domingo, 1 de julho de 2012

Mireille estranha


 Por Germano Xavier

Lado a lado estamos e é tão bonito, o tudo, o todo. Um jardim imaturado e com flores roucas nos acompanha. Cercados, nós, os nós das coisas nos observam nas próximas lonjuras, quase sempre intangíveis, quase nunca impossíveis. Hoje sinto que preciso me esforçar feito uma flor que vai se abrindo. Arrecadar de mim o bruto músculo e o movimento. Uma atividade será necessária, mas também o bastante. Uma. É um dia difícil por ser um dia diferente dos demais. No ar está acontecendo uma revolta e eu, mesmo com este meu olhar para baixo, consigo enxergar a novidade que veio do distante... O novo é uma espécie de chuva, cai sobre os nossos ombros, arrasta-nos na correnteza, inunda-nos com uma água penetrante, água-ácida. O que meu coração agora pergunta é tudo que a minha dimensão suspeita. Suas interrogações são as pontiagudas lanças que eu queria atirar, mesmo desconhecendo a melhor direção. Há um vento invadindo este momento e ele é tão justo, e silencioso. Apoio meu corpo meio deslocado para frente nos pares de punhos que se dobram. Um órgão dentro de mim inicia uma sinfonia e começo a olhar o teu rosto. Não acreditava tanto na beleza dos teus olhos e nem que eles pudessem também olhar. São verdes como a imagem que tenho de um pasto celestial, morada dum deus qualquer. O pobre banco de cimento frio nos comporta escravamente. O instante é doloroso e de espera... Vou percorrendo tua face, meticulosamente, morena pele clara de um anjo. Vou adormecendo em mim e você é filha de Medusa. Atravesso o triângulo do teu semblante como se meus olhos fossem minhas mãos, apalpando suas tímidas fugas percebidas. Raios solares propendem a desbastar escuridões. Estamos lado a lado num purgatoriozinho ensaiado de emoções. Quantos homens não sentiram o que estou sentindo! Quantas não foram as sensações idênticas! E me questiono acerca de tua origem, mulher, de tua casa, de teu fabrico. Eu estava seguro andando na tipóia velha do terreiro. Posso ser ingênuo, mas sou mais que um sesquicentenário, sei de experiências de que até Deus duvidaria. Tenho palmas hirsutas de tanto rastejar por terra, toupeirando na caçada infeliz. E tu ousas arrojar-se por minha fronde, diacho haurido a granjear a peste, estrepitando cores e ramalhando hastes, envergando-as, ditosamente... mas não nos esqueçamos do som seco do que não diz, esta estranha beleza. Que por entre os centímetros que nos separam, existe um sentimento de máquina que não pensa, um caminho próprio para o olvido. Estamos prestes a ser o fim de algo que não começou. Não vai adiantar eu me levantar e ir colher aquela rosa vermelha, triste porque que irá deixar de respirar, enfadonha porque irá receber as ordens de um reles modelo de maltrato. Que lindo ritual é o do ocaso. Nasce e morre na mesma tarde, com o brilho polido pronto para a miraculosa sobrevivência eterna da memória. Acho que atingimos o auge de nossas fortunas, e me engano pouco se estiver a sentir a loucura da felicidade. Teimoso, levanto-me. As pernas estão enferrujadas e pesam os quilos das imagens que passam por mim agora. O estalo da quebra e a rosa morta em minhas mãos. Posso fazer até um pedido que nada vai adiantar. Estamos nos matando porque não podemos fazer nada. Estamos pouco vivos porque sabemos que a nossa morte já aconteceu desde que nos sentamos aqui. Girassóis se escondem, margaridas temem o pior. Dou-te a rosa em despedida, porque vou já. A triste hora é já caída e, eu sei, mais não podemos. Se vai cobrir-me a lembrança de lampejos que me ajudem, não sei, não chegaremos lá. Abraça o que for agora, mesmo o vento solto, que vou eu mesmo abraçar. Como se procurasse o sorriso torto peculiar àqueles que não puderam amar.

6 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Local do crime
by ~leodomingos"
Deviantart

Rebeca dos Anjos disse...

Uau! Inspiradíssimo! Tanto, deixou-me sem palavras! :)

Beijos.

Controvento-desinventora disse...

Maravilhoso!

Lai disse...

É sempre inspirador ler os seus escritos.
Abraços

Letícia Palmeira disse...

Ouvindo música. E pensando nos "quilos de imagens que passam por mim agora".

Eu gosto de Snow Patrol.

Lai disse...

O Amor é extremamente dilacerante, porque o sentimos tão infinitamente belo...