quinta-feira, 26 de maio de 2011

Quase um conto de fadas


Por Germano Xavier

Está um bom dia para contações, não achas? Agradeço desde já pela gentileza de me ouvir. De antemão, no intento de me prostrar diante de minhas devidas responsabilidades, alerto para o fato de que qualquer coincidência que haja perante outras estórias e ficções não são meros acasos. As semelhanças são mesmo demasiado verossímeis.

Pois bem, começarei.

Era uma vez um homem que não se envolvia em lutas nem em brigas, mas que defendia com afinco os direitos dos seus vizinhos de terra. O homem possuía uma linda fazenda, onde corria um rio antigo de águas transparentes, morada de milhares de peixinhos cor de prata. Um lugar mágico, vigiado pelos pássaros e pelos ventares mais amenos, onde muitas pessoas moravam, agraciados pelas belas formas divinais da natureza.

Certa feita, o homem saiu de casa, sozinho, e pensando em...

Uma pausa aqui, por favor. As reticências que me ocorrem são deveras propositais. Peço paciência, prezado leitor, pois achei um modo muito mais oportuno de lhe contar essa estória. Espero que não se irrite com toda esta minha inconstância.

Mas, veja, escute bem.

Era uma vez um homem chamado Simpliciano Lima, combatente dos direitos mais humanos e dono de uma fazenda situada a sudeste da cidade de Iraquara com cerca de mil hectares. Uma fazenda rica em tudo, com solos apropriados para o cultivo de feijão, milho, hortigranjeiros, mamona, mandioca, além de muito propício à criação de caprinos, equinos, ovinos e bovinos...

Antes funcionando para as já citadas atividades, e também para a estocagem de armamentos que serviam para combater invasores inimigos que sempre atazanavam àqueles idos os mais diversos donos de terra; hoje, conhecida como o “Oásis do Sertão”, tornou-se ponto importantíssimo para o turismo ecológico da região chapadense.

Contam os mais velhos que, certa feita, Simpliciano saiu da sede da fazenda logo pela manhã, resolvido a encontrar um nome para o lugar. Andou manhã inteira pelas margens do rio de águas claras e repousou onde o rio fazia remanso. Ao olhar mais atentamente para o centro das águas, Simpliciano reparou nos inúmeros peixinhos prateados que iam constantemente à superfície, no objetivo de buscar o aquecimento necessário para as suas escamas através dos raios solares. Naquele instante, parou. Estarrecido com tamanha beleza, de supetão nomeou o rio com o termo “Pratinha”.

Formado principalmente por águas que subterraneamente ultrapassam os limites iraquarenses, passando pelos lugarejos “Pedra Furada”, “Lapão” e “Baixão do Poço”, corre manso e perene exibindo seu conteúdo calcário e salitroso.

O Pratinha se une ao Rio Preto e transforma-se no rio Santo Antônio. Desce esguiamente por muitos quilômetros e vai desaguar no rio Paraguaçu, em Andaraí-BA. Mas é dentro das fronteiras da fazenda do saudoso Simpliciano que o rio encanta mais. E as razões para tal afirmação são bem simples.

No interior da fazenda ele divide espaço com a Gruta da Pratinha, que fica logo abaixo da casa-sede, onde hoje é o restaurante principal do balneário, com a Gruta do Caboclo e com a “menina dos olhos”, internacionalmente conhecida, Gruta Azul – o destaque cabe à coloração em tom azulado em seu interior quando os raios luminosos adentram em forma de feixe pela extensão da caverna. O lugar também já serviu de cenário para várias gravações de novelas da Rede Globo, a exemplo de “Pedra sobre Pedra”, “Estrela Guia” e “Agora que são elas”, e para a cinematografia norte-americana, a citar o filme Turistas.

Distante dezenove quilômetros da cidade e dono de mistérios e de ainda ocultos segredos, como o dito existente canal subterrâneo que liga a Gruta da Pratinha à Gruta Azul, onde se encontrariam inúmeros registros rupestres e outros símbolos milenares, o Rio Pratinha está dentre os mais conhecidos de toda a Chapada Diamantina.

Simpliciano de Oliveira Lima, natural de Baraúnas, município de Seabra-BA, nascido em dezesseis de agosto de 1875 e falecido em abril de 1960, agropecuarista e conselheiro da cidade de Seabra-BA, escreveu seu nome na história, que nas devidas paragens deste texto já perdeu o caráter “estórico”, usando para isso sua visão contemplativa do pedaço de chão incomum que possuiu. Abriu uma veia de beleza inconfundível dentro da impressionante “terra dos diamantes”, convidando o mundo em sua inteireza para lograr de um espaço “abençoado por Deus e bonito por natureza”, como diria a composição do Jorge Ben. Era uma vez a Pratinha... e todos que ali chegam são felizes para sempre. Mas isso não é bem uma estória. É uma história com H.

3 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Arise by *livetoregret"
Deviantart

Flor de Lis disse...

Contos de "Buraco do mel..." Forma encantadora de falar de tua cidade.

Ana C. disse...

belo
beijos e flores