sexta-feira, 13 de maio de 2011

Para sempre o nado


Por Germano Xavier

Ele foi.

(Mas aqui é o começo desta história que justamente se inicia pelo fim. Mas é bom lembrar que todo fim é o começo de uma outra coisa. Ou o começo de uma mesma coisa também.)


Os dois estão na cama com o relógio de plástico na cor laranja em formato de espiral marcando algo em torno de uma da madrugada. Ele no canto direito do colchão, vestindo uma calça jeans da marca Ônix e uma camisa com gola branca que ganhara da mãe na última vez em que estivera em sua antiga casa. Ela no outro canto com um edredom meio esverdeado sob os pés lhe amainando um pouco o cansaço das pernas de andar o dia inteiro pelas ruas da cidade. Ele havia dito a ela que admirava seu espírito guerreiro, o que a fez olhar mais para dentro dos olhos dele. Foi um momento importante, por isso está aqui descrito. Mas não se engane. Nem tudo que está registrado é fundamental. Às vezes, só compõem a cena. O importante mesmo é a entrelinha. Às vezes também, não é sempre. Os dois se entreolharam, pasmos com tudo aquilo, pouco entendendo o que estava acontecendo, e pauperrimamente trocaram um desejo de boa noite, externados com sofrimento por suas gargantas entediadas.


No recinto havia somente a presente forma do silêncio que invadia tudo sem pedir licença. O silêncio era austero, rude. Um silêncio grosso e angular. Os dois se olhando ainda na madrugada com ressentimento e medo e com as extremidades frias do corpo sendo sentidas. Os dois com olhares ressentidos sem nada entender. A janela basculante semi-aberta possibilitava um arrepio de peles de vez em quando. Mas era de vez em quando mesmo. O vento parco era também obtuso, tão fracamente entoado como a pálida agudez dos olhos das duas criaturas que não conseguiam adormecer em seus cantos escolhidos. Uma da madrugada e só o relógio marcava o seu compasso correto. De resto, os ponteiros dos corações andavam tortos, perdidos no vazio das coisas, das coisas do próprio coração, corações que palpitavam meio que entrando em colapso. A chance para pôr dois comprimidos de aspirina embaixo da língua. Uma possibilidade. Mais que isso, uma probabilidade. Porque os corações estavam encolhidos.


Um pouco antes, quando a noite ainda já não era caída tantamente, deram uma volta pelo centro com o carro que ela havia comprado no fim do ano passado. Eram luzes difusas as dos postes iluminando apagadamente os córregos das gentes. Saíram quase sem combinar, um ao lado do outro, na direção de um solar pintado na cor amarela, com a tinta nos rebordos já descascando por motivo das horas grandes e ultrapassadas. Via-se o calçadão vazio de pessoas, algumas mulheres noturnamente se esfregando em esquinas baldias, com seus colares de pedras coloridas e sem nenhum valor, paredes repletas de pichações e códigos secretos pintados por mãos de homens secretos pertencentes a gangues também secretas. Homens barbudos e com cheiros nas axilas bebericavam suas lástimas em copos mal lavados. Os balconistas limpavam as bancadas com panos sujos e esqueciam das próprias desgraças que possuíam. A noite parecia estar suja, mas uma lua por detrás de um monte limpava o firmamento.


Tinham saído e pouco depois já estavam de novo dentro de casa. Deitaram, os dois, do modo quase exato como fora descrito no início deste conto, um vestindo calça e ela com uma camisola branca de algodão. Ele com o pênis dobrado sobre si mesmo dentro da cueca depois de preenchido de sangue as cavidades começava a incomodar um pouco. A mulher pediu para que ele dissesse ousadias enquanto o chupava, no que ele olhou para o teto demonstrando inquietação, suspeitando da fala esquisita ouvida.


- Não é bem assim – disse o homem, ainda olhando para o teto.


- O quê?


- Assim, desse jeito. Ou melhor, nunca foi assim. Era diferente.




Ela foi.

(Aqui é o meio da história. E como todo meio, também é o princípio para o fim. Ou para o início, se formos de trás para frente. Questão de bom senso.)


Ela foi e também não fizeram sexo. Ele devia estar passando por um crise existencial muito forte para rejeitar uma mulher dessa forma. Ou devia ser a coisa do amor, que quando vem... bem, já sabemos. Passaram o dia juntos, dormiram juntos, conversaram. Ela havia viajado para vê-lo e não fizeram sexo. Pudesse ser uma crise medíocre e do nada ele arrombaria toda e qualquer porta. Mas não, era coisa ligada ao amor de verdade. Não que por ela não tivesse sentido amor de verdade, mas ele amava mais de verdade ainda agora. O amor tem disso, impede até sexo. Amor que é amor elabora chacina de amores. Para sobrar só ele mesmo. O um. É egoísta. Só se pode amar um amor. Aí é quem vem a maluquice. Tem gente demais pensando que amor é bicho altruísta. Danou-se. É tanta testa batendo contra a parede que causa até compaixão. Resumindo, foi isso. Ela foi e não aconteceu praticamente nada. Só mesmo a beleza da amizade.


E ele foi.

(Esta conjunção aditiva diz muito sobre o amor.)


A terceira parte dessa história começa assim mesmo, com um “E ele foi”. Convenhamos, já está tudo dito. O “E” é aquela espécie de palavra que desbrava outras, feita para o desfronteiramento dos medos e das ordens de caretice, para o andar sobre o fio da navalha. O “E” é o corte, o gosto em expôr a ferida aberta. Foi assim. Tudo ao contrário do que foi escrito aqui. Muito sexo, muita música, muita ousadia dita de forma natural que a própria ousadia não parece mais ousadia, muitas noites, muitos dias, tudo muito, muito bom muito bom muito bom. Mesmo.


P.S. O problema todo começa já no fim desta história, que é o começo da história também. Amor é escolha. Não dá para dividi-lo ao meio. Tipo um menino que não sabe nadar sendo perseguido por qualquer inimigo. A água azul da piscina é um amor. Ficar é outro amor. E aí está o X da questão. O homem decidiu pular do trampolim e beijar a face celestial das águas. E foi para sempre. Tchibum!

2 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"puddle by *M-a-e-e"
Deviantart

Ana Lucia Sorrentino disse...

"Amor que é amor elabora chacina de amores." Como é que já sabe tanto, Germano?