terça-feira, 27 de maio de 2014

Sobre o holocausto brasileiro

Imagem: Google/Luiz Alfredo

Por Germano Xavier

Quando eu tinha menos idade e ligava a televisão para assistir ao programa de humor A Escolinha do Professor Raimundo, exibido pela Rede Globo nos finais de tarde de minha infância e adolescência, não tinha eu ainda a clara noção do motivo para que existisse dentre os personagens do saudoso humorístico brasileiro um que atendia pelo nome de Joselino Barbacena. Esquisito e vestindo trapos, vivia se escondendo do professor. E quando não havia como fugir dos questionamentos do mestre, interpretado por Chico Anysio, sempre compunha suas falas com histórias e casos relacionados à cidade mineira que trazia em seu complemento de nome.

Antônio Carlos Pires é o nome do ator que interpretava o estranho Joselino, e tinha como bordões as seguintes frases: "Quando eu era criança pequena lá em Barbacena...", "Ai, meu Jesus Cristinho! Já me descobriu aqui... Será impossíverrr?! Larga d'eu, sô!" Quanta inocência e ignorância a minha, amigo leitor. Mal sabia eu que um dos possíveis elementos motivadores da existência daquele sujeito extremamente tímido e singular, e para mim um dos mais misteriosos da Escolinha, era o fato de que a cidade de Barbacena, no estado mineiro, tinha sido por muito tempo o reduto dos "loucos" do Brasil.

As respostas amalucadas de Joselino encobrem um fato tenebroso que sucedeu durante os anos de vigência do Hospital "Colônia", como ficou conhecido o maior hospício nacional, fundado em 1903 para dar conta de "recuperar" as sementes danificadas de joio que se misturavam no meio do trigal da sociedade dita "normal" e que, com o passar do tempo, estava mais para um campo de concentração ao melhor estilo nazista do que para um centro de revitalização humana.

O livro HOLOCAUSTO BRASILEIRO, da jornalista Daniela Arbex, retrata um pouco das histórias vividas e não vividas pelos "pacientes" do Colônia ao longo de suas longas décadas de funcionamento. Um relato sobre seres humanos - um tanto que joselinos - que foram sendo depositados no estabelecimento feito bichos peçonhentos, muitos sem motivo aparente ou com diagnóstico de tristeza ou porque "davam muito trabalho aos pais", a citar alguns dos mais esdrúxulos possíveis.

Um cenário tenebroso que geralmente começava quando se colocavam as pessoas nos vagões do trem que desembocava na Estação Bias Fortes, conhecido como "Trem de doido". Fato é que cerca de 60 mil pessoas foram definhadas lentamente pelas forças e vontades do Estado, com direito ao uso dos moldes mais horrendos de tortura e encarceramento social. E estes mesmos 60 mil morreram ali, esquecidos e sem o mínimo de dignidade.

HOLOCAUSTO BRASILEIRO é um livro que fala sobre os meandros da luta antimanicomial que ainda é travada até os dias de hoje, e que divide opiniões de especialistas e leigos no assunto. Com uma narrativa muito simples e rápida, apoiando-se também em muitas imagens que causam revolta e indignação, a obra escancara um problema de ordem social e humana que pode ser visualizado todos os dias, em diversas localidades do país e do mundo, em diferentes instituições.

O descaso é tremendo e quase sempre ninguém sabe de quem é a culpa quando uma bomba explode neste meio. Não diria que HOLOCAUSTO BRASILEIRO é a obra que fecha a discussão do caso de Barbacena, mas uma que abre o nosso olhar para a necessidade de se investigar mais a fundo tal história, que não é pequena, muito menos insignificante. É preciso conhecer o que aconteceu nos pavilhões do Colônia, para que tenhamos ainda mais noção do país em que vivemos, país capaz de fomentar um genocídio de tamanha animalidade. E pensar que o caso de Barbacena é apenas um dentre muitos.

Um comentário:

Yvana disse...

Existem muitos desses ainda no nosso país e no nosso estado, escondidos por trás das "loucuras humanas" , homens perversos aproveitadores e muitos mais loucos que esses coitados rotulados, utilizam deles para seus crimes hediondos.
Parabéns amigo Germano pela sua iniciativa de mostrar a nós esses crimes que assolam esse pais.