domingo, 14 de outubro de 2012

As chaves de Mário


Por Germano Xavier

"Eu tinha um chaveiro que chamava de 'chaveiro da solidariedade'
porque ele abria a casa de cinco ou sei amigos para eu me esconder".
(Mario Benedetti, escritor uruguaio)


I

eu deixei meus brinquedos sobre o velho guarda-roupa e nenhum deles resmungou pela falta de carinho. o pequeno pára-quedista da coleção não saltou de lá de cima, tampouco o diminuto homem que comanda aves de rapina, com aquele seu rostinho tingido para o disfarce nas matas, nem ele ensaiou um pedido de S.O.S. meus guerreiros já estão crescidos, pensei. foi assim com meus tabuleiros, com o alvo de dardos pendurado na porta de madeira, alguns ídolos em pôsteres estampados, meio paralíticos, mas ídolos. tudo bem, então, estou partindo. estou partindo, meus queridos companheiros. sei não quando vou voltar, Striker, rei das galáxias de minha mente. Marte, cuide dos outros para mim, por favor. meu coração sentiu um curto aperto, mas fui fechando mesmo assim as janelas e todas as outras guarnições. eu vou retornar, eu vou, seguia dizendo. víveres, precisarei. já na saleta, prontificado de que tudo estava em seu devido lugar, abaixei e saí desembrulhando velhas correspondências que haviam ficado na soleira da porta desde o dia anterior. luz, água e a conta do jornal que só chega nos fins de semana. olhei para a cortina que naquele instante balançava com um vento que entrava pela última janela que havia deixado aberta. quando percebi o quanto estou longe de ser um herói das histórias em quadrinhos que leio. tão diferente, sussurrei.

II

mãe, pai, adeus. ou tchau apenas. volto um dia. irmão, felicidades. um tchau de quem volta um dia. quanta saudade eu deixo, quanta lembrança eu levo. vida danada, estou indo porque preciso demais. vocês hão de entender. por esta porta um certo alguém se empobrece, ou se livra das coisas que não ajudam a ser melhor. porque há sempre vários pontos de vistas para aquilo que fazemos ou não. e mesmo não tendo vocês aqui para servirem de acenos de adeus, eu não desisto agora. não irei - desistir, digo. mas, de fato, eu estava fazendo algo. eu estava indo. por muito tempo deixei de fazer algo por mim mesmo.

III

estou, pensei forte. degraus quadrados assimétricos de concreto o jardim de casa a roseira com a qual gosto de trocar confidências o Jeremias meu cãozinho meu pé de jambo minha vida meu passado e meu futuro qual será qual será qual será? até a gigolete da minha sobrinha pequena, meu deus. ela com aquela mania de prender o cabelo. seria melhor ter consultado antes uma cartomante, uma mulher que conversa com os espíritos da mata, feito alguma reza em quintal de curandeiro? meu futuro, tão totalmente meu que me causa medo. estou com medo do meu futuro. estou em pé de guerra, padres do céu ou obeliscos de oratórios, ajudai-me, peço, encarecidamente, uma certeza. volteio com o corpo que é o meu, fico meio zonzo, mas é um último olhar. olhar uma coisa pela última vez dá mesmo nisso, tonteira. vertigem seria o nome correto. perdemos algo. perdi. ganhei a rua.

IV

vou encostado nas paredes das casas que vão me empurrando, como se possuíssem tentáculos e me forçassem a mais um passo dar. altivo, meio absorto – como pode se estar meio absorto? – sigo arranhando minha pele nas paredes ásperas que delimitam os territórios. pai, veja só, estou na guerra! vai perder seu filho, herói, salvador de vidas, exterminador de outras, que pode voltar com medalhas de honra ao mérito no peito ou que pode morrer na trincheira armada pelo invasor, vai perder o show, pai? estou indo em disparada ao encontro do dia com a noite, do sol com a lua, da terra com a água.

V

não vai me deixar. encontrei a menina que trabalha comigo nas horas extras. ela me falou que estava doendo muito ser. que iria pra sei lá que lugar, mas iria, como eu. é porque no fundo a gente sempre desconfia de que o invasor entrou fundo dessa vez. lobo mau, lobo mau, lobão mauzão. em toda parte. cu de Judas. os cus. agora o exorcismo, é a hora. final de campeonato. ou vai ou racha. sobe no palco, meu velho. engrossa voz, sobe na banqueta, engrossa a voz mesmo antes de qualquer verbo e diz a ordem do dia. puta que pariu, puta merda, vão todos pra. o que pode não dar certo nesta hora... o teu olhar?

VI

foi o fim. não vencemos. já diz o ditado que o segundo colocado é o primeiro que perdeu. somos agora a reserva, o que se não for pode ser. a gente fica com a cara amarrada, é mesmo assim. mas quem vê a gente de longe, com estas nossas faltas de carisma, vai pensar o quê, me diz?! olha que bunda safadinha a daquela menininha de calor nas mangas. salvação. dia bom pra não sair da cama. a cama é o melhor lugar do mundo. a cama é o paraíso. lá tudo acontece. meu abraço, meu amigo, meu irmão. a gente um dia quem sabe. vamos sair por aí. vamos beber o exílio no copo americano. conhaque fino e barato, já viu? se preferir, posso te mostrar minha coleção de neguinhos de combate. lembra do Capitão Striker?

6 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"chave by ~betojanz"
Deviantart

Janinha disse...

Gostei do q li adoro passar por aki bjoo

Letícia Palmeira disse...

Ninguém mora onde mora todo mundo.
E eu gosto de Macadâmias.

Larissa Boaventura disse...

Oiii, achei seu blog super interessante, um texto muito bem escrito, estou te seguindo, me segui também :) beijossss

A Escafandrista disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
A Escafandrista disse...

Querido, vai lá no blog, tenho surpresa pra ti. Espero que gostes. Beijos.