terça-feira, 23 de julho de 2013

O amor e a Cultura de Massa


Por Germano Xavier

O mundo e o homem estão sempre em constante mutação, e com eles mudam também as relações interpessoais, os comportamentos inter e extrasociais, os temas ainda considerados tabus, as discussões sobre política e ética, entre tantos outros aspectos que se flexionam ao passo que as gerações vão sendo renovadas. Para representar bem esta idéia de variação, há um termo de origem alemã que resume bem este conglomerado maciço de idiossincrasias e nuances próprias que atacam num dado momento grande parte dos segmentos da vida: é o Zeitgeist, cuja tradução pode significar, entre outras coisas, espírito da época, espírito do tempo ou sinal dos tempos. Ainda assim, é possível dar ao termo Zeitgeist o significado de atmosfera cultural do mundo num respectivo espaço de tempo.

O Zeitgeist não é um termo novo, mas desde os primórdios de sua utilização vem conseguindo demarcar um território para um sistema típico de redoma e “proteção” acerca de um emaranhado preservacionista desta coisa difícil que é o tempo. É fácil perceber, mesmo quando se trata de elaborar estas visualizações em nosso rumar natural através dos anos, que o modo de se vestir das pessoas mudam em um curto espaço temporal, que a linguagem falada e/ou escrita usada coloquialmente ou formalmente se transforma abruptamente no mero cair das primaveras, que o jeito de lidar com pessoas também sofre enormes variações... Os exemplos são infindos e, para melhor entendermos do que estamos a falar, basta pegarmos uma velha fotografia de nossos pais quando jovens e lá enxergaremos um pouco de tudo isso até agora mencionado.

Edgar Morin, renomado estudioso francês da filosofia e da sociologia, trata com maestria deste assunto em sua clássica obra Cultura de massas no século XX, intercalando posicionamentos interessantíssimos a respeito dos nossos “espíritos de época”. Com base em sua leitura, podemos problematizar dentro deste ambiente de eterna transição o fator Amor, outro tema bastante controverso e de difícil entendimento. Afinal de contas, quem de nós poderia conceituar o Amor no tempo?

Muito aquém de começarmos a pensar e filosofar acerca das culturas de massa, termo consideravelmente novo, a fantástica obsessão pelo Amor já era ponto central nas mais diversas formas artísticas, assim como em diversos setores da humanidade desde tempos imemoriais. O imaginário variado englobante do Amor, que ia desde figuras como a do aventureiro, do cavaleiro, do sedutor, dos vampiros, do cowboy, do xerife, passando pela imagem da virgem, da princesa e também da heroína, fundava em nossas mentes a idealização do Amor em todas as esferas da vida, sem deixar brechas ao que estrangeiro era a ele. O Amor, deste modo visto, funcionava como fundador de uma mitologia principesca e de uma mitologia olimpiana sem precedentes e sem consequências plenamente sabidas no tocante à vida e à realidade das pessoas.

Muito aquém de conseguirmos definir aquilo que realmente viria a ser tido como cultura de massa, o Amor cortês, medievalesco, trovadoresco, bizantino ou romântico dava as cartas na mesa, gerando um modelo comportamental humano que influenciava toda a engrenagem social. Por ter sido moldado numa forma baseada na perfeição dos gestos e por estar liberto de qualquer falha, o Amor não superava os conflitos fundamentais entre família e sociedade (Homem/Amante/Mulher, por exemplo), tão corriqueiros nos dias atuais. Por isso, quando maculada a ordem do símbolo verdadeiro do Amor, o constrangimento e a vergonha tornavam-se balanças equilibradoras das cargas tortas.

O Amor, por ora, também vingava como uma fatalidade ou uma patologia, sempre desintegrado e espiritual, condenado à maldição pecadora quando do seu lado sexual, sempre imaginário e anuclear. O Amor era uma peça perfeita do quebra-cabeça humano, algo sublime e irretocável em seus ditames, e o seu praticante nato era digno das mais altas insígnias, mesmo que para parecer um bom agente amoroso este usasse de mentiras e acobertamentos torpes para atos “ilícitos” comumente praticados contra seus parceiros e/ou cônjuges.

Doravante a isto, e já além do estudo do fenômeno das culturas de massa, a fantástica obsessão pelo Amor continuava, como sempre, indefinidamente a caminho de um revolucionar-se. O Amor passaria a ser e agir como um ente polarizado, universalizado e, por conseguinte, estaria sempre nas principais manchetes dos Media. Era chegada a vez do Amor plástico, evidentemente desarrazoado e preocupado apenas em “aparecer”. "O amor decantado, fotografado, filmado, entrevistado, falsificado, desvendado, saciado parece natural, evidente. É porque ele é o tema central da felicidade moderna" (MORIN, 1977, p. 131). O Amor teria a função única de simbolizar uma passagem de felicidade, mesmo sendo apenas um índice, um símbolo, um signo.

Para o pesquisador Edgar Morin, o Amor tornar-se-ia o elemento simbólico dominante das culturas de massa, incutindo valores afetivo-sentimentais os mais diversos e, porventura, contradizentes ao Zeitgeist em voga, ou o seu contrário. Mas o Amor por si só também se renovaria, antecipando tendências. A construção de um Amor livre e que objetivasse a realização pessoal, i.e., a materialização e a individualização do Amor acabaria ditando uma era.

Para além das culturas de massa, o Amor seria agora necessário à vida pessoal e perdia seu caráter doentio, de delírio e de escapismo. Longe de qualquer panorama ao melhor molde romântico, a cultura de massa conferia prioridade ao “Amor sintético” (espiritual e carnal), nuclear e total, desprezando o “Amor louco”. Via-se a perda de um sentimento antes pulsante, que mais se aproximava do conceito da paixão. O Amor agora existiria destituído da paixão, sendo os dois sentimentos aclamados como duas coisas totalmente distantes entre si. O significado do beijo, por exemplo, abarcaria o mesmo significado da totalidade sintética, da junção de pontos de equilíbrio, e não de ações de pulsão.

Para agregar em si tantas mudanças, o Amor receberia o apoio massivo do cinema, aparelho de análise e estudo (basta analisar o fabrico de seus heróis e a capacidade de persuasão simbólico-comportamental que eles detêm), como também de uma imprensa sentimental feita com base em conselhos, para citar apenas dois exemplos. Muito além das culturas de massa, fica a dúvida instigante: o que acontecerá ao Amor no futuro que virá? Veremos a fantástica morte do “Amor sintético” dos tempos de agora? Sucederá o retorno ao “Amor louco”? Conjugaremos ainda o verbo do Amor-Aventura, que se baseia no comunicar-se com o outro, no reconhecer e no ser reconhecido, no perder-se e no afirmar-se perante um alter-ego que une o Eros e a Psyché num movimento de profundo individualismo? Conheceremos Narciso? O que será que será?

MORIN, Edgar. Cultura de massas no século XX: o espírito do tempo 1: Neurose. 4.ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1977.

2 comentários:

Artes e escritas disse...

Uma excelente reflexão. No entanto existem sentimentos imutáveis, como as separações, nesse universo de sentimentos; o adeus é um ponto final de um sentimento. Eros e Psyché não morrem, são eternos. Aos narcisos devemos o afeto que eles perderam no espelho. Bons temas para debate, mas devem partir do tipo de relacionamento e afetividade dos dias de hoje e com o pensamento de hoje sobre o amor. Uma pesquisa a ser realizada com jovens adultos entre 21 e 25 anos, provavelmente amadurecidos nessa realidade.

Controvento-desinventora disse...

A pergunta: _ Será? Revela que ainda não é...ainda não há... o procedimento concretista de tentar formular, definir, esculturar o amor é a tentativa de vê-lo fora do Ser...A projeção do amor o torna plástico, tela, forma, cor, qualquer coisa, só que deforma a essência, a imensurável inconsistência de seu sentido...