quinta-feira, 10 de maio de 2012

Cidadão Kane (uma impressão)



Por Germano Xavier

A vida de William Randolph Hearst, tido como o criador do "jornalismo amarelo" ou sensacionalista, transformou-se no pano de fundo ideal para a montagem do filme "Cidadão Kane", dirigido por Orson Welles, que também exerceu o papel do protagonista (Kane). O filme não chega a ser considerado uma biografia cinematográfica do empreendedor e milionário norte-americano William R. Hearst, pois deixa transparecer enormes discrepâncias entre a vida de Hearst e a que é mostrada na película, principalmente quando se trata da sua infância. Todavia, "Cidadão Kane" é uma produção que escancara alusões fortíssimas ao magnata da comunicação.

Numa trama que revolucionou a maneira de se produzir cinema em todo o mundo, Welles, utilizando-se de inovadores elementos e de novos métodos, como o uso de "flahsbacks", acabou por fomentar também um novo cinema, mais dinâmico e ousado. O longa tem cenas duradouras e sem corte, sombras, tomadas de baixo para cima, distorção de imagens com a finalidade de aumentar a carga dramática, e muitas outras novidades que fizeram de "Cidadão Kane" um dos filmes mais bem elaborados da história da cinematografia de todos os tempos. Bastante elogiado e dono de inúmeras críticas positivas, o trabalho conta a trajetória do empresário da imprensa Kane, que é reconstituído através de uma minuciosa investigação feita pelo repórter Thompson. Esse, durante todo o transcorrer da encenação, tenta desvendar o possível significado da derradeira palavra pronunciada por Kane: "Rosebud". O repórter consegue entrevistas marcantes e fundamentais com pessoas que fizeram parte do círculo pessoal do empresário.

Através dessas entrevistas, Thompson foi capaz de traçar um perfil detalhado de Charles Foster Kane. O "Cidadão" teve uma infância pobre (enquanto que a infância de William fora recheada de regalias), mas torna-se herdeiro de uma verdadeira fortuna. Depois de ter experimentado investir o seu dinheiro em diversos segmentos do mercado, Kane resolve dedicar-se a um dos negócios menos rentáveis e seguros da época: um jornal impresso convencional e de pouco prestígio. Dono de uma ambição de proporções colossais, mascarada, de certa forma, por uma perturbação interna, Kane realiza uma de suas primeiras ações tendo em vista o progresso de suas aplicações: contrata "estrelas" dos jornais concorrentes, trazendo para o seu domínio a maior "artilharia" jornalística daquele momento.

Está germinado aí um campo propício para o desenvolvimento e atuação de um jornalismo mais agressivo e com fundamentos sensacionalistas, que acabou por provocar uma onda de discussões e de questionamentos condizentes à sua valia para a sociedade. Com o passar do tempo, Kane perde suas maiores virtudes e passa a transparecer mais defeitos que qualidades. Com a sua morte, renasce o sentimento de poder, de construção de sentido da imagem, uma vez que a nação entra em colapso, e morre também uma grande parcela daquele sentimento que nele era tão aflorado. A nação se comove, a nação pára. Num esforço metalinguístico, "Cidadão Kane" esclarece um pouco do idealismo norte-americano, retirado de uma vida bastante atribulada, de conquistas e de fracassos, guardando o ilustre título de ser uma das obras primeiras do cinema mundial.

3 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Last Year's Responsability
by ~Dead-Hat"

Deviantart

Anônimo disse...

Caro Mestre,

Bela análise dessa que é, ao meu ver, um dos marcos do cinema mundial.Argumentos tão bem entrelaçados fazem da sua "resenha" (se assim posso chamá-la) um retrato fiel do perfil de "Cidadão Kane".

Parabéns!

Emerson Costa

Júllio Machado disse...

Nunca tive a oportunidade de ver esse clássico, mas infiro que é um filme indispensável para muitos que fazem parte da área de comunicação.
Isso me leva a refletir, ainda que clichê, quanta coisa interessante nos escapa por termos tão pouco tempo... ("tanto pra conhecer,e, tão pouco pra se viver"...)
Abraços, professor!