quinta-feira, 7 de abril de 2016

Observatório sobre gêneros

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Por Germano Xavier


No âmbito do subtópico denominado de Gênero e Linguística sistêmico-funcional, Bawarshi e Reiff (2013) implementam o pensamento de que há uma ligação bastante fortificada entre a aplicabilidade dos gêneros dentro do círculo de operação da análise textual e, por conseguinte, do processo de ensino da língua. Tomando como ponto inicial de apoio a investigação de trabalhos envolvendo estudos em teoria literária, Bawarshi e Reiff (2013) esboçam, no capítulo intitulado Gênero nas tradições linguísticas: linguística sistêmico-funcional e linguística de corpus o panorama ideário de que muito do que se sabe hoje acerca de gênero deve-se ao progressivo acompanhamento das tradições linguísticas, a citar em especial as ramificações concernentes à Linguística sistêmico-funcional, à Linguística de corpus.

A partir do momento em que apregoam valores de relevância à funcionalidade social e ao contexto, a língua passa a ser percebida como um todo funcional, exigindo que a própria linguagem entre em processo de concepção dentro de um dado contexto específico de uso, cabendo à parcela sistêmica os meandros estruturais e de ordenação dos fenômenos linguísticos. A linguagem, por sinal, é vista aqui tal qual um motor-gerador para que ela própria realize ações de significação, descritas a partir da ideia de contextos de situação, inventário que percorre o tratado em Halliday (1978), base dos estudos de base LSF. A Escola de Sidney, a qual se servem os estudos de Halliday, gira em observância às perspectivas sistêmico-funcionais de gênero. É com base nos pressupostos dessa corrente que termos como registro (tipos de situação) e as metafunções da linguagem (ideacional, interpessoal e textual) irão ser contemplados para ampliação do contexto de situação, quando se referem às esferas de campo, relação e modo.

De acordo com os posicionamentos de Bawarshi e Reiff (2013), outro ponto de destaque nesta área dos estudos linguísticos (a abordagem LSF de gênero) é, a saber, a obra de Martin (1977), que preconizou entendimentos acerca da definição de gênero nunca antes identificados. O autor supracitado auxiliou na construção conjuntural de que os registros estão para o contexto de situação, assim como os gêneros estão para o contexto de cultura, sendo eles processos sociais geridos por dados objetivos. Há aqui, supostamente, uma introdução à interpretação de gênero enquanto ação social, tão difundida por pensadores contemporâneos como Charles Bazerman e Carolyn Miller.

O gênero, para os autores, pegando o ideário fomentado a partir de Martin (1977), e que porventura embasou o programa australiano LERN (Literacy and Education Research Network), seria, portanto, fundamental para o processo de letramento em ambiente escolar, já que elabora um arcabouço de criticidade ao se fundar em proposições de cunho facilmente identificáveis como sendo de ordem social. Já o pensamento de Diller (2001) é retomado para demonstrar a sua influência no tocante ao debate envolvendo as investigações sobre retórica e produção escrita.

Longacre (1996) e Biber (1988) também são citados, e suas posições decorrentes das definições de tipologias textuais e presença de variação linguística no conglomerado dos gêneros marcam presença e relevância incontestáveis. Bawarshi e Reiff (2013) fecham a discussão ampliando a visão de Paltridge (1997) acerca dos gerenciamentos que se dão na altura do que pode ser classificado como imagem mental. Daí surge um longo processo de estreitamento entre texto e gênero interconectado aos preceitos da memória e do contexto que, para os simpatizantes da teoria em questão, são capazes de movimentar todo um conjunto de interpretações bem peculiares acerca de gênero.


REFERÊNCIAS


BAWARSHI, A. S; REIFF, M. J. Gênero nas tradições linguísticas: linguística sistêmico-funcional e linguística de corpus. In.: Gênero, história, teoria, pesquisa e ensino. Tradução: Benedito Gomes Bezerra. São Paulo: Parábola, 2013, p. 46-59.



* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Text-Overlay-Texture-121941631

terça-feira, 29 de março de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LVI)

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Por Germano Xavier

"tradução livre"


Quinta-feira, 9 de Abril de 2015
O capital dos dias

Le capital des jours

il ne reste plus rien dans le visage de mon esprit
(je ne suis plus que celui qui attendra dans le hall
la candide sensation des nouveaux venants).

au-delà des vagues, des douleurs d’hommes nouveaux-éveillés
- des mille-pattes attachées à leurs chaînes :
des pèlerins du néant sous forme de capital.

au-delà des ordures, des sachets de courses, des égouts
(ma place dans ce monde est la chambre qui enlace la bonne,
celle qui est doublement épuisée car elle n’arrête pas de nettoyer).

la serveuse ne fait plus attention au regard de ceux qui entrent,
ses doigts témoignent les présences immondes des inconnus,
la cuisinière prépare les œufs brouillés dans la poile sans polytétrafluoréthylène
et tout finit par un goût d’aluminium.

mes veines tordues ressortent du coté du soleil.
ceux qui n’arrivent plus à tenir debout, se couchent :
l’amertume, la honte, l’insécurité, l’impuissance

des fétus s’endorment en rêves de renaissance tardive
en proie au lendemain incompatible des rebelles.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Street-255653741

domingo, 27 de março de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LV)

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Por Germano Xavier

"tradução livre"


Sexta-feira, 19 de Setembro de 2014
O anverso do maior prémio

L’avers du plus grand prix

elle est si fine la toile qui ourdit le poème,
si fragile l’amalgame qui tisse le verbe,
si innocente la lumière qui, sans le savoir,
rend tous les nons amers et insolites

l’Homme se promène par l’inexactitude
de ses propres choix, il fait semblant d’être
l’absolu même, sans marquer sa trace précise
sur le sol et divise de façon homogène
les risques du cœur

il erre (car l’errance est en lui-même)

et ignore les pas purs de la souffrance
ceux qui lui ont permis d’être là maintenant

choisie au hasard
la condition vécue et actuelle
s’est présentée : l’Homme que je suis
garde toujours des mains d’ouvrier

il court d’ailleurs vers l’exaltation

entre de petits arrangements
et le prix des blessures
sommons les règles des sacrifices
et rendons possible l’Amour réel!


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/S-08-74024399

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LIV)

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Por Germano Xavier

"tradução livre"


Terça-feira, 9 de Setembro de 2014
Aquela rua

Cette rue-là

de temps en temps, mon amour
je me rappelle, attristé
que nous étions écartés
par une seule rue

pour t’aimer
comme un fou ou comme un Werther,
j’aurais besoin de franchir un mur
vers la lumière de la vie
et tout imploser

le cœur était froid,
et la rue, large,
les empires du néant ont freiné les inquiétudes
la distance était un phénomène

au delà de ça et bien après, je souris
car je sais que nous sommes encore,
ton essence et moi-même, collés au mur
en épiant les passants, comme des ombres

adaptées à n’importe quel lendemain


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Naked-street-274223788

sexta-feira, 18 de março de 2016

Texto ou Discurso: uma questão de teoria de gêneros

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Por Germano Xavier


Rojo (2005), em seu texto intitulado de Gêneros do discurso e gêneros textuais: questões teóricas e aplicadas, discute a ampliação das investigações científicas acerca das teorias de gênero e evidencia o importante papel que os novos documentos referenciais nacionais tiveram neste quesito - a citar os PCNs, por exemplo. Tais bases teóricas, para a linguística em geral, incluindo a vertente de aplicação, estão demasiado vivas no contexto atual.

Para fins de apreciação, a supracitada autora divide seu olhar em dois prismas: o primeiro voltado à teoria de gêneros do discurso e o segundo à teoria de gêneros de texto, mesmo dando a perceber uma preferência pelo olhar legado à teoria de gêneros discursivos em detrimento da esfera de gêneros textuais. Ambas de natureza referencial bakhtiniana, se assim pode-se dizer, dadas às devidas proporções, a teoria de gêneros do discurso foca prioritariamente no estudo das situações de produção dos enunciados/textos, sem deixar de lado orientações de cunho sócio-históricos e a teoria de gêneros de textos visa o estudo da materialidade textual em si.

As linhas limítrofes de separação e/ou diferenciação das duas teorias aqui expostas não são postas às claras no texto, o que pode causar certo embaraço no tocante ao entendimento de quem lê o material. O pensamento bakhtiniano está presente nas duas vertentes ideárias como um elo norteador (ou não), percorrendo desde os conceitos fomentados por estudiosos do naipe de Marcuschi e indo até os pensamentos de Bronckart e de Adam. No total dos casos averiguados, presencia-se uma preocupação para com a finalidade descritiva do texto (teoria de gêneros textuais), jamais sendo percebido (no caso, o gênero) como um universal concreto.

Na tentativa de configurar um confronto entre as diferenças existentes entre gêneros do discurso e gênero de texto, a autora (meio que) estabelece como parâmetro-mor para todos os estudiosos que adentraram as nuances da teoria de gêneros do discurso o livro Marxismo e filosofia da linguagem, de Bakhtin/Voloshinov, publicado em 1929. O foco, para esta proposta de análise, está em três dimensões: os temas (conteúdos ideológicos conformados), seu arcabouço composicional e suas configurações de ordem das unidades de linguagem. De modo que, assim postulado, tais dimensões possuem ligações fortíssimas com as diversas situações de produção das enunciações, também sofrendo interferência das devidas apreciações valorativas do locutor (tema) e do interlocutor (discurso).

Ainda sobre as caracterizações inerentes à teoria de gêneros do discurso, e tomando Bakhtin/Voloshinov (1929) como como ponto de apoio, entende-se que toda e qualquer investigação que envolva expressão-enunciação deve passar pela averiguação conjunta da situação social mais imediata que o contextualiza. Tais relações, que se dão substancialmente no âmbito das parcerias ligadas à enunciação, agregam interesses constitutivos e de organização, como a citar o apelo às esferas comunicativas, dividas, pois, em esferas do cotidiano (família, comunidade...) e em esferas dos sistemas ideológicos constituídos (moral, ciência, arte, religião...). O comboio discursivo que estas esferas de base comunicativa elaboram termina por justificar a existência de conjuntos de gêneros mais confiados a demandas sociais definidas e emancipadas.

Em outras palavras, a perspectiva engendrada pela teoria dos gêneros do discurso parte não das estruturas formais da língua, mas antes visualiza o aglomerado de informações de cunho sócio-histórico que envolve a enunciação e todo o seu processo de produção sem, contanto, deixar de lado a importância de se avaliar estruturas composicionais e de estilo em seu respectivo objeto de estudo.

Por fim, ao colocar a referida discussão sob a égide da linguística aplicada, a autora preconiza, novamente, que o mais importante seria lotar o ensino de gêneros em salas de aula de língua portuguesa a partir da compreensão de língua enquanto movimento e processo, em cuja instância de legitimação e uso se dá o contexto-móvel em diálogo intermitente com as situações enunciativas, desprezando assim a faceta mais atrelada ao estudo descritivo dos elementos do texto.


REFERÊNCIA

ROJO, R. H. R. Gêneros do discurso e gêneros textuais: questões teóricas e aplicadas. In: MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (orgs.). Gêneros: teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola Editorial, 2005.

domingo, 6 de março de 2016

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XI)

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Meu querido Viana:

Desde a tua última missiva de 7 de Janeiro que tenho andado literalmente a ruminar as tuas palavras e o que me contas. Sendo o conteúdo o mesmo, creio que o aprecio diferentemente conforme os dias.

Ficou-me na memória o teu relato sobre o incêndio na Chapada Diamantina, o que me fez recordar os incêndios que por estes lados grassam também todos os anos. Ficam quase sempre por esclarecer, mesmo que muitas hipóteses sejam levantadas quanto à sua origem: desleixo, mão criminosa manipulada por construtoras gananciosas e inescrupulosas, atos de puro vandalismo ou praticados por algum pirómano, julgo que já vimos de tudo um pouco, se não provado, pelo menos no terreno da especulação. Em tempos falava-se de chuvas ácidas, argumento que tem vindo menos à baila ultimamente. Em todo o caso é escandaloso e trágico o que se destrói em todo o mundo como consequência dos incêndios, todos os anos, sem que consiga pôr em prática um conjunto de medidas preventivas realmente eficazes. As matas são extensas e não se pode vigiar cada mm² de terra. Nem de maldade humana, malícia ou seja o que for.

Também sobre a tua nota sobre Borges, de quem nunca ousei ser verdadeiramente fã, talvez por achá-lo grande demais para os meus olhos, fiquei fascinada com o texto que encontraste sobre ele. Tenho uma curiosidade grande em saber quem seria a autora mas talvez seja bom resguardar esse mistério e manter o foco no texto, de uma beleza dorida e instigante. Só as mulheres são capazes de (d)escrever tais coisas, ou alguém que possa sentir como elas, como nós. Retenho uma das frases finais: “Se na minha lápide estiver escrito apenas “Uma mulher que amou um poeta”, eu ficarei feliz”. Pode ser que um dia escreva o mesmo, som por som, tecla por tecla.

E sim... Viana, eu também adoro surpresas, sobretudo as programadas e que se saboreiam com antecedência!!!. E gosto muito de aprender contigo palavras e significados, como o verbo “embonitar”, essa derivação tão suave que aplicas com delicadeza, de tal forma que já faz parte do meu vocabulário também. (Mia Couto, aqui vou eu, aqui vamos nós, de asas abertas para todas as derivações que nos tornem os dias mais azuis. E aqui faço uma vénia respeitosa a ele, o homem que escreve prosa mais poética que a própria poesia e que me ensinou outros mundos através de derivações e corruptelas roubadas à língua dos falantes, magníficas e improváveis: a “subfície” do mundo, o papel “marrotado”, “rodilhar” o coração, as letras “incertinhas”, ou a velha que insistia, “cismalhava”. Não é de uma beleza imensa que escorre pelos olhos?). A minha filha dirá, quando nos ler, que eu sou realmente a mulher dos apartes longos….

Sobre silêncios, muito haveria a dizer ainda e mais, creio eu, a calar. Pressinto que concordas. Mas não gosto de silêncios que afastam, apenas daqueles que nos servem para renovar o fôlego e arremeter com mais força ainda. E como vão os teus, meu amigo?

Subscrevo inteiramente a tua ânsia de viver o repentino, o inusitado. Ainda não cheguei à fase de preferir essa paz rotineira, como pano de fundo. A minha inquietação é-me vital e a paz apenas uma fugaz consequência porventura salutar por efémeros instantes e nalgumas tardes chuvosas de domingo.

E não posso deixar de comentar a tua descrição sobre o lamentável episódio de racismo e esnobismo, no caso do grupo que condenava de maneira claramente preconceituosa a relação da médica com um “atendente”. Eu também já presenciei atitudes baixas como essa inúmeras vezes na minha vida e causam-me sempre uma incontida revolta. Como se a felicidade e a facilidade de relacionamento entre pessoas dependesse do grau académico ou da cor da pele! Tais comentários revelam uma ignorância atroz, maldade, intolerância, desconhecimento do mundo e das pessoas. Pensar que uma relação só pode ser bem-sucedida entre duas pessoas do mesmo nível social, status, padrão financeiro, grau académico, cor de pele e outros parâmetros da mesma índole é de uma ingenuidade espantosa, próxima do embrutecimento. Custa a crer que estamos em pleno século XXI. “Nauseabundos”, o teu adjetivo, resume tudo. Numa análise mais desapaixonada, e não sendo psicóloga nem socióloga, diria que por motivos óbvios é mais fácil pessoas aproximarem-se quando têm interesses comuns e um estilo de vida parecido. E percursos de vida que facilitem os encontros, que tornem mais fácil e fluido o convívio. Mas as exceções são tantas que seria ridículo querer definir um paradigma de aproximação que garanta o sucesso de uma relação, seja em termos afetivos, profissionais, ou outros. Graças a Deus que fomos poupados a uma educação tão isenta de valores, tão flagrantemente preconceituosa.

Resistamos, pois, meu querido Viana.

Sobre as novas experiências que fazem doravante parte da tua vida, fico feliz e vagamente curiosa por saber do teu interesse pelas artes marciais e da tua dedicação ao desporto, ao cardio-fitness, pelo que percebo. Li algures que o exercício físico é um antidepressivo natural, do melhor que há, a usar sobretudo de forma preventiva. Eu fico-me pelas caminhadas e pela dança, que me são vitais, embora me abra a ambas de forma inconstante e algo rebelde.

Solidão, nem vê-la! Façamos um pacto: eu ajudo-te a livrares-te da tua e tu ajudas-me a correr com a minha. Que se entendam ambas bem longe de nós!

Por aqui posso dizer-te que nesta teia que construímos os dois fica ainda muito por contar. Houve por cá uma eleição presidencial com resultados previsíveis. Entretanto a nossa constituição não confere poderes por aí além ao PR pelo que este acaba por tornar-se uma figura meio apagada, um árbitro que dirime conflitos, uma figura para a política externa. O nosso homem dá pelo nome de Marcelo Rebelo de Sousa, é um catedrático muito respeitado no meio académico e um analista político conhecido, com ampla exposição mediática desde há décadas. Um sedutor, carismático e orador invulgarmente dotado. Quanto ao resto, leia-se, ao futuro imediato, veremos. Há o saber e há o saber fazer. Poderá um bom treinador e comentador de futebol jogar como avançado? Ou à defesa? Ou à baliza? Tem graça estas comparações vindas de alguém que entende ZEROxZERO de futebol!

Falando de mim, de coisas que nos interessam a um nível mais pessoal, tu sabes, penso eu, que estive com a Cris naquele pequeno paraíso chamado Vimieiro. Aquela menina é uma amiga de toda a vida e para a toda a vida. Nós comemos, bebemos e conversámos como já nem se usa, aprendemos uma da outra e partilhámos mesa e diversão. Passeámos e sentimos a tua falta e ao mesmo tempo a tua presença. Fotografámos e fizemos comidinhas boas, regadas com bons tintos alentejanos, ensinámos e aprendemos Alentejo afora, prometemos viver mais aquele pequeno paraíso com amigos que queiram lá estar e beber daquele ar e mansuetude. Este é o Vimieiro que tu vais conhecer, bem perto de Évora, de Estremoz, perto do céu. E falando em prazeres simples e doces e em cultura, não posso deixar de voltar a desafiar-te para ouvires a nossa querida Sant’ana, uma e outra vez; ela canta nos mais variados registos, para além de mornas canta também alguns clássicos da música romântica que incluem Marisa Monte e Elis Regina, Ruy Veloso, Elvis Presley e temas de fado. Consegues imaginar tudo isso? Se não, vem para cá. Agora.

Que mais te posso contar? Do que tenho, nada, porque não tenho nada. Do que sou, nada também, porque já sabes tudo, ou quase, ou o que importa. Do que vou vivendo, do que vou sorvendo da vida. Um pequeníssimo episódio: há dias num hospital privado duas amáveis senhoras faziam recolha de donativos para uma instituição que ajuda crianças vítimas de maus tratos; perguntaram-me assim: quer colaborar? aqui cada um dá o que pode. E eu respondi apenas: vou dar-lhes o que não posso, porque o que posso eu já dei... as senhoras escudaram-se num sorriso surpreso e receberam com gentileza o meu minúsculo donativo. (Quanto menos podemos dar, seja o que for, mais sentimos esse apelo, não te parece?).

Viana, estou feliz por voltar a encontrar-te por aqui, porque tu me incentivaste a comunicar. As coisas não têm sido fáceis, mas nas nossas trocas de impressões e de afetos chega a parecer que são.

Recebe um abraço imenso e forte.

Até já, Clara.

Lisboa, 16 de Fevereiro de 2016.


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Clara, boa noite.

Aqui o relógio marca exatamente 19 horas e 29 minutos de uma noite razoavelmente fria e aprazível. Você começa seu palavreio me recordando incêndios em minha terra natal. De uma alma sensível cair em prantos, eis a verdade. E eu começo proferindo um "não", minha estimada Clara. 

Desculpe-me por iniciar meus dizeres de forma tão firme, como agora. Há momentos em que o coração da gente pula, saltita feroz e até age por impulso. Pulsamos inteiros, completos, incompletos. É pelo que a sua filha lhe diz, seus apartes longos, que você muito me encanta, Clara. Você é verdade e suas palavras revelam seus valores. Inventariar palavras é coisa boa, bonita, profissão dos grandes artistas das palavras. Nós, feitos de linguagem, apreciamos além. E que seja assim. E que sejamos assim, réguas disformes construtoras de mundos.

É dessa resistência que a humanidade necessita. E nisso, Clara, a gente se ajuda. A gente se anima e seguimos assim, confiantes, entre palavras e rumos. Solidão não é coisa boa em todas as horas. Solidão tem hora certa para ser boa. A presença das pessoas, em todos os cantos, o convívio com elas, mesmo sendo em momentos de exercitar o corpo, auxilia o desenrolar da vida e até nosso autoconhecimento. A prática de alguma arte marcial é por mim observada como uma ponte para nós mesmos. Trabalha-se muito o equilíbrio entre a força e a mente. Já experimentou a prática de alguma, Clara?

Tem graça sim, Clara, a tua comparação político-futebolístico. Torço para que as coisas se ajustem por aí e que os discursos todos sejam cumpridos em verdade. Aqui no Brasil, o panorama político – se é que se pode classificar assim – não anda nada animador. Fizeram um rombo enorme na nossa maior empresa estatal, a Petrobrás, e agora os corruptos estão se digladiando para ver quem escapa com menos feridas. Uma jogatina de interesses que dá nojo de ver, Clara. Coisa sem tamanho! Coisa imensa!

E mesmo imaginando todas as belezas que me contas, Clara, as suas, as da Cris, as da Sant’ana, mesmos suspeitando de tudo, vou aí de igual maneira. A vontade só aumenta e um dia seremos nós todos, juntos, em apreciação do Belo e da Vida. Dar-nos-emos inteiros, por amor ao amor e ao outro. Ah, Clara, e este relato final! Quanta sinceridade em sua fala! Pois que a vida só tem sentido se compartilhamos ela, em doação mesmo, em todos os aspectos. E são nestas doações de nós que nos fortalecemos. Não é assim com o ofício do texto, da palavra? Para quê serviriam se não pudéssemos partilhá-las?

Com um rude apreço por ti e por todos que te cercam, despeço-me por hoje, Clara. Na certeza de que o Atlântico não é tão grande assim.

Beijos deste marinheiro embarcado no sem-destino, corajoso o suficiente para adentrar o alto-mar.

Caruaru-PE, 06 de março de 2016.


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Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Agroecologia X Agroindústria

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Por Germano Xavier


O mundo anda revirado e com tudo ou quase tudo deslocado de sua normalidade, nem a produção de alimentos ficou de fora da bagunça. A agricultura danou-se a se disfarçar de agroindústria, e vice-versa, embocada numa neura de usufruir de métodos agrotóxicos para florescer o coração capitalista que somente visa às rentabilidades de poucos bolsos e de poucos indivíduos. Na mesa do ser humano comum, lá estão as frutas e os legumes, as hortaliças e os grãos os mais diversos, silenciosamente envenenados em seus corpos esbeltos, prontos para o baile da indigestão generalizada.

O Sr. Mercado agradece!

Pela beirada, corre a agroecologia, sorrateiramente, como a sentir que é a hora de se aprontar de vez por todas e de dar as caras. Mas por que tanta demora? Por que só agora? Por que tantos empecilhos? – questionamos nós, pobres mortais comedores do que está mais em conta pelas feiras livres ou pelas bancadas dos supermercados mundo afora, via-de-regra. Como fazer com que a agroecologia deixe de ser vista como uma forma não rentável e se torne, enfim, uma metodologia de produção eficiente em todos os sentidos? Certamente, as respostas não são tão simples quanto podem parecer.

O Sr. Mercado titubeia!

Difícil mesmo é fazer vigorar o processamento de uma efetiva transição de modelos de produtividade agrícola num planeta que gira na ordem do lucro e da desfaçatez, especificamente da convencional agroindústria, de razão industrial, promotora de monoculturas e com base na exploração dos recursos naturais, para a agroecologia sustentável, com raízes fincadas no solo do ambientalmente correto e de benfeitorias mais duradouras sob todos os aspectos analisáveis. Difícil, sim, mas não impossível.

A agroecologia, muito discutida nos nossos dias, é, pois, a ciência que se utiliza da teoria ecológica para estudar e gerir os diversos sistemas agrícolas de produção cuja mentalidade é, prioritariamente, a do respeito aos recursos naturais e, por conseguinte, a do respeito ao homem, seu maior beneficiário. O emprego dos ideais agroecológicos, de nós minifundiários e de baixa intervenção referente à aplicação de insumos externos, tende a sobrecarregar menos o meio ambiente, além de oferecer um maior e mais sadio intercâmbio homem X natureza, sem falar na qualidade do alimento fomentado por esta lógica.

O alarme soa, dia após dia. Estridentemente, por sinal. Caminhamos para o caos agrícola-alimentício. E já não estamos dentro dele? Se quisermos fugir de problemas vários, tais como os ligados à degradação do meio ambiente e de tantos outros, o melhor a se fazer é dar uma reviravolta nesta engrenagem engessada e cruel. Mas de onde partirão as ações para tal mudança? Dos governos, das ligas mundiais, de cada um de nós? Políticas públicas de incentivo devem ser prioridade no trato da agricultura não-comercial, familiar e sustentável. Uma alimentação saudável, vista aqui tal qual um direito humano, precisa ser prioridade. Qualidade de vida e respeito ao meio ambiente na ordem do dia, para já!


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Cooperativas-de-agricultura-513489113

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Apontamentos sobre Fonética, Fonologia e Ensino

*
Por Germano Xavier


No capítulo intitulado de A FONÉTICA, A FONOLOGIA E O ENSINO, do livro PARA CONHECER FONÉTICA E FONOLOGIA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO, as autoras Izabel Christine Seara, Vanessa Gonzaga Nunes e Cristiane Lazzarotto-Volcão desvinculam-se um pouco do olhar voltado apenas para os segmentos estruturais das condições e dos fenômenos fonético e fonológico da língua e passam a considerar as implicações acerca do ensino e das metodologias de alfabetização tendo como ponto de apoio as bases de estudo da Fonética e da Fonologia. 

Para que tal encaminhamento se dê, as autoras recorrem aos propósitos ligados ao que concerne às relações que envolvem os processos fonológicos e as manifestações oral e escrita da língua. Deste modo, organizam ideias sobre como as noções de Linguística podem auxiliar no processo de letramento, relatam o quanto os conhecimentos fonéticos tornam-se extremamente relevantes para profissionais em fase de aquisição da linguagem e, por fim, abordam as nuances de preconceitos linguísticos que estão atrelados aos eventos fonéticos.

Com um olhar para a prática docente aliada ao uso dos conteúdos que embasam os preceitos da Fonética e da Fonologia, as autoras alcançam o patamar do ensino num diálogo simples e objetivo, revelando possibilidades de aplicação dos conteúdos das supracitadas disciplinas dentro da esfera escolar, introduzindo, também, variadas reflexões acerca destas potenciais aplicabilidades e competências. 

Partindo de uma reflexão de fundo pedagógico, onde apontam para o despreparo das formações dos profissionais da Educação, as autoras situam o leitor dentro das mais recentes preocupações curriculares e regulamentadoras do ensino, problematizando e efetuando discussões sobre o que seria mais viável a se construir diante de tantos problemas e deficiências.

As pesquisadoras, diante da complexidade e da dinamicidade inerentes à língua, haja vista que ao se tratar dela está a se debater com um constructo de ordem sociocultural e, portanto, mutável a depender das mais variadas situações de uso/necessidade, elaboram um conjunto de sugestões de práticas, como a citar uma alfabetização construída a partir da ótica da Linguística, enfatizando a relação grafema/fonema numa perspectiva de usufruto da consciência fonológica por parte dos usuários da língua.

Na metade do percurso da obra, observam elas ainda como se dão os letramentos em EJA no Brasil, citando as metodologias de Paulo Freire como contribuições avassaladoras para o progresso da construção da ensinagem em nosso país. Outro ponto de destaque na obra é a preocupação que as autoras dão aos conhecimentos fonético-fonológicos durante todo o processo de aquisição da linguagem que, segundo estudos, começa muito antes do bebê nascer.

Ao final, o preconceito linguístico oriundo de fenômenos fonéticos é tomado como centro das problematizações investigadas na obra. Destarte, numa aferição mais geral, o capítulo A FONÉTICA, A FONOLOGIA E O ENSINO, do livro PARA CONHECER FONÉTICA E FONOLOGIA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO, refere-se a como as instâncias da Fonética e da Fonologia podem dialogar com o ensino e a partir de que investidas neste âmbito tais disciplinas podem ajudar tanto ao professor quanto ao aluno no tocante à produção de sentido diante das conjunturas referentes a esta qualidade de relacionamento.


BIBLIOGRAFIA

SEARA, Izabel Christine; NUNES, Vanessa Gonzaga; LAZZAROTTO-VOLCÃO, Cristiane. Para conhecer fonética e fonologia do português brasileiro. São Paulo: Contexto, 2015.

* Imagem: http://www.fonologia.org/linguistica.php

sábado, 30 de janeiro de 2016

Lagoa



Por Germano Xavier



não sei que maior mar é
se o mar das gentes de sorrisos sofridos
descendo e subindo pelo Ponto de Cem Réis
ou se o pequeno mar da Lagoa
tomado de conta pelas garças em graça
protetoras das palmeiras imperiais

não sei que maior mar é
mas sei que pelas tardes solares
de dentro do mar da Lagoa
um mistério de almas borbulha profundamente


* Imagem: Arquivo próprio.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LII)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Quinta-feira, 2 de Janeiro de 2014
Morador

L’habitant

dans toutes les maisons
demeure une demeure égarée
une maison oubliée, une maison
inhabitée, vidée, expropriée d’elle-même
délaissée
dans toutes les maisons subsiste un habitant.

chez elle un cri s’endort
c’est une vielle enfant de l’âge anthologique
des anges, elle s’ennuie et trouble
la paix des fantômes,
le hurlement des brèches,
la quintessence de la brousse.

La maison n’oublie pas le silence,
n’efface pas les orgies du temps.
elle avoue, consentante et muette,
comme un cœur florissant, le sang qui glisse
des lits, le désir balayé sous
le paillasson.
La maison n’oublie pas, non plus
l’heure magique de l’amour.

toutes les maisons abritent un abîme,
elles sont toutes des âmes pensantes,
des blessures
auto régénérables
toutes les maisons sont le chaos
murées de mystères
habitées par la douleur.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Mondrian-esqueness-274809439

sábado, 23 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LI)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Domingo, 12 de Janeiro de 2014
Recado a Gullar

Message pour Gullar

le poète se meurt, Gullar,
à 23 ans. il est conscient
de son départ
et il sait jusqu’où il tombera,
lourd, un jour férié,
la veille de quelque chose.

il mourra aujourd’hui,
car c’est loin encore, demain
il est têtu mais la fatigue l’a emporté.
donc, il se donne.

aujourd’hui nous serons témoins
de la mort d’un enfant.

quelques semaines après, les balais de poils naturels
les rideaux improvisés,
le ventilateur blanc rangé à gauche du lit
les serrures, les verres, les serviettes
et les livres empilés sur la bibliothèque, la machine
le caoutchouc et les lampes sangloteront,
vidés de leurs sens,
devant la frayeur et la certitude,
du néant.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Daily-Sketch-21-586008060

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte L)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Terça-feira, 14 de Janeiro de 2014
O Rei derrubado

Le Roi déchu

au contraire et à l’envers, au temps tordu
à l’heure morte, sur un feu triste,
dans la gloire isolée, dans le rêve noirci
habite, apeuré, l’homme vague et absorbé…

dans l’allure et son contraire, dans l’ignorance
dans la pensée – et son absence -,
habite le siècle obscur, le tonnerre pâle,
sans visage, informe

ni les foudres, ni des armées perfides,
ni les peaux citrines du coton
arrivent à cacher le mal humain
sous les lumières tamisées ou les infectes satellites

ni les foudres nous laissent en héritage
la nourriture dessalée
de l’autre coté,
complaisant, le cheval ment
on devine chez lui le mal de mer
au trot de ses pattes de devant…


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Um-vento-que-me-segue-37196588

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Dedirrósea aurora (rhododáktylos)

*

Por Germano Xavier

são seus dedos róseos
como prolongamentos do céu
que me despontam odisseias


Imagem: http://www.deviantart.com/art/aurore-boreale-341772600

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XLIX)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Quinta-feira, 23 de maio de 2013
Robert Frost e a Estrada

Robert Frost et La Route

La route ne mène pas à la certitude,
ce n’est qu’un coin effacé, des heures mortes.
Elle mène plutôt à un reptile châtié
écailleux, fait de prières :
le venin de se meurtrir
le retour vers soi-même.

La route est sinueuse et allongée
c’est un tapis noir, un chemin de passage
du néant et des rondeurs du monde.
Celui qui le traverse est un battant, un guerrier osé
il y inscrit des marches de possibilités.
La face devient humide. Est-ce l’humus ?
La sueur est-elle si chaste ?
L’humain est-il si pur ?

Après la courbe on le voit
[il est vert ou gris ce bois]
Le bosquet nous émerveille : c’est le savoir même !
[Et le fait d’y penser].

Le chemin et la route se bifurquent
ce sont des destins à eux seuls.
Je suis courageux car je me lève
un matin ombreux
[c’est la démarche de ma mort…]


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/road-441589355

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XLVIII)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Terça-feira, 24 de setembro de 2013
Apoéticos

Apoétiques

je pleure la douleur
d’un poème
indemne
car les poèmes blessent
avec leurs armes invisibles
car les poèmes
quand ils ne sont ni bus
ni avalés
entièrement
ne sont que des abcès répugnants
et intraitables.
je pleure la douleur
d’un poème,
celui qui naît
et celui qui n’aboutit nulle part
à l’intérieur d’un homme
et qui ignore le chemin
de ses limites intangibles
je pleure la douleur
d’un poème,
et surtout
je pleure
la douleur d’un homme
sans poésie.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/time-drop-57813963

sábado, 16 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XLVII)

*

Por Germano Xavier


Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011
Deus aberto

Dieu ouvert

quelque part
j’entends l’absolu
comme la pratique d’une vie
tel un contact
ou une religion ouverte
au delà du symbole
en quelque sorte
mon envie de passer de l’autre coté
définit l’homme possible
et nous ne pouvons pas être uniquement
selon toute évidence
des humains
nous sommes plutôt des mesures
les incompatibilités d’un dieu


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Grapevine-Ga-runt-knuten-383617275

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XLVI)

*

Por Germano Xavier


Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011
A autoria da reflexão


L’auteur de la reflexion

l’autre
ne prends pas le temps
de l’expliquer

ou de le décrire

le tout
dans sa vigueur
hypothétique

hypothétique-théorique

la mesure
assumée
comme étant

peut-être


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Untitled-578709578

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XLV)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Domingo, 20 de junho de 2010
Bad trip

Bad trip

de nos jours une nouvelle drogue
(pourrions-nous utiliser un palindrome
et racheter le contraire de tout ?)
le monde entier s’accoude dans le passé
mais celui-ci s’en moque.

Qui osera danser dans ce voyage sans fin
qui est la vie ? ouvrir sa gueule et vomir
les prisons sans grilles
[que des bouches grand-ouvertes].

le fils tuera et mangera.
la mère tuera et mangera.
le père tuera et mangera.
c’est donc la famille carnivore qui se nourrit.
dans ma théorie sociale il n’existe rien d’autre
au delà de cette samba de tueries et de jeux de miroirs.

absence de cerveau, pas de douleurs, point d’hallucinations.
le voyage n’est que cardiaque et le cœur s’amplifie.
dieu a crée le verbe pour actionner la bombe sur scène.
et un secret pour une fuite prévisible :

prendre la blague en photo: notre essence éphémère
pour les enfant prédestinés des années à venir.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Auschwitz-Rails-442018557

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XLIV)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Sexta-feira, 24 de Agosto de 2012
A pedra do núcleo

La pierre nucléaire

envahir la cellule de la pierre et vivre
la vie inexistante de l’essence morte
d’une pierre ; naître de la partie vivante
de la pierre et survivre, car la pierre n’est pas
une vie. être la vie et la mort d’une pierre,
pour qu’on devienne immortels.

percer la pierre obèse et rencontrer
l’immortel coté de la pierre, ta nature si dure :
si molle, toucher la mort dans la pierre
en touchant la vie épurée de la mort
de la partie mobile de la pierre,
sentir le froid de la pierre dans la chaleur de la peau ;

ton absence lors de l’explosion et de la ruine,
non pas par crainte de la mort ou de l’aveuglement,
mais car la pierre étant dure et immortelle
envahit la cellule d’une autre pierre vivante.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/uncertainty-of-fear-101527374

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte X)

*


Olha só, Viana, a gente fala-se tanto e de tantos pequenos nadas que perco a noção do meu atraso na correspondência formal. Eu também gosto de formalidades, de etiquetas, até na amizade é bom poder contar com uma palavra amável no tempo certo.

Por isso te peço desculpa, sei que não gostas mas vai assim mesmo. Depois zanga-te se quiseres, mas eu estarei já sem essa pressão de ter falhado contigo sem sequer ter esquissado uma apressada justificação.

Então vamos falar de formalidades: dizer bom dia, uma palavra gentil ou encorajadora de vez em quando, perguntar se a tosse melhorou, falar da nuvem que passa agora na janela, convidar para tomar aquele copo onde não falaremos de nada mas viveremos tudo.

Não obriga a horários, exceto aqueles que de comum acordo definirmos, mas tem uma cadência, quase impercetível, um ritmo que nos sustem. Por isso quando eu falho um passo me sinto culpada, mesmo que tu não queiras.

Nestes quase dois meses de ausência de diálogo por esta via, privilegiámos outras formas de comunicação. Uma delas foi o respeito pelo silêncio do outro. Quando alguém começa a falar, a expressar-se, seja em que tom e de que maneira for, ninguém sabe quando vai acabar. Também ninguém sabe quando o silêncio acaba. Ele tem o seu próprio tempo e escolhe terminar quando o ar começa a faltar e as palavras voam soltas pela boca. Escorrem, saltam, explodem, às vezes.

Vou falar um pouco de tudo o que gira à minha volta: alguns vazios que vou preenchendo como posso. Uma filha que cresce depressa demais. E bem, direitinha e formosa. Uma ausência de objetivos concretos que me deixa insegura, uma obsessão pelo rigor que me deixa sozinha.

Eu adoro cumprir horários e urdir compromissos. Gosto de certezas, mesmo que sejam pequenas, a curto prazo, só no aqui e no agora. Eu lido mal com mudanças repentinas, trapalhadas, mensagens confusas, intermitentes, ambíguas, suspeitas.

Eu preciso do tal bom dia caloroso e carinhoso, mesmo que seja o começo de um hábito; o hábito é uma pele quentinha que vestimos e nos acalma a pulsação.

A minha produção tem sido escassa e irregular. Com fases em que fluem ideias e palavras, nem sempre ao mesmo tempo. E com períodos de vivências intensas, doces, amargas, surpreendentes, assustadoras, lúdicas, secretas, arriscadas, exuberantes. Viver intensamente nem sempre é viver bem. Queria morar naquela sinusoide que nos diz que está tudo bem, pelo menos a curto prazo. Mas ela não está lá e as arritmias são genes da criação mas não de bem-estar.

No meio de tudo isso tenho “as minhas pessoas”, fabulosas, que me amparam as quedas ou me retiram os espinhos do chão. Por pudor não queria dizer que tu, Viana, és um dos pilares dessa tribo, aquele que tudo faz pelos seus. Mas afinal acabo por não conseguir esconder-to.

As tuas palavras são as tais terapias que acalmam uma angina e uma forte tensão no trapézio. São um bálsamo. Nada mais temos do que a palavra, por isso tendemos a sobrevalorizá-la, pois ficam de fora os abraços e as conversas de fim de tarde, a troca de discos, os passeios ao ar livre, a ida ao cinema.

Falando em passeios tenho feito caminhadas brutais na minha cidade, uma experiência nova, não as caminhadas, mas a sua intensidade, extensão e grau de complexidade, pelo relevo do terreno e pelas vias atravessadas. Percursos de 7 a 8 quilómetros em terreno acidentado. Uma experiência vivificante. Não é milagrosa, ainda, mas lá chegaremos, é esse o objetivo. Regula o sono, permite colocar as ideias em dia e olhar a magnífica paisagem que nos rodeia há décadas e na qual não tínhamos ainda reparado com o devido respeito. Olhar com olhos de ver. É essa a finalidade, um exercício de contemplação, para dentro e para fora.

Parece simples, mas não é. Mudar pequenos hábitos, e substituir rotinas por outras mais saudáveis e prazeirosas. Ler tenho lido pouco, por incapacidade de absorver todas as palavras e todos os seus sentidos. Estou mais predisposta agora a vivê-las, às palavras, para que elas depois adquiram significados novos e sejam contadas. Por mim ou por outros.

Às vezes zango-me comigo, outras com os outros, as minhas expectativas são muito elevadas, o meu grau de exigência é imenso, incluindo comigo. Vou-me tornando intolerante em relação à maldade travestida de inocência, de incoerência, de simpatia.

A minha legendária cordialidade tem ficado submersa diante da expressão de outros sentimentos. Não quero parecer boazinha, pois na verdade nunca o fui. Talvez isso me traga alguns dissabores, talvez me ajude também a ver mais claro.

As festas de fim de ano vieram trazer muita azáfama à maior parte dos lares e cidades como a nossa, por questões logísticas, mais do que por qualquer outra coisa. Não gosto particularmente deste estado de coisas; a solidão pesa mais nestas alturas, não forçosamente para quem está só, mas sobretudo para quem se sente só.

Já passou; ouso dizer, ainda bem. Uma árvore de Natal e um presépio fazem-me perceber que esta época deveria ser algo mais íntimo, vivido com muito maior profundidade.

E tu, como tens vivido esta época tão cheia de contradições?

Da última vez falavas-me de solidão, diz-me, ela tem sido boa companheira? A minha, quando aparece, é uma persona incómoda, desagradável e espaçosa. Eu tento abreviar a sua visita mas ela é insistente e abusadora. Tenta ocupar um espaço que não lhe é destinado, interfere na conversa com os amigos, rouba tempo ao repouso e prazer aos momentos de lazer. É má conselheira e meio doida. Às vezes quer-me levar para dançar, outras faz-me ser excessiva e incorreta. Deselegante. Eu suporto-a porque ela é família; bem ou mal, é a única que fica quando os outros partem (mas entre nós, queria mandá-la para bem longe, junto com as suas manias). Se quiseres eu mando-ta para aí, para veres que não estou a exagerar.

Viana, eu quero saber tudo de ti. O que tens feito, como te sentes em relação a tudo, de que cor são os teus dias, como é o vento que bate na cara quando andas de moto. Do convívio com os pais às aulas que dás, quero saber tudo sobre ti, não em tom de interrogatório mas por interesse genuíno. Amizade.
Diz-me o que achares que eu devo saber, sem invadir o teu espaço.

Um beijo grande já esperançado numa resposta tua em breve, cheia de peripécias com cheiro e música.

Eu tenho saudades. Muitas, já.

Até breve,
Clara.

Lisboa, 3 de Janeiro de 2016.


*


Boa noite, Clara. Tão bom rever você em forma de carta, missiva esta que atravessa os infindáveis oceanos atlânticos de nós todos e termina por chegar aqui, nesta Iraquara chuvosa dos últimos dias de 2015 e dos primeiros de 2016, numa parcela da Bahia que há poucos dias estava a arder em chamas miseráveis e infernais, num incêndio que dizimou muito da natureza secular do Parque Nacional da Chapada Diamantina.

E por falar em formalidades, Clara, como vai você? Gosto-te tanto! A saudade de te escrever já estava imensa e quase sufocante. Mas que bom que. Como bem lhe falei nas linhas acima, estou a passar alguns dias em férias na casa dos meus pais, em minha pacata cidade natal, lugar de reminiscências múltiplas e de guardados imperiosos de nostalgia. E por falar em caixas e caixotes, veja que escrito lindo encontrei por cá numa dessas minhas tardes iraquarenses em vasculhamentos de biblioteca própria...

Não é de se embonitar toda a alma um excerto de texto perdido no meio do nada-tudo feito este, que nos acomete quando a gente se aproxima do passado, presente ou do futuro de nós mesmos? Eu, particularmente, ganho o dia quando descubro estas pequenas pérolas de humanidade entre as páginas dos meus dias. E você, Clara, gosta tanto de surpresas quanto eu? Conte-me, pois.

Eu também me abri a novas experiências saudáveis, Clara, desde meados de 2015. Passei a frequentar uma academia que fica ao lado do prédio onde moro. Lá, corro, ando de bicicleta ergométrica, pratico musculação e, ainda, karatê com a turma do sensei Assis – parte esta minha preferida. As artes marciais sempre me fascinaram, desde muito pequeno. Quando no início da adolescência, pratiquei Kung fu, arte marcial de incrível beleza. Foi um tempo maravilhoso e inesquecível. As aulas aconteciam no antigo Clube Social de Iraquara, com um trio de professores de origem nipônica. Você já praticou alguma arte marcial, Clara? Quando você escreveu sobre seus passeios quilométricos, lembrei-me logo do escritor Mario Vargas Llosa, que também tem tal costume, que desempenha logo no período das manhãs - li isso numa entrevista em algum jornal.

Você tem razão, Clara. A solidão, essa secura por dentro, aquela sensação de arrasto que nos dá por longas horas e mais a fundo, parece mesmo ser mais próxima a estas datas de fim de ano. Nem as curto como a maioria das pessoas. Natal sempre significou para mim uma já batida ceia noturna com meus pais ou parentes próximos. Virada de ano, a mesma coisa. Nada de pompas em festas mirabolantes e de significados turvos. Apenas respeito. No mais, vivo estou. Com algumas tarefas a cumprir e outros sonhos a realizar. Escrevo-te da garagem de casa, com meus pais na sala a conversar e uma chuvinha fina “molhadeira” a banhar o solo de meu coração. E, faça-me o favor, não me mande a tal da solidão. Que fique longe de todos nós, apesar dela em quandos necessária.

A matar saudades verbais, um fiel Viana amigo.

Iraquara-BA, 07 de janeiro de 2016.


********

Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.

Quebranto de quintal



Por Germano Xavier



O rosário pendurado na cama,
a santa torta no oratório de madeira pobre,
alfazemas, fitas, búzios, terços plásticos,
águas bentas, óleos milagrosos, mãe Terezinha no acodimento,
pequenos quadros expondo o vermelho coração de Jesus,
quinquilharias e badulaques oprimindo um ar de manhã
e um demônio preso no homem mudo...

Como se nenhum labirinto fosse tecido de um espelho
a alma se entorta, o corpo se entorna
girando em círculos, o Aleph de D. Maria, sua verdade
que encontra o ponto e enfrenta
o universo do desconhecido
que há numa Ave-Maria.

Vai-se ao quintal buscar o ramo,
os cinco galhos da pequena planta,
verdes, tal rudes naturezas próprias, volta,
“Faz o Pelo Sinal, meu filho”,
que é pra quebranto,
faz o que se sabe agora que tudo é de bem.

D. Maria arrebentando tudo, jogando pro rio o malogro,
o azar e o norte ruim, olho-gordo, moleza e desespero...

pras ondas do mar e onde corre este mar de ruindades?,
pras nuvens do céu e onde existem estes céus tão sujos?,
pra ir embora e murchar o ramo e por que desbota o ramo?,
de uma vez por todas, do interior...

“Valha-me Deus, Senhor!”,
tem um coisa ruim!, ela sabe, bota pra longe!,
bota pra ir embora, D. Maria, reza mais forte,
e ficais tonta, ficais!, tu e todos vocês,
que temo por demais carregar dois deu.


Imagem: Arquivo próprio.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Espelho das chagas

*

Por Germano Xavier

para Zé do Bode, in memoriam


morre-se, docemente,
diante das negras águas
do Rio Mucugezinho


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Blossom-at-the-River-s-Edge-407950064

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XLII)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Carbono


Carbone

nous n’y arriverons pas tous seuls
car nous aurons peur sur la route

nous tisserons des louanges aux chants de fiction
aux contes
la réalité nous nourrira
et les divers moyens de communication
nous donneront le ton, les lettres
acculturées, décousues

(nous semblions au départ un pari difficile :
le jour s’adoucissait dans la langue d’une femme
et dans l’abîme des allotropies de la chair)

nous étions ceux que nous sommes devenus
graduellement
suite à des pas successifs de génie
à chaque pleur
des mouvements de rames

nous avions bu la sève, le fiel et l’eau
nous avons été forts dans l’ombre
et subi les épreuves de cette dure école :

la violence des courbes de la route
[que nous avons choisies]
est toute une théorie téméraire

/un nuage sous forme de flèche
celui qui témoigne un ciel voilé
la nature elle-même qui se cache
la fleur qui naît sous le ciment/

nous n’y arriverons pas tous seuls
car la solitude n’aura jamais le dernier mot.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Un-Real-36191927

domingo, 3 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XLI)

*

Por Germano Xavier


Domingo, 22 de Novembro de 2015
Um turno comigo


Monologue

je découvre le matin, le soleil déjà si haut
- je m’enfouis surtout en moi-même.
à midi je jour s’habille d’ivoire.
je me meurs lorsque je pense
que des jambes se plient
(le danger étant immense !).

Je me vois affaibli
et je me sens moins homme.

l’équinoce
(certaines choses sont sans pareil)
- et dans moi, si un conflit éclate
je suis un étranger vis-à-vis de moi-même.

si je pouvais partir, quel châtiment !
si je pouvais m’éclipser de ma route
me casserait-je en hémisphères
ceux que je porte en moi
cette partie autre et étrange,
comme un ennemi?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Vortex-582079433

sábado, 2 de janeiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XL)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Sexta-feira, 13 de Novembro de 2015
Danação

La furie

l’écrivain, lui, ne peut que très peu
[mais celui qui peut, un tant soi peu, pourra tout faire]
les mots sont en eux-mêmes une école d’univers
le texte est comme les battements de l’os
et dans l’os et ses dérivations nous écrivons de la musique
en noir & blanc

un récit est aussi puissant que l’océan
en lui nous essayons de nous placer
et d’exister (être le meilleur poème étant si peu…)
la portée du poème peut faire mal
il n’aura peut-être pas de temps
ni de place
ce qui est bon ne sera jamais que l’idéal

nous sommes un don
nous sommes celui qui travaille

ce qui est possible a une aura dorée
ce qui a été fait pourra être défait
comme dans un visage où l’on dessine plusieurs nons

le verbe, lui, il peut beaucoup
celui qui peut beaucoup peut presque tout
(rappelons-nous du monde, si vaste, si grandiose)
et moi, j’en suis sûr, je choisirais d’être le Roi.
E alors je m’incline et je note, tout simplement :
Oh, quelle furie !


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/image-581845310