sábado, 28 de maio de 2011

Biografia de grilos


Por Germano Xavier

Perdoa-me, eu sou apenas um grilo.

Contudo, imagino que isso não tenha tanta importância. Tratar-me-ia da mesma maneira (assim é que sempre espero) caso fosse eu um gafanhoto ou, quiçá, um louva-deus. Não me seria motivo de rejeição se, por destino ou destinação, faltasse-me o dom dos saltitantes, dos saltimbancos ou se, pelo contrário, fosse eu um ser provido de asas quitinosas e que se vangloriasse de possuí-las, tirando proveito por simplesmente as possuir e não havendo em mim o afã de dividir contigo as belas imagens e paisagens que, por via das circunstâncias, em algum breve sopro vital fosse por mim visitado.

Não sei ao certo se com essas palavras já consegui me apresentar ou se já me conheces – e continuo com a mesma impressão de que isso também seria completude irrelevante-, mas, querendo agir de modo a não construir más impressões acerca de minha grilice, inicio meu perfil dizendo que sou um grilo e que não passo disso. Um grilo, somente.

Sabes tu o que um grilo faz da vida?

Um grilo cricrila. Essa é a primeira de suas ações e, talvez, a mais perturbadora ou incômoda. Creio que já ouvistes o cricrilar de um grilo. Sabe, nós somos uma confraria. Formamos um grupo de “cantoria” e somos demasiado unidos. Quando alguns dos nossos amigos são esmagados por sandálias e sapatos de hominídeos, ou perdem alguma de suas pernas, ou se tornam incapazes de cricrilar por algum motivo, nós sempre ficamos juntos, auxiliando e acompanhando as vítimas, num gesto de solidariedade e afeição que só se finda no momento em que o eterno sofre a sua desmistificação, ou seja, autoflagela-se.

Todavia, como eu ia dizendo, eu não passo de um grilo. De um grilo que cricrila, como todos os outros da minha espécie. Sim, e como todos os outros grilos normais, eu também sei dar pulos, saltar. Ou, achando assim ser mais cabível, imagino que sei. Uma vez, lembro que saltei do aro superior de um botijão de gás até o regolito azulejado da casa de uma mulher gorda e muito honesta. Foi o meu maior pulo. Não sou fanático por pulos. Confesso que tenho um certo receio para com o progresso das aterrissagens. Tenho péssimas recordações de pulos dados em tempos de antanho. Porém, quando me presto ao salto triunfal, dedico-me por inteiro e acabo executando algo digno de glória e louro. Nunca faço uma coisa pela metade, contando que o seu processo de fabrico não fira minhas amídalas. Mas, o que é que um grilo pode fazer pela metade, tomando o seu tamanho “enfático”? Acho que um grilo nunca faz nada pela metade. Ele apenas o faz, e isso já é o bastante.

Não obstante o palavreado “grilal”, foge-me, agora, o real sentido do que trataria contigo. Ao cabo que me desenrolo, sinto que a ti menti, posto que não sou apenas o grilo de outrora, que sabia cricrilar, mas um grilo que cricrila e que também sabe dar saltos quando necessário. Isso já não é demais?

Perdoa-me, é que eu sou apenas um grilo. Eu não passo de um miserável grilo que só sabe cricrilar e dar pulos.

“Isso não importa para mim. Aceito-te como és. Admiro o que fazes. Quando cricrilas, nas soleiras e nos umbrais das portas do meu quarto, na matina ou no crepúsculo, percebo flamejar sobre a minha epiderme mascarrada a verdadeira essência da humanidade, que é saber... que é saber respeitar as diferenças e idiossincrasias dos outros, pois, como tivera dito um grilo, “sem os outros, não haveria de existir o indivíduo”. Então, na vontade de conquista de uma amizade recíproca, convido-te a participar de nossos Encontros Monossilábicos dos Dias Mundanos. As reuniões acontecem na Aléia dos Bem-Te-Vis, próximo à Floresta da Encantadura Humana. Diariamente, mesmo em espírito.

“E o que vocês fazem lá?”

Basicamente, construímos as inúmeras e intermináveis variações do cricrilar-arte, nata dos grilos. Sabe como é, temos de defender o nosso patrimônio, a nossa linguagem.

“É, deveras. Do jeito que este mundo vai, tudo tenderá à extinção, ao desflorestamento”.

Não deixe ao léu o teu desejo intrínseco. Façais o que realmente queres, e eu sei o que desejas. Assim, agindo de acordo com a nossa própria verdade, seremos uma classe mais valorizada. E viveremos, pois, sempre mais.

P.S. Troque o masculino pelo feminino, nas flexões de gênero. E se você não quiser entender esse texto, melhor ler o Manifesto do Partido Comunista ou se vestir de vermelho.

3 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Feel the rain on your skin.. by *incredi"
Deviantart

Artes e escritas disse...

Viva o grilo! Eu tinha uma revolta interior da formiga chamar a cigarra de má porque ela cantava, agora que defendo o grilo, me sinto recompensada. Um bom final de semana. Yayá.

Flor de Lis disse...

Essas peripécias grilais me fez refletir sobre a importância dos pequenos seres ou coisas que passam despercebidos por nós.