terça-feira, 9 de outubro de 2012

Humo



 Por Germano Xavier

“Meu nome é Caio F.

Moro no segundo andar,
mas nunca encontrei você na escada

Preciso de alguém, e é tão urgente o que digo. Perdoem excessivas, obscenas carências, pieguices, subjetivismos, mas preciso tanto e tanto. Perdoem a bandeira desfraldada, mas é assim que as coisas são-estão dentro-fora de mim: secas. Tão só nesta hora tardia - eu, patético detrito pós-moderno com resquícios de Werther e farrapos de versos de Jim Morrison, Abaporu heavy-metal -, só sei falar dessas ausências que ressecam as palmas das mãos de carícias não dadas.

Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, a over, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como - eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da concha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão.

No meio da fome, do comício, da crise, no meio do vírus, da noite e do deserto - preciso de alguém para dividir comigo esta sede. Para olhar seus olhos que não adivinho castanhos nem verdes nem azuis e dizer assim: que longa e áspera sede, meu amor. Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo. Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio - tão cansado, tão causado - qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um Caminho. Esse, simples mas proibido agora: o de tocar no outro. Querer um futuro só porque você estará lá, meu amor. O caminho de encontrar num outro humano o mais humilde de nós. Então direi da boca luminosa de ilusão: te amo tanto. E te beijarei fundo molhado, em puro engano de instantes enganosos transitórios - que importa?

(Mas finjo de adulto, digo coisas falsamente sábias, faço caras sérias, responsáveis. Engano, mistifico. Disfarço esta sede de ti, meu amor que nunca veio - viria? virá? - e minto não, já não preciso.)

Preciso sim, preciso tanto. Alguém que aceite tanto meus sonos demorados quanto minhas insônias insuportáveis. Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis quanto meu ciclo etílico bukovskiano. Que me desperte com um beijo, abra a janela para o sol ou a penumbra. Tanto faz, e sem dizer nada me diga o tempo inteiro alguma coisa como eu sou o outro ser conjunto ao teu, mas não sou tu, e quero adoçar tua vida. Preciso do teu beijo de mel na minha boca de areia seca, preciso da tua mão de seda no couro da minha mão crispada de solidão. Preciso dessa emoção que os antigos chamavam de amor, quando sexo não era morte e as pessoas não tinham medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e misturar coxas e espíritos no fundo do outro-você, outro-espelho, outro-igual-sedento-de-não-solidão, bicho-carente, tigre e lótus. Preciso de você que eu tanto amo e nunca encontrei. Para continuar vivendo, preciso da parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço.

Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. Preciso ter certeza que inventar nosso encontro sempre foi pura intuição, não mera loucura. Ah, imenso amor desconhecido. Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas caírem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã.”

(Caio Fernando Abreu - Crônica publicada no “Estadão” Caderno 2 de 29/07/87)


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Meu nome não te importa.
Sou quem você quiser.
E moro e habito a tua cegueira.

Homem, você jamais me viu. Perdoe-me também, pelo desaparecimento - se é que um dia apareci. Foi uma cilada que o tempo armou, mas eu te sempre amei. Você não via minha seminudez desavergonhada quando descia a escada escorando toda a tua cavalaria pelo corrimão. Assisti inteira à tua velocidade descabida e perdida nas horas do tempo ligeiro, às tuas descidas e subidas, às tuas idas e vindas. E minha vilania emudecia em tuas vistas. E mesmo ao passo de tua cegueira, a própria vida se encarregava de me dar um empurrão. E eu caía num vôo-vão tão grande quanto a vontade de ti que eu tinha.

Não sei, mas você corria tanto de minha ausência porque eu deveria querer-te tanto em dobro. E esse querer era em demasia. Você não reparava nas cores berrantes dos meus vestidos e nos berros que dava o meu coração. Tua solidão me era deixada sempre quando a porta do teu apartamento era lançada contra o umbral, esquina e aresta muda, daquela madeira escura que você mandou trocar. Eu ficava olhando pelo olho-mágico teus modos rudes de abrir e fechar portas. E me apaixonava por tua rudeza. Não tenho livros como você, não tenho lugares a ir nem me causo sofrimento por não os possuir. Único lugar que quis me apoderar era teu colo másculo. Porque tua força estava na tua inexistência, assim como o meu poder era facilmente encontrado no olho vago de você recebendo o jornal, nas manhãs do tempo. Tenho óculos e nunca me obriguei a usá-los para tornar mais nítido o meu assombro. Você era visível demais em teu afastamento. Quando mais quis você, mais foras distância. Assim você não largava meu corpo, minha alma, minha unha corada de vermelho-escarlate, meus anéis grossos nem minhas calcinhas de renda. Homem, você estava em mim e era lábaro enroscado no dorso do atleta vencedor. Maratona começada quando os galos invisíveis das cidades grandes cocoricavam.

Eu precisava como você. Na verdade, eu precisava comer você. Comer com os olhos já não me bastava mais, e eu passava o dia inteiro e a tarde inteira e a noite inteira se fosse necessário para apenas arriscar o respirar teu cheiro. Aquele perfume popular perfumava a sala e eu empurrava o perfume para lá dos meus cômodos mais sociais. Queria meu travesseiro e meu lençol impregnado de você suado e surrado em ares tortos. Minha necessidade era a de manter um homem malcuidado, carbonário, homem e sombra de homem, do homem, junto a mim, mulher e sombra de mulher, da mulher, peer-to-peer, em esgotamentos de carne e vísceras e miolos e artelhos e pênis. Eu precisava de alguém que lesse as dobras que cultivo na altura de meus pulsos e que me dissesse você terá três rebentos sadios, frutos do sumo do suco do amor. Eu carecia de tuas camisas desabotoadas, casas sem botões, botões sem casas, para fazer morada no teu peito livre de prisões. E me exigia dia a dia o cuidado que você demandava. Ou pensas que eu não te massageava o trapézio quando de tuas malemolências e dorminhoquices precoces? Lá estava eu, baby, afundando meus dedos de creme e óleo na tua pele rosa. Lá estava a mulher e a sombra da mulher, de mulher, de mulher para homem, meu homem, fundando o encontro preambular dos júbilos.

O segundo andar era nosso. Eu 202, você 201. Tão perto era o frio do teu café em minha mesa. Tão quente era o gelo no teu congelador. Tão breu era o escuro do teu filme, assistido sem êxtase, sem brilho e em televisão sonolenta. Aliás, ligávamos a tv só para sonharmos unidos. Vinha logo a queda das pálpebras e o mundo nos cobria. Mundo que não era somente mundo. Mundo que era mais o bruxulear das lâmpadas fosforescentes. E para chegar a mim, você, homem que mata, bastava-se de nadas. E eu não queria a pantomina toda se eu quisesse apenas o gole do teu beijo. Para mim, você foi tudo todos os dias de que vivi em minha vida. As outras que fui, não souberam do meu amor. Por isso, deixo-te estas palavras, urdidas em pranto que nunca chorei, tecidas em sexo que nunca usei, para simplesmente dizer que neste momento morro do gozar azedo do meu nada humilde medo, para simplesmente dizer que morro do tão cedo me afugentar eterno e, finalmente, para simplesmente dizer que morro da dor do amor no sempre e para o sempre adormecido.

Em festa estou, e acendo-me em gás butano.
Sou supernova estelar.
E já mar...

5 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"City Farmer by ~lwc71"
DEviantart

Janinha disse...

Adoro o Ar daki!!!

Saudades d suas visitas


Bjui

Flávia Amaro disse...

Arrebatador!

Sabrina Sebaje disse...

Adorei o Caio, acho que que percebi minha voz em certas palavras. Resumo: perfeito!

Bjos, Sabrina

http://acheiisso.blogspot.com
http://euemcontagotas.blogspot.com

Anônimo disse...

Perfeito! Maravilhoso... me fez lembrar um amor que eu tenho e que é platônico...