quarta-feira, 16 de maio de 2012

Póros de janela



Por Germano Xavier

Por onde passam todas as coisas do mundo e todas as visões de um E.T.A. Hoffman destituído de pernas simplesmente enxergando o que se passa por todas as coisas do mundo e onde estão, diz a mim, onde estão todas as coisas do mundo?, por favor, diz a mim, eu te faço a pergunta, eu faço a pergunta, sou eu que faço a pergunta e eu sei que devo ficar aqui. Meu ficar extrapola meu próprio ficar. Eu sei que devo ficar aqui e olhar os olhares que irão me olhar a partir do momento que eu mesmo começar a olhar pela primeira vez estas coisas todas que funcionam em mim como extremas novidades ou possuem o dom de me parasitarem. Parecem ser todos os olhos do mundo me olhando ao mesmo tempo os poucos-muitos olhos que estão a me olhar. Eles não olham apenas, eles me observam, eles me afundam e me corporificam. Aliás, eles me espiritualizam. Perfuram a carne pouca que me protege parcialmente de todas as coisas que podem vir a me atingir, isto é, de todas as coisas do mundo. Afinal de contas, eu posso ser mal. Afinal, sou um homem e posso ser mal. A maldade está no homem e em nenhum outro lugar. Não é de agora que sei do que um simples homem é capaz de fazer se conhece de fato o que é a maldade. Não, vem de muito tempo a sabedoria que tenho sobre o que é capaz de fazer um ser humano. Eu já fiz muitas coisas e também já usei de minha maldade. E de todas as coisas do mundo (a maldade é uma delas), eu não conheço uma sequer que não modifique mesmo um pouco que seja um humano ulterior interior. Porque todas as coisas do mundo nos fazem mal, ou bem. Depende de tudo e de qual seja a coisa que esteja em jogo. Todo homem tem seus dois lados. Tipo moeda. Todo homem pode ser bom e pode ser mal. Cara ou coroa. E no fim de tudo, eu nunca fui de me reclinar diante de olhares desconhecidos. Eu vou ficar porque preciso. Ficar para sempre, talvez. Ficar para sempre, é certo. Há certas qualidades de verdade ou de certeza que só se fazem a dois. É o caso. Parece o caso. Não é caso. Pode ser descaso. Pode ser tudo. Pode ser nada. Eu sei, é alguma coisa dentro de todas estas coisas que o mundo agrega, incluindo neste todo magmático a minha nova janela. Conto mais de duas dezenas de pequenas frestas a dar sentido a minha nova janela. Minha nova janela é branca e se abre em duas metades, em duas bandas, mas eu sou um só inteiro quando chego em casa, i.e., na maioria das vezes. Mas eu também sei me despedaçar feito um quebra-cabeça difícil de montar. Prova disso é quando acho-me no direito de me economizar perante o mundo. Ninguém decide montar um quebra-cabeça quando sua cabeça está leve e bem acondicionada no tempo. A gente só monta um quebra-cabeça quando nossa própria cabeça parece estar quebrada. É quando eu decido ficar em partes, partido, e assim me parto em outros tantos, fragmento-me até o máximo possível, feito aquela partícula diminuta e absoluta muito menor que o átomo que nunca termina de se repartir em duas partes. Quando me parto eu me torno a coisa do mundo que não se reparte nunca. É uma experiência essencial. Não tem receita. Eu gosto de ser a partícula absoluta, a que sempre chega perto do fim de todas as coisas do mundo. Viver para mim é isto: chegar perto de todas as coisas do mundo. Beijar a face de todas elas, tocá-las, fazer amor com todas as coisas do mundo, senti-las profundamente, desnudá-las, fotografá-las e pô-las na memória imemorial que possuo, que possuímos, todos, sem exceção. Minha nova janela tem quatro ferrolhos e me deixa ver o alto das casas, coisa que não se enxerga fácil quando passamos andando pela rua de qualquer lugar. O que eu tenho com janelas? Eu não sei. Apenas tenho a impressão que do outro lado das janelas há sempre uma coisa de que não tenho e que me faz muita falta. O quê? Outra pergunta. Eu não sei. Janelas guardam mistérios, ocultam outros, traem nossos olhos, disfarçam aparentes impérios e mentem proximidades com o que é céu. Mexe comigo a idéia de que a minha janela branca e nova contando mais de duas dezenas de pequenas frestas possa estar a esconder algo importante de mim. Dentro do conjunto de todas as coisas do mundo há sempre uma coisa mais importante que outra. E é justamente esta coisa mais importante que outra que nos movimenta, que nos tira a condição estanque e nos obriga a caminhar na direção do conhecimento. Penso que somos aquilo que conhecemos, aquilo de que tivemos a chance de beijar a face mesmo uma curta vez na vida e que no momento do beijo permitimo-nos ser a importância daquela coisa em nós, naquela ocasião ou circunstância. O que seria importante para uma janela segurar? Sou eu que pergunto agora. Um pote dourado no fim de um arco-íris nascido após uma chuva fina? Um mapa de algum tesouro descrito em algum livro de aventura escrito por um famoso homem inglês do século passado? O que uma mísera janela pode com um ser humano? Quer saber, eu sei. No fundo eu sei. Mas eu não vou contar. Por detrás de uma janela há tanta coisa, tanta, mas tanta coisa. Basta abri-la e olhar.

3 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Don't forget your slippers
by *anaisroberts"
Deviantart

Controvento-desinventora disse...

Da minha janela te vejo e revelo meu olhar. Nos céus da minha janela penso ser única a olhar nos teus olhos, cega de te ver, mas os olhares também como os átomos se multiplicam...Ninguém possui um olhar de si-mesmo, mas um ensimesmado olhar pode ver a janela fechada, lá dentro, atrás dos olhos que não quer abrir. Ou, quiça, quer entre ver e olhar, ficar na fronteira, enchergando com olhos alheios.
Adorei esse texto!

Controvento-desinventora disse...

"enchergando" mesmo...