domingo, 13 de maio de 2012

Mães em um domingo



 Por Germano Xavier

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suspeitável - é assim mesmo; conheci pessoas interessantes, daquelas que almejam um objetivo na vida. Muitas, no entanto, só fizeram firmar a certeza de que as velhas amizades devem ser preservadas; algumas são, sem dúvida, promessas de eternas amizades. No entanto, muitas pessoas só fizeram firmar a certeza...

Domingo fechado.
Acordei cedo e todos deitados. Meu irmão iria hoje. Outros também iriam. Sempre irão, é uma verdade nossa. Tive uma péssima noite de sono. Deve haver alguma coisa de errado comigo. Meu pai me ofereceu uma cápsula bonitinha, azul e amarela, mas não tomei. Sou avesso a qualquer quinquilharia que apresse o fim de uma naturalidade. Eu tinha alguma espécie de dor naquele instante, e nenhuma vontade de exterminá-la. Preferi o suco feito com três limões espremidos e sem açúcar que me veio logo depois. Aqui em casa todos ficam decaídos quando alguém parte ou vai partir. Menos eu. Bem acho que meu condão não é feérico. Sou insólito, talvez imundo. Sem mundo, mas humano. Sinto dor, sou humano. Devo me lembrar disso, pelo sempre. É Parmênides gotejando ácidos contra mim, ferindo-me, untando-me com óleos em fogo, queimando-me, avisando-me sobre minhas fraquezas - ou seriam franquezas? Não estou arejado hoje, apesar da clareza do quarto onde estou. Lá fora um servente muda de lugar blocos e mais blocos para uma pequena reforma na sala. Sinto-me artífice de um tempo de que não participo veementemente. Mas são apenas impressões minhas - e já cansa, pelo excesso. Por favor, não se preocupem com elas.

Envio-lhe esta carta com atraso porque estava esperando chegar aquele envelope. E para finalizar, nada mais oportuno do que uma citação do imortal... (rasgo no papel)... - Ao chegar, entrarei em contato. Se me deres licença, queria contar-lhe a história. Aproxima teu ouvido dos meus lábios e não perca estas palavras.

"Você me pede que inicie um discurso; eu realmente não sei por onde começar, é bem verdade que estes dias de marasmo me deixam muito preguiçoso, principalmente para criar. Pensei em escrever um poema, porém um poema comum. Na verdade pensei em escrever - lendo sonetos - um anti-soneto, mas entre o pensamento e a ação vai-se uma distância medonha. Seria, na minha idéia, um anti-soneto rodrigueano - em apologia a Nelson Rodrigues -, e fica pois o desafio lançado, se tu quiseres abraçá-lo, fique à vontade, a única coisa de que precisas saber para colocar a idéia em prática é a estrutura do soneto (rimas, versos), colocando-os sempre às avessas... (Rasgo no papel, um sujo)...

Estes dias iguais me acomodam, me deixam ainda mais preguiçoso do que já sou. Tenho plena convicção, porém, de que esta não é a rotina que um estudante universitário deve exigir de si, por isso muitas vezes sinto aquela necessidade biológica de ir em busca do conhecimento em outra "freguesia". "Quem sabe faz a hora" - eis um dos dizeres mais certos que existem -, e eu complementaria indagando: quem sabe não é a hora de fazer alguma coisa interessante? Esta pergunta deve ser feita por todos os jovens adultos e idosos do mundo que almejam um objetivo na vida. Esses dias iguais me incomodam, e de repente não me dou nem conta de que já se passam dias e dias... O interessante é que sempre que saio acontece algo de diferente, o qual sempre vem acrescentar experiência à vida. Realmente o saber das ruas, da labuta do dia-a-dia, é sempre um saber indispensável, e que poucos livros podem oferecer na solidão de um quarto, com toda a sua paz melancólica advinda de um isolamento voluntário. Por isso, meu caro amigo, saia às ruas e ouça o que o monstro - o povo - tem a dizer. "O jornalista tem de saber dialogar com todas as classes", eis o que ouvi quando conversava com um comerciante dessa cidade. O saber dos livros é precioso, pois perpassa às gerações de forma integral - conhecimentos construídos durante um período histórico -, e o saber do povo é valioso, pois além de ser matéria-prima para a criação, é a afirmação da vida enquanto tempo, marca definitivamente a certeza de que estamos vivendo, é o tempo, o que marcou a nossa efêmera passagem sobre a terra.

Juliana, perdoe-me qualquer ausência que causei em seu mundo, a gente às vezes vai empurrando o tempo com a barriga, adiando coisas inadiáveis. (Conheci pessoas interessantes, daquelas que estão sempre almejando um objetivo na vida). Muitas vezes não nos damos conta da importância que representamos para outras pessoas. Aprendi com uma segunda leitura do Pequeno Príncipe, que decisivamente "nos tornamos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos". Sinceramente, não me dei conta de que se passara oito meses desde o nosso último ... (Rasgo no papel)... o, mas com certeza estes meses não são os mesmos com que se embalam uma criança, tal a sua presença espiritu... (Rasgo no papel)... último encontro muita coisa aconteceu; ...(Linha tracejada em sentido reto, como que acertando um possível erro)... Fernando Sabino, um dos meus escritores preferidos, veio a falecer; completei u... (Rasgo no papel, final de página)... e meio; dizem que o primeiro...

Havia mais de uma mãe no meu domingo.

3 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Four Strong Winds by ~vulezvrk"
DEviantart

Catia Bosso disse...

Respirando fundo e tomando fôlego... Em meio a tanta poesia, acordar e ler um texto assim, causa fadiga na alma, mas desperta...

bj.

Letícia Palmeira disse...

Da primeira vez que li este texto (há dois anos, creio eu), não lembro o que me passou pela cabeça. Dois anos é tempo demais. Ou não. Hoje eu leio de novo e não me lembro de certos trechos. Mas lembro de seu estilo de enfiar poesia (sei lá de que forma) dentro de uma narrativa fechada (prosa). Este dom é para poucos.

Nos últimos dias, em minha permanente luta pela sobrevivência neste mundo matemático, tomei como verdade algo que assusta os mais práticos: Não há tanto a se viver além da literatura. Daí, assumo o meu papel Bovary de ser. O mundo é cansativo. Livros não são. Ler faz a gente viver de forma mais ampla e suportar a vida rasa que não deixa ninguém satisfeito.

Seu texto me trouxe à tona este meu pensamento.

E seu personagem preguiçoso zomba dos que almejam objetivos. Meio Édipo se passando por Narciso. Sempre superior.

Gostei muito das muitas mães em um domingo.