domingo, 18 de maio de 2008

A Linha



Por Germano Xavier



A LINHA, livro de Mario Vale, é, indubitavelmente, um livro diferente. Diferente não no sentido de anormal, insólito ou inovador, muito menos encerra uma experiência extremamente original, haja vista que muitos escritores de literatura infantil, infanto-juvenil, juvenil, e até adulta já testaram coisas por demais parecidas, mas diferente no sentido de desigual mesmo, de dessemelhante, de fora do comum – pelo menos para aqueles que, como eu, não têm tanta intimidade com composições artísticas desta natureza. O próprio título sugere qual seja o enredo da obra do cartunista mineiro. Utilizando como ponto de apoio a figura de uma linha, Vale brinca com o imaginário coletivo de um modo bastante cativador, através de diferentes recortes temáticos nos cartuns que compõem o todo do livro. Não há palavras nas páginas, somente uma linha que perpassa todo o conjunto, unida como tal a desenhos variados que figuram como suporte para produção de conceitos os mais diversos possíveis, ajudando assim na compreensão das mensagens que se pretendem transmitir ao leitor. Por tratar de temas universais de um modo divertido e ao mesmo tempo instigante, sem pecar por adentrar num espaço de lugares-comuns bastante típicos à caricatura, o que Mario Vale faz é um trabalho quase que inconcebível em termos de classificação enquanto artefato literário. Dizer que A LINHA é para crianças, ou que é para jovens, ou algo nesse entremeio, é a mesma coisa que desqualificar a produção artística do autor. O mais adulto e experiente leitor pára minutos muitos e deliciosamente investidos de seu tempo na justa tentativa de entender o que é que se passam nas 88 páginas do livro. Não obstante a qualidade do material impresso, a simplicidade mágica dos traços do autor, a potência metafórica significativa dos cartuns, outra detalhe também chama a atenção: o espaço em branco do livro não parece ser algo sem propósitos. Sem o vazio, sem o vago, talvez a amplitude dos desenhos não fosse tão vasta e flexível. Exemplo mais do que típico de livro que faz do seu leitor personagem de fundamental importância, sem o qual certamente não haveria modos mais eficientes para constatar a magnitude de tal literatura, ou seja, a linguagem que falta à sua matéria é encontrada na voz invisível do leitor produtor de significados. Uma boa pedida, para quem se dispor a “ler” A LINHA, é procurar também os livros de autores como Eva Furnari, exímia artesã de livros “mudos” e fantasticamente repletos de “vozes”. Para mães com filhos pequenos, pais com filhos grandes, adultos sem barba, adolescentes barbudos, velhos jovens, idosos de todas as idades ou qualquer coisa do gênero ser humano, bom apostar nestas linhas tão edificantes.


 Imagem retirada do Google.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Conceito?


– Amiguinho meu, tu me ensinas a voar um vôo nunca existido?

– Não, eu não posso. Um dia tudo já existiu.

Indo ao dicionário Aurelião, encontraremos o seguinte significado para o termo grego “Mímesis (Mimese)”: imitação ou representação do real na arte literária, ou seja, a recriação da realidade”. Roger Samuel trabalha dentro dessa perspectiva de exemplificação quando malina nas gavetas de suas teorias e de suas pestes. Por ser um conceito filosófico, portanto demasiado amplo, esta “imitação” a qual indica tal autor alcança um horizonte de discussão quase que ilimitado. Para Platão, mímesis é uma espécie de imitação da realidade (Idéia) em terceiro grau, um pouco distante do plano do pensamento original. Se no platonismo a mímesis ocupa um espaço recatado, sem grandes importâncias nem faculdades, em Aristóteles o termo vai ocupar um lugar de destaque, revelando-se como o processo pelo qual o fazer poético encerra variados símbolos e significados. A mímesis não é um exercício metalinguístico – como é óbvio que não deixa de ser, jamais -, porém ela mais se aproxima da metáfora, como energia vital e força propulsora integrante do núcleo poético. Sem tanto me alongar querer, mímesis está mais para um exercício de revelação externa ou interna de algo, tendo como ponto de apoio uma determinada realidade já existente, sofrendo influência do nosso inconsciente e, também, das circunstâncias diversas as quais estamos diariamente e temporalmente entrando em contato.

Edutecnocupação


O mundo vivencia a era da informação, e essa informação chega de maneira tão rápida, instantânea, que devemos inclusive questionar sua qualidade, visto que a rapidez e sucessividade informativa ocasiona uma incapacidade humana de filtrar as parcelas significativas presentes num dado contexto informacional e criar um pensamento crítico diante das mesmas. Este quadro de interconectividade da sociedade mundial é possibilitado pelo surgimento e consolidação de tecnologias inovadoras, que desafiam a sociedade mundial como um todo, principalmente no âmbito da educação. Tal setor, portanto, é desafiado a acompanhar essas mudanças porque está para o mundo apontando inovações igualmente revolucionárias, de modo que permitam ao sujeito global tornar-se um indivíduo adaptado às mudanças rápidas pelas quais o mundo atravessa, além de apto a propor inovações técnicas, mercadológicas e sociais das quais necessita a sociedade mundial, da qual somos sujeitos históricos. A educação, hoje, não apenas mantém seus objetivos tradicionais de aprimorar o conhecimento e facilitar o convívio social, mas também incorpora novos desafios como permitir que o indivíduo realize tarefas cada dia mais complexas, tornando-o assim mais produtivo, diminuindo então a sua probabilidade de ficar desempregado. A relação entre formação, profissão e emprego está cada vez menos interligada. Hoje, diferentes formações podem levar as mesmas ocupações. Um mundo de trabalho se delineia e as novas competências impostas pelo mercado de trabalho são no nível da percepção da capacidade, da resolução de problemas e do relacionamento interpessoal. Entrementes, importante faz-se elaborar uma síntese acerca do tema “Inovação tecnológica X educação”, tratando de penetrar em seus significados e funções adquiridas ao longo dos anos. Os pesquisadores deixam claro que a participação e aferição de uma prática tecnológica inovadora dentro do aspecto da educação é algo muito interativo e que se presta ao modelamento da sociedade em geral. Para que haja uma efetiva aparelhagem tecnológica na esfera educativa, os gestores e alunos devem agir de maneira que compactuem com os mesmos ideais e, além disso, entender que sem esta união de valores e objetivos a educação não tende ao progresso. Decerto que, se não considerarmos o caráter agregador não linear, integrativo, capaz de unir diversos componentes sociais, complexos, nós não dominaremos os avanços produtivos dos quais estão intrinsecamente ligados todos os sujeitos e o fenômeno educativo. Portanto, há uma necessidade urgente de buscarmos sempre uma interação com o novo. Precisamos estudar cada vez mais e inserir em nossa vida uma aprendizagem contínua, pois o mundo está em constante mudança e as qualificações tradicionais tornam-se instrumentos por demais obsoletos.

O tempo da gíria


Em maior ou menor grau, toda gíria é – ou pretende ser – a expressão máxima de um determinado grupo que se utiliza da linguagem verbal para efetuar fenômenos comunicativos. Expressão máxima porque é ela que assegura os limites de uma privacidade de compreensão em quesitos tidos como passíveis de sigilo ou segredação tribal. É natural à gíria o seu poder de guardar ou proteger um desejo por diferença. As expressões giriáticas, dentro do contexto maior da linguagem, buscam a todo instante a sedimentação tanto de uma marca lingüística pormenorizada – e ao mesmo tempo evoluída – quanto de um sentido que, sendo ele lógico ou ilógico, possua o poder de dar significado a algo ou a alguma ação humana, verbalizada ou verbalizável. Esta incessante procura em definir o que é particular a uma tribo social, como num processo de demarcação de uma dada territorialidade expressa através da palavra e suas ramificações, ocorre em sua quase total generalidade na esfera do coloquial. Por sua vez, a coloquialidade inerente à gíria traça para si mesma um perfil estritamente popular. Debutante que é ao que se apresenta como sendo de ordem cotidiana, e desprovida de uma armadura lingüística mais forte capaz de lhe oferecer a necessária proteção ao desgaste natural que o fator tempo impõe a tudo e a todos, a gíria tem entre suas maiores e mais visíveis características a efemeridade. Por nascer e morrer assim, tão aligeiradamente, no falar do povo, a gíria alcança o ápice de sua condição muito rapidamente. É quando o seu sentido extrapola o seu domínio inicial, vaza pelas brenhas de sua própria espacialidade, adentra outros universos, agride outros, prolifera-se na multidão, e termina por perder muito de suas particularidades e possibilidades. De todo modo, mesmo após sua morte, a gíria sobrevive – as mais contundentes, diga-se de passagem -, tal qual uma alma penada, agora funcionando como um registro de um tempo passante, passageiro, passado. Nelly Carvalho, professora da UFPE, em artigo publicado em periódico pernambucano, diz que: “A efemeridade da gíria toca nossa sensibilidade porque demonstra concretamente a passagem do tempo, dos fatos, dos homens, enfim, põe em relevo a fugacidade e a vida”. Não basta que usemos a expressão giriática a torto e a direito, é preciso conhecer o seu funcionamento, a sua situação dentro do contexto linguístico, a sua operacionalidade, a sua serventia. Deste modo, além de nos transformarmos em seres atuantes e participativos dentro de nossa língua, propendemos a melhor nos entendermos como seres em progressiva atualização, ao mesmo tempo individuais e coletivos, descartáveis como uma gíria de verão, eternos como uma gíria dicionarizada.

Uma nova ordem?


O capitalismo não teme crises, guerras ou instabilidades (?). O capitalismo é um sistema severo, e talvez por ser tão rígido assim é que ele conseguiu instalar-se de maneira tão abrupta, marcante e essencialmente injusta. É dentro desse sistema econômico/social, baseado na propriedade privada dos meios de produção, na organização da produção visando o lucro, que emprega o trabalho assalariado e o taxamento de preços, que emerge uma nova ordem sociocultural: a Sociedade Tecnológica, que também recebe a designação de Sociedade da Informação, ou Sociedade Pós-Moderna, ou Sociedade Digital ou, também, Sociedade de Consumo.

A sua notável capacidade em se renovar constantemente, e por extensão, solidificar-se e fortalecer-se, mesmo sob as mais duras crises, é um dos fatores ou características que servem para diferenciar a Sociedade Tecnológica dos períodos anteriores. E é justamente nessa imensa capacidade de renovação, de reprodução, que reside o perigo. A Sociedade Tecnológica, utilizando-se do capitalismo e demandando cada vez mais de um aprimoramento e de uma redução dos gastos condizentes ao tempo de produção, acabou provocando uma verdadeira revolução no comportamento dos indivíduos. E nesse âmbito, cabe ressaltar o envolvimento de todos os setores sociais.

É quase que impossível enxergar um espaço que ainda não tenha sofrido a influência dessa Sociedade Tecnológica e desse capitalismo selvagem. Percebe-se, claramente, que, com a vigente necessidade de precisão e velocidade na produção de bens materiais e imateriais, como é o caso da informação, houve uma nova organização de valores, principalmente no que se refere às funcionalidades e capacidades humanas. O homem é constantemente trocado pela máquina, que realiza as tarefas em muito menos tempo.

Enquanto as “constituições capitalistas e tecnológicas” continuam renascendo indefinidamente, o homem moderno vê-se igualmente obrigado a se reestruturar, aprender, desenvolver-se, desapegar e evoluir. Porém, esse desapego e essa evolução não é tão facilmente conseguida, assim, sem custos. A tatuagem da Sociedade Tecnológica já se encontra em nossa pele, que maculada e ferida não sabe como cobrir toda essa mancha. Essa nova ordem fez do homem uma criatura de grandes limitações, escravizado e quase sem nenhuma possibilidade de conhecer o significado da palavra liberdade.

Perde-se, espontaneamente, os potenciais humanos para as parafernálias que sequencialmente surgem em nossas vidas; uma inquietação metabólica que apequena o cidadão, operando em conjunto, no intuito de dominar nossos antigos domínios.

Mais um pitaco saussuriano


Uma relação entre compadres é como se assemelha os elementos fundamentais do estudo da Semiótica e da Semiologia. Interessante perceber como se dá o processo de ligação entre termos essenciais para o funcionamento da sistemática estudada por Saussure.

Tomando como exemplo os termos “Linguagem”, “Língua” e “Signo”, pode-se ver, claramente, esse tipo de intercâmbio. No caso da “Linguagem”, a sua formação/existência ocorre a partir da junção entre “Langue” e “Parole”, ou seja, Língua e fala. No quesito “Língua”, estamos sempre tratando de uma relação binária entre signos. Já no caso do “Signo” propriamente dito, há sempre a dualidade entre um conceito e uma imagem acústica ou, ainda, por outro prisma, entre significado e significante. Todos, numa ótica de obrigatoriedade, corroboram a idealidade de Saussure.

E, para fortificar esse pensamento, em Pierce essas manifestações continuam existindo, mudando apenas a quantidade de envolvidos; ao invés de binária, a relação em Pierce é triádica. Agora os elementos fundamentais fazem parte de um complexo jogo estrutural composto pela Sintaxe (Estrutura propriamente dita), Semântica (ligado ao significado) e, por último, pela Pragmática (Referente ao uso e prática nos diversos ambientes sociais).

O lead jornalístico e o cotexto


caminhos para uma simbiose obrigatória

As marcas textuais que caracterizam e qualificam um texto como sendo, ele, um produto jornalístico são diversas, assim como se dá com outras tipologias ou gêneros de texto. Além de requerer sua respectiva presença em um dado suporte midiático, seja ele em formato impresso, radiofônico, televisivo ou eletrônico, o produto textual de ordem jornalística também pressupõe, entre tantos outros mecanismos, a velocidade, a informatividade, o desprendimento e alguns elementos técnicos que auxiliam no processo ao qual se destina. E é justamente dentro deste panorama que se faz demasiado visível a forte dependência que o lead tem para com o cotexto discursivo.

O lead de um jornal impresso, para tomar como exemplo, tem por finalidade fazer com que o leitor, ao ler o primeiro parágrafo de toda a matéria/notícia publicada – local onde geralmente o lead aparece -, seja informado dos acontecimentos basais – em geral, o lead tenciona responder às perguntas “o quê?, como?, quando?, onde? e por quê”. Todavia, para que a transmissão da mensagem seja efetuada com clareza, as relações entre os termos utilizados e o sentido agregado à mensagem precisam estar em perfeita harmonia. E, para que isso ocorra, é necessário que haja uma rigorosa observação do contexto, que, para Maingueneau (2001, p.26), “não é necessariamente o ambiente físico, o momento e o lugar da enunciação.”

O cotexto encaixa-se dentro do contexto, e forma, juntamente com o “contexto situacional” e com os “saberes anteriores à enunciação”, um complexo de instrumentos que auxiliam na compreensão do texto. O lead, como parte fundamental de uma notícia jornalística, deixa-se encaminhar pela íntima relação que tem com os elementos dêiticos/conectivos pertencentes ao cotexto linguístico. Segundo Maingueneau, são estas “sequências verbais encontradas antes ou depois da unidade a interpretar” (2001, p.27) que vão assegurar a qualidade ou o teor de incompreensibilidade/clareza possivelmente presentes no lead.

Sendo assim, percebe-se uma simbiose linguística de fundamentos quase que obrigatórios. É verossímil, e nada constrangedor, dizer que um não existe sem o outro, ou que um é indispensável ao outro. Todo esse processo faz com que, quase que imperceptivelmente, o sujeito-leitor se utilize, ao ler o lead dentro do corpo de um texto jornalístico, de recursos indispensáveis à interpretação do conteúdo, fazendo com que o propósito informacional seja plenamente averiguado no ato da leitura.



MAINGUENEAU, Dominique. Análise de Textos de Comunicação. São Paulo: Ed. Cortez, 2001.

As perguntas sem resposta de Matrix


A trilogia cinematográfica Matrix, dirigida pelos irmãos Wachowski, é um produto midiático de ficção científica que mistura tecnologia, efeitos especiais com mitos, crenças, religiões e, evidentemente, filosofia antiga e atual. Os paralelos que podem ser estabelecidos entre temas abordados nos três filmes da série (mormente o primeiro) e as idéias de Sócrates e Platão, principalmente aquelas ligadas ao seu famoso e tão discutido Mito da Caverna, são inumeráveis. A caverna de Platão é o mundo das sombras, o mundo onde reina o desconhecido mais geral e também onde vive a ânsia pelo saber, e o filme nos questiona o que é, para nós que vivemos numa época em que ciência e tecnologia predominam, a nossa real e atual caverna? Matrix é, assim como o antigo mito platônico e antes de qualquer outra coisa, uma alegoria, uma pantomina dos pensamentos de Sócrates e seu discípulo-mor. Há nos filmes a preocupação com os encadeamentos do “descobrir” e com o do “descobrir-se”, este otimizado como num processo de autoconhecimento que busca a retratação de uma outra atmosfera e de uma outra realidade, tanto mais próxima quando mais distante da realidade pensada enquanto real. Tanto em Matrix como nas idéias desses dois filósofos, existe uma ênfase para com a construção de diversos valores distritais humanos e sociais, como o enraizamento da curiosidade, a fortificação do desejo, a eterna fome por conhecimento e até a “apalpação” do que é real e/ou matéria-caminho para fuga do que fosse apenas virtualidade ou imatéria. O reflexo das pessoas na parede, o mistério, a dúvida pelo que é novo, os choques entre personas e rostos de fidedignidade, assim como os contrastes produzidos pela realidade são matérias importantíssimas e, por conseguinte, fundamentais para o entendimento do enredo dos respectivos filmes. A nossa caverna é o próprio ser humano, que ainda não conseguiu alcançar a sua mais íntima substância, o seu âmago, a sua mais rica profundeza, o seu lado verdadeiramente distinto dos outros animais, que não sabem que estão pensando ou que sabem que são capazes de pensar – o ser humano, criatura de sentimentalidades e manifestações, em sua maioria, superficiais e dicotomias. Pode-se, a partir de tais pressupostos ligados ao filme e à filosofia, dissertar também sobre o conhecimento filosófico abarcado em Matrix, destacando as diferenças no tocante às outras formas de conhecimento e relatando como se deu a passagem do pensamento mítico-religioso para o pensamento filosófico. A filosofia é uma ciência e não é, tudo ao mesmo tempo. A filosofia cientifica o que é contemplação e reprodução, emite concepções diversificadas do mundo e das relações interpessoais, transcende o que é matéria e alcança uma forma de plenitude de olhar, de enxergar, o que a faz diferente das outras formas de conhecimento, que funcionam atreladas ao pragmatismo e ao tecnicismo. Estes, por sua vez, malbaratam e desvalorizam a subjetividade e o distanciamento do visível. O mito foi usado no início como uma forma de retratar a formação do mundo e das relações humanas, através de narrativas alegóricas e imaginativas, deixando que a ficção e a oralidade corroborassem tais tentativas de explicações. Somente quando a filosofia conseguiu se adaptar melhor às necessidades do homem é que ela tomou as suas devidas proporções. Matrix nos lega uma questão: por que a pergunta é mais importante do que a resposta no processo de filosofar? A pergunta, manifestação de busca e saciedade, é muito mais essencial que o “responder”, até porque não há apenas uma verdade, uma resposta. A resposta é um produto da subjetividade, da incerteza – a pergunta não, a pergunta é a própria certeza, talvez a única forma de certeza, mas também uma certeza falida, diagnosticada infame e cancerosa, posto incompleta -, e este não é o princípio básico que faz movimentar a filosofia. Filosofar é, antes de tudo, ater-se ao Belo, à negação das ordens naturais das coisas e um elogio ao que é de ordem imprevisível e, para conseguir um melhor entendimento condizente a este fato, nada mais inteligente que perguntar, questionar. Será que é mesmo assim?

Esse texto foi publicado na Revista Entrementes Edição de Outono de 2015

A estruturação da realidade


A construção conceitual da expressão “Estruturação da realidade” fundamenta-se na ideia de que é ela o arcabouço instrumental-metodológico usado pelo indivíduo no desígnio de criar um “ambiente” propício ao desempenhar de tarefas-ações, sempre em busca de cumprimentos e realizações. “Estruturar a realidade” é relacionar-se com o outro, com o que é o objeto ou com o que não é concreto. É estudar a mecânica física e simbólica da dinâmica comportamental em um viés que permeie a elaboração de uma situação real, cognitiva e operacional. O indivíduo “estrutura a realidade” no intuito de “desproblematizar”, de ir adiante, alcançar objetivos, superar obstáculos. Portanto, ao construir tal esfera de significação, ele, o indivíduo, dialoga com forças e necessidades, ora simples ora complexas, para depois agir sobre o meio e produzir a ordem desejada. Para isso acontecer sem maiores dificuldades e empecilhos, a “estruturação da realidade” atua no desbloqueio de tensões, ameaças bastante significativas para as possibilidades de fracasso. Em outras palavras, “estruturação da realidade” é o conjunto sistemático e estrutural de manifestações que, motivado ou não, prepara o indivíduo para inúmeras interações e jogos relacionais, funcionando como ferramenta de apreciação e efetivação de ações sobre determinados meios, prenunciando algo, sempre.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Marcelo conversa com Germano Xavier



Marcelo de Novaes Soares, do blogue Bloco de Notas, conversou um pouco comigo. Leia a entrevista na íntegra no blogue dele ou aqui mesmo n'O Equador das Coisas. A foto acima é mais um desafio. Meados dos anos 90, eu no finado Clube Social de Iraquara-BA, numa apresentação artística de Kung Fu e dança. Quem descobrir quem sou eu na foto ganha um doce. Continuemos, bucaneiros...


MN - Germano, se você se dispõe a escrever sobre "Grande Sertão: Veredas", já nos dá uma pista interessante sobre o tipo de leitor que é. Compartilhe conosco, o pouco que seja, o que você viu no mundo-apinhado-de-linguagem de Guimarães Rosa.

G - Vi o que a maioria vê quando entra no mundo do monstro de Cordisburgo. Uma nova e outra língua portuguesa, uma reforma "inventada" e geral nas normas do nosso idioma, uma ousadia sem tamanho, um dicionário de potência imaginativa, um livro indispensável para qualquer um que queira enveredar-se por estes caminhos, uma "Estória" fascinante, entre tantos outros aspectos que aqui poderiam ser citados. E em especial, me fiz enxergar o fator "Errância" nos dois personagens principais do romance. E sobre isto ainda pretendo me ater em matéria de pesquisa e produção científica.


MN - Você crê em sua cidade natal como crê em Cortázar? No Jogo da Amarelinha, saltando casas e mudando de posição-no-jogo [do primeiro blog "Parolas de um Sujeito Quedo", até este transadíssimo "O Equador das Coisas", passando por "A Auto-Estrada do Sul"] você já empacado, sem conseguir avançar? Já se experimentou como sendo tautológico [aquele triste "déjà vu de si mesmo", porém esvaziado de surpresa?]. Ou repetir-se também é uma maneira de surpreender(-se)?

G - Eu não creio mais em Iraquara. Perdi minha cidade há bastante tempo. Recentemente escrevi um livro-reportagem sobre ela, Iraquara - Em Memória de Nós, que pretendo ampliar e publicar em breve, e mesmo assim me senti muito distante de sua essência. Porém, penso que ficar querendo equiparar passado e presente também seja um erro. Memorar também é esquecer, como diria o uruguaio Mario Benedetti. A Iraquara que quero que seja preservada em mim está incólume, impassível de ser atingida pelos mísseis dos tempos vindouros. O que está vivíssimo dentro de minha alma é a vontade de levar a região da Chapada Diamantina para os livros. E isto, se não me faltar forças, será feito. Ninguém quer ser matéria estanque no espírito do Tempo. Quero crer que progrido a cada novo texto que exponho aqui. E se por um acaso eu me repetir, vou pensar que repetição pode ser sinal de reordenamento, de amadurecimento. Quem escreve quer participar da vida de uma forma ou de outra, malinar com ela, transgredi-la, invadi-la. Escrever é, sem dúvida, uma forma de estar vivo. O que tenho feito é alinhar rotas que mais me comprazem do que me desmentem. Mentidor é o escritor que diz que escreve para não ser encontrado em sua plenitude por um possível leitor. O blogue "O Equador das Coisas" é hoje o mais fiel retrato do que sou e do que penso do mundo que me cerca, e também dos mundos que quero que existam, inclusive os literários. Todavia, ele (o blogue) não está livre de ser demolido de uma vez por todas - se é que me entendem. Afinal, como diz o outro, "tudo que é sólido se desmancha no ar".


MN - Teu élan criativo construiu este painel de textos, de 2007 para cá. Eu te pergunto: o poema não registrado/ exposto/ grafado/ vocalizado mofa (n)a alma?

G - Mofa, apodrece, morre, não vive. Para que serve um poema senão para existir dentro de uma outra alma?


MN - Como a literatura é uma Vereda Imensa e maior do que o texto extraordinário de Guimarães que citei acima, não podemos, nem de longe, percorrê-la e destrinchá-la numa vida [nem em trinta]. Que bússola você usa, e como se orienta na porção-de-chão que escolhe/ousa pisar? E quando o chão se inverte ["chão invertido"é, também para mim, uma velha imagem...], como recupera o centro de gravidade? [Afinal, o labirinto-da- literatura pode ocasionar labirintite... ou, pior: vertigem existencial].

G - Eu sempre usei a estratégia do ler um após ler um outro, caminhar um passo de cada vez. Por exemplo, citando algo recente, A fúria do Corpo, do João Gilberto Noll, levou-me a conhecer um pouco do David Foster Wallace. Pergunte-me como isso se deu e eu não saberei te responder. É mais um mistério deste rio infindável chamado Literatura. E como universo labiríntico, perco-me inumeráveis vezes e me deixo estar perdido. No fundo sei que não há estratagemas para lidar com a galáxia das letras. Atualmente ando meio perdido. Mas escontrei um bom caminho para seguir andando neste arrebol de continuidades e rupturas: comecei a ler 2666, do Roberto Bolaño.


MN - "Vai morrer o poeta aos vinte e três anos, e ele sabe que vai". Este é o teu recado a um poeta Gular. Em outros termos: o poeta morrerá à míngua, e ninguém se dará conta disso [não em vida]. Esse clamor tem o "halo" de Álvares de Azevedo, que viveu até um pouco menos do que isso. O que eu poderia depreender deste arquétipo do criador combalido quando jovem: "Ó, como a poesia nos esfalfa!?" [a nós, que a fazemos]. Ou, correlatamente: "poetas não sabem cuidar de sua saúde?"

G - É doloroso escrever. Tanto quanto prazeroso. Poetas, escritores, como humanos que são, são fásicos. Houve um tempo em que os temas da "Morte" e suas adjacências estiveram mais perto de mim. Hoje me interesso mais pela "Vida". Talvez por isso ainda não tenha desistido de tudo isso. Ainda não escrevi o que quero escrever e ainda não vivi o que quero viver para poder morrer em paz comigo mesmo. Não posso dormir agora.


MN - Fale dos acertos de tua errância nestes poucos anos de vida [um quarto de século, praticamente]. A errância, hoje, é um movimento-para, ou também um tema? Você crê, como ensinam certos escritores a neófitos, "que todo autor tem de achar seu tema"? Você achou o teu? Achou também o tom? Há coisas que só se descobrem quando se é mais velho, em termos de "dicção narrativa"? Rimbauds à parte, você se inspira em [ ou se instrui com] escritores de tua faixa etária?

G - Saí de casa aos 14 anos e comecei a dar passos sozinhos. Aprendi o que é solidão e silêncio sentido tudo na pele. Aprendi tanto que já não suporto mais estes sentimentos. Eu sempre rumei tentando ser melhor, tentando conhecer mais a mim mesmo. Eu jamais perdi meu tempo procurando "um tema que fosse meu". Talvez ele me surja com o atravessar dos dias e das noites. Leio e absorvo daquilo que me parece ter a densidade suficiente para não considerar banal. Escritores são seres errantes por natureza. Sensíveis a tudo e a todos, só lhes restam saber efetuar as transações corretas. Somos filhos do Tempo. O Tempo, invariavelmente, muda, mudando-nos também. Eu não sei até que ponto estou certo do que o que escrevo é aquilo que gostaria de escrever. Mas tenho absoluta certeza de que ajudo a produzir com meu esforço diante da palavra aquilo que o Elias Canetti chama de "Poesia-Una" do mundo. E eu ainda sou daqueles que preferem os clássicos, mas também libo dos contemporâneos. É preciso.


MN - Eu te vejo experimentando algumas dicções, por breves momentos. Temos a "dicção lusitana" em "Há um ponto cego de afectos no que afeta a linguagem do reflexo". Isso para falar o quanto o outro nos é incognoscível até a hora da morte ["Vossas Biografias"]. Qual seu nível de interatividade com autores lusitanos? Há muitos blogues em Portugal...

G - Quanto ao termo "afectos" utilizado no verso meu supracitado, é apenas recordos meus de terminologias bastante utilizadas nas obras filosóficas de Deleuze e Guattari, cujos estudos me invadiram plenamente quando ainda cursava Jornalismo. Penso que meus poemas mais recentes estão beirando uma ininteligibilidade sadia, um hermetismo desfigurado, mas que consegue enviar uma mensagem clara na medida do possível. Sobre o complemento da pergunta, digo que estou relendo "Os Lusíadas", que sempre releio Fernando Pessoa, que não tenho muita afeição com o que escreveu Saramago, que tenho curiosidade com relação ao que escreve o Antonio Lobo Antunes. E sinceramente, não sei dizer se há muitos blogues em Portugal nem se estou interessado nessa estatística.


MN - Falando em sotaques, há sotaques do sertão, também. Quando você se lembra deste tipo de sotaque, homenagenado-o [em "Polaróides Pessoanas", por exemplo], eu tenho de considerar o método a partir do qual Pessoa demarcou temas e sotaques. Você ama Pessoa. Já sabe se ele te ama?

G - "Pessoanas" aqui diz respeito à "Jampa", João Pessoa, capital do Estado da Paraíba, por onde estive por dois meses. Amei a cidade. Não sei se ela me amou, creio que sim. Fui muito bem recebido, o povo é extraordinariamente receptivo. A cidade é muito organizada e paira nela uma sensação de segurança. Ótima morada. Para quem se interessar possa, está aí a dica.


MN - Talvez você seja um prosador poético que flerta com a poesia. Escreve até "missivas", o que é um gênero quase-abandonado, senão por um ou outro bom cronista. Sei que você aprendeu coisas com o punhado de gente que leu: Roberto Piva [falecido recentemente], Pessoa, repentistas, certamente. Você leu Piva no segundo grau, em Irecê, interior da Bahia. Quem eram teus interlocutores nesta época de perscrutações poéticas? Um ou outro professor, talvez? E hoje, aos vinte e seis anos, já sabe mais sobre "a paranóia de viver"?

G - Um ou dois colegas de classe me escutavam. Lembro do "Cenoura" e do Tales, amigos de mais sensibilidade para estas coisas da alma e do Ser-Palavra. O restante preferia as resenhas das festas do fins de semana. No mais, era eu e eu mesmo. Um professor só iria me ouvir um pouco mais tarde, mas ainda em Irecê, o Erik Machado. Já na faculdade o espaço foi maior. Colava poemas e textos meus nos murais. Publiquei coisas em jornais e livros, participei de fanzines. Alguns me intitularam "Poeta". A alcunha ficou, feito vírus. Só me restou aceitar a condição. O professor citado hoje nem deve saber que ainda existo. Tudo bem, está tudo tranquilo. A vida tem me dado uns tapas "necessários". Isso é bom. Estou mais centrado na vida real hoje, certamente. Tenho sonhos palpáveis. Preciso realizá-los. Senão a vida passa por cima da gente, não é?


MN - Minha segunda pergunta foi se você acreditava em sua terra natal, como acredita em Cortázar. Minha última será: "você acredita em escrita coletiva"? Como? E sob quais condições? Quais foram os teus critérios para juntar a corja infecta e eloquente que atende pela alcunha de "Homens Hediondos" [sendo que há algumas mulheres hediondas infiltradas no antro...].

G - Sou meio preconceituoso com essa coisa de coletividade na escrita. Mas tudo muda, não? No blogue Homens Hediondos todo mundo escreve por si e acaba que ensina e aprende alguma coisa junto ao seu semelhante. A receita, se houver, é bastante simples. Quem ganha mais, na verdade, é o leitor. Gosto de pensar assim. Daquela brincadeirinha de escrever e publicar pode sair um tijolinho de construção literária de bela densidade. É uma tentativa. Por que não arriscar?


Imagem: Acervo Pessoal

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Silêncios de ouro


Por Germano Xavier




Gianduia


Eu te prefiro.
Eu te pré-firo.
Aquele gosto gostoso é acabável, não?



Telharias



#1

de encontro ao
outro topo, topas?
vai na frente e amortece.



#2

gato pingado
não pinga nem se quer
quem pode pingar é preto bichano
que sei tem preto pra valer



#3

quem tem medo do escuro sabe
que o branco é todo paz




 Imagem: Deviantart.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

O signo como representação de algo


Por Germano Xavier 

A partir da leitura do texto Semiótica e Semiologia, de Carlos Vogt, e também das explanações em sala de aula feitas pelo professor Cosme Gomes, pude perceber que a semiótica está inserida num jogo abstrato-perceptivo ou, ainda, imaginário-sensitivo. Tomando como base o conceito de Charles Sanders Pierce, renomado lógico e filósofo americano, o signo é algo que possui a faculdade de representar alguma coisa para alguém. O objeto da semiótica, o signo, existe a partir do momento em que um dado significado é concebido como sendo aspecto universal ou universalizante. Em outras palavras, o signo, trabalhando conjuntamente com a parcela mental do indivíduo, adquire potencial necessário para incutir, nessa mesma mentalidade, um modelo de representação parcialmente ou completamente equivalente, com similaridade menos ou mais apurada. Com o pressuposto de que tudo necessita ser nomeado, assim como receber uma carga de significação no desígnio de construir um corpo unitário completo, a semiótica, vista aqui no tocante à teoria de Pierce, destina-se a estudar o signo em parcelas subdivididas, fato que auxilia no melhor aproveitamento de sua complexidade e, posteriormente, de toda a sua lógica física, psíquica e social.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

O recheio dos dias


Por Germano Xavier



A revistaria


O homem entrou na revistaria suando pelos orifícios da pele. A mulher no caixa o olhou sem nenhuma palavra nas pálpebras. Ficou olhando para baixo e fingindo estar preocupada com a gaveta que não abria mais com certa facilidade de nova. Ele levantou a cabeça para as prateleiras mais altas e foi olhando coisas sobre literatura, cinema, música, sem querer notar a fileira de magazines com muitas mulheres nuas. O suficiente permaneceu para que seu suor secasse na própria roupa, como se nela o líquido pudesse coagular. Separou três revistas e um jogo de palavras cruzadas nível difícil. Colocou no balcão onde a mulher passava boa parte do dia sentada a espera dos clientes. Depois o homem foi na seção dos livros de bolso. Pegou um Camões. Olhando para o homem, a mulher notou seu suor voltando a transpor a barreira da pele. Não falou nada. Com o braço direito, o homem enfiou a mão no bolso e pagou pela compra. Já se virando, pediu um maço de cigarros: “Não, aquele da ponta... Isso. Obrigado.” Virou-se e saiu com a sacola. “Você não sabe quem sou eu, menina!”, exclamou consigo mesmo em voz muda e interna. Os olhos da mulher seguiram-no até perdê-lo de vista, quando assim se fez dobrar a esquina que dava para a rua principal. Meio boba, viu uma cliente entrar na loja, mesmo assim não deixou de se perguntar se haveria relação do suor na testa do homem com o livro que ele levou cujo título versava algo sobre luzes, pareceu.



O especialista


Um homem dono de uma marcenaria estava contratando um marceneiro para a sua marcenaria. O marceneiro estava procurando emprego pela cidade e soube da vaga para marceneiro na já citada marcenaria. O marceneiro foi ver do que se tratava. O dono da marcenaria, que também era marceneiro, foi logo abrindo uma entrevista com um “então, caba, me fale de tu”. O marceneiro que estava procurando emprego começou a falar dele mesmo, mesmo tendo pouca coisa a dizer. O dono marceneiro estava meio que aprovando o discurso. Mas aí veio a pergunta crucial, e os dois terminaram num diálogo espantoso.

- Quié que tu sabe fazê? – perguntou o dono da marcenaria.

- Eu sei fazê porta e portão – respondeu o aspirante a marceneiro, puxando um pouco da letra erre quando no dizer das palavras.

- Quê mais?

- Só isso mermo, doutor.

- Só?

- Só.

- Oxe, home, e cadeira? Sabe fazê cadeira? – relutou o dono da marcenaria, meio que abrindo os braços em desagrado ou espanto.

- Não, só faço porta e portão.

- Janela, umbral, escada, biombo, armário... nada?

- Só porta e portão, doutor.

- Moço, moço, e tu é especialista, é? – disse, meio que finalizando o papo contratual.

- Sou nada disso não, doutor. É que eu só gosto de fazer porta e portão mesmo.



O convívio


Dois homens estão sentados no restaurante e esperam pelo prato do dia. De repente entra uma mulher de saia e chapéu, aos farrapos e muito suja, segurando uma garrafinha de cachaça junto ao peito, e senta-se perto dos dois. Os homens entreolham-se por um breve momento, um olha para a tela digital do seu relógio, o outro procura as chaves do automóvel cor verde-mamona estacionado na frente do estabelecimento, mas de onde estou a cena condensa uma notória e deslumbrante humanidade. 



Imagem: Deviantart.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Polaróides pessoanas



Por Germano Xavier



Eu te amo, João Pessoa.
Tu me amas?




Ponto de Cem Réis


aqui passando,
perguntei ao senhor encostado na pilastra
quem era o sujeito com olhos de bronze sentado no banco.

o senhor olhou para dentro da lanchonete,
como a desejar um auxílio,
mas disse com uma baforada:


“é Linaldo Alves, autiusta. é Linaldo Alves, autiusta famoso!”

eu, já experto com estes idiomas maravilhosos do povo,
criei dúvida e o artista, soube depois, chamava-se Livardo Alves.

mas pouco me importava a exatidão de um nome.
passei bons minutos me aprofundando em corações de pedra,
ao lado do autiusta famoso Linaldo Alves.



De pessoas pessoanas


#1


Markoni é meu amigo mais velho daqui,
e fazia aparições na rodoviária.
O problema é que acho que ele criou asas.



#2


Cêssa foi com quem conversei primeiro
nessa segunda chegada.
Ela me disse que quem tem boca vai a Roma,
e que da Lagoa o céu é o limite.
Eu acreditei.



#3


A mulher do supermercado me achou esquisito,
usando cara de “viagem de 30 horas”.
No outro dia apareci mais dormido,
e ela fez cara de “tá morando aqui perto?”.



#4


Num restaurante no centro,
a dona me ensinou, entusiasmada, como eu fazia
para gastar R$ 5,50 até as rebarbas do prato pequeno.



#5


O homem da padaria é cismado comigo.
É que devo ter cara de cão chupando manga.
(vai saber...)



Imagem: Deviantart.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Da coragem intelectual



Por Germano Xavier



Em se tratando de crítica literária, todo olhar inteligente sobre algum texto ou alguma produção intelectual maior ou mais bem elaborada deveria ser, antes de tudo, um olhar ingênuo, possuir dentro de si e de seu campo de visão um primeiro foco baseado essencialmente na ingenuidade. É somente o olhar destituído de maquinações ou estratégias de ação mais contundentes que pode melhor construir toda uma esfera de complexidade crítica de que se necessita para o desempenho de qualquer atividade de investigação. A ingenuidade dos olhos é quem produz a mais verdadeira causticidade, elemento indispensável para o leitor profissional ou mesmo para qualquer tipo de pessoa que se legitime enquanto bom leitor. Deste modo, o caminho para o urgente distanciamento existível entre o leitor e a obra se abre de maneira facilitada, o que ajuda – e muito – no processo de construção do discurso crítico. Assim, o sujeito de criticidade invade o objeto com mais firmeza de análise e sobrepõe-se a ele, fazendo com que o objeto passe a estar inteiramente em seu domínio.

Hoje, nos mais diversos meios de comunicação, seja no Brasil ou no mundo, o que se enxerga é um bando de intelectuais (como eu poderia dizer?) maquinados, robotizados, manipulados por ordens expressas de método e técnica, capacitados para complicar o que muitas vezes é simples, habilitados para descomplicar o descomplicável com receitas baseadas numa estética do adorno calculado. Falta a eles – e a nós também, críticos por natureza – o redescobrimento da ingenuidade e de seu poder de persuasão. Falta-nos o primeiro olhar, mesmo que corrompido, mas o primeiro olhar. O olhar que é feito de espanto, de um susto irremediável, um olhar apaixonadamente lúcido, um olhar amante por excelência, que por sua vez é também um olhar de dúvida, de incerteza, um olhar perdido e com medo da multidão no objeto. Mas um olhar sem covardia, que olhe para o interior das coisas sem precisar descascá-las, um olhar mágico-mítico, ou melhor, um olhar corajosamente ingênuo.


segunda-feira, 9 de julho de 2007

Nota sobre a notícia e o jornalismo




Por Germano Xavier



De acordo com as teorias construcionistas, a citar a estruturalista e a interacionista, podemos concatenar, de antemão, que as notícias são o reflexo – não no sentido de transposição, mas no de construção – de um trabalho de ordem coletiva, o que até aqui não deixa de ser apenas uma análise óbvia. Todo trabalho/produção denota a utilização de critérios e métodos para sua realização. Com o trato noticiário não é diferente. As notícias são como são, não porque elas são matérias pré-concebidas ou pré-moldadas, reflexos da realidade, como defende a Teoria do Espelho, mas sim porque existe a necessidade da lapidação desse objeto, desde o momento em que ele é apenas um acontecimento até o instante em que ele é transformado, com a utilização de inúmeros recursos, em notícia propriamente dita. O jornalista é, aqui, visto como um ourives, um talhador, pois é dado a ele a função ou o poder de “dar vida” ao fato. Claro, não podemos deixar de associar o fato de as próprias notícias serem construções, ou seja, é evidente a possibilidade do próprio acontecimento ser resultante de interações que dependam dos fatores organizacionais e dos mapas culturais acionados pela figura do repórter. Aqui, estamos diante de outro ponto importante: as notícias são também o que são por representarem um interesse próprio que não o individual, porém jamais sendo de caráter imparcial – trato mais plausível quando das ferramentas ligadas às teorias da ação política, posto que as teorias construcionistas negam o caráter de distorção das notícias. Se é imparcial, óbvio também, elas podem ser distorcidas. As teorias construcionistas falam da interação entre fonte, jornalista e sociedade, uma espécie de cultura profissional. É importante salientar aqui, novamente, o corpo do aparelho jornalístico (empresa, editoriais, jornalistas). Há na teoria estruturalista um quesito bem fechado diante do que pode ou não pode ser notícia. Acredita-se piamente no que é de ordem primária e basal. A credibilidade e a legitimidade dos fatos só são conquistadas ou reconhecidas se o material for oriundo de fontes oficiais. Essa visão vai de encontro aos que defendem a teoria interacionista, que dizem haver a possibilidade clara de que algo proveniente de outras fontes/bases, que não as oficiais, possam, e com boas chances para tal, tornar a ser um produto final e polido. Nesse ínterim, também surgem outras condições que fazem das notícias o que elas são: uma delas é o desenvolvimento e a acurácia com duas problemáticas fundamentais: o tempo e o espaço. É preciso estar onde o fato/acontecimento ocorre. Decorrente disso, há uma preocupação com a divisão das várias facetas do espaço de trabalho: mundo em áreas, jornais/empresas em editorias, ou seja, uma segregação do aparelho como um todo. Valoriza-se o instantâneo/atual em detrimento do recém-atual, que já se constitui em passado. Uma estratégia de organização e otimização de toda a produção jornalística. Tomando como pressupostos fundamentais e inerentes à prática e ao exercício do jornalismo, podemos inferir que as notícias são como são porque simplesmente utilizam desses recursos, sem nunca se esquecer dos interesses e dos possíveis interessados. Outro ponto de destaque, em todo o campo jornalístico, dizem tratar-se dos critérios de noticiabilidade que envolvem a construção da produção da notícia, tais quais os critérios substantivos e de produto. São vários os critérios de noticiabilidade, tomando em consideração as diversas abordagens/teorias que o jornalismo enquanto ciência perfaz. Aqui, os valores/notícias revelam, com justiça, os seus reais significados. Tudo inteiramente e intensamente relacionado. As características construtivas da notícia, algumas já citadas anteriormente neste mesmo texto, tornam ainda mais perceptível o caráter de construção/produção que a notícia agrega. O trabalho de artesão do profissional desse segmento é ainda mais indispensável, tendo ele que fomentar um ordenamento para a efetuação de suas capacidades, o que se costuma chamar de “rotinas produtivas”. Trabalha-se a apuração, a seleção e a publicação/materialização do fato com a finalidade de – e aqui eu repito o termo – “dar vida” ao que é, principalmente, atual, estritamente avesso ao cotidiano ou ao que foge ao natural (caráter extraordinário), ao que se refere ao grau hierárquico da fonte, ao que é de interesse de um contingente maior de pessoas, ao que atinge de forma hierárquica os segmentos sociais (quanto maior for o interesse das classes mais altas, mais noticiável é o fato), o que diz respeito ao capital que move este setor. Sendo assim, torna-se viável e de bastante funcionalidade/praticidade o respeito aos critérios que fazem o constituinte-mor do jornalismo – sem esquecer a importância da gestão da linguagem, das diferenças e particularidades de cada meio, como o televisivo e o impresso, da necessidade do uso de uma linguagem diversificada de acordo com o material-produto, as questões que giram entorno das novidades, entre tantos outros pertinentes aos critérios de produto -, a notícia ou o fato-noticiável, a mercadoria mais preciosa e motor de toda essa engrenagem, daí a importância das rotinas produtivas no processo de produção das notícias. Toda rotina produtiva implica em um exercício de disciplina. Em contrapartida, todo exercício de disciplina nos remete a uma aplicação mais ordenada e eficaz de todo o aparelho e dos conhecimentos/experiências adquiridos durante toda a vida profissional do jornalista. Existe, através do emprego desse conjunto de ferramentas, uma probabilidade mais reduzida de se observar desperdícios e ramificações de caráter dispensável nas notícias. Dentro das rotinas de produção, três são os pilares que as suportam: a apuração, a seleção e o ato final, que é o endereçamento, em forma de texto/imagem, edição da notícia ao leitor/ouvinte. Esse processo, que parece ser demasiado simples, implica em diversos encadeamentos – tudo se faz muito importante, sem falar na relevância das agências de notícias e do bom uso dos memorandos, ou seja, das notícias planejadas. Por exemplo: no momento da apuração, o jornalista deve ter e manter uma rede de fontes críveis, a ponto de tornar mais ágil e dinâmico o seu esforço. Isso acontece, também, nas outras duas fases (seleção, publicação). Seguindo esses direcionamentos, que são tanto do aparelho da empresa quando do indivíduo, o jornalismo consegue, na maioria das vezes, cumprir o seu papel de informar integralmente e instantaneamente o público ao qual se destina. 

Destarte, é fácil entender o jornalismo como importante forma de conhecimento devido a simples fatores, tais como:

• O jornalismo é um aparelho produtor de conhecimento de rápida circulação, de fácil absorção e extremamente popular; é o único meio de produção e interação intelectual de muitas pessoas no mundo; é meio fomentador de discussões concernentes aos mais diversos segmentos sociais; é, querendo ou não, formador de opinião e de consciência crítica, servindo de ponte para as mais variadas conquistas ideológicas etc.