segunda-feira, 26 de março de 2018

A Clarice que matou os peixes



Por Germano Xavier



Clarice Lispector também escreveu para crianças. E como não poderia ser diferente, o livro é de uma profundidade extremamente necessária, apesar da matéria deliberadamente infante: bichos de estimação. A MULHER QUE MATOU OS PEIXES, como diz a autora, “infelizmente” é a própria escritora. O livro é um compêndio de verdades sobre seu convívio com animais de estimação de toda a natureza, por vezes verdades muito angustiantes e doloridas, e se inicia com Clarice Lispector confessando um “crime” que cometeu por pura e simples desatenção. Antes de revelar “o” crime, Clarice cita outros casos interessantes envolvendo seus bichinhos, “convidados” ou “não-convidados” ou “escolhidos”, como a citar uma lagartixa que comia todos os mosquitos e que mantinha sempre limpa a sua casa, cachorros brincalhões e outros porventura malvados, uma gata por demais curiosa, um miquinho ardil, coelhos, entre outros. Com a naturalidade crua e sincera que caracterizou toda a sua obra “adulta”, Clarice Lispector fala sobre perdas e dores com uma magia simples digna da mais pura palavra. Impossível foi não lembrar de meus animais de estimação, do viveiro com mais de 20 passarinhos diferentes que entardeceu aberto após uma viagem com meus pais para uma cidade vizinha, dos canários da terra que "possui" ainda quando vivente da Chapada Diamantina, do casal de periquitos australianos que vi falecer "ao vivo" e que me causou um enorme impacto na infância, da minha calopsita macho nascida em cativeiro de nome Johnny que voou para sua liberdade infinita após estar por mais de uma hora em meu ombro enquanto eu limpava o carro na garagem, de seu filhote de nome Bob que sabe até hoje assoviar o hino do Flamengo por minha culpa e risco, do meu branco vira-lata e lindo e inesquecível Sam, do labrador Frodo do meu irmão, da Shih Tzu Luma e das minhas atuais companheirinhas Lola e Nina, também da estimada raça de cães tibetana. O maior ensinamento do livro, talvez, é aquele que preconiza o nosso não-domínio sobre as coisas e os fatos do cotidiano. Isso mesmo, o livro é uma pequena aula sobre as destinações incertas que a vida traça em nós e também naqueles que nos acercam, que nos rodeiam. Sensível. Muito sensível. Um livrinho que você pode ler em menos de uma hora e que pode ficar para sempre dentro... Dentro. Muito dentro de você. E mais ainda se você gosta de ter animais por perto. Como eu.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/vidro-qu%C3%ADmica-l%C3%ADquido-bebida-3256999/

Um comentário:

Rair Oliveira disse...

Ótimo texto! Amo esse livro!