sexta-feira, 6 de maio de 2011

Porque não sei perder você


Por Germano Xavier

Uma agonia. Ontem revi um dos meus vários fantasmas da infância. Era um dos estafetas, arauto de alguma coisa que quase sempre acontecia depois. Por isso, hoje, por onde estive andei encabulado, numa espécie de assustamento que tomou conta de todos os meus passos.

O teto branco do apartamento onde moro deixou de ser o simples teto branco do apartamento onde moro, transformou-se no teto antigo, forrado em madeira, da antiga casa onde cresci, recheado de imagens que eu perscrutava noturnamente, silenciosamente, diariamente. Um teto de lembranças esquisitas, morada de algumas entidades que me fizeram companhia por um longo tempo, antes de começar a perder, paulatinamente, aquela nossa potencial essência para o fantástico, natural quando se observa o levantar dos anos.

Sexta-feira, 16. Uma noite singular, por excelência. Tive a nítida impressão de que eu me fui novamente, como há muito... como nos tempos em que, mais que habitei Iraquara, vivi Iraquara. Eu a me levantar, suado, com uma adaga de prata em minha mão direita, na esquerda um escudo de bronze, olhar rijo, direcionado ao vago.

Aquele mesmo menino caçador de aventuras, aquele mesmo guerreiro leitor, moleque, em busca de estradas estranhas que só ele enxergava, procurando encontrar a sua sombra, o seu outro, o seu desconhecido, ele mesmo, sempre.

- Mas como és propícia ao alumbramento, Iraquara! Você com todas as suas lendas, os seus casos, a sua paralisante imagem bela dos seus interiores quase esquecidos por quem só sabe passar, germinam dentro do homem a certeza da sorte. Você sabe ser arcano e suspense, como uma mestra a manejar movimentos e ares em seus discípulos ainda na manhã recém-nascida.

Sua adolescência febril se materializando, menina-moça nem cinquentona ainda, e eu lendo seus reflexos pela janela do meu quarto, suas crescidões aligeiradas, observadas quando eu pegava meu carrinho de madeira e ia perambular por suas ruas, indo para os lados e para os cantos todos que têm a rosa-dos-ventos.

Solitário entre tantos papéis lhe estudando, o teto de estrelas brilhando por sobre a minha cabeça, a imaginação fluindo ventanias gélidas, viajando velas por riachos tão singulares, levando-me a crer que aquela deusa que presenteou com tantos poderes naturais, no bosque da fantasia real, por ora passeara ao meu lado, de mãos dadas, pegadas germinando pastos de esperança, vestígios deliberando vontades, a essência contígua e mútua fomentando florações.

- Iraquara, terra de destilar paixões, quem és digno de sua morada? Quem irá saber lhe condenar ou manipular seus impérios de sol e de lua? Quem será dono da façanha de lhe desvendar?

Conhecer-te um dia, no lar peninsular de minha ilha, fazer-te minha, inteiramente, sem desperdícios... conhecer-te a ti, para conhecer-me mais, para desvelar-me, posto que sou baú de arcanos, meu sonho. Conhecer-te um dia, apenas. Conhecer-te para o sempre, para o que não se finda, para a não necessidade de outros conheceres, para permanecer perene até o fim, até a última gestação da vida, até a derradeira fagulha, até a última centelha minha se apagar...e eu cair, debruçado, sobre o mesmo chão que me viu feliz. Conhecer-te, Cidade das Grutas, conhecer-te uma hora sequer, quem sabe, um minuto que seja, e suspeitar de tudo que é seu, de tudo que a ti e somente a ti pertence.

- Quem dos teus filhos nascerá tão grande a ponto de lhe fazer entendimento, linha reta, norte sem curvas, sem medos nem erros? Quem dos teus rebentos safar-se-á do perigo de Dâmocles¹ e saberá lhe dirigir rotas menos traiçoeiras? Quem, Iraquara, quem?

Por você, peço licença ao mestre Carlos Drummond de Andrade² e me confidencio um pouco mais, num poema:


Confidências do Iraquarense

Alguns anos vivi em Iraquara.
Principalmente nasci em Iraquara.
Por isso sou triste, sentimental: de cal.
Noventa por cento de cal nas calçadas.
Oitenta por cento de cal nas almas.
E este alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o estudo,
vem de Iraquara, de suas noites frias, sem pressa e sem tempo.
E o hábito de sofrer, que tanto me persegue,
É doce herança Iraquarense.
De Iraquara trouxe prendas diversas que hora te ofereço:
esta humanidade de criar-se feito bicho;
esta pedra de ferro, futuro cal do Brasil;
esta ardósia riscada em desenhos, na parede da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive amigos, glórias, tive instantes.
Hoje sou seu estudante.
Iraquara não é apenas uma fotografia na lembrança.
Mas como dói.


Perto daqui, como o Agostinho³, buscarei a verdade. A verdade é minha própria vida, ninguém me impedirá! A disciplina, poeta ou homem comum, é necessária, como correr o risco de perder para o vento forte a bandeira no alto de sua elevação. Os mastros sempre tendem à queda, perigosamente. Mas, eu sei, minha hora há de chegar, a devida hora para alguma coisa. E nessa hora uma das coisas que não quero que se perca em mim é esta minha carência de sentir você ainda mais viva dentro do meu peito, em amor e ódio.

Certo é que, mesmo deixando você ir livremente, não desejo o seu sumiço integral, Iraquara. Hoje, pela manhã, percebi isso na voz daquele que dizia "vai", e me aconteceu. Sou seu filho e não sei explicar. Aconteceu, assim, vitoriosamente, em louros e silvos de pintassilgos. Foi quando me lembrei do meu fantasma estafeta...


Notas.
1 – Conselheiro da Corte de Dionísio, o Velho, na mitologia grega.
2 – Poeta mineiro, autor do poema Confidências do Itabirano.
3 – Santo Agostinho de Hipona, bispo católico, teólogo e filósofo.

3 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"cidade by ~makemeright"
Deviantart

Rosangela Neri disse...

Simplesmente com em um sonho...

Beijinhos e bom fim de semana!

Rosangela Neri disse...

Perdão... digo, como em um sonho...

Cheiro.