terça-feira, 31 de maio de 2011

Os girassóis suicidas de Van Gogh


Por Germano Xavier

à Eveline Alvarez


não nasceu ontem nem gostava de açúcar, tampouco de estandartes que não germinam nada. mas só veio descobrir-se insatisfeita após o desastre lhe tomar a serenidade trotante. usava roupa branca em noite de família enterrando ovelha-negra escondida do tempo dos outros homens. ovelhas-negras manchavam reputações e tradições de famílias ordinárias e ela sempre soube disso. era uma mulher grande de cabelos grandes de palavras grandes de noites grandes demais para seu coração que só cabia o necessário. uma mulher que conseguia fazer da espera a única fonte de vida antes do almoço já para lá das tantas horas da hora noturna. esquecia-se que tinha contas e aulas e que era apenas uma. dizia melhor preparar minhas aulas de fumaça e de trono, que hoje eu quero. colocou o cigarro na boca e refletiu que quase sempre usar da necessidade é ter medo, é usar da última centelha que restou depois do desabafo causador das desavenças, que tudo isso sempre iria parecer um golpe de minerva, um derradeiro soco. a noite anterior não tinha sido das melhores, nem o mês inteiro tinha sido, talvez o ano, quem sabe a vida, inteira feita de soluços e resignações, produzida em alto e bom som de não atrever-se a nada, nada mais que o necessário. uma mulher tão grande tão grande que não sabia do seu tamanho, perdida no viaduto que a vida nos inunda, imunda, este imundo mundo de mudos. ontem perdeu o táxi e a hora do relógio e o relógio também na esquina já na principal rua do bairro. voltou com os pés e com as pernas que possuía, mas voltou de uma maneira que nunca antes. e viu, instantes depois, que sem o necessário ela poderia ser mais feliz, quem sabe alcançaria aquela liberdade tão falada nos programas vespertinos e diários de televisão que quase não via. quiçá a liberdade que a vontade que vem de dentro tanto quer e sonha e sente e senta e chora e clama e ama. num acesso movido ao álcool amargo que armazenamos no coração, fadada a si própria, não titubeou em rasgar a blusa de algodão com um só puxão em movimento diagonal de cima para baixo. ensimesmada, imaginou na coisa de se atracar em nós mesmos e viu que só nós mesmos para arrebentar os grilhões em ferros fundidos, fodidos. os botões rosáceos saindo de suas casas, saltando fora das amarras, tilintando um espectroso som ao tocarem o piso asfaltado. o som da necessidade desfeita, desmerecida. o som e a cor que havia de uma mulher agora com um sutiã também branco exposto ao vento frio da já chegada madrugada e uma luz lunar revelando, quase em negativo, o corpo esguio e forte, dado ao ar como que de graça, recompensando-o pelo novo despertar pensamental. não era a mesma mulher que voltava para casa. era uma mulher outra. desejou não pensar em mais nada e não temer mais nada, mas ela estava pensando e estava pensando em tudo temendo tudo e todos que, por um acaso ou por uma coisa mesma de destinação, por ali passassem naquele instante só seu ou quase ou ainda-não de loucura ou de realidade extrema e a interrompesse com olhos incriminadores de achar melhor qualquer atitude próxima a uma internação para estouvados, ou que lhe atribuísse nomes degradantes para mulheres típicas das horas marginais. e olhou-se novamente, atonitamente, segura de que não iria parar por ali, que haveria de não se suportar. não vontadeou rédeas e continuou a assassinar suas mais íntimas expressões básicas de moral. jogou-se ao chão e aos gritos e movimentos alucinados e alígeros, arremessou meias rosa e sapatos de salto alto na direção das ventanas da casa do vizinho nunca solicitado. descalçada, sem calçadas o uso, no rastro do latejo dos pulsos, desabotoou com força e raiva e ira e cólera e sem subornar a idéia que lhe veio de chofre e tirou a branca calça que lhe sufocava a pele que lhe tapavam os poros tão abocanhados pela escravidão. e agora a mulher exibia um conjunto de roupas íntimas profundamente simples, sem adornos maiores, somente enrustido com as tramas necessárias. uma necessidade tão medíocre, sem móbiles ou parangolés, capenga em carestia, incrementada pelo vazio tão submerso num nada símbolo e reflexo de uma clandestinidade bruta. um algodão tão ralo, que os bicos dos seios pareciam mergulhados numa nata fina apenas estruturante. os pêlos pubianos negros sob a transparência do necessário tecido. o fajuto esconderijo aberto ao bombardeio das esquinas. não, eu não posso parar. preciso acabar com o meu necessário sofrimento, com minha necessidade de ser o que sempre fui. sua ação se transfigurou. descabelada, mulher desgraçadamente acabada, num gesto só arrancou de si o que ainda lhe havia de roupa. desesperada em si, tombada no escuro da noite volátil, correu contra o tempo, contra as falcatruas da idade, contra os sibilinos percalços antes pensados imortais, contra a sua própria dor requerida de se esconder para, contra os arqueamentos dos ombros imaturados, contra a lança dos sorrisos desditosos, contra a violência das algemas da vida que nunca viveu, correu contra a sua própria respiração, a mulher nova, ofegando, arfando, bufando, morrendo ali, nua, simplesmente nua de suas necessidades, pura, num gesto inicial de quem destila o fel com o solvente amarelo dos girassóis pintados com as próprias mãos...

Um comentário:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Girassol Arame farpado by ~dullafoto"
Deviantart