segunda-feira, 27 de junho de 2011

A casa sonolenta


Por Germano Xavier

Tenho este livro. Ou melhor, este livrinho me tem. Não o comprei. Ele apareceu num dia azul de malinações dentro do baú do meu finado avô, João Pimenta, aqui na despensa da casa onde moro. Empoeirado, com as orelhas crescidas, uma edição de 1993 de que tenho o maior ciúme. A narrativa conta a história de uma casa onde seus moradores viviam dormindo, até que um dia, por causa de uma pulga, uma reviravolta toma conta do ambiente e a casa, que antes era sem vida e triste, acaba por se tornar um recanto de muita vida e alegria. Os autores são Don e Audrey Wood.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Sempre na ida


Por Germano Xavier

XII

“Pai, perdoai-vos, pois eles não sabem o que fazem.” Eles não sabem mais o que fazer com a civilização, com esta mecânica fajuta e deplorável que está sempre à procura de alguma vítima, alguém despreparado, alguém inocente. (...) “Porra, o que será que aconteceu?!”, interrogou exclamando a moça que estava ao meu lado, na frente do shopping center. Virei a cabeça e dei de cara com um rapaz que se aproximava velozmente de mim. Confesso que aquilo não me despertou nenhum sentimento de surpresa, tamanha é a carga de violência estampada em nosso cotidiano. Fato que nos despudoriza. Vocês já desconfiam, eu já disse que não me importo com essa realidade, com esse mundo cada vez mais ligeiro e artificial. Tive vontade de tomar um daqueles chazinhos que tanto me fazem bem, mas fiquei só na vontade. Estamos fadados à civilização! Estamos fadados à realidade! Maldição! Maldição! Três vezes maldição! Quis baixar a cabeça, mas não deu tempo. O mesmo rapaz surgiu feito um leão feroz diante do rival que lhe quer tirar o domínio do seu território, agora segurando o menino pelo pescoço. “Cadê o som do meu carro?”, “Cadê o som do meu carro?”, “vamos!”, “desembucha logo, rapazinho!”, dizia o moço raivosamente e com a tez do rosto bastante corada. “Não, moço, eu sei de nada não!”, “o que foi que eu fiz?”, “eu não peguei nada, não” – retrucava o encurralado menino, que a essa altura também já estava acompanhado por um segurança daqueles que parecem mais (desculpem a comparação) um gorila, de tão forte. Ah, meus “redondinhos”! Tenho saudade dos meus fantasmas noturnos. Alguma coisa me dizia que, quando se é criança, a gente precisa de ajuda (é cada vez mais complicado fazer uma leitura desse “mundo”) e de amparo. Se não for assim, a tendência é a pior possível. Vocês são mesmo uns imorais! Não são éticos, não são dignos! Mas é para isso que estou aqui, simplesmente para mostrar o caminho verdadeiro. Acreditem! Eu sei! Eu sei que há “mundos” cheios de esperanças e de paz, onde todos conhecem o sentido da palavra LIBERDADE. Vocês deviam parar de se preocupar comigo. Eu não valho a mínima parte do seu trabalho. Mas não pensem que eu sou um louco. Eu sou apenas um sonhador que acredita em “mundos” e que está aqui só de passagem. Eu não vejo a hora de voltar para a minha casa. As coisas aqui parecem que não mudam, começando pela sua cabeça. Ah, o final! Vocês devem estar querendo saber que rumo essa história tomou. Perdoem-me, não há final. Não existem previsões de melhora condizente a isso. O que eu quero é que vocês me entendam! Eu sei de tudo que te fere, eu sei. O tempo é passageiro como nós, meu amigo! A aventura, não se esqueça da aventura! O futuro está aí, na fumaça que sai do seu cigarro. Continuem! Não podemos parar! Vivam! Sirva-se de seus pseudofrutos, mas não deixem de viver! O coração ainda pulsa, e isso é um bom sinal! Os faróis ainda alcançam os navios mais longínquos destes mares. Salve a conduta dos homens, desses homens. Continuem procurando o “som dos seus dirigíveis”, continuem!

terça-feira, 21 de junho de 2011

Cama mulher


Por Germano Xavier

A Vida: uma mulher.
Seus olhos, minhas tristezas.
Seu olhar, minha agonia.
Seu beijo, minha fraqueza.

A Vida: uma mulher.
Um mistério, uma incompreensão.
Metal afiado, cego.
Caminho alongado, longa felicidade.

A mulher cama magia.
Macia.
Lança, fúria e corte.
Profunda modelação.
Cama mata, mulher.

Instante e cria selvagem.
Meu retrato fugidio.
Porte de meus sonhos humanos
de homem.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Calçamento


Por Germano Xavier

É prematuro o sorriso da felicidade.

Os portões
fechados das ruas entreabertas de sombras...

Cortei
um naco de sombra ao meio,
e meu ato fez surgir uma revoada
de pássaros
- fantasmas que foram pousar longe,

no outro escuro da Vida, na mais

inalcansável colina,
onde toda a luz adormece,
pelos séculos...

domingo, 19 de junho de 2011

Os sentidos de Adão e Eva


Por Germano Xavier

o horizonte distante e a pressa em chegar, sentar, acender verdades sob a árvore, fez de Eva a resposta aos mundos dos sentidos. Adão se sujeitava a colher frutos dos produtos que não se juntam, oferecendo-se poema inteiro. mulher de café e antistamínico, borbulhava em roupas que mal cabiam a alma, sequer o coração acelerava sob o seio que emoldurava o corpo. o homem, formalizado, recordando-se a propósito, estimaria a falta de certeza. sem anteparos nem escolhos, continuava em admirações. presa de si e sustentada por anos e erros do passado, falava sozinha porque jamais entenderiam sua eficácia em transformar parábola em vocábulo simples. com as bochechas rosadas, o primogênito do pai aprendia que pecar era gostoso e que o melhor fruto é o fruto que não desnatura. o homem amava o pai, amava o próprio homem e amava a mulher do homem. se era tarde, era tarde e se fosse cedo, hora de dormir e comer mais sonhos sem as teses entrecortadas de Freud. nenhum psicanalista saberia da anatomia do amor nem da alma como a única criatura dos dois, que nasceu assim para ser assim. o que teria de tão espetacular e analístico em sonhar com escadas migratórias e pães açucarados? sonhos são castiçais, candelabros individuais. por que complicar se tudo já era disperso ( uma bola de neve no cerrado)? talvez por ser a vida uma caixinha de surpresa, ou um clube de carteado, com formigas e cigarros e bocas. ela pensava que o mundo se escondia embaixo de sua cama e sempre o mesmo inseto criaria casa, casca e certeza em seu abajour. a mulher arrepende-se, por ter ficado embaixo da cama durante toda a guerra e por perder o melhor da festa. o homem não sabia o quanto tudo aquilo soava verdadeiro. Eva tinha quarto, cama e abajour. um amor por segundo e o movimento dos sentidos era eterno. sua emancipação era carregar as chaves de casa. melhor é a língua tanta da língua, nossa tanta torre de babel. era sua a casa em que morava e também o inseto e a luminária azul - coisa de quem vive de antigos convites não aceitos. marca de batom, clara marca de si no pescoço do amor do minuto seguinte. ela não eternizava a vida. eternizava o beijo de sonho e Freud não saberia amar os seios de Eva como ela amava seus pensamentos noturnos. Adão, no final, que era só um iniciar, criou a teoria do amor. e a teoria resumia-se a um só item: amar com amor. tinha amor por si e - navegava em si - a nova egoísta dos segundos que vivia. o segundo era o amor. e o primeiro também.

Daqueles ele é


Por Germano Xavier

XV

imbricado feito pele de peixe de rio
o menino desembestava suas atividades de solilóquio
malsucedia os atavios de vida empacava
dizeres de lorota e percalina e findava os dias
esfogueteando o seu contrário jeito de ser

"queria era era sê antípoda" palavreado ornado
mas que parecia se adicionar respeitos
leitura feita em livro de geografia usado
maltratado por mãos que ora vivem
se sepultar teorias adoradoras da práxis
parou pensou pensou mais um tantinho
e concluiu num arroubo de luz
"an-tí-po-da anti-poda sou desses"
era verídico Doró no mais das horas
não se interessava em aparar ramos desbastar
que ele o morenín era era deslimitado
por natureza desejoso por ver tudo
se alevantar de impulso ou de luta
saltar ganhar mundos e aforas
por isso mesmo naquela ensimesmadura
não fazia questão de se professar aos outros
em sentimentos de cisternas enormes
salpicava no rosto uma vermelhura de feliz
quando no seu vizinho brotava um orvalho no olho
isso somente de se contar uma história
imagine se ele Doró se arresolvesse de pronunciar
um dos tantos discursos experienciosos que nele habitava
aí a Grandeza nem precisaria mais mijar
que os homens mesmos se prontificavam de serem os regadores
e o mundo desde Pastinho até o mundão mesmo
se assentaria convencido de que a chuva ou a seca
só se é quando se permite que seja

"sou desses" pensou

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O mundador de mundos


Por Germano Xavier

XIV

e deu de ser construidor de geografias?
e arrumou de ser regador também de palavreados
apanhados em literaturas, o menino moreno?
curió osado esse que nem lembra que indivíduo
ferroso pode não ser aquele que sustenta uma baita
inchação de bucho mole! oxe sô e oxe

marnué que é ô disgramadin osado
o disgramadin osado, o do mato!
vai ver que agora anda de serviço
misterioso e medonho com essas providências
fantasiosas de letras, que vivem disfarçadas
e em máscaras de algum baile duvidoso
numa resmada de papel variado e multicor
tá ele num desejoso de estreitar o beijo
das cores do mundo por ele mundado?
ou de modo que não assim Doró
pegou foi mazela de confundimento de cuca
que dá em gente que véve feito galináceo
em chocação preso em si por uma quentura sem pólo
o que será que se foi, meu padin?
o que será que se foi!

Doró aquele mesmo o mundador de mundos
parece assim por parecer às vezes que já
escolheu sua escolha mais de nobreza e estampa
ele quer é continuar sendo é ele mesmo ou seja
o que ele sempre não e jamais deixou de se saber ser
um fazedor de coisas
um coisador de fazeres

"um fazedô de mundos multicolores ou
um coisadô de fazeres viventes", disse assim
para o primeiro que lhe acercou de olhos naquele
instante disse assim para um samanbaio!

oxe, sô! e oxe!
disgramadin...

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Branca agitação


Por Germano Xavier

pássaros,
na margem
do rio,
alvoroçados.

cai a treva.

sobre a terra, estreitas luzes
mancham o silêncio
de incandescência.

sufocados,
os pássaros
na margem
do rio,
alvoroçados,
não cantam, meu deus!,
eles estão chorando.

Torrinha, um capítulo à parte


Por Germano Xavier

Quer viver uma aventura típica de filme norte-americano? Já imaginou você na pele de um Indiana Jones ou qualquer outro caçador de tesouros? Então saiba que a ficção não é tão irreal e impossível quanto se imagina que seja. Distante pouco mais de 15 quilômetros da sede Iraquara, indo em direção ao município de Seabra-BA, entramos a pisar em terreno conhecido como Torrinha.

Segundo contam, um holandês que atendia pelo nome José de Fulô, nascido no dia 02 de fevereiro de 1792 e falecido em 03 de abril de 1882, havia escolhido o nome ainda no início do século XIX. A área é basicamente um pequeno conglomerado de terrenos e casas de simples arquiteturas, por vezes demasiado arcaicas, edificadas no barro cru e com telhas artesanais produzidas pelos próprios moradores. É também aqui onde encontramos a Gruta da Torrinha que, dentre as mais de 100 grutas já catalogadas por instituições e pesquisadores dos mais diversos países, sem dúvida é a mais rica em espeleotemas e a mais misteriosa.

Foi ainda em minha adolescência, numa excursão organizada pela escola Educandário José de Arimatéia, que pela primeira vez tive a oportunidade de conhecer o lugar que é, em grande parte, propriedade de José Fernandes de Carvalho, conhecido por Zequinha. A região é riquíssima para a atividade de extração de água através de poços artesanais, devido aos inumeráveis mananciais que por ali passam por seu subsolo. A Gruta propriamente dita está localizada a pouco mais de um quilômetro à beira da estrada principal.

Já investido em anos, por lá me detive em outras ocasiões, porém recordo que esta primeira visita me trouxe imagens que até hoje não desgrudam de minhas retinas memoriais, como a grande “boca” da gruta, escura e tenebrosa, os guias se preparando para mais uma “corrida”, cada um responsável por doze visitantes a desbravar, à luz bruxuleante de candeeiros à gás, os mais recônditos interiores da terra, o canto dos pássaros, a cor vermelha da terra, entre tantas outras.

Eu olhava os rostos dos meus colegas de classe, e todos não conseguiam deixar de transparecer a expectativa e a apreensão depositada naquele instante. Apesar de a maioria ter nascido e crescido em Iraquara, passeios como aquele ainda eram difíceis de acontecer, principalmente por conta da pouca idade de todos. Mas, certamente, todos estavam com as suas almas transbordantes de felicidade.

O motorista da escola estacionou a van, as professoras acertaram as últimas pendências com os guias, e lá fomos nós, em dois grupos separados por cinco minutos, tempo de segurança para que lá dentro da caverna não haja interferência entre as conversas produzidas por um ou mais grupos.

Chegando à “porta” única da Gruta – diferentemente da Gruta Lapa Doce, que tem também uma saída -, logo fomos tomados por uma sensação de frio singular. É o gelo das eras, do escuro, das profundezas. “Na entrada da caverna, fazem-se ver várias inscrições rupestres grafadas em línguas desconhecidas; figuras de bisões que em nada são inferiores aos atuais; abelhas habitam a entrada da caverna e ali fabricam seu mel; crânios com características humanas, que parecem pertencer aos nossos antropóides que aqui viveram entre cinqüenta e cinco e quarenta e cinco milhões de anos, já descorados pela passagem do tempo.¹” Pequenas placas na entrada nos davam pequenos alertas acerca do caráter sagrado da localidade.

Entramos, e a cada passo que dávamos o teto parecia que caía lentamente sobre nós, obrigando-nos a caminhar agachados em fila indiana por um bom tempo, até chegarmos a um salão onde um dos três roteiros disponíveis era escolhido. A programação previa a andança pelo curso mais longo, com aproximadamente três quilômetros de extensão, o que foi motivo de mais alegria e adrenalina. Este caminho foi o último a ser descoberto, apenas levado ao conhecimento do público depois que uma pesquisadora francesa descobriu uma passagem que dá para o itinerário maior da caverna. Por seu feito, a fenda fora batizada de Passagem da Francesa, e é justamente a parte mais assustadora e que mais desperta curiosidade, por ser estreita e de difícil acesso.

Depois de adentrarmos, fascínio foi ver as Agulhas de Gipsita espalhadas pelo chão, brilhando sua luz cristal, a Flor de Aragonita – mineral ortorrômbico mais carbonato de cálcio - como uma majestade no final do caminho, as Bolhas Calcitas, o Salão dos Vulcões, as Cortinas, o Salão dos Golfinhos, o “rosto” de Cristo, as imagens de santos, as estalagmites e as estalactites - raríssimas formações espeleológicas, algumas unicamente encontradas ali.

Fantástico foi escutar o som do silêncio quando o guia apagou o candeeiro no meio do percurso e nos permitiu a visão do escuro absoluto. Inesquecível sentir que somos apenas uma ínfima parte perante o mágico esplendor da natureza. Indeléveis recordações de quando voltávamos para casa com a nítida impressão de ter conhecido o infinito desconhecido.


Notas.
1 – Excerto retirado do livro O império das serranias, de Ângelo de Mattos Pereira.

Conceito?


Por Germano Xavier

- Amiguinho meu, tu me ensinas a voar um vôo nunca existido?
- Não, eu não posso. Um dia tudo já existiu.

Indo ao dicionário Aurelião, encontraremos o seguinte significado para o termo grego "Mímesis (Mimese)": imitação ou representação do real na arte literária, ou seja, a recriação da realidade". Roger Samuel trabalha dentro dessa perspectiva de exemplificação quando malina nas gavetas de suas teorias e de suas pestes. Por ser um conceito filosófico, portanto demasiado amplo, esta "imitação" a qual indica tal autor alcança um horizonte de discussão quase que ilimitado. Para Platão, mímesis é uma espécie de imitação da realidade (Idéia) em terceiro grau, um pouco distante do plano do pensamento original. Se no platonismo a mímesis ocupa um espaço recatado, sem grandes importâncias nem faculdades, em Aristóteles o termo vai ocupar um lugar de destaque, revelando-se como o processo pelo qual o fazer poético encerra variados símbolos e significados. A mímesis não é um exercício metalinguístico - como é óbvio que não deixa de ser, jamais -, porém ela mais se aproxima da metáfora, como energia vital e força propulsora integrante do núcleo poético. Sem tanto me alongar querer, mímesis está mais para um exercício de revelação externa ou interna de algo, tendo como ponto de apoio uma determinada realidade já existente, sofrendo influência do nosso inconsciente e, também, das circunstâncias diversas as quais estamos diariamente e temporalmente entrando em contato.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Braçadas



Por Germano Xavier

Para Rafael Medeiros,
amigo-irmão que está aprendendo a voar...


Quando Deus apaga nossos olhos
passamos a enxergar com as mãos.
Quando Ele nos serra as mãos
apalpamos a vida com o coração.

Quando Deus esconde nossa voz
falamos através do silêncio.
Quando Ele desgosta os gostos
temperamos tudo com o tempo.

Quando Deus nos retira os sons
ouvimos através dos cheiros.
Quando Ele nos poda o andar
está querendo que alcemos voo.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Sobre empurros e alturas


Por Germano Xavier

XIII

palavra viva é medo resolvido dura
esfera de se criar fantasia solta
e de onde veio o meu nome é o céu
castanho e de onde veio a decisão
curta de ser grande e de cócoras o tempo
fazer-se criar-se nos matagais e grãos
e a messe colher o dom escasso de vista
ser campina e vôo ser-me a história

melhor lembrar que a vida é em rodopios
de bola de pano? chuva que molha o chão
esperança que mata a fome indo a arte
o monumento maior de ir em desenredo vale?
mais? o mundo quanto? custa à morte a vaidade
quando? a verdadeira festa elevatória música?

a gente joga e não espera a gente brinca
de barriga varrendo o chão e os telhados
a gente fujamos voa é preciso saber
que não se escolhe o pouso o front
que se vai e se deixa ir ventado em empurros
a ida a volta precisamos? estamos sempre indo
com certeza para os cantos e para as alturas

Doró não lamenta o sonho na guimba desperdiçado
Doró alcança estica os artelhos compridos
de acordado e quisto em tudo e se chega

Doró toca os demais os abismos e se alma
mais que ver ele sulca guerreia de dentro
para fora os mundos seus carinhando-se

que se é frio se amorna em umidades
em humanidades em humildades o principal
diz dizendo a voz do coração e ensina compassado
que a vergonha é estrangeira desnatura e quebra
deixa de esconder as manchas nossas verdades

mundar deixa ele o recado de mundar de mundar
de ser em capricho para outros o pão
para si mais de um mundo em borboletas
de se imaginar feituras nossas animais

e nascer nunquinha deixar esquecer e nascer
e sujar-se em nascer-se
e enlamear-se em nascer-se
renascer-se...

sábado, 4 de junho de 2011

A quem odeio, com muito amor


Por Germano Xavier

Alina Pontes, duas filhas meninas e um filho homem, divorciada, professora aposentada e dona de uma alma escura como piche, é uma mulher incomunicável. Ao longo de seus trinta e seis anos de idade, Alina cultivou equívocos e dissecou pecados. Hoje, no dia em que resolveu que iria morrer, acordou e o sol era já inteiro sobre sua cabeça. A metade do dia, que na vida dela tinha vinte e quatro horas, atravessada em sono. Despreocupadamente, ainda no encalço de um andar trôpego e vacilante, dirigiu-se ao sanitário de azulejos brancos. De pijama azul-turquesa, a mãe da Lúcia, da Beatriz e do Jorge, escovou os dentes amarelos, por causa dos hábitos alimentares não muito exemplares, reparou o rosto já em rugas iniciado, sardento, e o lavou.

Alina casou-se cedo, aos dezoito anos. Aos vinte engravidou e nasceu o Jorge, seu primogênito. Hoje Alina ostenta uma cintura larga e um vocabulário minguado. Parou de estudar porque o marido a queria no cuidado dos rebentos. Na curta idade que tem, usa de ferramentas parcas para entrecruzar sua voz numa ou noutra conversa familiar de domingo.

Certa vez, o Arnaldo, o homem que havia passado a última noite ao lado de Alina, fez uma peça de origami para ela, e no mesmo dia a entregou. Era um cisne feito com um quadrado perfeito de sulfite branco. Uma belezura oriental, sabe. Coisinhas fofas para pessoas carinhosas, caridosas. Quase uma jogada. Na verdade, não tinha sido ele o construtor daquela pequenina obra. Havia sido a Juliana, uma colega nova que conheceu na faculdade de Letras. Ela, uma moça de um par de seios bem generosos e de aparência macia, sem fim nem começo, assim ligeiro, despertou o interesse do macho. Além de trabalhar com papel, a rapariga que, não raras as vezes sentava ao seu lado esquerdo, junto à porta, também fazia trabalhos em biscuit, uma massinha de tonalidade creme que leva glicerina, maisena e água. Tinha oferecido uma oficina particular naquele dia e o Arnaldo não pensou duas vezes. Queria agradar Alina, mas não era no fundo. Os homens, por mais que se esforcem, sempre estão querendo agradar as mulheres. Mais observou as mãos de seda da Juliana que todas as dobraduras no papel.

Pronto. Foi um belo pretexto para iniciar uma conversa com ela. Estavam no ônibus, que sempre os levava e os trazia de volta para as suas respectivas casas. Havia dez minutos que ele a esperava. Foi quando ela surgiu com aquele sorriso de morango que, de todas as criaturas femininas que ocupavam aquelas poltronas, só ela possuía. Talvez fosse por essa razão que ele gostava tanto de conversar com ela. Alina, ainda enxergando o mundo sem viço, pensou se iria morrer de barriga vazia ou cheia. Era época de desaparição, ela sabia. Como sabia que todas os seus ornatos de pescoço agora eram joías mortuárias. Alina só sentia, mulher que era.

“Toma, é pra você!”

“Para mim?!”

“É. Fiz com muito carinho.”

“Ai, obrigada! Você aprendeu rápido, heim?!”

“Guarde-o, não perca. Você mesma me disse que dá sorte.”

“Tá bem. Vou colocá-lo em cima do meu criado-mudo.”

O Arnaldo acreditou. Nessas horas, todo homem acredita em sorrisos de morango. Juliana, delicadamente, pôs o cisne de sulfite branco em sua bolsa. O ônibus entrara em movimento. Da janela, a lua daquela noite não passava de uma lua, bem longe. Vítima de uma modernidade maligna, Alina ainda leu um conto escuro de um francês antigo e quis plasmar seu planeta inteiro. Internava-se em si mesma como faz a avestruz selvagem na terra que tem. Estava sem terreno, Alina. Varrida pela angústia, continuou a ler do livro amargo. Ela suspeitava do outro mundo que havia. Arnaldo era só um dos tempos. E sabia que, certamente, ele tinha coisas mais importantes para estar se preocupando. Ela disse:

“E aí, quais são as boas?”

“As boas?”

“Sim.”

“Ah, não sei.”

“Nadinha?”

“Hummm...”

Ele logo afastou a cortina vermelha e olhou novamente para o céu cheio de estrelas. Alina, em sua casa, suando frio mas delicadamente, entra na cozinha. Novos e seguros rumos para uma vida inteira de lamentação. Alina não gostava de ser apenas aquela em quem havia se transformado. Odiava ser só mama e ser só leite de criança. Odiava ser só roupa e ser só fralda. Odiava ser e ser já não queria. Caminho abalado e caminho interrompido. Interromper-se-ia. Era segunda-feira.

“Estás vendo? A lua, todos os pequenos astros, este céu...”

“Que é que tem tudo?”

“É tudo um jogo. Todos jogam, inclusive os homens.”

“Do que você está falando?”

“De que tudo, nesse exato instante e em todos os momentos de nossas vidas, não é mais que um quebra-cabeça.”

“Não. Pára com isso! De novo com essas conversas para o meu lado! Me faça o favor!”

Desconversou. É o que sempre faz um homem quando começa a sentir que está começando a ficar chato. Alina, do outro lado do muro, revisou uma intervenção. Julgou seus trinta e seis anos de idade como imprestáveis e vergonhosos. Tinha vergonha agora. Sempre teve, mas agora mais. A viagem do desbunde ela não havia feito. O tempo havia passado e ela sem reparar que todo o seu sonho estava falido. Sensibilíssima e tardia, Alina chorou um pouco. Arnaldo existia.

“Esquece... como foi o teu final de semana?”

“Foi maravilhoso. Eu não disse que ia comer uma pizza neste feriado! Pois então, dito e feito. Sei que estou mais gorda. Tenho de entrar em uma academia. Mas valeu a pena, estava uma delícia. Foi num rodízio, lá na orla.”

“Eu odeio pizza.”

“Por quê?”

“Não suporto. Sou ruim de boca.”

“E de que você gosta?”

“Do básico. Feijão com arroz.”

“Que pena!”

“Que pena, por quê?”

“Sei lá, de não gostar de pizza.”

“Não entendo.”

“Não entende o quê?”

“Não estou pedindo para sentir pena de mim. Eu apenas não curto pizza.”

“Ah, sei lá... esquece!”

“Tudo bem, vou deixar passar.”

“Hoje acordei triste.”

“Triste?! Com todo esse sol que baixou nessa terrinha!”

“É, triste. Muito triste. De ontem para cá não parei de pensar no meu ex-namorado. Éramos felizes. Sabe como é, não estou conseguindo suportar a minha solidão. Não me suporto. Não me dou.”

“Eu sei. Também já passei por isso.”

“É um mal universal, e só de pensar que milhões de pessoas já sofreram o mesmo tanto que estou sofrendo já me descansa. Mas está sendo difícil lidar com isso.”

“O meu relacionamento terminou faz seis meses.”

“O meu foi agora. Na quarta-feira fará duas semanas. Foi um desastre. Chorei muito, eu e minha mãe. O meu pai não liga muito para isso. Deve ter achado bom. Pensei que não ia sobreviver. Doeu muito.”

“Na época, pensei em suicídio. Aqui na cidade tem uma ponte, um rio... sabe como é, um cenário perfeito. Foi uma discussão besta pelo telefone. Não consegui acreditar no desfecho tão sem graça, diferente do início. Acho que todos os relacionamentos amorosos começam assim, mas aos poucos se desgastam, enferrujam e acabam morrendo. Comigo foi assim.”

“Mas eu o amava. Falava isso a ele todos os dias. eu não tinha vontade de viver com outra pessoa, queria somente ele, amava somente ele. pensava em casamento. Todos lá em casa pensavam em casamento. Foi duro. Não sei se vou suportar.”

“O meu foi parecido. Estávamos pensando nas alianças. Estávamos juntos, depois de muitos desencontros. Fazia cinco anos.”

“É horrível. Não estou me suportando. É simplesmente horrível. Ficar sozinho não dá. Mas, eu não entendo! Eu o amava, ele sabia disso. Eu o amava com todo o meu amor.”

“Querida, às vezes precisa-se de algo mais, de um complemento.”

“Mas eu nunca deixei faltar nada em nosso romance. Sempre o enchia de beijos, de carícias, de abraços. Não conseguia ficar sem ele um só instante. Eu o amava de verdade. Foi o meu primeiro namorado.”

“Agora tenho medo de namoros sérios, ou que se dizem sérios.”

“Não entendo. Às vezes você parece ser louco. Está falando uma coisa e, de repente, começa a blefar.”

“O bom mesmo é quando você encontra uma menina de cabeça boa, que não fica pegando no seu pé. Existem delas nas capitais, muitas dessas. Tive o prazer de namorar uma desse tipo. O nome dela era Cristina. Morava num bairro de grã-finos e não ligava para o meu jeito taciturno de ser. Adoro essas meninas. Elas não se importam com o que os outros falam ou vão pensar quando estamos do lado delas, de mãos dadas. Só se importam com elas e conosco. Fazem tudo por nós. Chegam a dizer “eu te amo” quando a comemos insaciavelmente e lhes damos prazer. Sabe, nunca disse “eu te amo” para uma garota. Aliás, minto. Demorei quase quatro anos, mas a ela eu tinha dito. Foi quase que uma obrigação. Mulheres nos obrigam a dizer que as amamos. É verdade, somos, depois de um certo tempo, obrigados a dizer “eu te amo”.

“Não vejo isso. Você é louco ou está ficando amalucado. Vocês parecem ser todos iguais mesmo. São todos iguais! Não se diferem em nada.”

“Acho que quem está ficando louca aqui é você. Acabou de me dizer que o amava de verdade, que fazia tudo pelo ragazzo. E agora vem com estas chorumelas... Então, agora rejeitas os machos?!”

“Não, eu não quis dizer isso. Você está me forçando a agir em confusão.”

“E , então?”

“Esquece. Tenho de parar de falar nele, de parar de pensar nele. Se eu continuar assim, não sei o que vai ser de mim. Sobre aquele “algo mais” que você me disse... me explica melhor!”

“Acho que não é o caso.”

“Por favor!”

“Um dia você mesmo vai descobrir. Como eu disse, é tudo um jogo.”

“Não enche, rapaz!”

“Você vai acabar descobrindo, sozinha.”

“Mas, eu quase nunca descubro algo sozinha.”

“Então, aprenda a despetalar!”

“Começou, você e suas viagens. Não gosto desse teu jeito obscuro de falar, sempre nas entrelinhas.”

“Não precisa ter pressa.”

“Já chega! Chega desse joguinho de merda.”

E, de chofre, levantou-se da poltrona e, sem se despedir, foi embora. Talvez estivesse chateada com ele, ou talvez não. Em casa, a justa imagem da isenção no recorte, Alina pegou de uma faca e, sem dó, enfiou em si mesma, na altura da aorta. Morreu aos trinta e seis anos de uma morte necessária. Só isso. Engendrada, nem jornal nem nada quis saber de sua dor. Mas o necessário havia sido feito, ele tinha dado o cisne de sulfite branco a ela. E também sabia que, mais cedo ou mais tarde, acabaria por revelar o que estava faltando naquele sorriso de morango. Disso ele tinha certeza.

Fus de soidade


Por Germano Xavier

XII

disse um fu! com desprezo o moreno
disse um ai! cabeçudo de soidade

Doró esperneava enlameado das lamas
das cinzuras das desalegrias dos supostos
e tudo isso os de mal nas esquinas fácil
mas não deixa de ser bem almado
aquele que apeia o próprio fado não
nunquinha não deixa de ser aboiador
de regatos milagreiro e o mais simples
o mais de tudo que se queira crer
avuador leve o estar algodoando
os outros no justar da gente colheita

arante roçante o sulco na terra o
barro febril aberto plantador os sonhos
essas nossas aleivosias de interno abisso
lá longe aqui perto tudo e nada
o ser verbo azul esse demais o mar
é mesmo azul de vidro ele quebra
em ondas vontadeando a umidade eterna

disse um hale! guerreiro menino-fonte
não estranha terra estrangeira engole ela
cozinha ela ajeita no prato das sabenças
e te ergues dando garfadas sendo ela
você inteiro tua casa teu passaporte tua ida

Pastinho mais perto um dia a morte
um dia chega a hora de partir infinito
dividido cortantante partir da terra a fenda

dia de não poder dizer um fu! com desprezo
o moreno do mato garganta seca a hora disso

dia de dizer um ai! cabeçudo de soidade
lembrador passa tudo na gente essa hora vivi?

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Brasis



Por Germano Xavier

A relação existente entre o excerto do livro Raízes do Brasil, intitulado de "Novos Tempos", cujo autor é Sérgio Buarque de Holanda, e o documentário "Casa-Grande e Senzala", sobre a obra de Gilberto Freyre, faz-se essencialmente visível na tentativa de ambos em explicar o processo de formação do povo brasileiro através de diversas teorias, explanações, conceitos e interpretações. A obra de Gilberto Freyre discorre tendo em vista o mito das três raças - Branco, Índio e o Negro -, partindo do pressuposto de que a junção dessas três raças constituiu o alicerce fundamental para a "construção de uma identidade brasileira, realçando as parcelas de contribuição condizentes a cada uma, através de seus costumes, crenças, línguas, entre outros aspectos". No texto de Sérgio Buarque é notável o enfoque dado aos conflitos e perturbações dos povos que aqui viviam no período colonial. Há também uma preocupação na questão da chegada dos imigrantes (portugueses, em sua maioria), que ocasionou mudanças no modo de agir e pensar dos nativos, retratando também as transformações ambientais. Segundo o autor, os velhos padrões da colônia se viram ameaçados com a migração forçada da família real, no ano de 1808; tal fato fez com que o país deixasse o anonimato para começar a ser pensado como uma ordem nacional propriamente dita. Toda essa modificação, drástica e rápida, veio contribuir para a germinação de um "caos", de uma desordem que atingiu mais especificamente os modos de vida rural. Em "Novos Tempos", Sérgio Buarque mostra o apego da sociedade atual moderna ao recinto doméstico, uma relutância em aceitar a super-individualidade. O autor questiona a importância da leitura para o cidadão (indivíduo). O texto deixa claro a existência de uma preocupação exacerbada com a gramática, com o Direito Formal, com a retórica e com a palavra, elementos que eram utilizados na fomentação de uma nova "realidade", mais artificial e livresca; fator esse que colocava a intelectualidade num patamar de sujeito diferenciador e segregante, já que o livro e a sua rotineira leitura funcionavam como um instrumento de elevação e de dignificação para aqueles que o cultivavam. A posição social ou a mobilidade social, de acordo com o pernambucano Gilberto Freyre, não estava vinculada diretamente com a aquisição de conhecimento, ou com a leitura de livros, mas sim à cor, ao poder, à hereditariedade e até à quantidade de escravos que um senhor tinha. O livro e a leitura, assim como a cor e o poder eram fatores de repressão social. O documentário conta a formação do povo brasileiro, enfatizando o fato da colonização explorativa dos portugueses, o contato com os povos indígenas e os negros trazidos de diversas localidades do continente africano. Esse povo - o brasileiro - acaba tendo uma singularidade, uma caracterização intrínseca, apesar da complexidade do seu surgimento; surge um povo com hábitos e costumes próprios. A verdade é que Sérgio Buarque tenta, através do nosso passado, enxergar o futuro. O Brasil, diz o autor, tem muitas características ibéricas, e que é justamente daí que é construída a sua cultura. E então?

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Cantares de preservo


Por Germano Xavier

I


guardei o que não se guarda,
lâmpadas de deserto, películas sem cor,
eternas canções de águas rasas

e alguns amores tantos - outros nem -,
valises inabitáveis e uma baça dor...
e sendo assim, eu, nu e em face levantada,
no fechado navio de machucados peço

que nunca se apercebam de mim,
mesmo se em transe estiver o meu estado,

eu, este pobre molhado,
que só guardou o que jamais seria fim...

Diálogo para fim de papo


Por Germano Xavier

Braga é o homem do acontecido e inicia o discurso:

- Quanta saudade, Helena!
- Imaginei que estes hematomas te impediriam de enxergar a realidade inconsciente que você produziu.
- Como assim, inconsciente? Eu estava sob o efeito do álcool, não havia um gole sequer de consciência naquele meu gesto.
- Rá, rá, rá! Ah, não?!
- O que tem de engraçado nisso, Helena?
- É que os sinais de uma consciência, plena e madura, não florescem nos instantes mais precisos, não acha?
- Qual a razão para tanta ironia?
- Você sabe...
- Fale! Continue!
-Continuar o quê?
- Diga porquê eu não lhe devo matar.
- Se você me odeia, mate-me.
- Eu te odeio porque te amo. O ódio é o amor em excesso, sabia?!
- Rá, rá, rá... não me faça rir, por favor.
- Amar também é ser fiel a quem nos trai, eu te perdoo, juro.
- Nelson Rodrigues deve estar se pocando de rir... quem está com o punhal não é você, por que você não me mata logo?!
- E quem disse que este punhal é pra você?
- Se não é pra mim, é pra quem?
- Lentamente este punhal irá retalhar um coração despedaçado.
- O que é isso?
- Adeus, Helena.
- Não, não, não... filho da puta, você não merece isso... se matar por mim... desgraçado, covarde!

Me dá essa desgraça, eu vou também...

terça-feira, 31 de maio de 2011

Os girassóis suicidas de Van Gogh


Por Germano Xavier

à Eveline Alvarez


não nasceu ontem nem gostava de açúcar, tampouco de estandartes que não germinam nada. mas só veio descobrir-se insatisfeita após o desastre lhe tomar a serenidade trotante. usava roupa branca em noite de família enterrando ovelha-negra escondida do tempo dos outros homens. ovelhas-negras manchavam reputações e tradições de famílias ordinárias e ela sempre soube disso. era uma mulher grande de cabelos grandes de palavras grandes de noites grandes demais para seu coração que só cabia o necessário. uma mulher que conseguia fazer da espera a única fonte de vida antes do almoço já para lá das tantas horas da hora noturna. esquecia-se que tinha contas e aulas e que era apenas uma. dizia melhor preparar minhas aulas de fumaça e de trono, que hoje eu quero. colocou o cigarro na boca e refletiu que quase sempre usar da necessidade é ter medo, é usar da última centelha que restou depois do desabafo causador das desavenças, que tudo isso sempre iria parecer um golpe de minerva, um derradeiro soco. a noite anterior não tinha sido das melhores, nem o mês inteiro tinha sido, talvez o ano, quem sabe a vida, inteira feita de soluços e resignações, produzida em alto e bom som de não atrever-se a nada, nada mais que o necessário. uma mulher tão grande tão grande que não sabia do seu tamanho, perdida no viaduto que a vida nos inunda, imunda, este imundo mundo de mudos. ontem perdeu o táxi e a hora do relógio e o relógio também na esquina já na principal rua do bairro. voltou com os pés e com as pernas que possuía, mas voltou de uma maneira que nunca antes. e viu, instantes depois, que sem o necessário ela poderia ser mais feliz, quem sabe alcançaria aquela liberdade tão falada nos programas vespertinos e diários de televisão que quase não via. quiçá a liberdade que a vontade que vem de dentro tanto quer e sonha e sente e senta e chora e clama e ama. num acesso movido ao álcool amargo que armazenamos no coração, fadada a si própria, não titubeou em rasgar a blusa de algodão com um só puxão em movimento diagonal de cima para baixo. ensimesmada, imaginou na coisa de se atracar em nós mesmos e viu que só nós mesmos para arrebentar os grilhões em ferros fundidos, fodidos. os botões rosáceos saindo de suas casas, saltando fora das amarras, tilintando um espectroso som ao tocarem o piso asfaltado. o som da necessidade desfeita, desmerecida. o som e a cor que havia de uma mulher agora com um sutiã também branco exposto ao vento frio da já chegada madrugada e uma luz lunar revelando, quase em negativo, o corpo esguio e forte, dado ao ar como que de graça, recompensando-o pelo novo despertar pensamental. não era a mesma mulher que voltava para casa. era uma mulher outra. desejou não pensar em mais nada e não temer mais nada, mas ela estava pensando e estava pensando em tudo temendo tudo e todos que, por um acaso ou por uma coisa mesma de destinação, por ali passassem naquele instante só seu ou quase ou ainda-não de loucura ou de realidade extrema e a interrompesse com olhos incriminadores de achar melhor qualquer atitude próxima a uma internação para estouvados, ou que lhe atribuísse nomes degradantes para mulheres típicas das horas marginais. e olhou-se novamente, atonitamente, segura de que não iria parar por ali, que haveria de não se suportar. não vontadeou rédeas e continuou a assassinar suas mais íntimas expressões básicas de moral. jogou-se ao chão e aos gritos e movimentos alucinados e alígeros, arremessou meias rosa e sapatos de salto alto na direção das ventanas da casa do vizinho nunca solicitado. descalçada, sem calçadas o uso, no rastro do latejo dos pulsos, desabotoou com força e raiva e ira e cólera e sem subornar a idéia que lhe veio de chofre e tirou a branca calça que lhe sufocava a pele que lhe tapavam os poros tão abocanhados pela escravidão. e agora a mulher exibia um conjunto de roupas íntimas profundamente simples, sem adornos maiores, somente enrustido com as tramas necessárias. uma necessidade tão medíocre, sem móbiles ou parangolés, capenga em carestia, incrementada pelo vazio tão submerso num nada símbolo e reflexo de uma clandestinidade bruta. um algodão tão ralo, que os bicos dos seios pareciam mergulhados numa nata fina apenas estruturante. os pêlos pubianos negros sob a transparência do necessário tecido. o fajuto esconderijo aberto ao bombardeio das esquinas. não, eu não posso parar. preciso acabar com o meu necessário sofrimento, com minha necessidade de ser o que sempre fui. sua ação se transfigurou. descabelada, mulher desgraçadamente acabada, num gesto só arrancou de si o que ainda lhe havia de roupa. desesperada em si, tombada no escuro da noite volátil, correu contra o tempo, contra as falcatruas da idade, contra os sibilinos percalços antes pensados imortais, contra a sua própria dor requerida de se esconder para, contra os arqueamentos dos ombros imaturados, contra a lança dos sorrisos desditosos, contra a violência das algemas da vida que nunca viveu, correu contra a sua própria respiração, a mulher nova, ofegando, arfando, bufando, morrendo ali, nua, simplesmente nua de suas necessidades, pura, num gesto inicial de quem destila o fel com o solvente amarelo dos girassóis pintados com as próprias mãos...

domingo, 29 de maio de 2011

Ainda os ratos


Por Germano Xavier

X

Depois de contemplar toda a grandiosidade deste mundo doente, você agora é capaz de fazer uma análise mais aprofundada sobre a sua insignificância, sobre a sua pequenez absurda. Eu estava completamente enganado quando disse que a vida é um absurdo. Na verdade, o absurdo aqui é você! Os ratos continuam roendo as porções mais humanas de tua criatura. Acredito que não há mais sentimento dentro do teu corpo.

O tempo está passando, meu caro!

O tempo é passageiro, assim como eu e você. E este principado que não sabes governar? Qual a razão das cercas e dos muros? Para que todo esse exército e todas essas armas? Não confias no Homem? Devias perceber que as flores conseguem conviver com os seus espinhos, e que isso não é grande o suficiente para estragar as suas rutilantes belezas.

Começou de novo! É essa minha cabeça que não pára de doer. Nunca mais fui ao médico. Aliás, nunca mais irei a consultório médico algum. É sempre a mesma parola, o mesmo diagnóstico, a mesma receita, a mesma frustração. A ciência médica ainda não desenvolveu nenhum remédio ou método para os males que uma pessoa hipersensível como eu pode sofrer. Casos como esse os médicos mandam para os leitos dos manicômios, dos sanatórios e dos centros de recuperação (esses lugares onde se tiram os passaportes para a outra dimensão).

Está na hora do meu “chazinho”. É incrível como possuem a ignorância! Vocês não conseguem enxergar que sempre há uma luz no fim do túnel? E que sempre haverá, por mais que não se queira ver?

Existe, eu sei! Eu sei, e também sei de tudo aquilo que te fere. E é justamente por tudo isso que eu me encontro aqui, nesse momento tão difícil e complicado. Há alguma bolsa nesse teu mundo onde se armazena as nossas energias que ainda não foram utilizadas. É preciso encontrar essa bolsa, essa sua força esquecida dentro do seu próprio eu. O pior de tudo é que você não quer me ouvir, e assim acaba perdendo a chance de encontrar esse tesouro adormecido. Ouça: eu sei do seu tesouro! Há tempos venho tentando lhe mostrar isso, mas você vira as costas e sempre vai embora. Deve ser essa fumaça branda, essas cores cintilantes, essas borboletinhas azuis, esses pássaros, essas nuvens brancas, essa imensidão sem fim.

E há fim?

Para onde vamos depois?

Quer saber... então me escute! Eu não sou louco. Eu sou apenas um sonhador que acredita em “mundos” e que está aqui só de passagem, feito uma andorinha de verão. É tão difícil assim? Eu só quero que vocês me entendam e que acreditem que atrás desse “mundo” existem outros “mundos”, onde todas as pessoas são felizes e se gostam e se amam.

Será o Amor?

Quem é o Deus dessa terra?

sábado, 28 de maio de 2011

Rainha do povo


Por Germano Xavier

Ao ler Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro


Vai, Maria da Fé,
corre pelos campos do Estado brasileiro.
Vai, que tu mereces!
Foge, como quem foge da tristeza
e do descaso humano.

Vai, Maria da Fé,
anda pelos verdes prados de tua mestiçagem
(consentida e quista?).
Vai como quem revoluciona
e como quem luta,
feito Ganga Zumba e o rei do quilombos, Zumbi.

Vai, Maria da Fé,
desfila tua brasilidade
pelas ruas descalçadas e sem brilho.
Mostra o quanto é forte tua vontade, teu objeto,
o quão grande é tua fé.

Viaja pelas ruas do Ribeiro
das Bahias, das Ilhas, dos Brasis.
Vai, Maria da Fé, vai!

Biografia de grilos


Por Germano Xavier

Perdoa-me, eu sou apenas um grilo.

Contudo, imagino que isso não tenha tanta importância. Tratar-me-ia da mesma maneira (assim é que sempre espero) caso fosse eu um gafanhoto ou, quiçá, um louva-deus. Não me seria motivo de rejeição se, por destino ou destinação, faltasse-me o dom dos saltitantes, dos saltimbancos ou se, pelo contrário, fosse eu um ser provido de asas quitinosas e que se vangloriasse de possuí-las, tirando proveito por simplesmente as possuir e não havendo em mim o afã de dividir contigo as belas imagens e paisagens que, por via das circunstâncias, em algum breve sopro vital fosse por mim visitado.

Não sei ao certo se com essas palavras já consegui me apresentar ou se já me conheces – e continuo com a mesma impressão de que isso também seria completude irrelevante-, mas, querendo agir de modo a não construir más impressões acerca de minha grilice, inicio meu perfil dizendo que sou um grilo e que não passo disso. Um grilo, somente.

Sabes tu o que um grilo faz da vida?

Um grilo cricrila. Essa é a primeira de suas ações e, talvez, a mais perturbadora ou incômoda. Creio que já ouvistes o cricrilar de um grilo. Sabe, nós somos uma confraria. Formamos um grupo de “cantoria” e somos demasiado unidos. Quando alguns dos nossos amigos são esmagados por sandálias e sapatos de hominídeos, ou perdem alguma de suas pernas, ou se tornam incapazes de cricrilar por algum motivo, nós sempre ficamos juntos, auxiliando e acompanhando as vítimas, num gesto de solidariedade e afeição que só se finda no momento em que o eterno sofre a sua desmistificação, ou seja, autoflagela-se.

Todavia, como eu ia dizendo, eu não passo de um grilo. De um grilo que cricrila, como todos os outros da minha espécie. Sim, e como todos os outros grilos normais, eu também sei dar pulos, saltar. Ou, achando assim ser mais cabível, imagino que sei. Uma vez, lembro que saltei do aro superior de um botijão de gás até o regolito azulejado da casa de uma mulher gorda e muito honesta. Foi o meu maior pulo. Não sou fanático por pulos. Confesso que tenho um certo receio para com o progresso das aterrissagens. Tenho péssimas recordações de pulos dados em tempos de antanho. Porém, quando me presto ao salto triunfal, dedico-me por inteiro e acabo executando algo digno de glória e louro. Nunca faço uma coisa pela metade, contando que o seu processo de fabrico não fira minhas amídalas. Mas, o que é que um grilo pode fazer pela metade, tomando o seu tamanho “enfático”? Acho que um grilo nunca faz nada pela metade. Ele apenas o faz, e isso já é o bastante.

Não obstante o palavreado “grilal”, foge-me, agora, o real sentido do que trataria contigo. Ao cabo que me desenrolo, sinto que a ti menti, posto que não sou apenas o grilo de outrora, que sabia cricrilar, mas um grilo que cricrila e que também sabe dar saltos quando necessário. Isso já não é demais?

Perdoa-me, é que eu sou apenas um grilo. Eu não passo de um miserável grilo que só sabe cricrilar e dar pulos.

“Isso não importa para mim. Aceito-te como és. Admiro o que fazes. Quando cricrilas, nas soleiras e nos umbrais das portas do meu quarto, na matina ou no crepúsculo, percebo flamejar sobre a minha epiderme mascarrada a verdadeira essência da humanidade, que é saber... que é saber respeitar as diferenças e idiossincrasias dos outros, pois, como tivera dito um grilo, “sem os outros, não haveria de existir o indivíduo”. Então, na vontade de conquista de uma amizade recíproca, convido-te a participar de nossos Encontros Monossilábicos dos Dias Mundanos. As reuniões acontecem na Aléia dos Bem-Te-Vis, próximo à Floresta da Encantadura Humana. Diariamente, mesmo em espírito.

“E o que vocês fazem lá?”

Basicamente, construímos as inúmeras e intermináveis variações do cricrilar-arte, nata dos grilos. Sabe como é, temos de defender o nosso patrimônio, a nossa linguagem.

“É, deveras. Do jeito que este mundo vai, tudo tenderá à extinção, ao desflorestamento”.

Não deixe ao léu o teu desejo intrínseco. Façais o que realmente queres, e eu sei o que desejas. Assim, agindo de acordo com a nossa própria verdade, seremos uma classe mais valorizada. E viveremos, pois, sempre mais.

P.S. Troque o masculino pelo feminino, nas flexões de gênero. E se você não quiser entender esse texto, melhor ler o Manifesto do Partido Comunista ou se vestir de vermelho.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Quase um conto de fadas


Por Germano Xavier

Está um bom dia para contações, não achas? Agradeço desde já pela gentileza de me ouvir. De antemão, no intento de me prostrar diante de minhas devidas responsabilidades, alerto para o fato de que qualquer coincidência que haja perante outras estórias e ficções não são meros acasos. As semelhanças são mesmo demasiado verossímeis.

Pois bem, começarei.

Era uma vez um homem que não se envolvia em lutas nem em brigas, mas que defendia com afinco os direitos dos seus vizinhos de terra. O homem possuía uma linda fazenda, onde corria um rio antigo de águas transparentes, morada de milhares de peixinhos cor de prata. Um lugar mágico, vigiado pelos pássaros e pelos ventares mais amenos, onde muitas pessoas moravam, agraciados pelas belas formas divinais da natureza.

Certa feita, o homem saiu de casa, sozinho, e pensando em...

Uma pausa aqui, por favor. As reticências que me ocorrem são deveras propositais. Peço paciência, prezado leitor, pois achei um modo muito mais oportuno de lhe contar essa estória. Espero que não se irrite com toda esta minha inconstância.

Mas, veja, escute bem.

Era uma vez um homem chamado Simpliciano Lima, combatente dos direitos mais humanos e dono de uma fazenda situada a sudeste da cidade de Iraquara com cerca de mil hectares. Uma fazenda rica em tudo, com solos apropriados para o cultivo de feijão, milho, hortigranjeiros, mamona, mandioca, além de muito propício à criação de caprinos, equinos, ovinos e bovinos...

Antes funcionando para as já citadas atividades, e também para a estocagem de armamentos que serviam para combater invasores inimigos que sempre atazanavam àqueles idos os mais diversos donos de terra; hoje, conhecida como o “Oásis do Sertão”, tornou-se ponto importantíssimo para o turismo ecológico da região chapadense.

Contam os mais velhos que, certa feita, Simpliciano saiu da sede da fazenda logo pela manhã, resolvido a encontrar um nome para o lugar. Andou manhã inteira pelas margens do rio de águas claras e repousou onde o rio fazia remanso. Ao olhar mais atentamente para o centro das águas, Simpliciano reparou nos inúmeros peixinhos prateados que iam constantemente à superfície, no objetivo de buscar o aquecimento necessário para as suas escamas através dos raios solares. Naquele instante, parou. Estarrecido com tamanha beleza, de supetão nomeou o rio com o termo “Pratinha”.

Formado principalmente por águas que subterraneamente ultrapassam os limites iraquarenses, passando pelos lugarejos “Pedra Furada”, “Lapão” e “Baixão do Poço”, corre manso e perene exibindo seu conteúdo calcário e salitroso.

O Pratinha se une ao Rio Preto e transforma-se no rio Santo Antônio. Desce esguiamente por muitos quilômetros e vai desaguar no rio Paraguaçu, em Andaraí-BA. Mas é dentro das fronteiras da fazenda do saudoso Simpliciano que o rio encanta mais. E as razões para tal afirmação são bem simples.

No interior da fazenda ele divide espaço com a Gruta da Pratinha, que fica logo abaixo da casa-sede, onde hoje é o restaurante principal do balneário, com a Gruta do Caboclo e com a “menina dos olhos”, internacionalmente conhecida, Gruta Azul – o destaque cabe à coloração em tom azulado em seu interior quando os raios luminosos adentram em forma de feixe pela extensão da caverna. O lugar também já serviu de cenário para várias gravações de novelas da Rede Globo, a exemplo de “Pedra sobre Pedra”, “Estrela Guia” e “Agora que são elas”, e para a cinematografia norte-americana, a citar o filme Turistas.

Distante dezenove quilômetros da cidade e dono de mistérios e de ainda ocultos segredos, como o dito existente canal subterrâneo que liga a Gruta da Pratinha à Gruta Azul, onde se encontrariam inúmeros registros rupestres e outros símbolos milenares, o Rio Pratinha está dentre os mais conhecidos de toda a Chapada Diamantina.

Simpliciano de Oliveira Lima, natural de Baraúnas, município de Seabra-BA, nascido em dezesseis de agosto de 1875 e falecido em abril de 1960, agropecuarista e conselheiro da cidade de Seabra-BA, escreveu seu nome na história, que nas devidas paragens deste texto já perdeu o caráter “estórico”, usando para isso sua visão contemplativa do pedaço de chão incomum que possuiu. Abriu uma veia de beleza inconfundível dentro da impressionante “terra dos diamantes”, convidando o mundo em sua inteireza para lograr de um espaço “abençoado por Deus e bonito por natureza”, como diria a composição do Jorge Ben. Era uma vez a Pratinha... e todos que ali chegam são felizes para sempre. Mas isso não é bem uma estória. É uma história com H.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Canções de sinos



Por Germano Xavier

VIII

O sino toca, ouves?
É o tempo, este deus,
que chegou de uniforme rubro.
É a recompensa pelo equivalente
que criamos. Presente,
de luz os olhos álacres,
vejo-te janela em minha frente,
o sol, o suspiro... um ventar carente
de flores estonteantes e castas.

Cerra-me, mulher, destes
aviltantes enleios cadentes e tristes
do amor, e vem!
E vem, que o sino anda a retumbar
a nossa ardente
e sempre
e sacra
e refulgente presença,

neste teatro dúbio
de frio e de lume
que nos têm.


A série de poemas Canções de Sinos termina aqui.

terça-feira, 24 de maio de 2011

O dia de abanicos


Por Germano Xavier

XI

tinha dia de aluar de ver cair comprimentos
dia de autorar verdes de encontrar desencontros
tinha dia pra tudo lá em Pastinho
até pra abanar mão feito ventarola
e dizer distâncias pra quem acomodava os atalhos
e limpava o cascalho e alinhava as linhas da vida

e aquele tinha chegado o dia de abanicos!
foi uma abanicada úmida regada em choros
"é qui as dureza das dô dói é nas alegria tamém
só quem sabe dô dus ocidente da gente
dô di machucado lento lenhoso
é qui carimba as carga no couro das alma!"

ver Doró daquele jeito feito tatu em toca
dava outra coisa não senão dó, e que dó
mas da "chuva dos zói" ele humanizava fortalezas
pintava pneu nas pegadas de pé e depois saía
aventurado em nunca mais olhar pra trás
o que era impossível forte em paredes
alegre em verbetes de cidade nova e grande

pai-dos-burros aumentado já no sentar do transporte
lá ia teimoso desafiador de destino morno
lá ia o menino escorregando estilos
pavoneando as iluminuras sobressalentes
tornando o que já era fonte num reavivo escandaloso

"si eu tivé di avuá vô vê du alto Pastinho
vô vê du alto meus canto meus aconchego meus linho
bebê du tempo ventoso dus relógio apressado
sem nunquinha deixá de sê eu o morenín du mato"

A hominização


Por Germano Xavier

(A Antropossociogênese): Pitacos sobre um texto de Edgar Morin.

Parte 1: O caçador sabendo caçar.

A hominização não é um processo linear e uniforme, e sim uma complexa interação de fatores que fizeram e fazem com que a espécie humana se desenvolva e se adapte constantemente. A hominização não é percebida quando tomamos como ponto de partida o tamanho do cérebro. A hominização torna-se possível a partir de uma mudança generalizada, seja no ambiente ou no social, etc...

A mudança da floresta para a savana gerou condições propícias para o aprimoramento das habilidades dos homínidas. O ecossistema torna-se um "professor" em relação ao homínida, e a caça age como instrumento civilizador.

Parte 2: A sociogênese

O modo de se organizarem e de se socializarem foi sendo conquistado e aprimorado durante o passar dos anos. Uma separação entre homens e mulheres foi realizada, destinando-se a cada grupo uma sociabilidade diferente. Surge, a partir de então, o conceito de classe dominante e de compensação de poderes. O homem torna-se chefe, a mulher a ele é subordinada.

A juventude é a porta de entrada para uma sociabilização entre os adultos e os aprendizes. Apesar de não ser considerado uma classe propriamente dita, a juventude ou a adolescência homínida é de uma importância indescritível para o progresso da próspera sociedade (Paleossociedade).

A economia homínida, se é que há economia, baseia-se na caça e na colheita, que já contava com uma organização básica. Vê-se desabrochar uma fonte cultural a partir do esboço de economia vigente entre os homínidas.

Com o aparecimento de uma sociedade organizada, fez-se necessário o advento da comunicação e da criação de uma linguagem (Paleolinguagem), que suprisse as necessidades de interação entre os vários grupos ou classes.

Assim aparece, então, a cultura, que precisa ser transmitida constantemente, dando origem as outras sociedades complexas. A cultura vai tecer a produção de níveis de complexidade em determinada sociedade, representando um aparelho transformador primordial para a evolução das espécies.

Parte 3: "O nó górdio da hominização"

O aumento do cérebro só trouxe benefícios aos homens, por ser o mecanismo que dispomos para acumular conhecimentos, memórias, fatos e aprendizagens. O aumento do cérebro é o mais puro retrato do desenvolvimento e da complexidade sociocultural.

O advento da complexidade sociocultural está intimamente ligado à evolução do cérebro humano, assim como os períodos de vida e as formas de aprimoramento de técnicas e suas posteriores transmissões a outros indivíduos.

A fase adulta não cessa com as aptidões e possibilidades de nossos conhecimentos serem adquiridos. O cérebro, nesta fase, está inacabado, e o homem tem a cultura por natureza.

Parte 4: O inacabamento final

Natureza e cultura andam de mãos dadas, assim como o ecossistema social exerce poder sobre a organização de uma sociedade.

O homem, ao tempo que é polido, torna-se dependente do seu aparelho cultural, e nada mais é que um aprendiz eterno.

Resumo geral

Falar em hominização é falar num colossal processo de interação e de sociabilização, que envolve os seus progressos e suas evoluções, tanto biológicas quanto socioculturais.