sábado, 29 de outubro de 2011

Realidades essenciais


Por Germano Xavier 

“As coisas falam. Eis o indizível.”
(Afonso Felix de Sousa)

Move o teu moinho, sonhador
e errante e vazio, das frouxas potências
sempre repintadas, e afoga-te
no teu soluço e – ai! – nas lufadas,
anteriores ao teu próprio espectro,
do teu deambular sozinho.
O humano é quando cristal o pranto,
caído em ondas. Colhe, do teu olivedo
mais sofrido, o instante íntimo
de sazonar-te. E singra-te,
sem medo, no mar do teu silêncio,
que a poesia da vida é dura,
meu caro, pétrea.
Roda tuas pás, teus ferros de tanta dureza,
mesmo ao vento, quase sempre tácito
e azul, na direção de tua criança,
guardada, em espantos. Roda tuas pás
homem-pastor, e desgoverna-te, forte
em tua chama, para fora de tuas aves
de ilusão, que o amor te tem,
e ele, carne do teu mundo, vela,
envolto em águas dominantes,
a paz do teu sono meninil.
Volta à tua porta ancestral – ao teu vestíbulo -;
deposita a chave de tua tarde, alcançada em ausências,
no colo do teu branquejo galopante, e escancara,
febril e dourado, a tua nave corrompida.
E deixa – ai, deixa! – que o beijo do teu entusiasmo,
suspenso em nuvens, construa em ti
o indelével e puro obelisco de amar,
mesmo sabido como de rica florada:

eis, assim posto, do ocupado da poesia, teu maior poema.

2 comentários:

Tatiani Távora disse...

clareia e cega
como o alcance dos astros.

[depois disso, a irrealidade é nada]

Controvento-desinventora disse...

Eis o poema que se faz poema...