quarta-feira, 30 de maio de 2012

Um estudo sobre quedas e apogeus



Por Germano Xavier

A produção da ciência histórica baseada em linguagens e comunicação 

A construção conceitual do termo "História", assim como de tudo aquilo que por ela é envolvido, fundamenta-se na ideia de que esta expressão participa muito naturalmente da organização instrumental-metodológicaque legitima esta “Ciência do Tempo” e que sobremaneira é usada pelos indivíduos no objetivo de criar um "ambiente" propício ao desempenhar de tarefas-ações as quais os procedimentos do historiador se destinam, sempre em busca de cumprimentos e realizações plausíveis para a ordem de seus estudos e pesquisas. 

Deste modo, o conhecimento histórico, para se fazer vivo em todos os seus meandros de atuação, utiliza e, mais do que somente isso, necessita estruturar uma dada realidade relacionando-se com o outro, com o que é apenas objeto ou com o que não é concreto, partindo sempre do pressuposto de que para isso é preciso dialogar com todas as formas possíveis de linguagem para se gerar uma comunicação de boa credibilidade. 

Estudar a mecânica física e simbólica da dinâmica linguístico-comunicacional utilizada pelo estudioso Gilvan Ventura em seu artigo intitulado “O fim do mundo antigo: uma discussão historiográfica” é se tornar sabedor de que há sempre um viés diferente que permeia a elaboração de situações reais/históricas, assim como cognitivas e operacionais a partir da interferência do olhar do historiador, que é afetado por vários aspectos, nunca sendo algo estático ou jamais passível de sofrer variações. 

O indivíduo, ou seja, neste caso a figura do historiador, estrutura uma respectiva realidade no intuito de "desproblematizar" algo, de ir adiante numa percepção, de alcançar objetivos com interesses diversos e, assim, poder superar os obstáculos aos quais se encontra imiscuído. Portanto, História e Linguagem se misturam principalmente quando na esfera de fabricação dos significados, pois, como sabemos, os indivíduos-historiadores dialogam com forças e necessidades quase sempre adversas, ora simples ora complexas, para depois agir sobre o meio e produzir a ordem histórica desejada, sempre levando em conta a atualidade de seu tempo histórico. 

Para isso acontecer sem maiores dificuldades e empecilhos, a linguagem acaba atuando no desbloqueio de tensões com fronteiras espaço-temporais. Em outras palavras, toda comunicação e toda linguagem produzida pela ciência histórica é o conjunto sistemático e estrutural de manifestações coletivo-individuais que, motivadasou não, prepara o indivíduo para que ele entre em contato com inúmeras interações e jogos relacionais, gerando ferramentas de apreciação e efetivando ações sobre determinados meios com fins justificados pelo passado, pelo presente e também pelo futuro da condição humana. 

Para entendermos melhor tal fato, é preciso perceber a linguagem como sendo um instrumento de base comunicativa, ou seja, que produz comunicação. Sendo assim, é preciso muito cuidado com o trato que damos em nossas pesquisas, a ponto de não sermos prejudicados ou mal-entendidos por uma ou outra expressão mal colocada. É preciso controlar o uso de pensamentos e ideias nascidas em ambientes pouco confiáveis, como os meios televisivos e, em maior grau, a internet. 

Um bom historiador é aquele que investiga a fundo tudo que almeja dizer, ou melhor, tudo aquilo que pretende transformar em comunicação por meio da utilização da linguagem, seja ela verbal ou não verbal. Até porque, aquele que estuda a História é ou será fundamentalmente um informador/formador de opiniões, e que deve ter em mente que a linguagem expressa também nossos pensamentos (e sentimentos), o que poder ser muito perigoso. Resumindo, ser o mais imparcial possível e atender as reais expectativas científicas ainda é, talvez, o segredo de um bom trabalho nesse âmbito. 

Todo “Tempo Histórico” possui sua forma peculiar de ser analisado, discutido, criticado e divulgado. O mito foi uma das primeiras formas encontradas para se tentar explicar os fatos referentes ao homem e a sociedade da referida época. Após o uso extensivo da mitologia, logo a Filosofia surgiu como um contraponto nesse cenário. 

O pensamento filosófico ajudou o ser humano a duvidar e a conhecer as grandes implicações das sucessividades que envolvem a narrativa pertencente ao homem, bem como auxiliou no aprofundamentoreferente aos conhecimentos dos grandes textos e das estruturas linguísticas que traduzem as mais diversas narrativas de ordem moral, social e ética que objetam garantir a nossa formação enquanto atores sociais e sujeitos históricos capazes de agir com adequação no intuito de formular uma sociedade melhor e mais justa. A filosofia fez com que a linguagem tomasse outros ares e o processo de significação das coisas fosse totalmente ressignificado. 

Foi justamente após a implantação do pensamento filosófico que o homem começou a sentir uma urgência em discorrer sobre quaisquer processos históricos cuja base fossea doconhecimento/consciência, e é essa a maior contribuição da Filosofia para com a pesquisa historiográfica. Exemplos não faltam para elucidar isso. Santo Agostinho, por exemplo, confiava na força da memória a ponto de relatar que a memória era o elo entre o passado e o presente, já iniciando alguns dos preceitos mais importantes do conhecimento histórico. Ao dizer que não existia passado nem futuro, e que o presente era apenas uma cadeia de instantes que vão se desgastando numa velocidade muito alta, Agostinho preconizava um dos itens mais vivos da historicidade, que é justamente esta ligação com os três tempos: passado, presente e futuro. 

A filosofia crítica, por sua vez, costumeiramente enveredou-se também no que se refere à autenticidade da “História”, já que para essa linha de pensamento a nossa história está permeada e naturalmente misturada às lutas de poder –fato que faz com que haja uma espécie de separação entre aquilo que é teoria e aquilo que porventura esteja no campo da prática- isso por causa dos interesses particulares de uma determinada elite ou classe social, o que não raro acontece neste processo todo. 

Então, partindo desse ponto de vista, a "História" nunca é contada avaliando-se o todo, mas apenas uma parte desenvolvendo uma teoria onde não foi pensada a prática dessa teoria. Marx Horkheimer e Teodor Adorno - só para citar dois exemplos -, estudiosos da Escola de Frankfurt, tecem muitas ideias com relação a isto. A filosofia busca generalizações de caráter universal, que seriam verdadeiras em todas as épocas e lugares, eis o mistério de toda a sua grandiosidade e fator maior de sua relevância para todos os campos de produção de conhecimento, incluindo o histórico. 

O filósofo, assim como o historiador, tem mais abertura para trabalhar com distinções analíticas, o que acaba favorecendo a construção de argumentos para depois efetuar críticas. Destarte, o historiador sempre almeja produzir uma investigação anteriorà composição das narrativas históricas, na qual investiga as fontes e recolhe dados, preocupando-se em fazer com que sua produção criativa não seja prejudicada durante alguma etapa do processo de fabrico do texto. 

Por sua vez, o filosofante deixa de lado toda espécie de estudo de caráter premonitório ou anterior, interagindo mais com aquilo que podemos chamar de problemas e, por conseguinte, de soluções. Diante disso, percebe-se através de inúmeras fontes de pesquisa que a atividade crítica é uma atividade mais ligada ao filósofo, porém o historiador não está impedido de tecer considerações nesta linhagem. Fica evidente que a interação entre estas duas disciplinas (ciências), a história e filosofia, tem raiz profundamente interdisciplinar e que o estudioso que desenvolve qualquer um desses caminhos está condicionado a utilizar ora o método histórico, ora o método filosófico, já que somente assim faz-se possível adentrar numa análise mais perto da perfeição acerca do fenômeno científico que porventura esteja sendo estudado. 

Com relação ao terceiro questionamento objetivado pela orientação a que nos foi dada, é possível perceber que o historiador Gilvan Ventura, ao criticar a colocação e uso de expressões como “queda” e “declínio” para elucidar o processo de “derrocada” que se abateu sobre o Império Romano tem uma razão de ser muito factível. Falar em “declínio” e/ou“queda” pressupõe ter havido um auge e/ou uma ascensão, ou para completar o pensamento, pressupõe ter havido um momento mais ou menos fértil-produtivo. Ou seja, o uso de tais termos serve para contrapor a ideia de auge e ascensão. 

Trata-se de uma ideia de valoração do estado anterior. É razoavelmente compreensível a facilidade para que se questione essa valoração, uma vez que “queda” e “declínio” levaram a transformações da organização social, política, geográfica da sociedade - e do mundo até - ocidental. Para valorar é preciso julgar algo em relação a alguma outra coisa – a bem da verdade é que o que se questiona é a legitimidade desse julgamento e quem pode fazê-lo e alegando o quê, a partir de quais elementos. Para isso, cabe perguntar também: Que paradigmas foram banidos nesta avaliação? E qual a causa? 

Talvez, como preconiza Gilvan Ventura em seu artigo “O fim do mundo antigo: uma discussão historiográfica”, a escolha pela utilização de tais termos sirva apenas para designar uma fragilidade apresentada em relação à segurança, economia, política e/ou capacidade de se manter no mesmo ritmo de crescimento - o que podemos classificar como sendo o apogeu. Por mais que pareça exagerado, rigoroso e fatalista demais, os termo “queda” e “declínio” remetem a um fato, pois há essa relação. As fragilidades a que os termos se referem levaram realmente o Império ao fim - ao menos ao fim de como tudo era antes configurado.

Um comentário:

Germano Xavier disse...

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"ROMA
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