segunda-feira, 27 de agosto de 2012

As oliveiras perseguem imperfeitos ventares



 Por Germano Xavier

A mãe jamais vai entender a alma de dureza do filho. Não entenderá que dentro daquele coração austero, ríspido e incomum, há um coração que profundamente ama. A mãe não perceberá, nunca, que tudo o filho engole na alma, que não sabe ele usar o pesado escudo de fingir ou amaneirar os fatos. A roupa que não é a devida para o que ele é, por tudo o que é e o que já fez, o orgulho familiar tão destrutivo, a intenção diária da ostentação da imagem. Meu filho, por que você faz isso comigo? O filho escuta e se cala, parado sobre o espelho o quarto o habita. Ele tenta se desnudar de tudo, até dos absurdos. O silêncio na face do filho beijando-lhe feito um rinoceronte em fuga, atacando. A quietude que perfura a falta de entendimento imortal da mãe, que não se cansará de sofrer enquanto o filho existir dentro do seu corpo, dentro de sua mentalidade, do seu pensamento, crosta e tatuagem. Levanta os olhos em direção de si, esverdeados como a relva do quintal em margaridas e mangueiras, vê a grossa sobrancelha fazendo a curva da proteção, os cílios pequenos em jardim bem-vivo, abetos e hortências têm a bola verde dentro do branco globo ocular. Aproxima mais e decididamente investe a dúvida contra a parte que não se toca, a parte de dentro, o fosso e a fonte. Deslocada, reclamando da vida triste e sem diversão, no domingo a mãe está a preparar embates rotineiros. Que recordações você irá me deixar! Um filho que não abre a boca, sem amor, sem respeito, que tristeza! Era a voz, interminável voz, a conceder cantigas. A melodia diurna, vespertina, noturna. O filho taciturno declarado louco. O que você tem? O que fizemos? Pai, eu te peço misericórdia! Ele declina a retina e observa o mais. Nariz redondo, grosso, entradas de bocal ruidoso ao se respirar, cano curto. Apalpa o nariz, enfia o dedo mindinho em um dos buracos e dele uma massa cinza-purulenta destoa protuberante, grudada na unha roída. O filho se conhece, quer. Mas bem sente que o tempo passa e com ele oxida até a imundície. Sujo, o filho retira de si não a vontade do asseio, mas a percepção vagarosa de que é preenchido por algo. Embevecido, continua sua maquinação de olhar. O olhar dói e ele gosta. Não cansa, não cede, não desiste. Mesmo que de longe a mãe agora lhe cerque de rumores, não desanima em ser. Deus, tende piedade de nós! Olhai esta criança, vigiai, Senhor! Toma-o em tuas mãos e reforma! Um filho do diabo com a mãe à mesa, repleta do pão que o diabo amassa. Os dois comendo juntos, unidos em sim e em um não. A ojeriza da mãe diante daqueles modos aprendidos com um professor misterioso. Você deve ter saído escondido, conhecido aqueles meninos de rua, suspeitado da esfera podre da vida. Eu não te fiz assim! Eu não te quis assim! Ele com o espelho em namoro, solitário filho mais novo. Ainda inocente, com a ingenuidade de quem sempre aprende com as horas. Brutalizado pela mediocridade dos outros, o filho se atendia. Acariciava o rosto construído em barba espessa, negra, persona de se teatralizar, atuar. Manipulando suas desinências estruturais, crescia abruptamente de seu organismo uma natureza de espantalho. Pendurado em si, frio, a navalha dos íris afetavam a mãe possuída pelo desespero. Havia por detrás do espelho um conjunto de livros. Ele abriu a porta retangular amarelada, gangorreou a vista diante dos títulos e se estirou ao livro de capa preta. Varrendo a sala a mãe se encontrava, perdida. O filho, com o livro preso ao abdômen, destilou passos para fora do quarto. A mãe pensou falar algo, não o fez. Deixou. Mãe decepcionada, a vida tombada nas costas largas e mãos desertificadas em ranhuras e fendas. Sem rumo o filho procurando o destino. Não tinha ele como dizer o amor que sentia por ela, era fraco demais. Taciturno demais para a palavra expressada com a voz da garganta. Deus, tu és meu pai e a luz desta casa! Abençoa o meu filho! Um velho almanaque. Como fazer pipas e descobrir os céus. Lição fácil e em pouco passos. Já fora da sala, longe do quarto, daquele eu ficado à deriva no reflexo cristal da imagem, o filho procurou pela linha e pelo cerol. A noite era distante demais.

2 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"nevoeiro 2
by ~nevoeiro"
Deviantart

Vilma disse...

Esse texto me fez lembrar de alguém!!!!