quarta-feira, 27 de abril de 2016

Linguagem em (dis)curso

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Por Germano Xavier


Hoje, no amplo campo do saber linguístico, percebe-se facilmente, em se tratando dos estudos apurados e de base analítica no tocante aos gêneros textuais, que a ideia que se tem de propósito comunicativo consegue, em si, admitir um sem número de olhares sobre as práticas de um determinado gênero dentro de uma respectiva comunidade de usuários interligados.

Por observar a maleabilidade com que tal instrumento, o propósito comunicativo, subverte inadvertidamente a “ordem natural das coisas”, é que Biasi-Rodrigues e Bezerra (2012) enumeram questionamentos efusivos no interior de tal imbróglio, a procura de estruturar uma arqueologia de saberes acerca do senso/status do gênero ao final das análises, sem com isso perder o interesse para com a conceituação do propósito comunicativo enquanto critério nato de/para análise de gêneros.

Partindo dos pressupostos de base teórica atrelada ao estudo de gêneros consagrada pela denominada Escola Britânica, também conhecida como Abordagem Sociorretórica, BIASI-RODRIGUES e BEZERRA (2012) tratam no artigo intitulado de Propósito Comunicativo em Análise de Gêneros do debate em torno do próprio conceito de propósito comunicativo, atualmente percebido como sendo um dos pontos nevrálgicos do estudo linguístico mais específico dos gêneros em todo o mundo.

Para tanto, os pesquisadores supracitados centraram esforços em abordagens e perspectivas acerca das conceituações atreladas ao propósito comunicativo que foram exaustivamente investigados e aprimorados por estudiosos do porte de Swales (1990, 2001, 2004), e também de Askehave (2001), este em comunhão com Swales.

Tais estudos, proposições e perspectivas, imiscuídas à ideia de que gêneros realizam propósitos e/ou funcionam como “repropósitos”, como observado na própria reavaliação do tema feita por Askehave e Swales (2001), entre tantos outros fatores, terminaram por permitir que fossem elaboradas diversas discussões acerca do uso do todo processual do propósito comunicativo dentro do espectro funcional de uma dada análise de gêneros fundamentada aprioristicamente no que é de ambição social, o que o configura de tal modo a ser matéria basal das engrenagens analíticas, indo de encontro, portanto, à ideia que o taxa meramente como um critério direto e imediato no que concerne à identificação dos gêneros.

Com base nestas nuances e prismas de elaborativos, os autores partem da conceituação do termo propósito comunicativo, passeiam pela relação dele com a estrutura esquemática do gênero e pela visão que se tem de critério para identificação, provando sua inquestionável complexidade objetivo-funcional.

Os articulistas defendem, por fim, a relevante participação do propósito comunicativo como elemento para se estudar os gêneros em si e suas particularidades, sem fechar aí a sua largueza como utensílio da língua, ao que cabe a nós, estudantes e interessados na referida questão, cuidar para não rotulá-los, os gêneros, apenas com base em definições e conceitos parcos, a citar o de propósito ou até mesmo o de intenção autoral, que não abarcam tudo quando o assunto é a relação entre propósito comunicativo e a análise de gêneros.


REFERÊNCIA

BIASI-RODRIGUES, BERNADETE; BEZERRA, Benedito Gomes. Propósito comunicativo em análise de gênero. Linguagem em (dis)curso, Tubarão, SC, V.12, n.1, p.231-249, jan/abr. 2012.

Imagem: Google

sábado, 16 de abril de 2016

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XII)

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Viana, olá!

Tenho vontade de escrever-te só com símbolos, por medo de repetir-me e tornar-me demasiado previsível. Ou revelar o diálogo que nunca tivemos, como uma mera transcrição desse instante único de cumplicidade que podem ter duas pessoas numa conversa informal. Conversar é tão bom, Viana, e é cada vez mais difícil encontrar uma pessoa que goste de falar.

Tentemos essa partilha, queres? Somos nós dois num dancing lisboeta à beira-rio tomando um copo numa mesa perto do palco. Os músicos ainda estão a preparar os instrumentos, o dj põe no ar uma música bem ritmada, incendiária.

C- Viana…? Viste aquele casal na pista, o rapaz pequenino agarrado a uma mulher alta e vistosa?

V- Na verdade nem reparei, Clara. Mas porquê? Estava atento à música, tentando perceber a letra.

(Risos)

C- Letra? Que letra? Não vás por aí… deixa-te só contagiar pelo ritmo. A música com letra vem depois. Digo, o rapaz pequenino, a quarentona bonita… tenho uma teoria sobre o assunto, que pode dar uma história.

(Franzes o sobrolho e eu sinto-me constrangida).

V- Clara, não sejas mázinha... nem pareces tu. A gente não sabe nada da vida das pessoas. Neste momento alguém pode estar a olhar-nos com a mesma curiosidade… malsã.

C- Não é preconceito, é pós-conceito. Só acho que é um engate com fins, digamos, lucrativos. O rapazinho quer “se dar bem” e procura uma mulher que o possa “peitar”, como diz uma amiga minha muito atenta. Isto funciona nos dois sentidos; há aqui mulheres à procura do mesmo, junto de respeitáveis senhores… ingénuos, claro está.

V- Achas que é isso, Clara? Mas, e se for… que direito temos nós de julgar as escolhas de pessoas adultas, escolhas consensuais…? Não entro nesse jogo, por mais curiosidade que o assunto me suscite.

C- Pois, Viana, talvez tenhas razão. Se for o que penso trata-se de um negócio em que todos lucram: um consegue sustento temporário e o outro um sucedâneo de amor, uma coisa parecida com uma relação na qual a componente sexual é o motor da coisa. Mas a nossa indiferença é sempre conivente. Não pensar, não opinar, já é agir. Mas sei que são opções tacitamente aceites… embora sejam ambos pressionados pelas circunstâncias.

V- Sim, percebo o teu ângulo. Ninguém é totalmente inocente nem culpado. E se fosse, quem os julgaria? Um é vulnerável por ser pobre, ou malandro, outra tem um estatuto social superior e alguma liquidez, para além de uma falta de autoestima notória, falta de tempo ou de interesse para cultivar relacionamentos duradouros… um desfecho previsível no qual existe no entanto um momento, volátil que seja, em que o NÃO é uma opção real. Um não redondo e definitivo.

Neste momento da conversa os artistas entram em palco e nossa atenção deixa-se absorver pela voz possante da Lucibela.

…

Viana, desculpa-me este despiste, mas não resisti a ensaiar esta troca de impressões improvável entre nós dois diante de uma bebida de cores primaveris. Ou uma simples cerveja gelada, ou um café expresso.

É uma forma de te dizer que gosto que me interrompas quando falo, a isso chama-se conversar. A palavra, quando escrita, já é dona de si mesma, quando se forma na boca e ainda não nasceu, pode ser calada com um beijo.

Há um momento em que é possível mudar tudo e desenhar uma curva numa estrada reta. Fazer uma inversão de marcha. É preciso estar atento para não deixar escapar esse fragmento do tempo.

Na tua última carta noto um tom mais passional e intolerante sobre a superficialidade das coisas, as aparências, as futilidades. Também sou assim. Gosto de procurar a essência. De escavar. Escavacar é uma palavra feia, bruta, mas que exprime melhor o que quero dizer. Essas pessoas de que tu falas (excecionais, marginalizadas, divergentes) são pessoas reais e que resistem, como dizes. Por isso não me admira nem um pouco a tua reação na nossa conversa acima (risos).

Fiquei muito impressionada com o relato que fazes desse senhor que conheceste, que vive na rua e tem o coração no mundo. Certamente um ser único que nos faz ver que nós, os outros, andamos permanentemente em contramão. Mas o idealismo paga-se caro e existe um compromisso mínimo entre o ser humano e a sociedade em que se move, senão dá-se a rutura: social, afetiva, psicológica… é um caminho sem retorno. Para todos nós: os que partimos e os que ficamos.

Eu não quero falar de mim, não hoje, porque tu me intuis e me constróis por dentro. Falando dos outros, do que os meus olhos veem, tu vês para dentro dos meus olhos também.

Temos tido ultimamente a imprensa portuguesa dominada pelos escândalos da política brasileira e tentamos todos, brasileiros ou não, encontrar um tom justo para a indignação, para o protesto, para a reivindicação. Um equilíbrio precário em que é muito fácil cair na manipulação e tornarmo-nos meras marionetas da imprensa e do padrão cultural dominante. Mesmo para os mais esclarecidos.

E continuaremos, tu, eu, a Cris, a Sant’Ana e quantos se quiserem juntar a esta festa das palavras, dos sons e das imagens, a conversar sobre tudo o que nos toca.

Um grande beijo desta tua amiga embarcada numa viagem de desfecho imprevisível.

Clara

Lisboa, 3 de Abril de 2016


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Clara,

As coisas aqui no Brasil não estão em seus melhores dias. O cenário é de névoa. Tudo muito nublado. O futuro do país está em jogo. O futuro de um país que, ao que parece, será para sempre “o país do futuro”, e não o país do presente ou do amanhã próximo. Muito turvo é o horizonte. Passei boa parte do dia assistindo à sessão da Câmara dos Deputados na TV Câmara. 31 horas já. De depoimentos ininterruptos. Não pensei que isso iria longe assim. O drama é forte. 

Alguns depoimentos são risíveis. Alguns não, a maior parte deles. Nem na literatura encontrei figuras tão caricatas, grotescas, teatrais, fanfarronas, cínicas. Assim são e/ou se portam muitos de nossos deputados federais. Não dá para confiar na palavra deles. Acordos secretos escabrosos feitos. Panos quentes. Toalhas de enfrentamento ou desistência sendo vendidas, cargos, postos, compensações. Tudo muito escuro. O povo sem saber direito. Dúvidas. Incertezas. Medo. Ódios.

Sou contra o impedimento da Presidenta Dilma, por princípio. E por convicção. Não é bom para a imagem do país lá fora. Não é bom para a imagem do país aqui dentro. Não resolverá os reais problemas da nação. De nada adiantará. É evidente o propósito da oposição. Tomar o poder e não salvar o país. O que está para acontecer é um aborto. Impedimento, como o que está em trâmite e da forma como foi imposta, é uma violência na história política do país. Corruptos julgando outros mais ou menos corruptos. Um aborto, repito. Especialmente quando expõe e acentua a divisão política, ideológica, cultural, econômica e até regional de um país. Isso não favorece a igualdade no país, só reforça os preconceitos, os estereótipos. Um processo vergonhoso.

No Rio de Janeiro, o carnaval pela democracia. Com direito a pão e mortadela. Bem brasileiro. Bem a cara do Brasil. Pão e circo e o povo indo atrás. Que povo é esse? Que país é esse? Uma calamidade. Na capital Brasília, um muro ergueram para separar os dois tipos de manifestantes, os dois tipos de “povo”. Aqui temos dois “povos”. Pode rir, se quiser. É cômico. Os que são contra e os que são a favor. É trágico. Um país de mais de 200 milhões de habitantes agindo como se dois times de futebol disputassem a final de um campeonato de futebol. De um lado o time dos Coxinhas, do outro a equipe dos Petralhas. O prêmio: a Taça do Poder. Um espetáculo.

Uma imprensa manipuladora, interesseira e sem escrúpulos. E tudo pode começar a ter um desfecho no dia de amanhã, domingo, dia 17 de abril de 2016. O dia da votação no plenário da Câmara dos Deputados, uma de nossas “casas do povo” e onde o verdadeiro povo quase nunca tem vez e voz. O dia do “Fica Dilma!” ou do “Fora Dilma!”. 

Uma esculhambação geral. Desmoralizante. Uma tristeza. Torço eu para que nada disso se pinte de realidade e tudo fique como antes e que o antes progrida em face de melhorias necessárias a todos nós, brasileiros. O Brasil ainda precisar crescer muito, em muitos setores da sociedade, e não é com esta cambada de meliantes engravatados que lideram o processo de impeachment contra um partido, o PT, que isso irá acontecer. Torcer. Torcer muito.

Deixando um pouco a política de lado, dizer a ti que gostei por demais de tua criação. Uma conversa possível, eu diria. Você e sua altíssima qualidade criativa, Clara. Não é para menos, não é? Mas, de toda forma, foi uma surpresa boa para mim. Bom demais ler a fantástica introdução em sua produção textual. Uma conversa que versa sobre humanidades. Humanidades e “engenharias humanas” misteriosas. Dizer que quero sim, esta partilha! E que sempre quererei.

Aqui o sábado foi de frio. Caruaru com cara de São Petersburgo. Dia branco. Minh’alma também, branca. Há um vazio. Uma expectativa. Quando tudo se cala dentro, mesmo me sabendo forte o suficiente para seguir. Quando a poesia dentro da gente se cala. Cálice. Tortura. Algo que oprime. Algo que atordoa. Algo que atravanca. Por isso a escolha por pausar aqui. Pausar e esperar. O pulso. A lâmina. Eis a vida.

Até logo mais, Clara querida.

Caruaru-PE, 16 de abril de 2016.


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Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.

Nada muito sobre filmes (Parte XXIV)

*

Por Germano Xavier


AGOSTINHO NETO E A LIBERDADE ANGOLANA

A TV BRASIL exibiu ontem no quadro NOVA ÁFRICA - UM CONTINENTE, UM NOVO OLHAR o documentário AGOSTINHO NETO E A LIBERDADE ANGOLANA, sobre a trajetória do líder que esteve à frente do Movimento Popular de Libertação de Angola - MPLA. Médico por formação e poeta, Agostinho Neto tornou-se ícone do período conhecido como Guerra Colonial Portuguesa, conjunto de embates promovido por toda uma geração contrária aos regimes vigentes de colonização, sendo o primeiro presidente de Angola. Figura pública por vezes tida como controversa, Agostinho Neto é, sem dúvidas, um importante nome nas lutas por independência no continente africano. Recomendo a todos os mortais!


O ALUNO

O filme O ALUNO (2014), do diretor Justin Chadwick, que também pode ser encontrado com o título de UMA LIÇÃO DE VIDA, narra a história de Kimani Ng'ang'a Maruge, queniano de 84 anos que decide aprender a ler e a escrever já no fim da vida. Maruge possui uma carta misteriosa em mãos e deseja decifrá-la. Para isso, determina-se e resolve enfrentar todos os obstáculos que o impedem de ir à escola primária. Quando jovem, Maruge, um ex-combatente Mau-Mau, perde a família para as tropas britânicas em confronto pela liberdade de seu povo. A ação de educar, no filme, é colocada como tem de ser, sempre, tal qual um instrumento de luta e resistência perante forças opressoras. Baseado em fatos reais, o longa é simplesmente encantador. Um filme sobre o respeito aos mais velhos, ao passado, ao professor e sobretudo sobre a força transformadora da educação. Esta película deveria ser exibida e debatida em todas as salas de aula de todas as escolas do mundo. Recomendo a todos os mortais!


VIPS

O ator baiano Wagner Moura é Marcelo em VIPs (2011), do diretor Toniko Melo, mas é também outro, outros. Muitos outros! Com conflitos de identidade, Marcelo vive "trocando de pele", por assim dizer. Ser espelho do pai é o seu sonho, um exímio piloto de avião, e para tanto está disposto a viver fortíssimas emoções, incluindo se passar por Henrique Constantino, filho do majoritário da companhia aérea Gol, durante um Carnaval na capital pernambucana. Baseado na história real de Marcelo Nascimento da Rocha, o filme não é lá muito interessante. Todavia, e de novo, o talento de Moura encobre as deficiências do longa. Vale uma espiadela, bucaneiros. Sigamos!


TEMPO DE DESPERTAR

TEMPO DE DESPERTAR (1990), de Penny Marshall, retrata as agruras e alegrias vividas por um neurologista recém-contratado em um hospital psiquiátrico. Diante de inúmeros pacientes que estão há longos anos em estado catatônico, o neurologista resolve fazer testes com um novo medicamento e termina por despertá-los. No início, tudo parece dar certo, até os primeiros efeitos colaterais começarem a vir à tona. O mais interessante do filme é a observância do cuidado desprendido pelo médico no trato dos pacientes, a entrega, o entusiasmo pela melhora. Um bom filme. Um Robert De Niro inspirado. Recomendo a todos os mortais!


HUSH – A MORTE OUVE

HUSH - A MORTE OUVE (2016) é um suspense norte-americano que pode surpreender os amantes do gênero. O filme conta a história de Maddie Toung, uma escritora que vive em uma casa no meio do nada, longe da sociedade. Ela está tentando finalizar o seu mais recente livro. Detalhe: Maddie resolveu se isolar a partir do momento em que perdeu a audição. Certo dia, um estranho mascarado aparece em sua residência. Maddie, então, vê-se obrigada a lutar em um mundo feito de silêncio pleno em prol de sua vida. O filme foge um pouco do estereótipo e as cenas silenciosas, em contraste com a típica barulheira desses filmes, colocam o espectador bem dentro do drama vivido pela protagonista. Vale uma espiadela, bucaneiros!


UM DRINK NO INFERNO

UM DRINK NO INFERNO (1996), de Robert Rodriguez/Quentin Tarantino, é daqueles filmes, eu diria, diferenciados. Um clássico trash/cult, com um roteiro muito, muito louco. Muito louco mesmo. Bizarro, por vezes. Dois irmãos saem pelo Texas causando o terror. Durante uma fuga para o México, os dois sequestram uma família e terminam por parar em um prostíbulo onde só caminhoneiros e motoqueiros possuem acesso livre, o Titty Twister. Dentro do recinto, são surpreendidos por um bando de... vampiros! Vampiros monstrengos! É difícil engolir um filme assim, mas não posso deixar de acreditar em originalidade nesses casos. Ame-o ou odeie-o. É mais ou menos por aí. Vale uma espiadela, bucaneiros!


AS BRANQUELAS

Uma merda.


* Imagem: http://obaratodefloripa.com.br/cineclube-presenca-na-udesc-faz-sessoes-semanais-da-mostra-de-cinema-infantil-de-florianopolis/

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Estudos de gênero em ESP (um resumo)

*

Por Germano Xavier

No tocante ao quarto capítulo do livro GÊNERO, HISTÓRIA, TEORIA, PESQUISA E ENSINO, intitulado de Gênero nas tradições linguísticas: inglês para fins específicos, Bawarshi e Reiff (2013) engendram olhares esclarecedores sobre os estudos de gênero em English for Specific Purposes – ESP, sem antes pontuar a relação existente entre as tradições retórica e a linguística. Os autores definem os estudos de gênero em ESP como sendo aqueles voltados para o estudo e para o ensino de variedades especializadas do inglês e, em tabela, geralmente direcionadas aos falantes não nativos que porventura se encontram em ambiente acadêmico-profissional de modo mais avançado.

Segundo os autores do livro supracitado, foi a partir do pioneirismo de Swales (1990) que os estudos de gênero em ESP começaram a ganhar um corpo mais definido. A natureza aplicada a qual os estudos em ESP sempre estiveram atrelados foi, desde sempre um aspecto de definição marcante desta ramificação. Para Swales, os estudos em ESP tratariam de aproximações para com as propriedades linguísticas dos registros da língua com ênfase no quantitativo e, por isso, sofreriam consideráveis evoluções ao longo do tempo, tornando-se mais específicos e, por conseguinte, mais aprofundados, já que passaram a se comprometer com categorias de registro mais abrangentes e, igualmente, com a descrição não só dos traços linguísticos, mas também dos propósitos e dos efeitos de base comunicacional presentes nas variedades da língua.

Tomando como ponto nevrálgico esta citada evolução dos estudos em ESP, Swales segue por investigar a referida área, entregando a ideia de que tal aparelhagem de marcação do pensamento em vista dos gêneros está continuamente atrelada aos estudos linguísticos e, concomitantemente, aos estudos retóricos de gênero. Bawarshi e Reiff (2013) esboçam, pois, ainda no capítulo intitulado Gênero nas tradições linguísticas: inglês para fins específicos, um panorama ideário e comparativo acerca das implicações tanto da ESP quanto dos estudos de gênero em LSF, definindo suas linhas limítrofes para que assim fosse possível, sobremaneira, sedimentar os espaços de interesse das referidas áreas de estudo.

Muito do que postulam, pensam e refletem as duas abordagens se confundem ou se conflitam no decorres de suas interações evolutivas. Tanto os estudos em LSF quanto os estudos de gênero em ESP comungam de estratégias de análise, como também partilham compromissos pedagógicos, mas não entram em acordo quando o assunto é o público-alvo de aplicação e o enfoque de seus respectivos estudos, só para citar dois exemplos de divergência.

A partir do momento em que Swales emprega valores de relevância e de carácter distintivo à ESP, delineiam-se aí conceitos-chave de imprescindível funcionalidade para o entendimento de tal abordagem, que são, a citar: a comunidade discursiva (dotada de seis características definidoras), o propósito comunicativo (o gênero desenha-se tal qual uma classe de eventos que partilha de propósitos de base comunicacional) e o próprio conceito de gênero.

De acordo com os posicionamentos de Bawarshi e Reiff (2013), outro ponto a se destacar nesta área dos estudos linguísticos (a abordagem ESP de gênero) é, a saber, o tom múltiplo de abordagem de análise de gênero em ESP, que permitiria um enfoque inicial pela identificação do gênero dentro da comunidade discursiva, passando pelo estudo da organização do gênero (questões estruturais) e, por fim, desembocando no exame de aspectos textuais e linguísticos. Tal modelagem de estudo foi repensada por alguns autores, como por exemplo Bhatia (1993), que esboçou um contingente de passos em número de sete para a análise de gêneros. Bathia, por sua vez, parte do contexto para a análise textual, aplicando diferentes níveis de análise linguística aos estudos propostos em seu portfólio investigativo.

As problemáticas envolvendo os estudos de gênero em ESP, para Bawarshi e Reiff (2013), durante bastante tempo ficaram restritas aos setores ligados ao propósito comunicativo, ao contexto e à natureza dinâmico-intertextual dos gêneros. Todavia, as tendências mais recentes do estudo em ESP invocam novos olhares acerca de tal complexo ideário. Askehave, Bhatia, Hyon e Hyland terminam por reconhecer a complexidade do propósito comunicativo e findam, cada qual em sua perspectiva, por admitir a natureza dinâmico-interativa dos gêneros, priorizando em conjunto uma melhor apreensão da intertextualidade e da interdiscursividade no que concerne ao gênero.

Assim posto, ao se tomar a relação dos estudos em ESP e as abordagens críticas aos gêneros, Bawarshi e Reiff (2013) deixam submergir das páginas do capítulo quarto a existência de um longo processo de compreensão que retoma possíveis interconexões aos preceitos dos estudos retóricos, colocando em xeque pontos importantes que dizem respeito à conceituação de alguns termos e temas, bem como a aplicabilidade desses movimentos de entendimento imiscuídos ao gênero.


REFERÊNCIAS

BAWARSHI, A. S; REIFF, M. J. Gênero nas tradições linguísticas: inglês para fins específicos. In: Gênero, história, teoria, pesquisa e ensino. Tradução: Benedito Gomes Bezerra. São Paulo: Parábola, 2013, p. 60-78.


Imagem: http://pt.dreamstime.com/fotos-de-stock-royalty-free-texto-de-papel-da-not%C3%ADcia-image8583068

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Criação para pingos de chuva

*

Por Germano Xavier

com vassoura de piaçava
é feito varrer o vazio
fazer com que se dobre a mancha
aguda na existência do pó
e no criar água na queda

tanajura frita na farinha
o cordão que enlaça o voo
menino que brinca de fazer graça
com seus demônios

ele não quer precisar nem ela
o que se deseja é parar

de sonhar//

a chuva é de livrar choro
a gota é quase-prototípica
o mundo sem função




* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Cloud-154449559

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Observatório sobre gêneros

*

Por Germano Xavier


No âmbito do subtópico denominado de Gênero e Linguística sistêmico-funcional, Bawarshi e Reiff (2013) implementam o pensamento de que há uma ligação bastante fortificada entre a aplicabilidade dos gêneros dentro do círculo de operação da análise textual e, por conseguinte, do processo de ensino da língua. Tomando como ponto inicial de apoio a investigação de trabalhos envolvendo estudos em teoria literária, Bawarshi e Reiff (2013) esboçam, no capítulo intitulado Gênero nas tradições linguísticas: linguística sistêmico-funcional e linguística de corpus o panorama ideário de que muito do que se sabe hoje acerca de gênero deve-se ao progressivo acompanhamento das tradições linguísticas, a citar em especial as ramificações concernentes à Linguística sistêmico-funcional, à Linguística de corpus.

A partir do momento em que apregoam valores de relevância à funcionalidade social e ao contexto, a língua passa a ser percebida como um todo funcional, exigindo que a própria linguagem entre em processo de concepção dentro de um dado contexto específico de uso, cabendo à parcela sistêmica os meandros estruturais e de ordenação dos fenômenos linguísticos. A linguagem, por sinal, é vista aqui tal qual um motor-gerador para que ela própria realize ações de significação, descritas a partir da ideia de contextos de situação, inventário que percorre o tratado em Halliday (1978), base dos estudos de base LSF. A Escola de Sidney, a qual se servem os estudos de Halliday, gira em observância às perspectivas sistêmico-funcionais de gênero. É com base nos pressupostos dessa corrente que termos como registro (tipos de situação) e as metafunções da linguagem (ideacional, interpessoal e textual) irão ser contemplados para ampliação do contexto de situação, quando se referem às esferas de campo, relação e modo.

De acordo com os posicionamentos de Bawarshi e Reiff (2013), outro ponto de destaque nesta área dos estudos linguísticos (a abordagem LSF de gênero) é, a saber, a obra de Martin (1977), que preconizou entendimentos acerca da definição de gênero nunca antes identificados. O autor supracitado auxiliou na construção conjuntural de que os registros estão para o contexto de situação, assim como os gêneros estão para o contexto de cultura, sendo eles processos sociais geridos por dados objetivos. Há aqui, supostamente, uma introdução à interpretação de gênero enquanto ação social, tão difundida por pensadores contemporâneos como Charles Bazerman e Carolyn Miller.

O gênero, para os autores, pegando o ideário fomentado a partir de Martin (1977), e que porventura embasou o programa australiano LERN (Literacy and Education Research Network), seria, portanto, fundamental para o processo de letramento em ambiente escolar, já que elabora um arcabouço de criticidade ao se fundar em proposições de cunho facilmente identificáveis como sendo de ordem social. Já o pensamento de Diller (2001) é retomado para demonstrar a sua influência no tocante ao debate envolvendo as investigações sobre retórica e produção escrita.

Longacre (1996) e Biber (1988) também são citados, e suas posições decorrentes das definições de tipologias textuais e presença de variação linguística no conglomerado dos gêneros marcam presença e relevância incontestáveis. Bawarshi e Reiff (2013) fecham a discussão ampliando a visão de Paltridge (1997) acerca dos gerenciamentos que se dão na altura do que pode ser classificado como imagem mental. Daí surge um longo processo de estreitamento entre texto e gênero interconectado aos preceitos da memória e do contexto que, para os simpatizantes da teoria em questão, são capazes de movimentar todo um conjunto de interpretações bem peculiares acerca de gênero.


REFERÊNCIAS


BAWARSHI, A. S; REIFF, M. J. Gênero nas tradições linguísticas: linguística sistêmico-funcional e linguística de corpus. In.: Gênero, história, teoria, pesquisa e ensino. Tradução: Benedito Gomes Bezerra. São Paulo: Parábola, 2013, p. 46-59.



* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Text-Overlay-Texture-121941631

terça-feira, 29 de março de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LVI)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Quinta-feira, 9 de Abril de 2015
O capital dos dias

Le capital des jours

il ne reste plus rien dans le visage de mon esprit
(je ne suis plus que celui qui attendra dans le hall
la candide sensation des nouveaux venants).

au-delà des vagues, des douleurs d’hommes nouveaux-éveillés
- des mille-pattes attachées à leurs chaînes :
des pèlerins du néant sous forme de capital.

au-delà des ordures, des sachets de courses, des égouts
(ma place dans ce monde est la chambre qui enlace la bonne,
celle qui est doublement épuisée car elle n’arrête pas de nettoyer).

la serveuse ne fait plus attention au regard de ceux qui entrent,
ses doigts témoignent les présences immondes des inconnus,
la cuisinière prépare les œufs brouillés dans la poile sans polytétrafluoréthylène
et tout finit par un goût d’aluminium.

mes veines tordues ressortent du coté du soleil.
ceux qui n’arrivent plus à tenir debout, se couchent :
l’amertume, la honte, l’insécurité, l’impuissance

des fétus s’endorment en rêves de renaissance tardive
en proie au lendemain incompatible des rebelles.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Street-255653741

domingo, 27 de março de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LV)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Sexta-feira, 19 de Setembro de 2014
O anverso do maior prémio

L’avers du plus grand prix

elle est si fine la toile qui ourdit le poème,
si fragile l’amalgame qui tisse le verbe,
si innocente la lumière qui, sans le savoir,
rend tous les nons amers et insolites

l’Homme se promène par l’inexactitude
de ses propres choix, il fait semblant d’être
l’absolu même, sans marquer sa trace précise
sur le sol et divise de façon homogène
les risques du cœur

il erre (car l’errance est en lui-même)

et ignore les pas purs de la souffrance
ceux qui lui ont permis d’être là maintenant

choisie au hasard
la condition vécue et actuelle
s’est présentée : l’Homme que je suis
garde toujours des mains d’ouvrier

il court d’ailleurs vers l’exaltation

entre de petits arrangements
et le prix des blessures
sommons les règles des sacrifices
et rendons possible l’Amour réel!


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/S-08-74024399

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LIV)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Terça-feira, 9 de Setembro de 2014
Aquela rua

Cette rue-là

de temps en temps, mon amour
je me rappelle, attristé
que nous étions écartés
par une seule rue

pour t’aimer
comme un fou ou comme un Werther,
j’aurais besoin de franchir un mur
vers la lumière de la vie
et tout imploser

le cœur était froid,
et la rue, large,
les empires du néant ont freiné les inquiétudes
la distance était un phénomène

au delà de ça et bien après, je souris
car je sais que nous sommes encore,
ton essence et moi-même, collés au mur
en épiant les passants, comme des ombres

adaptées à n’importe quel lendemain


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Naked-street-274223788

sexta-feira, 18 de março de 2016

Texto ou Discurso: uma questão de teoria de gêneros

*

Por Germano Xavier


Rojo (2005), em seu texto intitulado de Gêneros do discurso e gêneros textuais: questões teóricas e aplicadas, discute a ampliação das investigações científicas acerca das teorias de gênero e evidencia o importante papel que os novos documentos referenciais nacionais tiveram neste quesito - a citar os PCNs, por exemplo. Tais bases teóricas, para a linguística em geral, incluindo a vertente de aplicação, estão demasiado vivas no contexto atual.

Para fins de apreciação, a supracitada autora divide seu olhar em dois prismas: o primeiro voltado à teoria de gêneros do discurso e o segundo à teoria de gêneros de texto, mesmo dando a perceber uma preferência pelo olhar legado à teoria de gêneros discursivos em detrimento da esfera de gêneros textuais. Ambas de natureza referencial bakhtiniana, se assim pode-se dizer, dadas às devidas proporções, a teoria de gêneros do discurso foca prioritariamente no estudo das situações de produção dos enunciados/textos, sem deixar de lado orientações de cunho sócio-históricos e a teoria de gêneros de textos visa o estudo da materialidade textual em si.

As linhas limítrofes de separação e/ou diferenciação das duas teorias aqui expostas não são postas às claras no texto, o que pode causar certo embaraço no tocante ao entendimento de quem lê o material. O pensamento bakhtiniano está presente nas duas vertentes ideárias como um elo norteador (ou não), percorrendo desde os conceitos fomentados por estudiosos do naipe de Marcuschi e indo até os pensamentos de Bronckart e de Adam. No total dos casos averiguados, presencia-se uma preocupação para com a finalidade descritiva do texto (teoria de gêneros textuais), jamais sendo percebido (no caso, o gênero) como um universal concreto.

Na tentativa de configurar um confronto entre as diferenças existentes entre gêneros do discurso e gênero de texto, a autora (meio que) estabelece como parâmetro-mor para todos os estudiosos que adentraram as nuances da teoria de gêneros do discurso o livro Marxismo e filosofia da linguagem, de Bakhtin/Voloshinov, publicado em 1929. O foco, para esta proposta de análise, está em três dimensões: os temas (conteúdos ideológicos conformados), seu arcabouço composicional e suas configurações de ordem das unidades de linguagem. De modo que, assim postulado, tais dimensões possuem ligações fortíssimas com as diversas situações de produção das enunciações, também sofrendo interferência das devidas apreciações valorativas do locutor (tema) e do interlocutor (discurso).

Ainda sobre as caracterizações inerentes à teoria de gêneros do discurso, e tomando Bakhtin/Voloshinov (1929) como como ponto de apoio, entende-se que toda e qualquer investigação que envolva expressão-enunciação deve passar pela averiguação conjunta da situação social mais imediata que o contextualiza. Tais relações, que se dão substancialmente no âmbito das parcerias ligadas à enunciação, agregam interesses constitutivos e de organização, como a citar o apelo às esferas comunicativas, dividas, pois, em esferas do cotidiano (família, comunidade...) e em esferas dos sistemas ideológicos constituídos (moral, ciência, arte, religião...). O comboio discursivo que estas esferas de base comunicativa elaboram termina por justificar a existência de conjuntos de gêneros mais confiados a demandas sociais definidas e emancipadas.

Em outras palavras, a perspectiva engendrada pela teoria dos gêneros do discurso parte não das estruturas formais da língua, mas antes visualiza o aglomerado de informações de cunho sócio-histórico que envolve a enunciação e todo o seu processo de produção sem, contanto, deixar de lado a importância de se avaliar estruturas composicionais e de estilo em seu respectivo objeto de estudo.

Por fim, ao colocar a referida discussão sob a égide da linguística aplicada, a autora preconiza, novamente, que o mais importante seria lotar o ensino de gêneros em salas de aula de língua portuguesa a partir da compreensão de língua enquanto movimento e processo, em cuja instância de legitimação e uso se dá o contexto-móvel em diálogo intermitente com as situações enunciativas, desprezando assim a faceta mais atrelada ao estudo descritivo dos elementos do texto.


REFERÊNCIA

ROJO, R. H. R. Gêneros do discurso e gêneros textuais: questões teóricas e aplicadas. In: MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (orgs.). Gêneros: teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola Editorial, 2005.

domingo, 6 de março de 2016

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XI)

*

Meu querido Viana:

Desde a tua última missiva de 7 de Janeiro que tenho andado literalmente a ruminar as tuas palavras e o que me contas. Sendo o conteúdo o mesmo, creio que o aprecio diferentemente conforme os dias.

Ficou-me na memória o teu relato sobre o incêndio na Chapada Diamantina, o que me fez recordar os incêndios que por estes lados grassam também todos os anos. Ficam quase sempre por esclarecer, mesmo que muitas hipóteses sejam levantadas quanto à sua origem: desleixo, mão criminosa manipulada por construtoras gananciosas e inescrupulosas, atos de puro vandalismo ou praticados por algum pirómano, julgo que já vimos de tudo um pouco, se não provado, pelo menos no terreno da especulação. Em tempos falava-se de chuvas ácidas, argumento que tem vindo menos à baila ultimamente. Em todo o caso é escandaloso e trágico o que se destrói em todo o mundo como consequência dos incêndios, todos os anos, sem que consiga pôr em prática um conjunto de medidas preventivas realmente eficazes. As matas são extensas e não se pode vigiar cada mm² de terra. Nem de maldade humana, malícia ou seja o que for.

Também sobre a tua nota sobre Borges, de quem nunca ousei ser verdadeiramente fã, talvez por achá-lo grande demais para os meus olhos, fiquei fascinada com o texto que encontraste sobre ele. Tenho uma curiosidade grande em saber quem seria a autora mas talvez seja bom resguardar esse mistério e manter o foco no texto, de uma beleza dorida e instigante. Só as mulheres são capazes de (d)escrever tais coisas, ou alguém que possa sentir como elas, como nós. Retenho uma das frases finais: “Se na minha lápide estiver escrito apenas “Uma mulher que amou um poeta”, eu ficarei feliz”. Pode ser que um dia escreva o mesmo, som por som, tecla por tecla.

E sim... Viana, eu também adoro surpresas, sobretudo as programadas e que se saboreiam com antecedência!!!. E gosto muito de aprender contigo palavras e significados, como o verbo “embonitar”, essa derivação tão suave que aplicas com delicadeza, de tal forma que já faz parte do meu vocabulário também. (Mia Couto, aqui vou eu, aqui vamos nós, de asas abertas para todas as derivações que nos tornem os dias mais azuis. E aqui faço uma vénia respeitosa a ele, o homem que escreve prosa mais poética que a própria poesia e que me ensinou outros mundos através de derivações e corruptelas roubadas à língua dos falantes, magníficas e improváveis: a “subfície” do mundo, o papel “marrotado”, “rodilhar” o coração, as letras “incertinhas”, ou a velha que insistia, “cismalhava”. Não é de uma beleza imensa que escorre pelos olhos?). A minha filha dirá, quando nos ler, que eu sou realmente a mulher dos apartes longos….

Sobre silêncios, muito haveria a dizer ainda e mais, creio eu, a calar. Pressinto que concordas. Mas não gosto de silêncios que afastam, apenas daqueles que nos servem para renovar o fôlego e arremeter com mais força ainda. E como vão os teus, meu amigo?

Subscrevo inteiramente a tua ânsia de viver o repentino, o inusitado. Ainda não cheguei à fase de preferir essa paz rotineira, como pano de fundo. A minha inquietação é-me vital e a paz apenas uma fugaz consequência porventura salutar por efémeros instantes e nalgumas tardes chuvosas de domingo.

E não posso deixar de comentar a tua descrição sobre o lamentável episódio de racismo e esnobismo, no caso do grupo que condenava de maneira claramente preconceituosa a relação da médica com um “atendente”. Eu também já presenciei atitudes baixas como essa inúmeras vezes na minha vida e causam-me sempre uma incontida revolta. Como se a felicidade e a facilidade de relacionamento entre pessoas dependesse do grau académico ou da cor da pele! Tais comentários revelam uma ignorância atroz, maldade, intolerância, desconhecimento do mundo e das pessoas. Pensar que uma relação só pode ser bem-sucedida entre duas pessoas do mesmo nível social, status, padrão financeiro, grau académico, cor de pele e outros parâmetros da mesma índole é de uma ingenuidade espantosa, próxima do embrutecimento. Custa a crer que estamos em pleno século XXI. “Nauseabundos”, o teu adjetivo, resume tudo. Numa análise mais desapaixonada, e não sendo psicóloga nem socióloga, diria que por motivos óbvios é mais fácil pessoas aproximarem-se quando têm interesses comuns e um estilo de vida parecido. E percursos de vida que facilitem os encontros, que tornem mais fácil e fluido o convívio. Mas as exceções são tantas que seria ridículo querer definir um paradigma de aproximação que garanta o sucesso de uma relação, seja em termos afetivos, profissionais, ou outros. Graças a Deus que fomos poupados a uma educação tão isenta de valores, tão flagrantemente preconceituosa.

Resistamos, pois, meu querido Viana.

Sobre as novas experiências que fazem doravante parte da tua vida, fico feliz e vagamente curiosa por saber do teu interesse pelas artes marciais e da tua dedicação ao desporto, ao cardio-fitness, pelo que percebo. Li algures que o exercício físico é um antidepressivo natural, do melhor que há, a usar sobretudo de forma preventiva. Eu fico-me pelas caminhadas e pela dança, que me são vitais, embora me abra a ambas de forma inconstante e algo rebelde.

Solidão, nem vê-la! Façamos um pacto: eu ajudo-te a livrares-te da tua e tu ajudas-me a correr com a minha. Que se entendam ambas bem longe de nós!

Por aqui posso dizer-te que nesta teia que construímos os dois fica ainda muito por contar. Houve por cá uma eleição presidencial com resultados previsíveis. Entretanto a nossa constituição não confere poderes por aí além ao PR pelo que este acaba por tornar-se uma figura meio apagada, um árbitro que dirime conflitos, uma figura para a política externa. O nosso homem dá pelo nome de Marcelo Rebelo de Sousa, é um catedrático muito respeitado no meio académico e um analista político conhecido, com ampla exposição mediática desde há décadas. Um sedutor, carismático e orador invulgarmente dotado. Quanto ao resto, leia-se, ao futuro imediato, veremos. Há o saber e há o saber fazer. Poderá um bom treinador e comentador de futebol jogar como avançado? Ou à defesa? Ou à baliza? Tem graça estas comparações vindas de alguém que entende ZEROxZERO de futebol!

Falando de mim, de coisas que nos interessam a um nível mais pessoal, tu sabes, penso eu, que estive com a Cris naquele pequeno paraíso chamado Vimieiro. Aquela menina é uma amiga de toda a vida e para a toda a vida. Nós comemos, bebemos e conversámos como já nem se usa, aprendemos uma da outra e partilhámos mesa e diversão. Passeámos e sentimos a tua falta e ao mesmo tempo a tua presença. Fotografámos e fizemos comidinhas boas, regadas com bons tintos alentejanos, ensinámos e aprendemos Alentejo afora, prometemos viver mais aquele pequeno paraíso com amigos que queiram lá estar e beber daquele ar e mansuetude. Este é o Vimieiro que tu vais conhecer, bem perto de Évora, de Estremoz, perto do céu. E falando em prazeres simples e doces e em cultura, não posso deixar de voltar a desafiar-te para ouvires a nossa querida Sant’ana, uma e outra vez; ela canta nos mais variados registos, para além de mornas canta também alguns clássicos da música romântica que incluem Marisa Monte e Elis Regina, Ruy Veloso, Elvis Presley e temas de fado. Consegues imaginar tudo isso? Se não, vem para cá. Agora.

Que mais te posso contar? Do que tenho, nada, porque não tenho nada. Do que sou, nada também, porque já sabes tudo, ou quase, ou o que importa. Do que vou vivendo, do que vou sorvendo da vida. Um pequeníssimo episódio: há dias num hospital privado duas amáveis senhoras faziam recolha de donativos para uma instituição que ajuda crianças vítimas de maus tratos; perguntaram-me assim: quer colaborar? aqui cada um dá o que pode. E eu respondi apenas: vou dar-lhes o que não posso, porque o que posso eu já dei... as senhoras escudaram-se num sorriso surpreso e receberam com gentileza o meu minúsculo donativo. (Quanto menos podemos dar, seja o que for, mais sentimos esse apelo, não te parece?).

Viana, estou feliz por voltar a encontrar-te por aqui, porque tu me incentivaste a comunicar. As coisas não têm sido fáceis, mas nas nossas trocas de impressões e de afetos chega a parecer que são.

Recebe um abraço imenso e forte.

Até já, Clara.

Lisboa, 16 de Fevereiro de 2016.


*


Clara, boa noite.

Aqui o relógio marca exatamente 19 horas e 29 minutos de uma noite razoavelmente fria e aprazível. Você começa seu palavreio me recordando incêndios em minha terra natal. De uma alma sensível cair em prantos, eis a verdade. E eu começo proferindo um "não", minha estimada Clara. 

Desculpe-me por iniciar meus dizeres de forma tão firme, como agora. Há momentos em que o coração da gente pula, saltita feroz e até age por impulso. Pulsamos inteiros, completos, incompletos. É pelo que a sua filha lhe diz, seus apartes longos, que você muito me encanta, Clara. Você é verdade e suas palavras revelam seus valores. Inventariar palavras é coisa boa, bonita, profissão dos grandes artistas das palavras. Nós, feitos de linguagem, apreciamos além. E que seja assim. E que sejamos assim, réguas disformes construtoras de mundos.

É dessa resistência que a humanidade necessita. E nisso, Clara, a gente se ajuda. A gente se anima e seguimos assim, confiantes, entre palavras e rumos. Solidão não é coisa boa em todas as horas. Solidão tem hora certa para ser boa. A presença das pessoas, em todos os cantos, o convívio com elas, mesmo sendo em momentos de exercitar o corpo, auxilia o desenrolar da vida e até nosso autoconhecimento. A prática de alguma arte marcial é por mim observada como uma ponte para nós mesmos. Trabalha-se muito o equilíbrio entre a força e a mente. Já experimentou a prática de alguma, Clara?

Tem graça sim, Clara, a tua comparação político-futebolístico. Torço para que as coisas se ajustem por aí e que os discursos todos sejam cumpridos em verdade. Aqui no Brasil, o panorama político – se é que se pode classificar assim – não anda nada animador. Fizeram um rombo enorme na nossa maior empresa estatal, a Petrobrás, e agora os corruptos estão se digladiando para ver quem escapa com menos feridas. Uma jogatina de interesses que dá nojo de ver, Clara. Coisa sem tamanho! Coisa imensa!

E mesmo imaginando todas as belezas que me contas, Clara, as suas, as da Cris, as da Sant’ana, mesmos suspeitando de tudo, vou aí de igual maneira. A vontade só aumenta e um dia seremos nós todos, juntos, em apreciação do Belo e da Vida. Dar-nos-emos inteiros, por amor ao amor e ao outro. Ah, Clara, e este relato final! Quanta sinceridade em sua fala! Pois que a vida só tem sentido se compartilhamos ela, em doação mesmo, em todos os aspectos. E são nestas doações de nós que nos fortalecemos. Não é assim com o ofício do texto, da palavra? Para quê serviriam se não pudéssemos partilhá-las?

Com um rude apreço por ti e por todos que te cercam, despeço-me por hoje, Clara. Na certeza de que o Atlântico não é tão grande assim.

Beijos deste marinheiro embarcado no sem-destino, corajoso o suficiente para adentrar o alto-mar.

Caruaru-PE, 06 de março de 2016.


********

Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Agroecologia X Agroindústria

*

Por Germano Xavier


O mundo anda revirado e com tudo ou quase tudo deslocado de sua normalidade, nem a produção de alimentos ficou de fora da bagunça. A agricultura danou-se a se disfarçar de agroindústria, e vice-versa, embocada numa neura de usufruir de métodos agrotóxicos para florescer o coração capitalista que somente visa às rentabilidades de poucos bolsos e de poucos indivíduos. Na mesa do ser humano comum, lá estão as frutas e os legumes, as hortaliças e os grãos os mais diversos, silenciosamente envenenados em seus corpos esbeltos, prontos para o baile da indigestão generalizada.

O Sr. Mercado agradece!

Pela beirada, corre a agroecologia, sorrateiramente, como a sentir que é a hora de se aprontar de vez por todas e de dar as caras. Mas por que tanta demora? Por que só agora? Por que tantos empecilhos? – questionamos nós, pobres mortais comedores do que está mais em conta pelas feiras livres ou pelas bancadas dos supermercados mundo afora, via-de-regra. Como fazer com que a agroecologia deixe de ser vista como uma forma não rentável e se torne, enfim, uma metodologia de produção eficiente em todos os sentidos? Certamente, as respostas não são tão simples quanto podem parecer.

O Sr. Mercado titubeia!

Difícil mesmo é fazer vigorar o processamento de uma efetiva transição de modelos de produtividade agrícola num planeta que gira na ordem do lucro e da desfaçatez, especificamente da convencional agroindústria, de razão industrial, promotora de monoculturas e com base na exploração dos recursos naturais, para a agroecologia sustentável, com raízes fincadas no solo do ambientalmente correto e de benfeitorias mais duradouras sob todos os aspectos analisáveis. Difícil, sim, mas não impossível.

A agroecologia, muito discutida nos nossos dias, é, pois, a ciência que se utiliza da teoria ecológica para estudar e gerir os diversos sistemas agrícolas de produção cuja mentalidade é, prioritariamente, a do respeito aos recursos naturais e, por conseguinte, a do respeito ao homem, seu maior beneficiário. O emprego dos ideais agroecológicos, de nós minifundiários e de baixa intervenção referente à aplicação de insumos externos, tende a sobrecarregar menos o meio ambiente, além de oferecer um maior e mais sadio intercâmbio homem X natureza, sem falar na qualidade do alimento fomentado por esta lógica.

O alarme soa, dia após dia. Estridentemente, por sinal. Caminhamos para o caos agrícola-alimentício. E já não estamos dentro dele? Se quisermos fugir de problemas vários, tais como os ligados à degradação do meio ambiente e de tantos outros, o melhor a se fazer é dar uma reviravolta nesta engrenagem engessada e cruel. Mas de onde partirão as ações para tal mudança? Dos governos, das ligas mundiais, de cada um de nós? Políticas públicas de incentivo devem ser prioridade no trato da agricultura não-comercial, familiar e sustentável. Uma alimentação saudável, vista aqui tal qual um direito humano, precisa ser prioridade. Qualidade de vida e respeito ao meio ambiente na ordem do dia, para já!


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Cooperativas-de-agricultura-513489113

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Apontamentos sobre Fonética, Fonologia e Ensino

*
Por Germano Xavier


No capítulo intitulado de A FONÉTICA, A FONOLOGIA E O ENSINO, do livro PARA CONHECER FONÉTICA E FONOLOGIA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO, as autoras Izabel Christine Seara, Vanessa Gonzaga Nunes e Cristiane Lazzarotto-Volcão desvinculam-se um pouco do olhar voltado apenas para os segmentos estruturais das condições e dos fenômenos fonético e fonológico da língua e passam a considerar as implicações acerca do ensino e das metodologias de alfabetização tendo como ponto de apoio as bases de estudo da Fonética e da Fonologia. 

Para que tal encaminhamento se dê, as autoras recorrem aos propósitos ligados ao que concerne às relações que envolvem os processos fonológicos e as manifestações oral e escrita da língua. Deste modo, organizam ideias sobre como as noções de Linguística podem auxiliar no processo de letramento, relatam o quanto os conhecimentos fonéticos tornam-se extremamente relevantes para profissionais em fase de aquisição da linguagem e, por fim, abordam as nuances de preconceitos linguísticos que estão atrelados aos eventos fonéticos.

Com um olhar para a prática docente aliada ao uso dos conteúdos que embasam os preceitos da Fonética e da Fonologia, as autoras alcançam o patamar do ensino num diálogo simples e objetivo, revelando possibilidades de aplicação dos conteúdos das supracitadas disciplinas dentro da esfera escolar, introduzindo, também, variadas reflexões acerca destas potenciais aplicabilidades e competências. 

Partindo de uma reflexão de fundo pedagógico, onde apontam para o despreparo das formações dos profissionais da Educação, as autoras situam o leitor dentro das mais recentes preocupações curriculares e regulamentadoras do ensino, problematizando e efetuando discussões sobre o que seria mais viável a se construir diante de tantos problemas e deficiências.

As pesquisadoras, diante da complexidade e da dinamicidade inerentes à língua, haja vista que ao se tratar dela está a se debater com um constructo de ordem sociocultural e, portanto, mutável a depender das mais variadas situações de uso/necessidade, elaboram um conjunto de sugestões de práticas, como a citar uma alfabetização construída a partir da ótica da Linguística, enfatizando a relação grafema/fonema numa perspectiva de usufruto da consciência fonológica por parte dos usuários da língua.

Na metade do percurso da obra, observam elas ainda como se dão os letramentos em EJA no Brasil, citando as metodologias de Paulo Freire como contribuições avassaladoras para o progresso da construção da ensinagem em nosso país. Outro ponto de destaque na obra é a preocupação que as autoras dão aos conhecimentos fonético-fonológicos durante todo o processo de aquisição da linguagem que, segundo estudos, começa muito antes do bebê nascer.

Ao final, o preconceito linguístico oriundo de fenômenos fonéticos é tomado como centro das problematizações investigadas na obra. Destarte, numa aferição mais geral, o capítulo A FONÉTICA, A FONOLOGIA E O ENSINO, do livro PARA CONHECER FONÉTICA E FONOLOGIA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO, refere-se a como as instâncias da Fonética e da Fonologia podem dialogar com o ensino e a partir de que investidas neste âmbito tais disciplinas podem ajudar tanto ao professor quanto ao aluno no tocante à produção de sentido diante das conjunturas referentes a esta qualidade de relacionamento.


BIBLIOGRAFIA

SEARA, Izabel Christine; NUNES, Vanessa Gonzaga; LAZZAROTTO-VOLCÃO, Cristiane. Para conhecer fonética e fonologia do português brasileiro. São Paulo: Contexto, 2015.

* Imagem: http://www.fonologia.org/linguistica.php

sábado, 30 de janeiro de 2016

Lagoa



Por Germano Xavier



não sei que maior mar é
se o mar das gentes de sorrisos sofridos
descendo e subindo pelo Ponto de Cem Réis
ou se o pequeno mar da Lagoa
tomado de conta pelas garças em graça
protetoras das palmeiras imperiais

não sei que maior mar é
mas sei que pelas tardes solares
de dentro do mar da Lagoa
um mistério de almas borbulha profundamente


* Imagem: Arquivo próprio.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LII)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Quinta-feira, 2 de Janeiro de 2014
Morador

L’habitant

dans toutes les maisons
demeure une demeure égarée
une maison oubliée, une maison
inhabitée, vidée, expropriée d’elle-même
délaissée
dans toutes les maisons subsiste un habitant.

chez elle un cri s’endort
c’est une vielle enfant de l’âge anthologique
des anges, elle s’ennuie et trouble
la paix des fantômes,
le hurlement des brèches,
la quintessence de la brousse.

La maison n’oublie pas le silence,
n’efface pas les orgies du temps.
elle avoue, consentante et muette,
comme un cœur florissant, le sang qui glisse
des lits, le désir balayé sous
le paillasson.
La maison n’oublie pas, non plus
l’heure magique de l’amour.

toutes les maisons abritent un abîme,
elles sont toutes des âmes pensantes,
des blessures
auto régénérables
toutes les maisons sont le chaos
murées de mystères
habitées par la douleur.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Mondrian-esqueness-274809439

sábado, 23 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LI)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Domingo, 12 de Janeiro de 2014
Recado a Gullar

Message pour Gullar

le poète se meurt, Gullar,
à 23 ans. il est conscient
de son départ
et il sait jusqu’où il tombera,
lourd, un jour férié,
la veille de quelque chose.

il mourra aujourd’hui,
car c’est loin encore, demain
il est têtu mais la fatigue l’a emporté.
donc, il se donne.

aujourd’hui nous serons témoins
de la mort d’un enfant.

quelques semaines après, les balais de poils naturels
les rideaux improvisés,
le ventilateur blanc rangé à gauche du lit
les serrures, les verres, les serviettes
et les livres empilés sur la bibliothèque, la machine
le caoutchouc et les lampes sangloteront,
vidés de leurs sens,
devant la frayeur et la certitude,
du néant.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Daily-Sketch-21-586008060

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte L)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Terça-feira, 14 de Janeiro de 2014
O Rei derrubado

Le Roi déchu

au contraire et à l’envers, au temps tordu
à l’heure morte, sur un feu triste,
dans la gloire isolée, dans le rêve noirci
habite, apeuré, l’homme vague et absorbé…

dans l’allure et son contraire, dans l’ignorance
dans la pensée – et son absence -,
habite le siècle obscur, le tonnerre pâle,
sans visage, informe

ni les foudres, ni des armées perfides,
ni les peaux citrines du coton
arrivent à cacher le mal humain
sous les lumières tamisées ou les infectes satellites

ni les foudres nous laissent en héritage
la nourriture dessalée
de l’autre coté,
complaisant, le cheval ment
on devine chez lui le mal de mer
au trot de ses pattes de devant…


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Um-vento-que-me-segue-37196588

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Dedirrósea aurora (rhododáktylos)

*

Por Germano Xavier

são seus dedos róseos
como prolongamentos do céu
que me despontam odisseias


Imagem: http://www.deviantart.com/art/aurore-boreale-341772600

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XLIX)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Quinta-feira, 23 de maio de 2013
Robert Frost e a Estrada

Robert Frost et La Route

La route ne mène pas à la certitude,
ce n’est qu’un coin effacé, des heures mortes.
Elle mène plutôt à un reptile châtié
écailleux, fait de prières :
le venin de se meurtrir
le retour vers soi-même.

La route est sinueuse et allongée
c’est un tapis noir, un chemin de passage
du néant et des rondeurs du monde.
Celui qui le traverse est un battant, un guerrier osé
il y inscrit des marches de possibilités.
La face devient humide. Est-ce l’humus ?
La sueur est-elle si chaste ?
L’humain est-il si pur ?

Après la courbe on le voit
[il est vert ou gris ce bois]
Le bosquet nous émerveille : c’est le savoir même !
[Et le fait d’y penser].

Le chemin et la route se bifurquent
ce sont des destins à eux seuls.
Je suis courageux car je me lève
un matin ombreux
[c’est la démarche de ma mort…]


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/road-441589355

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XLVIII)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Terça-feira, 24 de setembro de 2013
Apoéticos

Apoétiques

je pleure la douleur
d’un poème
indemne
car les poèmes blessent
avec leurs armes invisibles
car les poèmes
quand ils ne sont ni bus
ni avalés
entièrement
ne sont que des abcès répugnants
et intraitables.
je pleure la douleur
d’un poème,
celui qui naît
et celui qui n’aboutit nulle part
à l’intérieur d’un homme
et qui ignore le chemin
de ses limites intangibles
je pleure la douleur
d’un poème,
et surtout
je pleure
la douleur d’un homme
sans poésie.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/time-drop-57813963