terça-feira, 4 de dezembro de 2012

De quando Aristóteles beijou Anchieta no mato chamado Brasil


Por Germano Xavier

(ou palavras verdes sobre o Auto de São Lourenço)

Em seu tratado, o filósofo Aristóteles compartimentaliza a ação dramática em dois tipos diferentes: o tipo “simples” e o tipo “complexo”. O primeiro refere-se a tudo que elabora um desenvolvimento contínuo e linear, sem quebras ou rupturas; já o segundo tipo é imbricado por uma série de acontecimentos que fogem a ordem lógica das ações, por quebras e ações curvas ou diagonais – entende-se por “ações curvas ou diagonais” toda variação de ação/atitude no sentido inverso do que está sendo indicado ou produzido.

Algumas dessas “ações curvas ou diagonais”, por vezes acabam em resultar numa determinada “inovação revelativa” – a retratação da personagem é consciente, durante todo o espaço de tempo que a obra demanda para sua expressão completa, de uma informação que transformará drasticamente sua história.

Todo e qualquer material dramático-narrativo revela uma história, a partir de um ângulo, de um ponto de ênfase ou de um prisma específico e destina-se a encadear inúmeras seqüências efabulativas, cuja atuação é vivenciada pelas personas ficcionalizadas e, como todo instrumento de narração, situa-se num dado espaço, de um respectivo tempo, ligando-se através de meios comunicativos a partir da fomentação de um discurso que interage e dialoga com muitas outras narrativas, no justo desígnio de que seja percebida, apreendida e compreendida pelo complexo de espectadores e/ou leitores.

O Auto de São Lourenço é recheado de personagens e situações que tecem o seu caráter dramático. Refiro-me às batalhas e à dança, instrumentos que serviram de base para narrar todo o trajeto do santo. A sucessão dos fatos é organizada de forma que a urdidura textual percorra uma trilha uniforme e coerente. Existem diversos aspectos que terminam por denotar a inteligência do missionário ao tecer o corpo da trama. A prática das ações sempre percorre um espaço que foi sugerido – e não apresentado nos mínimos detalhes. Porém, é também digno de nota o recurso de substituir o mecanismo sincrético religioso por outro, ao qual poderíamos nomear de sincretismo demonológico.

Outro argumento pertencente ao teatro de Anchieta bastante interessante é o processo de organização e exposição do tempo. Aqui, diferentemente do que acontece com o teatro clássico, a forma teatral é caracterizada por sua liberdade frente às unidades de ação, tempo e espaço. A narrativa é um evento já ocorrido, pertencente ao que já é ido, ao passado, estrutura temporal que tece o princípio de narração, de esclarecimento, de explanação de um fato relevante para um determinado grupo social, em uma dada época histórica.

O caráter de memória é, também, penso eu, um valor a ser considerado no apontamento da peça de Anchieta. Além, é claro, do transmitir história aos mais novatos de todas as gerações. Desse modo, Anchieta faz aproximar os demônios da igreja católica dos demônios tradicionais e recorrentes aos índios (a tomar como exemplos Guaixará, Aimberê e Saravaia). Os demônios tomavam para junto de si os horríveis costumes indígenas: o fumo, o curandeirismo e a poligamia. O texto conversa com os índios, interagindo também com os portugueses e com os espanhóis.

Já no que condiz ao “processo de transplantação cultural e ideológico do sistema católico-cristão para o território brasileiro”, com base no estudo do texto, percebe-se que há uma troca de postos. O “ser-católico” desvirtua a grandeza intrínseca do nativo e faz o próprio nativo rebelar-se contra o seu igual. Sabiamente, a figura de alguns autóctones acaba sendo elaborada pelas mãos da ordem católico-cristã de alguns enviados, no intuito de macular sua índole natural e acabar produzindo uma espécie de asco e repulsa por parte dos seus habitantes natos, se assim posso dizer.

Há uma ruptura identitária, uma destruição de semblantes, numa linguagem mais figurada. O nativo se revolta contra o que é nativo, posto a tamanha e marcante persuasão discursivo-ideológica imposta pelos dominadores. O dominado crê no ente “superior”, agora de tez branca, vestido, calçado, ornado e agora mais sábio que ele e todo o seu grupo.

Ainda no enxergar do texto, a aculturação ao universo “branco” deu-se por inúmeros pólos de atração. O comércio, o diálogo, a retórica e a imposição são apenas uns dos exemplos a serem citados. A prática catequética funcionaria, também, como um dos fortes imãs de atração. Fica evidente o uso de iniciativas a fim de prover uma nova e, por vezes, voraz forma de carregamento idiossincrático-ideológico, cultural e político de organização e gestão social aos indígenas, sem que fossem obrigados a sair de seus terrenos ancestrais.

O Auto de São Lourenço encarna o embate entre a moral cristã e a moral indígena, e significa, estudando o personagem do anjo e da atitude das criaturas santificadas, a ação da ordem cristã sobre a nativa através da pregação dos padres. Como a intenção de Anchieta era a de catequizar, a chave de ouro da peça visa alcançar este fim objetivado. Daí o afã de demonstrar a potestade dos signos cristãos sobre os signos pagãos. Ter a glória, na cultura indígena, é ser honrado, homenageado. Destarte, Anchieta fomentava no índio a ânsia de ser vitorioso como as personagens assim o eram, o que servia de instrumento introjetor e facilitador nos exercícios de inculcação dos valores católicos. Para o jesuíta, o insubstituível, nesses casos, era pôr na figura indígena a noção de que aquilo que é pecado virá ao nativo sob forma de conseqüências negativas, ao passo que atuar de acordo com o pregar do homem branco aparecerá para ele em forma de dias de maior felicidade e congraçamento.

Um comentário:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Cruz by ~pol-b"
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