domingo, 17 de junho de 2012

Sobre o selvagem



Por Germano Xavier

A Luís Osete


Ele está - porque me perguntam, respondo, os lógicos -
ali, tão perto e tão distante, tão-somente
só em se deixar estar perdido, inerme,
disfarçadamente esconde tua cidadela,
teu forte, nos arroubos do branco.
Tua tez, tua estrela - o teu fado?, fardo? -
de universar, de mundar, de amadurar
em sempre. Aonde tu vais, passarinho?
- perdido, ai, na perdição mais deliciosa,
a arte, de viver, de sonhar, de estar
sendo, onde tu te encerras? -, bicho
do mato que nem eu - esse menino
é muito homem. Viajado, procura a viagem
que nunca faremos, mas que ela existe,
tua procura. Investiga, deslinda, os
sons, os barulhos, as pegadas do tempo
que jamais ouviremos, mas que elas o habitam,
um caçador. E quando batem à porta,
digo que está, e que não te atenderás
porque navega o inextenso espaço. Vais,
não acompanho, deixo-te seguir, não singro
teu mar, respeito-te, amigo, irmão, nosso oceano
de ganhos desponta - tua psicologia em silêncio
e ausência - mais que presente em se estar
junto, teu jeito, meu jeito, o jeito
desajeitado de ajeitar o mundo, tantos.
A liberdade na chave que carregas, de ouro
o olhar, o gesto, o apreço, a manipulação
das horas. E quando te chamam, persisto,
e digo - atenderás, os lógicos? -, não a ti,
mas aos que vêm, curiosos, teu desgoverno.
Não te acordo, deixo-te o sono, eterno,
deixo-te a paz, dos desvarios, das certezas loucas.
A tua verdade, anda, não te prives, vais,
qual bicho do mato, sem vis governos.

6 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Light through the window
by ~Pajunen"
Deviantart

docerachel disse...

Fui acordada do sono eterno...

Amei tudo isso!

wallace Puosso disse...

O caminho, o trajeto, a procura. Mais essencial que o resultado, o chegar, a resposta. Abraços, meu caro e parabéns! belos textos (este e o post anterior)

{Mari Gondim} disse...

Qualquer possibilidade de passar, simplesmente passar, por este blog, tornou-se nula para mim ao ler o texto.
Não quero simplesmente passar por aqui. Acho que estou irremediavelmente ligada a este 'lugar'.

Ana Claudia disse...

Obrigada por este "Sobre o selvagem".

Controvento-desinventora disse...

A profundidade me encanta e o peso das palavras me causa leveza. Eis a essência que saboreio.