sábado, 28 de julho de 2012

André


Por Germano Xavier 

Ao amigo Jorge Ferreira dos Santos


Existiam dragões no ar. A técnica do sfumato fechava demais o tema. Teimou em continuar o trabalho, cabisbaixando-se. Ele sabia que era preciso mudar. Mudar na luz, mudar na sombra. Pensou em retirar o tom carvão, em parafuso consigo mesmo ficando. Pensou em investir mais no grafite. Diminuiu as mãos do verniz de madeira por sobre a tinta ainda fresca. O pincel entre o polegar e o indicador, apontado para a figura brotando, no escopo a liberdade. André era um homem cansado da perfeição aos 24 anos de idade. Sem pai, sem mãe, sem irmão, sem casa, sem mulher, sem amor, sem ódio, sem nada e em tudo absoluto.

- Não, perfectione! - rosnou André.

Queria a circunstância que tinha a variedade dos vazios, que tinha espaços incertos, que necessitava de borrões. André sabia que existiam dragões no ar. Tinha a nítida percepção de que ele mesmo os criara, qual um pastor cuida do seu gado, estação por estação, batendo contra o chão o bastão de direcionar caminhos, e que ele arrancara com ira os nós dos cadeados das gaiolas, descerradas agora numa fúria acessada em vinganças. André mataria a si próprio caso não efetuasse uma transformação. Ele tinha consciência disso. Todos tinham. Ter um propósito não era estar perto do que é completo. Nenhum trabalho ativo realizar-se-á perante o noturno dos olhos cegos. Nem todos conseguiam enxergar a realidade. O que ele via neste momento, senão a sua ânsia mais interna? Que representava sua dor, senão a agônica sepultura dos seus arrependimentos?

No ar, os dragões. Eles e uma fina nuvem de poeira envelhecida pousando sobre os móveis do ateliê. André acocorado, nádegas tocando o azulejo frio, mãos investidas contra o corpo da face, triste, triste. Um artista pensando sobre o progresso e nas unidades promotoras da harmonia, nas potências das tintas avermelhadas e em idéias para um alcance qualquer. Era André perdido no momento presente, aquele que vive e não tem passado, muito menos futuro. Era um André, o artista, encabeçado numa loucura disposta ao egocentrismo, um jovem orgulhoso, subjetivo, sentimental, um viciado atormentado pelos soltos e revoltos dragões domésticos, e indomados. Um André olhando para si, sem a fiel ilusão dos espelhos.

Observou a luz entrando em feixe na sala escura. A luminosidade tecendo um caminho alimentado pelas minúsculas partículas de pó, um caminho marrom-amarelado, denunciando um apenas pouco de vida naquela tarde desmoronando. Ainda com o quadro não colocado sobre o tripé, André riscou uma linha horizontal com o pincel embebido de um preto fosco. Rápido, nivelou o tom com um cinza-marmóreo, aplicando-lhe uma mão de verniz e agigantando um gradiente imperfeito de sensação angustiante. Buscou a variação brusca e a evidência na marcação das pinceladas. Queria deixar tudo às vistas. Retirar as vísceras da pintura. Pretendeu não esconder nada. Friccionou o punho sobre a margem azulada, construindo um imenso manto azul que lembrava o mar. André pensou no dia em que viu o mar pela primeira vez, na primavera dos seus 17 anos. Mas a lembrança veio-lhe cortante e André lembrou da última vez que desejou ver o mar.

Aprendeu com os olhos as matizes do templo de Netuno e guardou para um sempre hoje as fórmulas que o pai houvera lhe ensinado. Recostado sobre a mesa antiga, André idealizou um rosto emergindo, o movimento frenético das ondas produzido pela invasão do corpo na liquidez do elemento aquífero. Um semblante acavalado, galopando as vontades mais puras de André, fundamentando toda a profundidade dos abstratos moinhos da imaginação faiscante do artista. Sem esquecer, pôs a bandeira alvinegra no areal da praia, com um absurdo detalhamento e minúcia. Uma ou outra prova de anunciação e um respeito pelo sonho vencido pelo cansaço das tentativas. Aumentou a dor das rugas porque tinha agora como acreditar na efemeridade do tempo e elevou o quadro, colocando-o sobre o tripé.

Estava pronta a peça e não estava. André viu os dragões passearem por sua cabeça, num leque de asas arrefecendo suas labaredas. Aquele rosto lindo, velho e forte de um homem feito de água. Uma imagem transbordante digna de enigmas e postulados. E André viu o feixe de luz feito de poeira perder sua força e ir se apagando, pacientemente, como uma velhinha atravessando a avenida movimentada de novidades. E André viu o único espelho do ateliê ser obstruído pela penumbra já quase escuro. E sentiu o fomento no peito de uma lava que descia seus tubos e artérias lhe arrancando míseros e rasteiros ares. Respirou fraco, sôfrego, pulmões claudicando, orgãos em soluço entre a morte e a vida. Sem suportar-se em pé, André titubeou numa vertigem traiçoeira, segurando-se no quadro. Cambaleou para a esquerda, sem largar o quadro com os punhos em garra, foi para trás e num volteio caiu tombado para frente levando o quadro consigo. Agora, rosto contra rosto, ferido pela fraqueza instantânea, André fitou estupefato o cenho que lhe beijava as bochechas úmidas e azuis, dizendo:

- André, é você?

5 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Chiaroscuro practice 2
by ~TheMaskedCartoonist"
Deviantart

Letícia Palmeira disse...

Você está escrevendo muito, o tempo todo, sem parar. Depois de uma pausa... sei lá por qual motivo, você volta à moda de.

E telefones silenciosos não ouvem.

Usui de Itamaracá disse...

Acho que esse é meu favorito!

Tatiani Távora disse...

até vir o seguinte.

Vanessa Souza Moraes disse...

Sempre a vertigem...

http://vemcaluisa.blogspot.com/