quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Pensamento chão


Por Germano Xavier

um pós-tudo a partir do livro Pensamento Chão, de Viviane Mosé.

Viviane Mosé não é bem uma poeta, é antes de tudo uma psicóloga e psicanalista. Mosé não é bem uma psicóloga nem uma psicanalista, é antes de mais nada uma poeta. Mosé pensa. Pensa e escreve. Desta ação, nasce o pensamento chão. Pensamento chão é um fino recorte úmido de cortes transversais do olhar, dos olhares. O chão é o dia, é a noite, é a tarde, é principalmente o delírio da liberdade: o acaso. Momento. Momento é uma pausa, mesmo andando, mesmo correndo, mesmo fugindo, momento é uma espera e toda espera é um acontecer maciço.

Mosé chão. Mosé voo. Altura é um troço que nasce de baixo para cima. A impressão é que o livro das perguntas fora inventado. Perguntas em formas de poema. Nado. Todo mergulho é uma forma de chão. Mosé abre o livro com uma citação do velho e cego e ciclope Borges, pois todo instante carrega uma bomba oculta, uma explosão esquecida ou simplesmente desamparada.

Mosé mata a palavra para só deixar as coisas de dentro dela: a larva da palavra, a alma, o chão. Poemas nucléolos. Poema em prosa-semente. O que nasce daí? Uma ilusão de que toda vida é uma completude. Nada disso. Precisamos renascer, dia após dia. Somos incontáveis. Preciso é habitar o sorriso, o medo, a luz, o coração, a amplidão, a parte, o aqui, a cor, o rumor, o miolo, a goela, o ser, o sossego, o choro, a calma, o utensílio, a roupa, o perfume, o aço, o espaço, o calço, a pedra, a rachadura, a fechadura, a ferradura, o mole, o gozo principalmente, o gozo.

Eu li Mosé, mas não sei o que li. Li PENSAMENTO CHÃO, em verso e prosa, fui plantado junto, aguado, regado, molhado, ungido. Estou mais vivo depois. Não sei explicar. Só sei que amo a poesia. Ainda mais agora. Sou mais. Sou menos. Sou mais. Sou chão. Sou pensamento. "meus sons são meus sins". Fui aberto, redescoberto, coberto. Mosé-fenda. "vida arte vida arde". Eu sou assim. Tenho medo do escuro.

Aprendi que chão é sol
e que criança nunca morre.

3 comentários:

Daniela Delias disse...

Fiquei com muita vontade de ler!

Um beijo, G.

Controvento-desinventora disse...

O vento na palma da mão

O chão é o meu mistério.
Rasa demais passa a vida.
Caminhamos colados nessa dimensão,
esquecidos que as mãos
podem nos erguer aos céus.

Decolemos.

Arco-Íris de Frida disse...

Parece muito muito bom o livro...deu vontade de ler...