domingo, 28 de outubro de 2012

Caio F., escritor, jardineiro e Quixote



 Por Germano Xavier

Caio Fernando Abreu, jardineiro, está dando risadas onde quer que esteja enquanto escrevo este texto. O sorriso dele é tímido, cínico, afetuoso, cinematográfico, teatral. Há em seus dentes um certo branco de ironia, tão natural quanto a vontade de viver que lhe corrói os ossos. Caio Fernando Abreu, jardineiro nascido em Passo de Guanxuma – sua Macondo, a la Gabo -, hoje Santiago do Boqueirão-RS, é daqueles raros exemplares humanos que sabem muito bem cuidar dos seus próprios espinhos, das suas próprias ervas daninhas, de suas respectivas arestas ou protuberâncias. Poucos jardineiros souberam sulcar a terra do seu jardim com tal zelo e devoção quanto ele, que afastava pacientemente as saúvas e eliminava todos os caramujos ruins das proximidades de seus girassóis, tão girantes e ensolarados.

Caio Fernando Abreu, o outsider, o escritor, o jornalista e o jardineiro perfilado pela colega de ofício uberabense Jeanne Callegari, é um menino que não segue a ordem natural das coisas, da vida. Um garoto que morre, nasce, cresce, morre novamente antes de viver, recresce, desmorre um pouco, trabalha, alegra-se, enfadonha-se, vive, morre, morre, vive, vive, ama, odeia, ama... Homem avesso, mulher mergulho, homossexual hetero. O Caio Fernando Abreu que a jornalista apresenta não é uma imagem definitiva, tampouco poderia almejar ser. Mas é um homem ao todo, fragmentado e unido num panorama maior: sua caminhada.

Com uma linguagem estritamente jornalística, sem nunca deixar de apaixonar o leitor pela história que está sendo narrada, o livro segue com poucas quebras cronológicas a sequência dos acontecimentos e fatos mais importantes da vida do escritor de Morangos Mofados e Os dragões não conhecem o paraíso. Sem grande esforço, somos levados a percorrer todas as glórias e todos os fracassos da curta-longa vida deste artista das letras que queria estar sempre no olho do furacão, envolvido com o seu tempo, principalmente usando o seu tempo até onde desse, até onde pudesse, mas que também era capaz de se esconder de tudo por dias a fio e cultivar a roseira do silêncio mais profundo.

É a perspectiva de um ser humano ao extremo, que muito amou, muito mesmo. Que conjugou o verbo-mor amar com muita facilidade, com muita dificuldade, misturando desapego e fome. A história de um magricela obeso e genial, de voz fina e grossa, de um profissional errante, de um viandante global desacostumado a acostumar-se com qualquer um ou qualquer coisa. Relato de um homem sem casa dono de todos os territórios, de um poeta do conto, de um cronista romântico e dramático, de um ator de si mesmo, assassino feliz de sua própria vida, autor que burilou sua morte com a foice mais cortante.

Não estou aqui para criticar o livro da Jeanne, falar mal ou bem de um excerto em específico, tentar desmistificar esta coisa misteriosa que o Caio tem por detrás de si. Muito longe de querer isso. Foi um livro onde me senti leitor, desde o princípio até o fim, em todos os sentidos possíveis condizentes à fabricação de significados. E acredito que isso já bastaria em matéria de explicação. Um livro que conseguiu me fazer chorar ininterruptamente a partir da página 171 – e olha que eu tinha 20 páginas ainda pela frente -, que muito me emocionou, muito, muito mesmo.

Dividido em seis partes, com prólogo e epílogo, oito páginas somente com fotografias, orelha escrita pelo poeta Fabrício Carpinejar e prefácio de José Castello, que inclusive tece sutis críticas com relação à suavidade dos recursos textuais utilizados na escrita de Callegari, 192 páginas do mais puro Caio F., o livro é certamente uma importante obra sobre este jardineiro das palavras.

Amigos, influências, viagens, idas e vindas, trabalhos, anos 70 e 80, drogas, serenidade, amores e amores, desilusões e alegrias, encontros e desencontros, de tudo um pouco é retratado. Sendo que no fundo de tudo isso, a presença sombria da AIDS pervaga o enredo de modo que paira um suspense que antes parecia interminável, até o dia em que Caio resolvera fazer o que chamava de O Teste e descobre-se portador do vírus – momento pelo qual Caio atravessa delirante, recompondo-se e resolvendo viver do modo mais “calmo” possível, aproveitando tudo como se fosse a última vez, a companhia dos amigos, dos pais e de suas plantas.

Caio Fernando Abreu – Inventário de um escritor irremediável é um livro que ocupa uma brecha, um vazio, e que abre portas para um maior desbravamento no mundo real e ficcional de um dos maiores escritores contemporâneos brasileiros, infelizmente mais estigmatizado que lido. Eu, que dele apenas li Morangos Mofados, Os dragões não conhecem o paraíso, Estranhos Estrangeiros, Ovelhas Negras e Pequenas Epifanias, terminei a leitura com uma quase insana vontade de singrar todo o oceano da literatura produzida por ele, o que certamente farei um dia.

Eu sei que ele está dando risadas agora por eu estar escrevendo isso, como também sei que está muito feliz porque ele sabe que não sou um fã de Caio Fernando Abreu, mas um amante, do jeito que ele sempre quis, que fôssemos amantes dele e não tietes. Caio está vivo como até hoje vive o jardim que ele deixou no Menino Deus, lá em Porto Alegre. Vivo como a alma deixada na Casa do Sol e na Casa da Lua, moradas da amiga e poeta Hilda Hilst, como as pegadas registradas em solos (estranhos?) estrangeiros, como a escrita de verdade no primeiro time de jornalistas da revista Veja – ainda no tempo em que era uma revista e não essa coisa que é hoje -, como tanto, com tantos...

“Você é Quixote. Você é Quixote”, Caio – dizia Clarice Lispector quando ao lado dele numa manhã de autógrafos.

Eu concordo piamente.

Esmurra este moinho de vento que está agora diante de ti, Caio! Quebra ele todo, vai! Você é Quixote. Você é Quixote...

2 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Tragedy by ~CaioTeles7"
Deviantart

Eva BSanz disse...

Bonjour... Je voulais séduire.
Soy la muerte quien seduce.
Con el beso de la araña.
Soy la muerte quien te atrapa.
Con las garras del infierno.
Soy la muerte quien provocas.
En silencio proclamado.
Soy la muerte quien te arranca.
El aliento de tu Alma.
Bonjour... Je voulais séduire.
Soy la muerte quien vigilia.
Con el beso prometido.
Soy la muerte sigilosa.
Con el mal en mis colmillos.
Soy la muerte que tu buscas.
Con las llamas perfumadas.
Soy la muerte quien desgarra.
El abismo de tu Alma.
Bonjour... Je voulais séduire.

Gracias si te pasas por mi blog y te quedas conmigo.

Mi beso.