quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Salivas sem casca


Por Germano Xavier

I

Exercito a palmilha.
Meus sapatos marrons secam suas carreiras no sol da janela. Meus sapatos são naves interestelares esperando a boa condição para o vôo.


II

A agulha: uma serpente de corpo gélido e quente na frieza das tramas, e quando transa com o corpo do outro corpo, não fere, mas busca na picada a alma irreal na matéria oculta. Brota do buraco de onde o furo nasce outra serpente comedora de vazios. Quando vê o outro lado, o lado de dentro dos foras, enxerga que já passou a perversão.


III

Jesus está num quadro, preso à parede da sala do meu apartamento. Não preciso ir a igrejas para vê-lo de perto, tocá-lo, percebê-lo. Jesus é um velho quadro preso à parede da sala do meu apartamento. Ele olha para baixo e tem a mão no peito. O quadro parece em sfumatto, mas não passa de um pintado papel. Pergunto-me se ali, por detrás da fina moldura que sustenta a tela, a pequena aranha tece a teia longe de qualquer perigo.


IV

eu comprei um cigarro para escrever literatura na padaria mas o pão fresco me incendiou a massa e aí a fumaça nublou



V

antes do espelho havia a roda
o mundo girou antes de nos olharmos
na esteira da grama na espreita da trama
do submarino amarelo

imagem cortada e atada nas cercas
salvei no ralo o fogo que descia
era um de nós dois o horizonte sem rumo
da roda no espelho do chão

2 comentários:

Controvento-desinventora disse...

Lindos!!!Adorei: "... o mundo girou antes de nos olharmos..." depois, acredito que paralisou prá sempre. Só os olhares comandavam então a rotação, a translação, o sentido e a direção ...

Controvento-desinventora disse...

Por que agora o S?