormir é pouca-morte para tanta vida lá fora? Lá fora é onde mesmo, grilhão? Lá na beira da estrada éramos destino, enorme boca assanhada de se lamber mil léguas. 

Ah, o LUAR! Varre para longe todas as nossas reservas de esperança, que acreditar é despedaço! Cavalos morrendo aos pés dos montes. Troupe perdida. Tropa em carne viva! No desespero a fome tem outro nome, a dor tem outra cor, a sede outro cheiro. Estrela também pode ser sinônimo de treva. Mas que nem tudo pode ser visto assim, com pesar. Oito cavalos que eram nove. Nove cavalos que eram dez. Dez cavalos que eram onze. Onze cavalos que eram doze cavalos e quantos mais poderiam ser?

Quando a AURORA aparecer, pensariam todos, o mundo seria outro. ROSA-DOS-VENTOS e cinco cavalos. Umas lágrimas velhas, novas e insuportáveis. Etéreas palavras como feridas. Labirinto-cantiga. Orquestra de contrários. Salivaremos até não podermos mais com a voz-mais-mentirosa. Salivaremos sangue se for preciso. Até termos as MARAVILHAS. Até sentirmos umas maravilhas de riso, de aposta, de feto novo no colo, de lado atravessado, de pele sem ranhuras, de choro vencido, até as maravilhas do eterno, caminho que temos dentro de nós, mesmo quando só nos sobram dois cavalos, ou um cavalo, quando nos tornamos os próprios equídeos, mesmo pangarés em fantásticas cavalgadas, ou quando formos simplesmente a CHEGADA.


terça-feira, 1 de março de 2022

O VELHO E O MAR, de Ernest Hemingway


 

O Velho e o Mar (The Old Man and the Sea, em inglês) é uma novela de Ernest Hemingway, escrita em Cuba, em 1951, e publicada em 1952. Última grande obra de ficção do escritor norte-americano a ser publicada em vida. Conta a história do velho pescador Santiago, que luta com um peixe gigante no mar. Quer saber mais sobre esta história? De quebra, ainda neste vídeo, Angélica Carem nos oferta mais uma de suas preciosas dicas em sua coluna Fala & Escuta.

#ovelhoeomar #ernesthemingway

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Não falta açúcar (ou Ainda a penumbra)


 

Por Germano Xavier


meia-luz. vamos parar o Tempo.

parar o Tempo pode ser voltar no Tempo.

entre a luz e a sombra, assombra sempre

o fantasma do que passa 

e do que nos transforma.


gradativa mudança ou brutal revolução, 

cada qual com seus caminhos. meia-luz.

vamos lembrar o Tempo. um Tempo.

para isso: quilômetros.


sim, a ampulheta está sobre a mesa.

escutar o Tempo também pode alongar

a vida dos instantes eternos. meia-luz.


em cima do que se ameniza para não ser susto,

ou surto, está a vontade de ler a página esquecida,

aquela última página que pode ser a penúltima 

página esquecida, aquela penúltima página

que pode ser a antepenúltima quimera.


meia-luz.


que não sejamos o anteparo, a umbra, a antumbra.

sejamos o Tempo, mesmo líquido, mas o Tempo, 

que é de onde todas as insurreições florescem.

sejamos, afastados das sombras das dúvidas,

o Tempo que ensina a fênix a nunca morrer.

o Tempo-Badalo, toante, que unido a outro

de mesmo ritmo, rapidamente se esquece, 

sobretudo, do quão tudo mudou. e ficou.


* Imagem: Google

O QUARTO DE GIOVANNI, de James Baldwin


 

James Baldwin (Nova Iorque, 2 de agosto de 1924 — Saint-Paul de Vence, 1 de dezembro de 1987) foi um romancista, ensaísta, dramaturgo, poeta e crítico social. É considerado, por muitos, como o grande crítico do "sonho americano". O Quarto de Giovanni foi publicado pela primeira vez em 1956 e conta a história de amor entre dois rapazes em Paris. De um encontro, toda uma problemática da existência. E tudo isso, através da visão da professora e artista visual angolana Cristina Seixas. Ainda neste vídeo, Angélica Carem também nos oferta mais uma preciosa dica em sua coluna Fala & Escuta.

#oquartodegiovanni #jamesbaldwin

Poemas estranhos e estrangeiros (Parte XII - em Francês)


 

Por Germano Xavier

Tradução: Luísa Fresta


Des poèmes étranges et étrangers (Partie XII)

 

Odin et la Mer du Nord

 

l’attente était auspicieuse.

au bout d’un long trajet, j’aurais

la chance de toucher les eaux

de la Mer du Nord.

 

Amsterdam je l’ai vue dès le matin dans mon rétroviseur.

la route était mon chemin.

 

arrivé à Volendam, après avoir dégusté des fromages typiques,

le froid s’est ancré dans ma peau, et ce fut le premier signe.

j’ai traversé quelques ruelles et les étroits couloirs de la petite ville

et voilà...l’énorme  Mer nordique, le temple vivant des vikings!

 

lorsque je suis en plein centre des cosmos historiques,

j’arrive à entrevoir des départs, des arrivées, des gens,

des batailles, des joies et des tristesses. c’était le cas.

la Mer du Nord m’a semblée chargée de souffrance,

ses écumes discrètes dévoilaient une complainte

dans la couleur du liquide.

 

en regardant la Mer du Nord j’ai compris

que les vagues ne dansent pas toujours dans les fêtes de corail.

 

 

(Volendam, matin du 16 juin 2017)

domingo, 27 de fevereiro de 2022

DIA DO PROFESSOR | MEUS PRIMEIROS PASSOS NA PROFISSÃO


 

Como me tornei um professor? Até hoje ainda não entendo direito como tudo aconteceu, mas sei que aconteceu. E que bom que aconteceu! Dedico este vídeo a todos os professores e professoras do mundo, em especial para aqueles que muito me inspiraram e ainda inspiram: Noélia Ribeiro (Educandário José de Arimatéia), Dalva Menezes (Educandário José de Arimatéia), Alberto (Colégio Cláudio Abílio Aragão), Erik Machado (Colégio Cláudio Abílio Aragão), Darci Ribeiro (Colégio Cláudio Abílio Aragão), Maita Assy (UNEB/DCHIII), Odomaria Macedo (UNEB/DCHIII), Giovanna de Marco (UNEB/DCHIII), Josemar Pinzoh (UNEB/DCHIII), Andrea Santos (UNEB/DCHIII), Francisco Panta (UPE/Petrolina), Yolanda Almeida (UPE/Petrolina), Bruno Siqueira (UPE/Petrolina) e Kleyton Wanderley (UPE/Petrolina), Elcy Cruz (UPE/Garanhuns), Jaciara Gomes (UPE/Garanhuns), Benedito Bezerra (UPE/Garanhuns), Graça Graúna (UPE/Garanhuns) e tantos outros.

E aos meus pais.
#15deoutubro #diadoprofessor