sexta-feira, 15 de junho de 2012

O Ariano sol dos Arianos



 Por Germano Xavier

Manhã de 26 de setembro de 2005. Um alvorecer como todos os outros, normal? Fosse normal e este texto não existiria. Fosse apático e não haveria esta minha inquietude em escrever. Sol. Por volta dos 40 graus. Temperatura elevada em corpo e alma.

O telefone tocou:
-Venha para Petrolina. Acho que vai dar certo!

Olhei o relógio. Os ponteiros marcavam doze horas e vinte e seis minutos. Por um instante travei confusa batalha com a pressa. Eu era um alvoroço. Fechei a porta de casa, e era como ter a leve impressão de ter esquecido algo importante. Mesmo assim, caminhei. As horas eram pássaros.

Logo a orla, as barcas, a ponte, o majestoso rio São Francisco... e o verde, o verde de toda a minha esperança. Lembro que, durante a travessia do Velho Chico, folheando as páginas de meu caderno, encontrei um poema do Abgar Renault numa folha solta. Confesso que não consegui lê-lo, e se li não houve compreensão alguma, tamanha era a convulsão interna em minha criatura.

Cheguei. Mais alguns passos e acabaria avistando, numa esquina, sentados, com caras de expectativa, meus colegas Osete e Ayala. Três pobres mortais, alguma pressa, alguma paciência, algumas perguntas e nenhuma resposta. Dois ou três quarteirões vencidos e logo estaríamos no portão de entrada do JB Hotel. Um olhar de soslaio e a ligeira constatação: lá estava ele, sentado, ao lado de sua esposa Zélia e de mais duas pessoas.

Parei, atônito com a complexidade do momento. Nesse ínterim, percebi que tinha realmente esquecido algo de relevante em meu aposento. Tivera eu esquecido, sob o meu travesseiro, o significado da palavra "profissionalismo", e percebi que assim estaria mais livre.

Entramos. A vontade era insana. Osete foi ao encontro de Alexandre Nóbrega, assessor do Imortal paraibano de Taperoá. Nesse momento, o "Titã Sertanejo" se levantou , olhou sorrateiramente para nós (eu e Ayala) e, amorosamente, abraçou uma senhora. O clima era de despedida. Logo pegaria um avião (ação que detesta), com destino à cidade de Recife, onde mora atualmente.

Foram dez minutos com ele, ao lado dele, sentindo o transpirar arfante de uma alma de 78 anos de idade e de uma brasilidade única. Confesso que no auge do meu cataclisma, minhas pernas tornaram se bambas. Confesso, também, que não prestei a devida atenção na entrevista produzida por Osete (que também tremeu). Não haveria como. Ayala, de joelhos, copiava o que se podia. Tantos nomes, tantos autores, tantas referências, tanta vida... e um só nordestino. Prendi-me ao teu vivo olhar, à tua face singular, às tuas brancas sobrancelhas, àquelas mãos marcadas por veias proeminentes, ao contraste do lenço branco no bolso com o seu paletó de linho negro, provavelmente feito por uma costureira popular desse vasto nordeste, ao teu cruzar de pernas, ao teu pigarro viciado, à tua voz rouca, à tua serenidade, àquele Brasil natural, sem plásticas.


Texto publicado na saudosa "Revista Visões! Materializando Idéias", sobre o contexto e a emoção de conseguir estar ao lado de um dos maiores nomes de nossa literatura, Ariano Suassuna. A entrevista fora publicada na íntegra na edição de número 5 da revista. Osete e Ayala são colegas de faculdade e, assim como eu, devem guardar na memória esse momento indelével e único.

5 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Sol
by ~neilamutak"
Deviantart

Joop Zand disse...

Thats a fantastic picture Germano !!

greetings, Joop

Cacá disse...

Eu não sou de tietaem, não , mas o dia em que fiquei cara a cara debatendo com o Moacir Scliar, confesso que também entrei em quase erupção de emoções. A fala se recusava a sair, o tremor se recusava a me abandonar e mesmo assim deu para balbuciar alguma coisa para ele. Dois autores que tinha uma vontade de poder pelo menos apertar as mãos um dia era o Suassuna e o Manoel de Barros.

Graça Pereira disse...

Querido Amigo
Voltei a encontrar-te, que bom ! Gostei sempre de te ler! De repente o acesso ao teu blog, ficou pesado e dificil, não te sei explicar porquê! Afastei-me com pena! Para além do que escrevias, gostava dos teus comentários , simples e directos.
Hoje vim aqui para te desejar um feliz Natal e um Ano Novo muito prometedor e encontro esta crónica bem escrita, como sempre! Fiquei feliz!
beijocas
Graça

Controvento-desinventora disse...

Alguns encontros que tive com ídolos literários foram inesquecíveis, mas nada me deixou tão emocionada - que eu tenha lembrança, nesse sentido - que tocar a máquina de escrever de Clarice Lispector. Foi uma emoção indescritível. Por isso, entendo o que houve com você.