segunda-feira, 25 de junho de 2012

Um cobertor de veludo


Por Germano Xavier 

"Sempre é uma medida de tempo que ninguém pode deter."
Tatiani Távora


o corpo pode ser um albergue
onde muitos seres o habitam
porque podemos ser muitos e desinteiros podemos ir
porque todos podem morar no mesmo corpo
e porque podemos escolher usar máscaras
assim como todos os seres que nos parasitam
máscaras risonhas tristonhas de criança de velho de santo de demônio
máscaras com maquilagem ou sem
máscaras que podem ser os rostos verdadeiros diante dos espelhos
daqueles de quem ninguém jamais viu ou ouviu falar
(nem mesmo eles, os próprios)

o corpo pode ser albergue
ou pode não ser nada ou pode não ser tudo
ou pode não ser máscara ou pode não ser um falso rosto
(a semelhança é um estado de imobilidade
- e a imobilidade pode ser ou não ser morte)
parecido pode não ser igual
já que o entendimento é potencialmente dissonante
pois que o corpo é a casa onde não podemos morar

acalma-te, sob este cobertor de veludo
há uma vida toda embaraçada em pernas e melenas,
mas uma vida que te ama agora como ninguém mais
que espera sem pressa a nossa morte conjunta entre pernas
e coisas

não haverá no agora ser de fulgurante espécie
a te desejar mais nas entranhas e nos arredores dos solstícios
que me fazem adormecer no amanhã que amanhecerá
- se tu me cobres com teu corpo,
hei de ocupar o ocaso de teus vãos maiores
para que o rubro nasça do sol entendedor

dê-me teu corpo desinteiro ou sem integridade
a tua alma que não pude ter quando preso no labirinto
que junto pedaços pelo chão e te construo diva em meu divã
em forma de ânfora divinal e, enfim,
te acordo em mim

6 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"short story about Nothing
by *zenibyfajnie"
Deviantart

Controvento-desinventora disse...

No divã, divinal..divinizamo-nos.

Rebeca dos Anjos disse...

O veludo não cobre, encaixa.
Não encobre, ao contrário.

Beijos!

Daniela Delias disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leilane Paixão disse...

Lindo isso que você escreveu. Lindo porque toca, mexe.

Sobre o encaixe citado por Rebeca dos Anjos, associei a mais algumas palavras de Rubem Alves:

"Viver é montar um quebra-cabeça. Viver é procurar encaixes. (...) O vazio de um é o pleno do outro. O vazio de um é a felicidade do outro. Assim é o amor. A tristeza amorosa é o vazio desejando o pleno. Sócrates inventou um mito para explicar o amor. Disse que Eros nasceu do casamento entre a "Pobreza" e a "Plenitude". O amor é um buraco na alma. Quem ama é pobre. Falta alguma coisa. Peça desencaixada do quebra-cabeça. O sentimento amoroso é a nostalgia pelo pedaço que me falta, "pedaço arrancado de mim". Assim são o masculino e o feminino. O masculino é o pleno que ora pelo vazio que o abraçará. O feminino é o vazio que ora pelo pleno que nele se encaixará. Quando os amantes se abraçam e as peças se interpenetram, os corpos se encaixam, como no quebra-cabeça. Todo ato de amor é uma realização efêmera de uma unidade original de perdida."


Espero que faça sentido e ajude a pensar essas questões bonitas e profundas da alma..

URBAN.GO disse...

Lindo, muito lindo!
Parabéns por este belo "pedaço" de inspiração.
Bom fim de semana.