segunda-feira, 11 de março de 2013

Porque abandonei as outras


Por Germano Xavier

Ela é do mundo. Ela não faz aniversário no Dia do Diplomata. Ela é minha ave de arribação. Ela disse que eu não sabia amarrar o cadarço do meu tênis. E eu que não uso tênis. Ela leu Sartre e disse que pareço muito ele. E ele que pouco sei. Sei mais o russo da lapela amarela. Vai ver é uma feminista besta. Ou é ela mesma. Assim? Ela deve ser ela e eu devo ser eu. Mas ela é eu e eu sou ela. Minha mãe um dia me disse pra ter cuidado com as historinhas que lia na madrugada. Balaustrada, sarrafo, escora, pantomina geral, coro e catarse, teatro de nós ela é que constrói. Ontem fui Teseu e ela matou Ariadne só pra segurar a lã do novelo. Mapeei a orfandade dela e ela foi a própria criança que adotei. Coloquei-a na malinha e fui ser caixeiro-viajante. Toda noite ela aparecia com uma camisolinha de seda. Ela era sobre o futuro, assoviava rosas e ventos. Tinha nome leve, feito clara. Olho de relva. E eu começando apenas a ler o Walt. Não sabia que era ele o pai do Pessoa. Mas ela tinha me dito antes à queda da Bastilha. Foi me ver na prisão. Mulher da plebe, sem dor. Ela é do mundo eu disse. Foi para a Balaiada, foi para a Sabinada. Foi farroupilha, rasgou toda a roupa no quarto e se rasgou inteira de carne. Não sangrou nada. Ela fazia todo o sol gostar. E não tinha contabilidade. Gosta do símbolo Tesla. Ela era até interjeição mineira, apesar de ser personagem da literatura de Anais. Sabia dizer “Anistia” em inglês. Ela era ela e eu era eu. Porção de pêlo junto, calcanhar de Aquiles. Mitologia inteira e não desconfiava de Tolkien. Ela me fez ler “A Pomba”. Juntei sílaba pra dizer que os substantivos são invariáveis, e ela desconfiou de minha teoria. Vontade demais de ser prática, de ser o estouvado dela. Contraí empréstimos para vê-la, fali meu próprio negócio. Li até Zoroastrismo. Marxista eu já era. Fiz preces para pecar. Ela disse que eu poderia ir, que ela morava perto daquela praça e daquele hospital e daquele obelisco corroído pela chuva ácida. Aí eu fui com a minha mesma malinha. Fui ser caixeiro-viajante. Escrevi na viagem o meu maior livro: “A história que se começa assim...”. Título ainda não sedimentado. Ela era a sílaba tônica da diástole. Ela vaticinou califórnias. E fomos procurar ouro juntos. Meu pensamento dominante e obsessivo. Ela foi a minha anatomista, equipamento que utilizei para realizar perfurações. Biodigestor. Desentupiu até a pia da cozinha. Ela era a interjeição de quem testa o microfone, o anseio do imigrante ilegal, o grande crocodilo do Ganges. Aí a gente ligava a estatal italiana e sonhava com o entardecer em Toscana. Ela reagia à insatisfação da platéia pra manter meu bigode. Fazia de tudo para eu manter o foco da atenção no estande de tiro. E com ela eu acertava em cheio o alvo. Bem no meinho. E eu fazia greve geral só para amá-la o dia inteiro. E que a porra do patrão se lenhasse. Porque ela era ela e eu era eu, soberanos persas, guerreiros de Leônidas. Nossas liberdades artísticas em atuação no palco, no picadeiro. Ela adorava circos e telefonar do jardim. Podia chover chuva e ela já tinha perdido há muito o medo da chuva, chuva. Minha conjunção aditiva era ela, principal ilha do arquipélago de Palau. Ela ela, eu eu. Meu motivo para anulações...

Um comentário:

Controvento-desinventora disse...

https://www.youtube.com/watch?v=DWZvzIHYJ6Q