segunda-feira, 4 de junho de 2012

História universal dos degraus



Por Germano Xavier


Para Luís Osete Ribeiro de Carvalho


Com um pé para fora do quadrado do seu quarto ela parecia querer alçar alguma espécie de vôo, ou mesmo partir dali para outro lugar qualquer ou para um lugar-nenhum, feito personagem de quadrinhos, ou simplesmente sair um pouco, respirar. Eu tinha a impressão de que o ar daquele ambiente hostil, sinônimo de distância e esquecimento - mesmo pertencendo à mesma casa -, era um ar espesso, formado por fumaças negras, densa em acinzentamentos. Durante todo o tempo fiquei observando ela daqui do térreo, com uma xícara de café pendurada ao meu indicador esquerdo. De onde estava, se eu a olhasse, enxergá-la-ia perfeitamente através do vão feito pela escada em espiral que, como uma serpente, subia até a andar de cima presa à parede esbranquiçada. Por um momento a perdi de vista, mas foi realmente por um curto instante e logo meus olhos de novo fitavam-na. Julian nasceu assim, e o que fazer? Era esta a eterna pergunta que soava por todos aqueles cômodos, durante todos aqueles dias e anos, mais precisamente trinta e três anos. Na segunda vez que a vi, naquela manhã outonal, ela me surgiu muito rapidamente e atravessou o pequeno corredor do andar de cima. Só deu para prestar atenção na capa preta com forro em vermelho que, pela velocidade imprimida à corrida, balançava feito uma bandeira hasteada no posto mais alto de um mastro. Desde muito pequena Julian demonstrou apego aos super-heróis e heroínas que via através da televisão. Gostava muito de se fantasiar como eles e sair, mesmo que imaginariamente, lutando contra os inimigos da grande cidade, derrotando os farsantes e impostores, os ladrões de bancos metropolitanos, para depois gozar de seus feitos em paz e num território onde reinasse apenas os seus mandamentos. Com o controle nas mãos ela descansava, pensava rapidamente numa nova investida, inventava um novo chefe do mal e recomeçava a brincadeira. A verdade é que jamais soubemos lidar com Julian. Apesar de pequena e dependente, ela sempre nos dominou. Havia ocasiões onde nos botava feito escravos, rendidos servos afeitos apenas para a satisfação de seus prazeres mais particulares. Como da vez em que nos obrigou – a mim e a sua mãe Beatriz - a ficarmos dentro do refrigerador por cinco horas seguidas sob a sua vigilância. Julian não era de todo esquisita, nem possuía uma alma ruim. Pelo contrário, tinha um coração humilde, sem grandes orgulhos, que também sabia perdoar. Mas era ressentida, de acessos raivosos imperdoáveis, neuróticos até. O fato de não possuir um rosto lhe era profundamente danoso. Não raro perdia a noção do espaço e tudo a feria. Era mesmo uma besta-fera de ira desmedida quando a tormenta maior do mundo a atacava e, assim, para que maiores prejuízos fossem evitados, decidimos colocá-la no andar de cima, afastada de tudo e de todos. Ali permaneceria durante seus últimos treze anos de vida. Tínhamos programado tudo, horário para as refeições, calmantes, conversas junto à porta... Com muito sacrifício conseguimos manter ela assim, sem grandes imprevistos, a tirar os baques na porta que dava quando a solidão excessiva lhe afligia. Por medarmos de que tal desgraça nos acontecesse novamente, eu e minha esposa resolvemos não tentar ter outro filho. Deste modo, continuamos a vida. Vivíamos como se não a tivéssemos em nossa casa. Saíamos para trabalhar e nos divertir juntos, como a um casal normal, enquanto que Julian ficava presa em casa, completamente trancafiada em seu aposento. Não nos atinava nenhuma espécie de compaixão ou algum resquício de pesar diante daquela situação e, por mais que aquilo pudesse doer em nossos sentimentos, preferíamos evitar qualquer mal maior. E, pensando bem, fazíamos o melhor que podíamos fazer. Era a nossa forma de amá-la, retirando-lhe da mira de quaisquer infortúnios, julgamentos ou retaliações. Porém, por um motivo maior, resolvemos soltar nossa filha Julian. A casa estava tomada por um odor fortíssimo que vinha impreterivelmente do interior do quarto onde Julian ficava. Um odor realmente intragável que, se não o eliminássemos o quanto antes, logo afetaria as residências vizinhas e, por conseguinte, chamaria a atenção das pessoas para o estranho cheiro oriundo de nossa casa. Esta idéia não nos era aprazível e logo maquinamos um plano. Todo o processo fora pensado e discutido com muita calma. Depois de imaginarmos todas as prováveis conseqüências de tal liberdade, decidimos apostar na sorte. Treze anos sem vermos o rosto de nossa filha, treze anos de afastamento, treze anos de sujeira acumulada. A curiosidade, sem dúvida, foi um dos maiores combustíveis para a tomada daquela decisão. Amarraríamos uma corda presa à fechadura, com a qual faríamos a força necessária para que a trinca se rompesse definitivamente, porque da chave já não dispúnhamos há bastante tempo, perdida depois de algumas sessões de dedetização. Esperamos a manhã, pois era a hora de maior silêncio no andar de cima. Sempre supúnhamos que esta era a hora preferida de a Julian dormir. E assim se fez. Eu e Beatriz embaixo, no último degrau da escada, imprimimos pressão à corda e a trinca se partiu sem demandar grande esforço. A porta despregou-se do umbral e balançou com o vento que invadia o andar superior. A fedentina espalhou-se ligeiramente, deixando-nos meio tonteados. Apreensivos, ficamos esperando por longas horas. Logo a casa estava completamente tomada por um forte odor que misturava vários cheiros, depois também nossas roupas, peles e, por fim, nossos cabelos. Misteriosamente, Julian não dava o ar de sua graça, e muito menos tínhamos coragem suficiente para subirmos até lá e encará-la de frente. No primeiro dia não dormimos, ficamos na sala esperando algum movimento que viesse lá de cima ou um barulho qualquer que despertasse maior atenção. Mas nada aconteceu. Ficávamos preocupados com o que nos poderia acontecer quando voltássemos de uma festa de família ou após uma reunião de trabalho. Beatriz não ficava mais sozinha em casa quando eu saía para comprar pão ou ir ao banco. Se eu fosse lavar o carro, lá ia Beatriz ficar comigo na garagem. Hoje já nos acostumamos mais com a idéia da porta descerrada no quarto da nossa filha. Amanhã fará dois anos que arrombamos a porta. Neste tempo, vi Julian por duas únicas vezes. Em nenhuma delas pude ver o rosto da minha filha. Na mais recente aparição a vi numa manhã outonal, muito rapidamente, atravessando o pequeno corredor do andar de cima com a mesma capa da heroína preferida de sua infância presa ao pescoço. Na outra, ela estava com um pé para fora do quadrado do seu quarto e parecia querer alçar alguma espécie de vôo, ou mesmo partir dali para outro lugar qualquer ou para um lugar-nenhum, feito personagem em quadrinhos, ou simplesmente sair um pouco para, aliviada, respirar.

3 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"mY Lighthouse, my star...
by ~dYaRT"
Deviantart

Rosangela Neri disse...

De degrau em degrau... vou.

Bj da Rô

Controvento-desinventora disse...

O forte (o)dor da prisão só se espalha, diante do vento da liberdade - que pode até ensaiar a fuga, degrau a degrau, mas o que quer mesmo é fazer voar o super herói.