sábado, 7 de maio de 2011

Macadâmias


Por Germano Xavier

Adalgisa Caiman da Silva


Foi na fila do banco, hoje pela manhã. Cinco pessoas ainda em minha frente e ela despontou no portão de vidro. Despontou, não. Melhor dizendo, aconteceu! A mulher era brega, viu, benzadeus! Cabelo alourado em coque, torcido e amarrado por uma cordilha de pedras brilhantes. Blusão verde combinando com a pintura nas pálpebras. Rouge e uma sobrancelha artificial pintada em tom amarronzado, destoando de todo o conjunto. Uma calça preta colada ao corpo cinquentão. Sem falar da bolsa, da argola, do relógio, da plataforma, das pulseiras, do cinto, do colar, do batom... ai, meu jesus!, e sem falar do papo com a Márcia, sua amiga de fila de banco.

- Ai, Márcia, me diz qual é a condição que eu tenho de pagar oitocentos e sessenta reais por um exame de rotina. E isso à vista! Qual é o dinheiro que eu tenho, Márcia!? Oitocentos e sessenta foi o que o médico me pediu. Pra fazer aquele exame que aquela cantora fez esses dias, sabe. Transvaginal, mamografia, conferir como está o meu DIU, hein, Márcia, me diz, como é?!

A Adalgisa não desgrudava da Márcia. E a Márcia, coitada, assalariada de uma empresa de embalagens plásticas, preocupada agora com os oitocentos e sessenta reais do suado salário que tinha acabado de entrar em sua conta.

Fernando Rebouças

Não via a hora de usar a gravata que o pai, com muito sacrifício, havia comprado para a festa. Modos antigos tinha o Fernando desde pequeno. Desde as cores das calças ao cabelo com brilhantina que usava na matinê, lá no clube do velho Ariosvaldo. Primogênito de uma família de oito, sempre teve de fazer alguma coisa para ajudar em casa. Perante os irmãos, sempre ganhou as coisas no grito. Mas aí Fernando se tornou o Fernando Rebouças, distinto estudante de Direito na faculdade pública. Lá, conheceu gente, muita gente, entrou para o movimento estudantil, arquitetou reuniões, pautou assuntos urgentes, debateu outros no horário do intervalo mesmo, vestiu camisa do Che, fumou maconha, viajou com todas as despesas pagas pelo reitor para muitos congressos e encontros de jovens joviais e esperançosos ainda em alguma coisa ligada ao radicalismo ou apenas na cor vermelha, deixou o cabelo crescer, quis ficar sujo pra parecer socialista, aprimorou sua dicção verborrágica, leu coisas sobre Zapatismo e Bolívar, organizou exposição sobre o maio de 68, calçou chinelo feito de borracha de pneu velho, pensou em ser hippie, leu On the road, leu poesia de Martí, pensou em liberdade de expressão, em direito à vida, em cidadania, pensou em miséria, em desigualdade social, analisou toda a sua retórica de protesto, passou a fumar um maço por dia, pensou em ser vegetariano, quis ser sempre sintético e amar muitas mulheres jovens joviais e esperançosas em alguma qualquer forma de radicalismo como ele, quis aprender a tocar violão pra juntar amizades e ficar ainda mais popular no meio, curtiu a lua, curtiu o sol, deixou a barba grande cobrir as bochechas, comeu a Marta - aquela jovem jovial e esperançosa totalmente sem graça do quinto período - porque ele era sintético, o Fernando, era de bate-pronto e sempre de ganhar as coisas no grito, não amou ninguém porque é careta no ambiente dele e foi pra rua, finalmente, fazer pedágio pra arrecadar no grito dinheiro para a festa de formatura no fim do ano.

Wilson Jackson

Wilson Jackson foi um brasileiro que viveu a vida inteira pensando no porquê dele não ter nascido na Estônia.

2 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"First Model by *Anark8"
Deviantart

Flor de Lis disse...

Que criaturas peculiares... ^^