quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O muco


 Por Germano Xavier

Parte IV

ou um ilhéu coroado em febre onde cabem todas as maravilhas


eu me perdoo por você ter ligado naquela hora tão indevida
e me deixado ao deus-dará dos sem-esperança
eu me perdoo por ter bebido até a brusca queda
e tombado na vala dos que se desesperam por quase nada
me perdoo por não ter beijado tua boca azul de tão branca
e ficado no alvoroço dos dentros vagos que nos perturbam
eu me perdoo por não ter sido fiel a você que tanto me disse amar
e que tanto amou comigo mesmo com a perna em gesso
eu me perdoo por ter escolhido você tão sem graça
e por ter sido você tão sem graça logo depois dela que era tão
eu me perdoo por não ter bebido em tua boca menina do cabelo vermelho
da capital eu me perdoo por ter e não ter tido você tão doada a mim
eu me perdoo por ter te sustentado num andaime sem segurança
essa coisa tão flutuante e por tanto tempo ter feito assim
eu me perdoo por ter te levado para ver aquele pôr-do-sol tão lindo
naquela tarde caída tão perfeita depois do suco que tomamos
eu me perdoo por cantar contigo na esquina quando a chuva resolveu cair
sobre nossos ombros quase nus de tudo
eu me perdoo por ter te aliciado até fazer com que você partisse para cima de mim
com aquelas garras de leoa indócil
eu me perdoo por ter dormido várias noites ao teu lado
e não ter acesso a feral chama dos meus pandemônios
eu me perdoo por você ter me abandonado na praça da cidade bonita
esperando você para um amor mais-que-eterno
eu me perdoo por ter dormido no chão sujo da rodoviária
olhando a lua íngreme abaular o firme céu em tormento
eu me perdoo por ter acendido o charuto dentro do carro em movimento
quando partimos em busca do chão desconhecido
eu me perdoo por tantas vezes ter comido teu sexo e na madrugada
ter passado horas ao teu lado na amurada do prédio sem gente
eu me perdoo por ter fumado um Dunhill em sua homenagem hoje
no banheiro pobre do hotel onde nos hojes resido
eu me perdoo por estar tão distante de você que está no sul do mundo
e que amo tanto tanto tanto sem me dar conta que há tanto mar e tanto
eu me perdoo por ter descoberto em você o amor depois de já ter tido o amor
que em mim agora emana e aquece e me arrefece
como me perdoo

3 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"The Outsider.
by *Coldwave-Enigma"
Deviantart

Daniela Delias disse...

Tão bonito. Acho que não há perdão maior que esse, o que a gente se dá.

Beijo

Controvento-desinventora disse...

O PERDÃO É UM PASSEIO DE VOLTA, SOBRE A DÚVIDA, TRILHANDO A CERTEZA
QUE QUERÍAMOS TER, mas não há.