quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Aquela coisa antiga de se gostar da dor


Por Germano Xavier 

para Zélia Palmeira

"... o que a gente imagina que poderia ser talvez uma continuação
às vezes não passa de um novo capítulo..."(Caio Fernando Abreu, in Morangos Mofados)

Sabe-se lá o quê realmente me faz sair de casa, lua dormindo, dia nascido em pedaço pequeno, e ir à casa dos livros, casa cósmica, ler realmente o que quero finalmente dizer. O que faz não sei, homem sei, sou, assim, quase diria, dirá quase homem já, indo e crescendo e indo e indo e aquela coisa de caminho, sabe?, aquela coisa que se precisa, dizer que se está, indo e indo vamos e vamos, indo?, homem eu que quero finalmente dizer que se o meu nascimento fosse hoje, segunda-feira gorda, espatirfar-me-ia no sofá porque ninguém merece nascer numa segunda-feira gorda. Gorda de olhos preguiçosos, de olhos invejosos maldormidos carcomidos humanos cheios de dores. Gordura ruim, autonegação. Aquele mistério de tanto absurdar-se com o que a gente imagina que poderia ser apenas, e sempre não é, sabe, aquilo de meter a cara na parede, de dar contra tudo, de dar tudo, puta e meretriz e alcouceira. Dia de patrão mandar a gente para o lugar mais puto, puta merda!, vontade de largar a mão pedra soco inglês golpe gingar capoeira alô alô meu berimbau. Dia de nascimento e de realmente e de finalmente dizer que segunda-feira gorda é quando todos os personagens são máscaras, e bailam bailes salão bonito e a gala toda e a gala toda. Dia de desfilar imóveis móveis em rodas sobrepostos e aqueles sapatos chiques e eu que não. Eu que não, sou, sei lá não sou, e dá?, vai ver que dá, vai ver que sou e não sei, ou não. Sumarissimamente, setor de operações ritualísticas é o domingo: dia de imaginar os ornatos do servilismo semanal, seminal. E o domingo não? Depois que resolveram embelezar a escrava para a companhia litúrgica dominical, costume é nome de gente. Campos do sagrado que absorvem fracos. E quem não receia um quadrângulo de quiromancia? Meu sapato está com quatro furos, dois de cada lado, e ele deixa parecer que meu pé é pé pequeno, de criança o pé, mas eu já calço 42 ou 43. Meu pé é largo, caminho largo. Uma vez me veio uma moça azul e amarela me dizer que eu carrego o mundo nas costas e por isso aquele este esse meu andar farposo. Eu digo deve ser o meu medo do quadrângulo do quiromante. Sabe aquela coisa de caminho, de se ir, de si em si e para, sabe?, aquela coisa de que se precisa, dizer que se está, indo e indo vamos e vamos, vamos?, indo?, coisa de se ler, leitura de olho pregado na palma da mão, das mãos quando não serve só uma e o corpo está fechado, satanás existe mesmo e ele é deve parece pode ser a parede, o carro que nos atropela. E quando a gente não sai do entroncamento, coisa de segunda-feira gorda, dia de já odiar a rotina e o cotidiano de toda ela, a semana. Eu que não, sabe, modelo meu modo de falar, eu mesmo, os outros são eu sei, eu me guio, furto-me a interpretações vazias acerca do que não me é e do que não vivo. Dizem por aí que o nome disso é poesia, eu não sei. Só sei de uma coisa: que todo mundo, mas é todo mundo mesmo!, sem exceção, caminha. Aquela coisa de caminho, sabe?, destino sina missão vida inteira dedicação e preço pago. E quem é ateísta como eu não tem regalia, sofre do mesmo. Não tem diferença não, meu irmão, todo mundo vai. A Judie foi também. Até ela. Aí, conta aí, faz a conta, põe a Judie mais a Dora mais a Felice mais a Aloise mais o Castor mais o Felipe mais o Roger mais a Cris mais a Ângela, põe, meu amigo!, que não termina aqui!, aquela coisa de se ir, para onde e aonde der, desatino. E vai todo mundo, vai. Aquele vai desdizendo verdades, o outro comprando rosquinhas com aroma artificial de baunilha, aquele sem pai vai, ela sem mãe sem mão sem pão vai também, vão felizes, vão tristes, aleatoriamente vão esporadicamente, instantaneamente, fracassadamente não deixam de ir, eles e elas sem saber vão e vão ao vão de si, cobertos e com frio vão, chupando mamando trepando comendo vomitando cagando vão sem dó com dor sem cor nus mentindo fingindo fugindo lendo lentos irão sempre ouvindo sentindo sendo e não sendo ganhando e perdendo vamos vivendo sem vida con-sen-ti-da ida vida? vamos e os anos passando terminando, e começou?, quando termina?, quando começa essa coisa de se ir?, e continuam indo, continuamos contínuos, o meritíssimo todo “todo” vai, o fedentino vai, todos juntos na roda gigante, no carrossel, nesta gangorra que é essa coisa de caminho, sabe?, essa coisa de se ir sem fim, sem sim e não, coisa que meu pai não ensinou muito menos a escola nem o livro que li semana passada porque o escritor vai também e leva junto o doutor o gari o psicanalista a manicure o professor o varejista o informal o traficante e o policial tudo e todos presos nesta prisão sem grades tão gradeada tão gradativa tão degradante sem antes nem depois e sem permitir o mínimo de ser de sermos quem?, se?, vamos indo e só, só vamos, sós. Mas eu quero finalmente dizer que quero mesmo é deixar tudo isso de lado e seguir aquela coisa de caminho, sabe?, aquela coisa de se ir, levando andando sem rumo ou com, nadando velejando singrando os mares que me foram dados, ir à deriva ou não, mas ir, deixar tudo de lado, esquecer não lembrar que tudo pode dar errado ou não ou nem mesmo chegar a acontecer porque tem aquela coisa da pedra no meio do caminho que atravanca tudo, atravanca aquela velha coisa do caminho, sabe?, aquela coisa agônica de se ir indo rindo dos outros às vezes, mas ir, no deboche, na algazarra, soltando fogos de artifício por pensar que é mais e melhor, sabe?, coisa diária e fácil, traques peidos-de-véia por pensar que não vai acabar no mesmo buraco do mendigo, igualzinho, sem ouro sem rubi sem ouro, bombão e espadas e pensar que tudo pode ser diferente se a gente apostar que pode ser e não nos deixar cair naquela coisa de tentação, sabe?, coisa antiga essa, de se estatelar e bater de novo a cara contra o muro cara já batida amassada surrada e fazer daquela coisa ainda mais antiga de caminhos o mote da dor da melancolia da fraqueza da apatia. Mas o certo é que o que quero finalmente dizer é que tudo o que eu queria mesmo dizer hoje ontem amanhã um dia já foi dito por quem vive viveu viverá?, porque polifonia e dialogismo é coisa velha, mãe palavra, língua que não é só de lamber. Mas de novo, deixa-me dizer, deixa!, que eu só queria finalmente dizer que essa segunda-feira gorda, que passa de já três dias, e que é gorda porque é feita com o tempero da derrota diária, vitória não?, é a cama que uso para deitar minha prosa barata e sem futuro sem norte nem sul, sem caminho... aquela coisa antiga, sabe?, aquela coisa de insistir a vida inteira, sem desistir daquela coisa antiga de destino sina lida autoflagelação...

4 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"sunday walk
by *veftenie"
Deviantart

Usui de Itamaracá disse...

Caraca, mano! Texto denso! Minha cabeça tá rodando! Parece pílula que não quer descer e a gente tem que segurar a respiração pra ir dando goladas!

Mas gostei muiiiito, é um texto pra se ler várias vezes e ter várias interpretações! Parabéns!

Controvento-desinventora disse...

nAs verdades são tortas. Dispensam o raciocínio cartesiano, nem podem ser lineares, elas cabem na respiração que se sente ao ler o texto. Ofegantes...pedindo pra viver e morrer, as palavras seguem.

Urbano Gonçalo disse...

Olá!
Bem trabalhado o tema, gostei de deambular um pouco pelas ideias que aqui deixas.
...Aquela coisa antiga de se gostar da dor ...

Por cá isso chama-se FADO, penso que irias gostar (caso não conheças).
Obrigado por mais este bocadinho.
Abraço, fica bem.