quinta-feira, 16 de junho de 2011

Torrinha, um capítulo à parte


Por Germano Xavier

Quer viver uma aventura típica de filme norte-americano? Já imaginou você na pele de um Indiana Jones ou qualquer outro caçador de tesouros? Então saiba que a ficção não é tão irreal e impossível quanto se imagina que seja. Distante pouco mais de 15 quilômetros da sede Iraquara, indo em direção ao município de Seabra-BA, entramos a pisar em terreno conhecido como Torrinha.

Segundo contam, um holandês que atendia pelo nome José de Fulô, nascido no dia 02 de fevereiro de 1792 e falecido em 03 de abril de 1882, havia escolhido o nome ainda no início do século XIX. A área é basicamente um pequeno conglomerado de terrenos e casas de simples arquiteturas, por vezes demasiado arcaicas, edificadas no barro cru e com telhas artesanais produzidas pelos próprios moradores. É também aqui onde encontramos a Gruta da Torrinha que, dentre as mais de 100 grutas já catalogadas por instituições e pesquisadores dos mais diversos países, sem dúvida é a mais rica em espeleotemas e a mais misteriosa.

Foi ainda em minha adolescência, numa excursão organizada pela escola Educandário José de Arimatéia, que pela primeira vez tive a oportunidade de conhecer o lugar que é, em grande parte, propriedade de José Fernandes de Carvalho, conhecido por Zequinha. A região é riquíssima para a atividade de extração de água através de poços artesanais, devido aos inumeráveis mananciais que por ali passam por seu subsolo. A Gruta propriamente dita está localizada a pouco mais de um quilômetro à beira da estrada principal.

Já investido em anos, por lá me detive em outras ocasiões, porém recordo que esta primeira visita me trouxe imagens que até hoje não desgrudam de minhas retinas memoriais, como a grande “boca” da gruta, escura e tenebrosa, os guias se preparando para mais uma “corrida”, cada um responsável por doze visitantes a desbravar, à luz bruxuleante de candeeiros à gás, os mais recônditos interiores da terra, o canto dos pássaros, a cor vermelha da terra, entre tantas outras.

Eu olhava os rostos dos meus colegas de classe, e todos não conseguiam deixar de transparecer a expectativa e a apreensão depositada naquele instante. Apesar de a maioria ter nascido e crescido em Iraquara, passeios como aquele ainda eram difíceis de acontecer, principalmente por conta da pouca idade de todos. Mas, certamente, todos estavam com as suas almas transbordantes de felicidade.

O motorista da escola estacionou a van, as professoras acertaram as últimas pendências com os guias, e lá fomos nós, em dois grupos separados por cinco minutos, tempo de segurança para que lá dentro da caverna não haja interferência entre as conversas produzidas por um ou mais grupos.

Chegando à “porta” única da Gruta – diferentemente da Gruta Lapa Doce, que tem também uma saída -, logo fomos tomados por uma sensação de frio singular. É o gelo das eras, do escuro, das profundezas. “Na entrada da caverna, fazem-se ver várias inscrições rupestres grafadas em línguas desconhecidas; figuras de bisões que em nada são inferiores aos atuais; abelhas habitam a entrada da caverna e ali fabricam seu mel; crânios com características humanas, que parecem pertencer aos nossos antropóides que aqui viveram entre cinqüenta e cinco e quarenta e cinco milhões de anos, já descorados pela passagem do tempo.¹” Pequenas placas na entrada nos davam pequenos alertas acerca do caráter sagrado da localidade.

Entramos, e a cada passo que dávamos o teto parecia que caía lentamente sobre nós, obrigando-nos a caminhar agachados em fila indiana por um bom tempo, até chegarmos a um salão onde um dos três roteiros disponíveis era escolhido. A programação previa a andança pelo curso mais longo, com aproximadamente três quilômetros de extensão, o que foi motivo de mais alegria e adrenalina. Este caminho foi o último a ser descoberto, apenas levado ao conhecimento do público depois que uma pesquisadora francesa descobriu uma passagem que dá para o itinerário maior da caverna. Por seu feito, a fenda fora batizada de Passagem da Francesa, e é justamente a parte mais assustadora e que mais desperta curiosidade, por ser estreita e de difícil acesso.

Depois de adentrarmos, fascínio foi ver as Agulhas de Gipsita espalhadas pelo chão, brilhando sua luz cristal, a Flor de Aragonita – mineral ortorrômbico mais carbonato de cálcio - como uma majestade no final do caminho, as Bolhas Calcitas, o Salão dos Vulcões, as Cortinas, o Salão dos Golfinhos, o “rosto” de Cristo, as imagens de santos, as estalagmites e as estalactites - raríssimas formações espeleológicas, algumas unicamente encontradas ali.

Fantástico foi escutar o som do silêncio quando o guia apagou o candeeiro no meio do percurso e nos permitiu a visão do escuro absoluto. Inesquecível sentir que somos apenas uma ínfima parte perante o mágico esplendor da natureza. Indeléveis recordações de quando voltávamos para casa com a nítida impressão de ter conhecido o infinito desconhecido.


Notas.
1 – Excerto retirado do livro O império das serranias, de Ângelo de Mattos Pereira.

Um comentário:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"FreeFall by *Hengki24"
Deviantart