domingo, 15 de maio de 2011

Sobre as águas que molham os rios


Por Germano Xavier

Iraquara nasceu ao acaso, como muitas cidades brasileiras. Certo dia, pelos idos de 1860, quando de um lugar de nome Tijuco partiu para Canabrava (hoje Canabrasil – será que estou certo disso?) um homem chamado Manoel Félix da Cruz, filho de Geraldo Félix da Cruz e de D. Maria dos Anjos, inventou de achar um lugar para dar água aos animais e à cambada de tropeiros que vinham abrindo uma picada, caminho estreito no meio do matagal, na direção da Parnaíba, hoje Iraporanga. O primeiro nome de Iraquara foi Poço de Manoel Félix, batizado pelas mãos de seu próprio fundador.

Sem suspeitar do destino, casou-se com quatro moças - duas Marias, uma Clarinha e uma Silvéria-, e atrás do umbuzeiro viu nascer uma “ninhada” que o tempo se encarregou de ir alimentando, germinando, fortificando. Só do Manoel mesmo foram dez, sete meninas e três meninos. Aí é quando a gente começa a perder a conta. Os Félix, os Carvalho, os Araújo, os Souza Santos, os Deodatos. Um mundo de gente foi aparecendo nos arredores do “Poço” e a cidade sendo elevada, qual Torre de Babel.

Depois foi a pessoa da Ana criança, Antenor Marques da vendinha, Pedro Bispo dos Anjos e seu filho Sr. Isidoro da lojinha; João Esquivel de Athayde que preparava pomadas; Leolino Carvalho lá da Lapinha – que funcionava como uma espécie de bairro do "Poço"; Almir Braga, médico sanitarista; Dr. Brandão; Dr. Cutia Coelho; Dr. Eutrópio dos Santos Reis; Dr. Aurélio dos Santos Reis, o “doutor de dentes”, como o chamavam; Dr. Wood e Dr. Américo Chagas lá das bandas de Wagner-BA. Havia também o curandeiro Francisco Novaes, o “Chico Flor”; Justino, o primeiro padre; Euzébio Gaspar de Souza, doador da imagem de Nossa Senhora do Livramento à igreja católica da cidade; Joaquim Pires Maciel, o “seu” Quinqueira, proprietário do primeiro aparelho de rádio; Generaldo de Palmeiras, Agripino e João Rocha, donos dos primeiros Ford Fobicas e motivadores da idéia de que o fim do mundo estava próximo - a aparição dos primeiros automóveis trouxe sentimentos diversificados no restante da população, pois havia quem acreditasse que o mundo ia acabar.

Professor Francisco Aguiar e professor Ribeiro; Isa, Maria Ribeiro, Valdete, Maria Matos, Sisa e Eulina; Edite Alves de Souza, a Didi; Enedina Lopes e Grisela Neves; Anna Maria Félix, Dilza Cunha, Zélia Ribeiro, Marly Pereira, Alzira Rosa, Maria Torres, Robson Ribeiro, José Ferreira: primeiros do Centro Educacional Manoel Teixeira Leite; Simpliciano de Oliveira Lima do “oásis” Pratinha. Horácio de Matos coronel, Timóteo jagunço e a Coluna Prestes chegando! Manoel Fabrício, coronel Henrique de Oliveira, Jurandy Toscano de Brito, vereador Bolivar Sampaio, incentivador do esporte; José Alves de Almeida, o seu Juquinha, responsável pelas lâmpadas das ruas iraquarenses; Sá Preta, Maria, Natalina e Fone, carregadores de água; Rosalvo, Vavá, Edmundo nos transportes; Sílvio de Almeida, Otacílio Durães e Valter Azevedo Coutinho, primeiro prefeito de Iraquara.

Em 10 de julho de 1962 o registro no Diário Oficial dava Iraquara como emancipada. Aí foi a vez dos vereadores Ireno, José Catulé, Ângelo Matos, José Mendes; Dué, José Viana de Souza, Raimundo César Solon de Oliveira, Reinaldo Azevedo Viana, Haroldo Geraldo de Souza, Paulo Miranda Leles, Walterson Ribeiro Coutinho, todos prefeitos; Deocleciano, Abílio, João Lucido, Lió; Maria Marieta e Candinha, parteiras que retiraram das barrigas das mulheres centenas de filhos da terra que logo viriam a se juntar a outros tantos conterrâneos e formar, como de um só empurrão, o espectro identitário que hoje o município de aproximadamente 30 mil habitantes carrega em seus traços e trejeitos.

Iraquara que também é a Caiçara, a Zabelê, o Mulungu dos Pires, a Santa Rita, a Água de Rega, a Canabrava, a Várzea, o São José, a Queimada, a Quixaba, o Riacho do Mel, o Mato Preto, o Ponto Certo e tantos outros vilarejos de gente humana humilde e trabalhadora. Iraquara que também é a do meu pai pernambucano Carlos Adailton, a da minha mãe canaranense Irlan Pimenta, a do meu irmão Gustavo Xavier e também a minha. Iraquara tão pequena, Iraquara tão grande. Iraquara universo.

Um comentário:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Baby Dispenser by ~spellbound7"
Deviantart